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quarta-feira, 16 de agosto de 2017

ALEGRIA PERVERSA


Os alemães usam o termo Sachaudenfreude para designar a satisfação que as pessoas sentem quando o infortúnio atinge os outros. É provável que a maioria de nós já tenha sentido esta espécie de alegria perversa, mas admiti-lo é algo bem mais raro, embora haja situações mais toleráveis que outras.
Por exemplo, é perfeitamente aceitável que um adepto do Sporting fique a rir-se do falhanço europeu do rival Benfica, mas o mesmo já não acontece quando uma mulher manifesta regozijo com o falhanço da relação amorosa da colega de trabalho.

Paul Krugman, prémio Nobel da Economia em 2008, colocou duas perguntas a um conjunto alargado de pessoas: 1- aceitaria baixar o seu salário? 2- Aceitaria baixar o seu salário, na condição do seu colega ganhar menos que você? Obviamente, todos responderam «não» à primeira questão, mas surpreendentemente, a maioria respondeu «sim» à segunda.

Dan Ariely, psicólogo, acha que esta satisfação pelo insucesso alheio se deve a “razões evolutivas”, ou seja, o nosso cérebro está constantemente a estabelecer comparações para se adaptar às circunstâncias. Assim, os acontecimentos não seriam bons nem maus, mas dependeriam do contexto. Segundo Ariely são a maneira como os acontecimentos afetam os outros que dita grande parte da avaliação feita.
De facto é cada vez mais verificável que há pessoas que não ficam particularmente felizes quando o seu sucesso não é exclusivo. É o cérebro que ainda está a reconfigurar…

GAVB   

terça-feira, 15 de agosto de 2017

AS PRIMEIRAS FÉRIAS COM OS PAIS SEPARADOS


Ricardo e Catarina estavam de regresso às aulas. As férias grandes já faziam parte do passado, mas continuavam bem presentes no espírito de cada um, pois tinham sido as primeiras após a separação dos pais, que ocorrera logo no início do ano. As marcas daqueles quinze dias com o pai, no Algarve, ainda estavam bem visíveis no íntimo do sensível filho de Teresa e Filipe.
         Ricardo ainda tem presente a alegria ávida e ansiosa do pai, quando os recebeu em Lisboa, antes de rumar a sul. Durante seis meses só tinha estado com o pai aos fins-de-semana e ainda assim não tinham sido todos. Ricardo e a irmã não podiam deixar de reparar como o pai tudo fazia para lhes agradar, desde a escolha do local de férias, aos restaurantes, aos pequenos divertimentos. Sentiam-se até um pouco estranhos, mas as suas vidas tinham ficado estranhas desde a separação dos pais.
        
Nunca lhes tinha ocorrido que podiam “perder” os pais, que podiam deixar de ser uma família. Os pais discutiam como todos os pais dos amigos que ainda tinham pais casados, mas a sua preocupação estava na obtenção de uma mesada maior, de um telemóvel mais kittado, na negociação das saídas noturnas durante os fins-de- semana. Nesse entretanto, passaram-se meses, a situação entre os pais tornara-se insustentável e eles só se deram conta quando o divórcio já era irreversível.
        


Queriam agora lutar pela sua família, mas sentiam-se imponentes, cercados pelas circunstâncias e até pela educação que receberam. Os pais sempre lhes tinham ensinado a lutar lealmente pelos seus sonhos e ideais, mas também lhes mostraram como era importante respeitaras ideias e as decisões dos outros. Por outro lado, percebiam que pai começava a refazer a sua vida sentimental ao lado de outra mulher, Rita, e com ela levava o estilo de vida que sempre desejara fazer com a mãe, mas que esta sempre adiara, tão centrada que estava no trabalho, na carreira e no “futuro”. Agora o futuro já não lhes pertencia, agora o futuro era apenas um conta bancária ao dispor de três pessoas que preferiam ter outro presente. 



