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quarta-feira, 31 de maio de 2017

LUTAR CONTRA A CORRUPÇÃO TEM UM PREÇO


Por estes dias passam pelo Estoril alguns dos mais poderosos, mediáticos e corajosos juízes do planeta. Ouvir Baltazar Gárzon, Sérgio Moro, António Di Pietro ou Carlos Alexandre é concentrar a nossa atenção sobre o modo como a elite da justiça mundial luta contra o poder e os seus ilícitos, cada vez mais descarados.
Corrupção, tráfico de estupefacientes, de pessoas e de influências, crime organizado, fuga aos impostos, vigilância ilegal

Os superjuízes têm falado de uma maneira desassombrada e clara, pondo a nu as suas dificuldades, obstáculos, o gigantesco polvo que os cerca, as leis feitas para que a justiça não se faça.
Entre o assombro e medo – eis a sensação que se fica do que dizem. Dos diversos contributos, escolhi a frase do espanhol Baltazar Gárzon – “Lutar contra a corrupção tem um custo”. Elevadíssimo para qualquer juiz. 


Além do desgaste físico, psicológico, emocional, há que descartar definitivamente viver em paz, ter uma vida pessoal e familiar normal. A isto acresce a frustração de ver muitos criminosos escapulirem-se entre os dedos, observar como as regras/leis protegem os poderosos e os criminosos e quase nada poder fazer. É uma guerra para se perder, ainda que se consiga sair vitorioso em algumas batalhas.

Por videoconferência, o americano Snowden chamou a atenção para o excessivo poder da vigilância global – “é eficiente para muita coisa, mas não salva vidas!”.
O percursor desta estirpe de insignes juízes – António Di Pietro – lembrou que é bom que haja processos mediáticos. E não podia estar mais de acordo, pois eles trazem a justiça para o centro do debate público, interessam a população por estas questões e dão força à desigual luta dos juízes contra políticos, poderosos e corruptos.

Carlos Alexandre foi o mais polémico de todos, ao defender a delação premiada como instrumento necessário a democracias maduras. Por muito que perceba o alcance e os benefícios de tal posição, não acho uma boa ideia. A bufaria premiada obrigaria a justiça a meter as mãos no lixo e a negociar com criminosos. Toda a força moral e legal de um juiz ficaria comprometida.

GAVB

terça-feira, 30 de maio de 2017

O INIMIGO AMERICANO



Markel foi dura com Trump e Macron embaraçou Putin, mas as atitudes dos líderes europeus nada Maisa​ são do que a confissão de um sentimento de mau estar e impotência face à nova configuração política mundial.
Merkel disse que já não se pode confiar na América de Trump e Marcon acusou os media russos de ingerência na vida política francesa, de conivência russa com os ataques, com armas químicas, do governo sírio, da perseguição aos gays na Tchetchénia. Putin nem sorriu nem respondeu, ao contrário de Trump que logo avisou que Merkel não perdia por esperar, lembrando que os ingleses estão de saída da União Europeia. 
Trump parece desconsiderar os europeus, onde só lhe interessa a Inglaterra, e elegeu como aliado Putin. A luta comercial será com a China.

E por que trata o presidente americano tão mal a Europa? Em primeiro lugar porque não tem nível político nem cultural para ir além da boçalidade; em segundo lugar, porque a Europa está tão fraca como nunca esteve. 
O poder da Europa residia na sua união, que foi quebrada com a saída da Inglaterra. Depois, a crise económica e a maneira miserabilista como a Alemanha quis castigar o despesismo dos países do sul (Itália incluída) quebrou a unidade, a moral e a força da União Europeia. A crise dos refugiados foi a machada final. Hoje Merkel fala quase sozinha; ninguém a segue com entusiasmo nem convicção e a França de Macron está como o tolo no meio da ponte – entre dar força à posição da Alemanha ou ser a guardiã dos mais pobres.

Sem liderança, sem União, sem convergência económica, sem alma humanitária, a Europa dos burocratas caminha para a desagregação, por mais países que entrem na UE. Trump aposta nisso e Putin também. Os chineses esperam para ver, pacientemente como é seu timbre.
É difícil caminhar com uma dívida às costas, mas também é difícil lutar contra outro gigante quando os soldados deixam de acreditar no chefe, depois de tantas injustas humilhações. Nessa altura até o mais fiel e antigo amigo parece abandonar-te.

A força dos grandes começa no Respeito pelo mais pequenos.
GAVB

segunda-feira, 29 de maio de 2017

OS DITADORES NÃO CAEM, MORREM!


A internet é a maior e mais poderosa arma da democracia contemporânea, mas ainda não consegue derrubar ditaduras. Uma das grandes lições que podemos aprender com elas é que elas não caem pela ação dos cidadãos, do povo que suspira pelo regresso à liberdade, mas caem quase sempre porque apodrecem.