Pela primeira vez na vida Ricardo experimentava a perda e a culpa. Percebia agora a verdadeira grandeza do que tiveram e já não tinham. Como tinham sido gloriosas aquelas férias a quatro durante mais de dez anos; como era saborosa a presença do pai e da mãe naqueles demorados despertares em tempos de aulas, como era fantástico aquela mania que o pai tinha de jantarem sempre juntos, apesar dos atrasos da mãe por causa do trabalho no consultório. No entanto, Ricardo sentia também a culpa da sua desatenção aos problemas dos pais. E como ele e a irmã podiam ter sido decisivos e não foram. Demasiado centrados nos seus interesses e desatentos às necessidades dos outros, não se tinham dado conta como os pais caminharam para um beco sem saída.
Agora era tarde ou, no mínimo, muito mais difícil…

GAVB

domingo, 13 de agosto de 2017

CAMPEÕES EUROPEUS DA PIROMANIA


Há um ano, Portugal rejubilava com o primeiro Campeonato Europeu de futebol ganho por uma seleção portuguesa. Um título há muito desejado e que encheu de orgulho toda a nação. Infelizmente há outras áreas em que somos campeões europeus (e, quem sabe, campeões do mundo...) - a dos incêndios florestais é a mais evidente.
Ontem, um amigo brasileiro procurava, estupefacto, um comentário meu acerca da seguinte notícia: https://www.sapo.pt/noticias/economia/ja-arderam-122-mil-hectares-desde-janeiro-30-_5979f880d112255733dd2648.

 Não sabia que lhe responder, mas senti uma grande vergonha. «Um terço!!!»  Como é possível!?, tendo em conta a pequenez do nosso território no contexto europeu, as muitas autoestradas que temos no território nacional, os propalados brandos costumes portugueses.
Acho que todos nós sabemos que mais de 80% dos incêndios florestais, em Portugal, tem origem criminosa e todos temos a sensação que passam impunes. 

Sim, a prevenção é mal feita; sim, há enorme descuido e desleixo na limpeza das matas públicas e privadas; sim, a proteção civil é ineficaz; sim, a secretaria da administração interna parece uma barata tonta na coordenação; sim, faltam meios aos bombeiros… tudo isto e mais alguma coisa são causas verdadeiras dos muitos incêndios que existem em Portugal e da enorme área ardida no território nacional, desde que haja uns dias de calor e vento, mas não a causa principal. 

A causa principal é que existe cada vez gente absolutamente doente, que não ama o seu país e tem verdadeiro prazer em vê-lo arder. Essa gente é portuguesa, vive no meio de nós e até é capaz de cantar o hino e chorar com os golos do Ronaldo, mas quando chega o Verão não tem pejo nenhum em destruir mais de 120 000 campos de futebol de floresta; não lhe dói a aflição dos vizinhos que perdem o magro pecúlio angariado durante uma vida, que perdem meios de subsistência, casa e outros haveres; não lhes pesa as mortes nem o sofrimento.
Como diria o meu amigo brasileiro, infelizmente, Portugal tem muitos portugueses que não gostam do seu país e até são capazes de o pôr arder.

GAVB

sábado, 12 de agosto de 2017

BONS SONS POR CEM SOLDOS

Cem Soldos é uma espécie de aldeia de irredutíveis gauleses, que há mais de uma década insiste em organiza,r com irresistível bom gosto e parcos recursos, um festival de música portuguesa, de excelente qualidade.
Caro amigo Hugo Toscano Cunha, não me esqueci que o “Bons Sons” também privilegia a lusofonia e muito tem feito pela divulgação de músicos e grupos oriundos dos vários países que falam português. Mais do que qualquer outra localidade, Cem Soldos merecem uma vénia de reconhecimento e agradecimento pela organização cuidada de um festival que durante quatro dias (neste ano de 11 a 14 de Agosto) propõe mais de 40 concertos, distribuídos por sete palcos, situados em vários pontos da pequena aldeia de Tomar.
Cem Soldos é uma aldeia singular, profundamente cívica e cultural, Com cerca de seiscentos habitantes põe em pé há 11 anos um festival de música que foge à lógica comercial dos festivais de verão em Portugal, mas não cede quanto à qualidade. Por isso, fazem parte da edição deste ano nomes como Capitão Fausto, Virgem Sutra, Né Ladeiras, Mão Morta, Samuel Úria, Frankie Chaves, Rodrigo Leão Paulo Bragança, entre outros.

O Bons Sons não é mais um festival de verão. Há tempo e espaço para as famílias, para fazer das crianças parceiro fundamental do festival, para recriar ligações intergeracionais. Além da música, há cinema, artes performativas, jogos tradicionais, cinema, passeios de burro...
  Quem participa no "Bons Sons" vive a atmosfera do evento e sente como Cem Soldos se envolve nele. E é essa atmosfera de partilha genuína entre quem chega e quem está, unidos pelo gosto da boa música portuguesa, que faz muita gente peregrinar até Cem Soldos. Faz bem ao ouvido, ao espírito e à alma.

GAVB

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

O SOL DA CAPARICA E DA LUSOFONIA


Desde ontem até domingo, decorre em Almada, a quarta edição do Sol da Caparica, um festival de música que faz da lusofonia a sua força motriz.
Nestes quatro dias, passam, pelos palcos Sol da Caparica, nomes como Mariza, HMB, Carlão, António Zambujo, Trovante, Manel Cruz, Teresa Salgueiro, Bonga, Regula, Matias Damásio.
A organização espera mais de 65 mil pessoas para celebrar a música em português.
Dos inúmeros festivais de Verão, sigo este com especial atenção, pela importância do seu desígnio. A lusofonia é um eixo fundamental da nossa história, da nossa cultura e está inscrita no código genético do nosso mundo de afetos.


Há poucos dias, Matias Damásio afirmava, numa entrevista, que sempre se sentiu em casa, quando atuava em Portugal. A comunhão de Anselmo Ralph com o público português é tão forte e genuína como a de Mariza, Tim ou Jorge Palma, embora a dimensão das carreiras seja diferente.
Estou em crer que a música e esta geração sub-40, sem as feridas nem os ressentimentos nem os complexos do processo da descolonização, podem ser o pretexto para o início de um grande projeto de lusofonia à escala mundial.



Apesar do atual Presidente da República ser a pessoa ideal para unir Portugal aos outros cantos da lusofonia, a sua atuação tem sido pouco mais que frouxa e está ainda muito por fazer. A solução não é a CPLP (que nome tão feio… bem melhor seria, por exemplo, Lusomundo), cada vez mais uma organização económica, descaracterizada e obscura. A solução é unir as pessoas através de eventos como o Sol Da Caparica, que devia ser um festival transmitido pelas televisões e rádios dos diversos países lusófonos, permitindo assim uma maior amplitude mediática, porque também é assim que se unem povos.
Tal como canta Tim em “Voar”, a lusofonia precisa de “acordar, meter os pés no chão…/ levantar, pegar no que tem mais à mão e voltar a rir… voltar a andar”, voltar a voar!

GAVB

terça-feira, 8 de agosto de 2017

O EMPREGO PARA A VIDA FAZ MAL À SAÚDE


A grande ambição de um trabalhador é a estabilidade profissional, que é como quem diz um emprego a perder de vista, bem remunerado, com bons colegas e boas condições de trabalho. Obviamente que há muitas pessoas que conseguem alcançar este elixir laboral, como há pessoas que gozam férias várias vezes durante ano, mas não são a maioria.
Por outro lado, a estabilidade laboral é um pouco como o dinheiro que pensamos ter depositado no banco – não existe, mas nós acreditamos que sim e isso nos basta para vivermos descansados.

Grande parte dos funcionários públicos são-no porque acreditam que o seu emprego é para a vida. Esta é a grande vantagem do emprego público (pelo menos em teoria), mas, na realidade aplica-se só aos mais velhos e há gente que passou já metade da sua carreira como contratado do Estado.


No entanto, a questão sobre a qual quero refletir é outra: esta gente do emprego para a vida é feliz? Pensem nos professores, nos funcionários das finanças,  nos juízes, ouçam-nos a falar dos seus empregos… vão concluir que há ali muita frustração acumulada. A realização profissional não passa por ter um emprego para a vida, mas nós passamos grande parte da vida no emprego, logo é pouco provável sentirmo-nos realizado no meio de tanta frustração profissional.

Cada vez mais tenho a convicção que o emprego para a vida nos “amolece”, fazendo-nos esquecer que o trabalho também nos deve desafiar. Além disso, aceitamos de cabeça baixa que nos imponham regras absurdas, que a qualidade das relações laborais se degrade, que o salário só sofra a atualização da inflação, apenas para defender esse bem maior afinal é muitas vezes virtual) que é a estabilidade. Entretanto, a vida perde sabor e começamos a dizer mal de tudo e de todos.

Mudar de trabalho, uma ou duas vezes na vida, só nos faria bem. Seria muito importante sentirmo-nos novamente desafiados, postos à prova. Ganharíamos novos conhecimentos e forçosamente o nosso quadro social mudaria. Com ele uma nova panóplia de oportunidades e outra vida surgiria.
Hoje cada vez mais gente é obrigada a mudar. A mudança acontece mas são os outros a escolher por nós. Quando se trata da nossa vida, do nosso futuro profissional, o melhor é não deixar isso nas mãos dos outros ou do caso. Planear uma mudança profissional pode ser o melhor upgrade que fazemos à nossa vida.

GAVB

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

SUPREMA CANALHICE


Nas últimas horas, o Supremo Tribunal Grego tomou uma das suas piores decisões ao descriminalizar o não pagamento de salário.
A partir de agora, deixa de ser crime uma empresa atrasar-se no pagamento do salário ao trabalhador, a não ser que esse atraso esteja ligado a uma intenção deliberada da empresa despedir o trabalhador. Mas quem quer despedir um trabalhador que trabalhe de borla e a lei não o protege?

Um tribunal não paga salários, mas todos esperam que garanta a justiça, que é como quem diz a lei. A decisão do Supremo Tribunal Grego é uma péssima notícia, mas apenas vem legalizar aquilo que tem sido uma prática grega nas últimas décadas: não pagar. A diferença é que até aqui quem ficava sem o dinheiro eram os povos estrangeiros que emprestavam aos gregos, agora o conceito alastrou à própria sociedade grega.
Aquilo que o Supremo Tribunal helénico fez foi tornar virtual a dívida das empresas aos trabalhadores e legalizar o incumprimento. Não demorará muito tempo até que ninguém pague o que deve, tenha ou não tenha recursos para o fazer.

É verdade que as empresas gregas passam por muitas dificuldades e é-lhes difícil solver os seus compromissos, mas também é verdade que esta inexplicável descriminalização do Supremo Grego fará com que muitas empresas adiem pagamentos ou só paguem parte do que devem. Os trabalhadores terão de trabalhar como escravos, recebendo um salário em cinco ou seis que lhes são devidos, para manter a expectativa de receber aquilo que é seu por direito.
Não deixa de ser irónico que seja durante a vigência de um governo do Syriza que uma medida tão próxima do capitalismo selvático consegue penetrar no Olimpo da democracia.
Quando, hoje, olho para aquilo em que a Grécia se tornou, tenho de reconhecer que aquilo mais parece o berço da Demagogia do que a mãe da Democracia. 
O maior património que um devedor deve defender é a sua credibilidade de bom pagador. Esta decisão do Supremo Grego pareceu apenas uma suprema canalhice.

GAVB

domingo, 6 de agosto de 2017

DIVÓRCIO TRUMP


O termo nasceu após Lynn Aronberg (devota defensora de Trump) e o seu marido, Dave Aronberg (democrata convicto) se terem separado e assumido que a rutura se deveu a divergências ideológicas e políticas, que as decisões do presidente dos EUA tornaram mais evidentes.

O caso não é circunstancial mas emblemático, porque desde que o presidente dos EUA assumiu o poder tem crescido a onda de divórcios entre os americanos e tudo leva a crer que o estilo de governação de Donald Trump ajudou a muitos deles.

Um estudo recente, denominado “O Efeito Trump nas relações dos americanos”, concluiu que 29% dos inquiridos casados admite que o seu casamento tem sofrido fortes perturbações por causa das medidas defendidas e implementadas por Trump, nomeadamente no que diz respeito ao tema da imigração.
        

Acho que devemos olhar para a questão americana além da figura de Donald Trump. O seu radicalismo e xenofobia pode ser-nos muito útil, para perceber até que ponto negligenciamos as diferenças ideológicas nos relacionamentos.
         Dado o cinismo político em que a Europa vive, foi fácil fazer triunfar a lei do Amor sobre as diferenças políticas e ideológicas, por mais irreconciliáveis que elas sejam, mas quando aparece um sujeito como Donald Trump é óbvio que um casal não pode fugir a questões tão fraturantes como o que fazer com os emigrantes (especialmente qual eles são árabes, hispânicos ou negros) ou que sistemas de saúde devemos ou não proporcionar aos mais desprotegidos. É que defender as ideias de Donald Trump é vestir-lhe a pele, ser um pouco como ele, no que isso tem de asqueroso e ignóbil também.

Nas relações pessoais e afetivas, como noutros aspetos da vida, sempre gostei da diferença e ela sempre me atraiu mais que a convergência de pontos de vista. No entanto, esse prazer de desfrutar da diferença do outro foi entristecendo quando percebia que não havia reciprocidade. Adoro a diferença, mas ela só possível quando há respeito por ela.
Quando alguém se diz defensor da pluralidade de opiniões e convicções, mas não a pratica, ora querendo impor a sua ora ridicularizando a do outro, Respeito e Diferença deixaram de ser parceiros.
Talvez por isso perceba perfeitamente que não há amor ou paixão que resista a divergência ideológicas tão profundas como aquelas que Donald Trump trouxe para a discussão.
Por incrível que pareça, por vezes, é a política que nos mostra que o relacionamento amoroso bem-sucedido exige muito mais do que amor e uma cabana.

GAVB

sábado, 5 de agosto de 2017

OS PASSADIÇOS DO PAIVA



Os Passadiços do Paiva são um desafio para o corpo e um deleite para os olhos.
A beleza descomunal, intocada e surpreendente da natureza engana o cansaço acumulado ao longo de um percurso exigente, feito parcialmente à torreira do sol e ao ritmo do sobe e desce de escadarias íngremes e imponentes.
Imponência deslumbrante é um comentário comum em quem experimenta pela primeira vez os Passadiços do Paiva
São centenas as pessoas que diariamente convocam um corpo pouco habituado a sacrifícios, para uma aventura de sentidos, onde desfrutar da beleza da natureza é prémio suficiente.


Os Passadiços do Paiva são uma façanha para ser cometida… acompanhado. E a escolha do (a) parceiro (a) é quase tão importante como a seleção do calçado e da roupa adequados. Devemos apenas desafiar quem sente motivação e capacidade para duas horas e meia de caminhada (versão mais curta), a um ritmo razoável. Cada um deve avaliar corretamente as suas capacidades, motivações e grau de satisfação que as belezas naturais lhe proporcionam, porque as dificuldades também existem.

Para quem decide fazer o percurso ida e volta (e assim dispensar que o táxi o traga de regresso ao carro) é bom contar com um dia completo de aventuras. Às duas horas e meia que o percurso demora há que acrescentar as paragens para as inevitáveis fotos, a pausa para uns belos e retemperadores mergulhos na praia do vau e o tempo que ocupamos a almoçar e a descansar um pouco. Tudo contabilizado, é bem possível que passemos sete horas nos Passadiços do Paiva, sem nos demorarmos muito tempo em nenhum lado.



Apesar de muitos pais levarem consigo os filhos de tenra idade, acho que tal só é aconselhável a partir os 10/12 anos, pois acredito que só a partir dessa idade começa a ser razoavelmente suportável o esforço físico exigido ao longo dos 9 ou 18 km de caminhadas.
Embora o calor não tivesse sido muito excessivo, é fácil perceber que a Primavera e as primeiras semanas do Outono são as alturas do ano ideais para viver esta comunhão superlativa com a natureza. 


Com sorte podemos encontrar esquilos, cabras, belos exemplares de aves e peixes, no rio. No final, a nossa memória afetiva guardará a beleza que nos invadiu o olhar, porque o cansaço desaparece na viagem de regresso, entre as curvas da serra que recortam o Douro e o Paiva.

GAVB

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

NÃO SE PODE MORAR NOS OLHOS DE UM GATO, por Rafaela Leite


Não se pode morar nos olhos de um gato: uma parábola da resiliência do ser humano e da sua adaptação às condições mais adversas

         



O último romance de Ana Margarida de Carvalho é um drama intenso. A estória passa-se no Brasil. Século XIX, período final da escravatura comerciável: um grupo de pessoas bastante heterogéneo que seguia num tumbeiro clandestino desagua numa praia após terem sido vítimas de um naufrágio - uma senhora aristocrata mais a sua filha triste, um/a criado/a, uma santa de madeira, um capataz, um escravo, um padre, um estudante, um menino pretinho e mais um ou outro ser que se vão juntando numa praia. É em torno desta realidade que a ação se começa a engendrar.
         
Tendo como pano de fundo a treva, a negação, a exploração do lado mais sombrio do homem, estas personagens trazem consigo o peso do mundo e das suas desgraças, outras o peso do tráfico de escravos organizado no Brasil, para onde foram viver. Sob um céu impiedoso, num pedaço de areia que desaparece na maré alta, enclausurados por penhascos a pique sobre o mar, apenas com uma plataforma para se refugiarem, uma caverna e uma poça de água doce, os náufragos, tão diferentes entre si, com histórias privadas tão distintas, são confrontados uns com os outros, consigo próprios e com a natureza inclemente que lhes fornece o mínimo para sobreviverem e o máximo para perecerem.

Cada personagem, arrastada pelo seu destino funesto, presa nas suas memórias e condicionada por uma situação desesperada, numa autêntica prisão de rocha, areia e mar, vai-se transformando numa dinâmica de extrema brutalidade, que nunca anda longe da loucura. O leitor depara-se deste modo com um universo fechado, concentracionário, sem leis, em que se agitam as pulsões mais desenfreadas, onde todos se vigiam e se debatem.
        
Não se pode morar nos olhos de um gato é assim um romance sobre os homens e as suas relações, sejam elas denunciadoras de crimes, amor, ódio, vingança…. as personagens que nele desfilam debatem-se com uma grande questão: a alteridade, a capacidade de olhar o outro por dentro e de ser capaz de se colocar na pele dele, sobretudo na daquele que está em posição desfavorável. Desta forma é deslindada e destrinçada a facilidade com que se julga o outro com base no preconceito, seja ele baseado na aparência, na cor de pele, estatuto social ou intelectual, como se as pessoas fossem só o que é visível exteriormente e o interior não necessitasse de ser cultivado e cuidado…
        
Para sobreviverem, estes seres terão de se transformar metaforicamente num monstro funcional, dotado de muitos braços (força) e muitas cabeças (inteligência) e só alcançarão este estado quando se munirem da capacidade de se colocarem na pele do outro e de o aceitar na sua diferença. O leitor encontrará assim, nesta tragédia, a verdade destas personagens, que não é mais do que a verdade inerente a cada um de nós.
         Este é, portanto, um romance que nos acusa de andarmos distraídos, pois embora saibamos que o sórdido habita ao nosso lado, que os gritos de revolta são geralmente estrangulados porque queremos/deixamos, o certo é que o nosso comodismo e egocentrismo continuam a falar mais alto. Será talvez por essa razão que Não se pode morar nos olhos de um gato

 Rafaela Leite

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

TABERNA CHECA

A minha curiosidade por conhecer a Taberna Checa, em Guimarães, já tinha algumas semanas. No início de Julho, quando estive na cidade para a badalada “Noite Branca”, organizada pela RFM, tive a oportunidade de conversar com o dono, Carlos Sampaio, que me apresentou demoradamente a casa, os pratos, as especialidades e me desafiou a voltar para conhecer algumas das melhores cervejas europeias, pois a sua carta ostenta mais de quarenta referências, na maioria internacionais.



Esta semana cumpri a promessa e fui almoçar à “Goulash House”, o apelido carinhoso desta Taberna que traz até ao Minho os sabores tradicionais da Europa Central. Lá fui atenciosamente recebido pela dona da Taberna Checa, que obviamente me convidou a provar o prato que dá fama maior à casa: o Goulash – uma broa deliciosa recheada com um caldo de carne de boi, cebola e paprika. Come-se com um colher e deve ser acompanhado por uma cerveja de eleição, como por exemplo a Gulden Draak ou a Pilsner Urquell ou então algo mais suave como a budweiser.


O Goulash é um prato com história. A sua origem remonta ao século IX, quando as tribos nómadas do centro da Europa, em especial os guardadores de bois – gulyas – procuravam um tipo de comida adequado ao seu estilo de vida. Nessa altura eles comiam uma espécie de sopa rica em carne cozinhada e molho picante. Apesar de ainda hoje se discutir se o goulash é uma sopa ou um prato principal, o certo é que aquilo que podemos provar em Guimarães é um prato principal. Saborosa carne, picante, aromática, forte e muito nutritiva. Entre o povo checo acreditava que esta sopa real ou prato lendário ajudava a aliviar o stresse e a curar doenças.
Ora stressado é algo que ninguém fica na Taberna Checa. Além da decoração em tons de azul e cinzento, a lembrar as tradicionais tabernas checas, quem não se deixar seduzir pelo goulash porque não é fã de carne, tenha a versão vegan – goulash vegetariano. Quem já provou e quer outras experiências checas, além das cervejas, pode optar pela Klenit Freska (uma espécie de espetada mista com batatas e salada) ou a Klenote Kure (broa recheada com carne de frango e mistura de legumes).

Para quem preferir pratos made in Portugal, a Taberna tem uma variedade apreciável de hambúrgueres tradicionais e uma panóplia de bifes assinalável, provando os muitos pontos comuns entre a cozinha checa e portuguesa. Nesse caso, talvez não seja má ideia experimentar uma cerveja artesanal de chocolate. É um bocadinho cara, mas toda a gente sabe que a qualidade paga-se.
A Taberna Checa é aquele sítio onde se vai para confraternizar com os amigos, onde se é soberbamente atendido e onde desfrutamos de uma experiência gastronómica internacional. 
A dois passos do Museu Alberto Sampaio, da Torre de Alma, e do mítico largo da Oliveira, o melhor é ir...

GAVB

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

AS MOCHILAS PESADAS FORAM O PRINCÍPIO DO FIM DOS LIVROS NAS ESCOLAS


Marcelo Rebelo de Sousa já colocou a sua assinatura na alteração à lei 47/2006 que impõe ao governo o fomento e generalização dos manuais escolares digitais.
Esta foi a resposta óbvia às 48 mil assinaturas que pediam aos deputados para aliviar o peso das mochilas escolares dos alunos portugueses, especialmente os mais novos.
Estou em crer que em menos e três anos, os manuais escolares em papel serão já um produto vintage, algo que só usado como um acessório de moda. Os manuais migrarão para os tablets e nem a compra deste equipamento tecnológico será obstáculo, pois acredito que facilmente será oferecido pelas editoras na compra dos manuais escolares digitais ou será possível a sua aquisição a um preço reduzido.

Esta simples transformação do livro em manual digital acarretará profundas transformações na sala de aulas, nas metodologias de ensino, no modo de avaliar os alunos e ditará, a prazo, a morte lenta da caligrafia.

Quando os alunos tiverem os seus manuais no tablet, a maneira como o professor conduz a aula terá de ser substancialmente diferente e o mesmo acontece com os exercícios de aplicação e consolidação de conteúdos.
É bom que os professores esqueçam as aulas muito expositivas, as questões de grande elaboração linguística, porque um tablet, com acesso à internet, nas mãos de cada aluno, proporciona múltiplas soluções para quem tem de enfrentar uma aula aborrecida e dada ao estilo do século XX. 

Por outro lado, os exercícios propostos pelos manuais digitais seguirão a lógica a que já assistimos em quem usa a web com frequência: opção, resposta orientada, comentário curto. Os testes corrigir-se-ão automaticamente em cerca de 70% das questões e será dado mais ênfase ao trabalho/projeto que cada aluno ou grupo de alunos desenvolverá. 
Ainda que numa primeira fase possa parecer o contrário, os manuais escolares digitais muito contribuirão para a tão desejada autonomia dos alunos e transformarão definitivamente a Escola.
E talvez permitam também a reciclagem dos professores, mas nisso não estou tão certo, pois cada um vai ter que fazer o seu percurso e não é líquido que todos sejam entusiastas destas mudanças.
De tudo o que se anuncia só tenho pena que a escrita à mão se desvaneça. Havia um certo encanto na caligrafia. Era uma espécie de impressão digital do aluno...

GAVB

terça-feira, 1 de agosto de 2017

CINISMO AO QUADRADO

“Claques? Não sei que palavra é essa. Sei o que são sócios organizados. Nunca soube que o Benfica tinha claques. Se disserem que naquele espaço não estão sócios… São todos sócios do Benfica e têm os mesmos direitos que eu.” Luís Filipe Vieira, presidente do Benfica.

Nos últimos tempos, o presidente do Benfica tem sido infeliz nas suas intervenções públicas, mas ontem excedeu-se e entrou no campo do cinismo puro, ao falar das claques do clube, o que só o deixou mal e ao clube a que preside.
O cinismo inteligente, ainda se atura quando os temas o permitem e o humor é de qualidade, mas o cinismo sobre violência no desporto, nomeadamente sobre claques de futebol, é estúpido e revoltante.

Poucas horas depois do Instituto Português do Desporto e Juventude (IPDJ) não ter cumprido a ameaça de interdição do Estádio da Luz, por óbvio apoio do SL Benfica, aos No Name Boys, uma das claques oficiosas do Benfica, o presidente Filipe Vieira resolveu proferir declarações cínicas sobre a inexistência de claques no clube, gozando com todos aqueles que gostam do desporto e abominam a violência.
Luís Filipe Vieira não pode obrigar os No Name Boys a legalizar-se, nem impedir que entrem com apetrechos de apoio ao clube, mas pode impedir que eles se concentrem na mesma zona do estádio, pode proibir que entrem ou guardem no estádio material pirotécnico, que estourem petardos nas bancadas, que usem very ligths como quem atira serpentinas de carnaval, que viajem em autocarros com gasolina e portagens pagas pelo clube.

Quando, há uns anos, Vieira foi “apertado” por uma fação dos No Name, numa assembleia geral do clube, também não sabia o que era isso de claque?
Na maioria das vezes, a claque mais representativa do Benfica envergonha o clube, os seus valores, a sua história. Como já escrevi noutras alturas, não faço questão nenhuma na sua legalização, porque parecem-se mais com um gangue do que com uma claque. Se não fosse o alibi de ser a claque do Benfica, a maioria dos seus membros já tinha sido detida.
É verdade que o mesmo acontece com as outras claques e por isso os dirigentes dos clubes rivais deviam ter vergonha em defender as claques oficiais dos seus clubes, porque o seu registo no IPDJ em nada alterou o seu comportamento deplorável, na maior parte dos casos sem sanção.

O cinismo de Vieira, ao falar da não existência de uma evidência, enoja quem gosta de desporto, de civismo e de verdade. Os No Name Boys são maus e reprováveis, mas não são cínicos. Talvez por isso não peçam a legalização da claque, pois têm a noção que os seus comportamentos são, por definição, à margem da lei.
Os benfiquistas não merecem deixar de ver o seu clube no Estádio da Luz, mas Vieira merecia bem que lhe interditassem a língua, porque de cinismos já nos bastam os políticos.

GAVB