Franco, Estaline, Salazar, Pinochet, Fidel Castro, José Eduardo dos Santos. Eles perpetuaram-se no poder até à morte e só com ela o regime abriu lentamente e os direitos fundamentais lá foram ganhando cor e asas. 
Isto leva-me a duas conclusões tristes: uma ditadura é como uma bebida amarga e lenta, que, depois de escolhida, temos de beber até ao fim, sem poder escolher o fim; geralmente os cidadãos não conseguem recuperar a democracia e a liberdade por vontade própria. Os movimentos de ativistas, os partidos ilegalizados, os sindicatos, a indignação da sociedade civil podem muito pouco perante a força controladora e opressora de uma ditadura.

José Eduardo dos Santos está a morrer, mas já ninguém tira aos angolanos quarenta anos de ditadura, infelizmente coincidentes com os primeiros quarenta anos de existência enquanto país. A liberdade dos angolanos foi sempre uma liberdade condicional. Que marcas ficaram na sua alma? Como irão reagir aos primeiros anos de vida sem o grande ditador disfarçado de grande salvador? Não sabemos! Provavelmente nem eles, mas creio que não será nenhum conto de fadas. A cultura da ditadura, da corrupção, do controlo da liberdade de expressão está tão arreigada em quem decide que não se desfaz de um dia para o outro.
Uma ditadura demora poucos meses a formar-se, mas leva anos a desentranhar-se da pele e da alma.


GAVB

domingo, 28 de maio de 2017

E NA ADOLESCÊNCIA COMEÇA O MEDO



João Tordo é um escritor que não gosta de holofotes. Serenamente, sempre num tom coloquial, por vezes até calmo de mais, lá foi explicando à plateia que o seu último livro “O Deslumbre De Cecília Fluss” encerra uma trilogia (os outros dois são “Luto de Elias Grou” e “O Paraíso Segundo Lars D.) que na verdade devia chamar-se um tríptico, pois não há uma sequência narrativa entre as três histórias, mas apenas um cimento temático que os une.
Pacientemente explicou que “Deslumbre de Cecília Fluss” tinha como protagonista um adolescente de catorze, imensamente preocupado com sexo, um tio enlouquecido e fábulas budistas.
Às tantas a conversa derivou para a adolescência, esse período em que tudo é difícil de compreende, onde nasce a urgência de viver a juventude, onde se confundem desejo e sofrimento. E onde começa o medo. O medo de não ser amado, de não ser aceite, de não conseguir triunfar. Talvez do medo nasça a urgência, talvez do medo nasça a ação e a inação, talvez sim, talvez não… como diria João tordo como inegável bonomia e suave humor.

E lembrei-me, então, que a adolescência é só o princípio do reinado do medo. Ele ficará sempre connosco como uma sombra vigilante, acusatória, fria. Umas vezes chamar-se-á consciência, outras obstáculo, outras vezes encruzilhada da vida. Um dia aliado, muitos outros empecilho. Havemos de o lamentar, de o culpar, mas poucas vezes de o vencer.
O medo é aquele tipo que poucas vezes olhamos nos olhos. E é pena, porque ele também deve ter medo que um dia deixemos de o temer.
GAVB

sexta-feira, 26 de maio de 2017

MACBETH - MALDIÇÃO BENDITA

Macbeth é a peça de Shakespeare que mais me fascina e atemoriza. Já a encenei, já a representei, já a olhei, algumas vezes, do lado de fora, e de todas elas me parece mais misteriosa, aterradora e irresistível.
Um dos encenadores mais conceituados do país – Nuno Carinhas – vai pô-la em palco – TNSJ – nas primeiras três semanas de Junho, e conta com um elenco de luxo, onde se destacam João Reis, Emília Silvestre e Sara Barros Leitão.
Voltarei a sentar-me na plateia, porque o mistério do texto shakespeariano ainda continua por desvendar e a sedução daquele Macbeth que um dia encarnei continua tão forte como da primeira vez.
Macbeth é bem mais do que uma tragédia sobre um regicídio e suas consequências. É um exercício cénico brutal e poético sobre insónias, fantasmas, ritos maléficos e traições, que nos passam diante dos olhos a uma velocidade furiosa.

Macbeth é o herói e o vilão , que suscita ódio, pena, admiração e medo. Ele está sempre a tentar antecipar-se ao tempo como quem procura antecipar-se ao destino para o ludibriar. 
Macbeth tem essa necessidade ansiosa de roubar o tempo, porque o medo o consome e impulsiona, porque não consegue controlar os acontecimentos nem o destino e isso o angustia.

Num tempo em que vivemos a urgência do momento, a pressa de tudo compreender, sentir e fazer como se a eternidade fosse o final da rua, a mais intrigante obra de Shakespeare tem aquela inquietante atualidade que nos impele para o teatro e no palco procura o espelho onde se veja retratado com tanta cruel verdade.

quinta-feira, 25 de maio de 2017

IMPRESSÃO DIGITAL



Os meus olhos são uns olhos,

E é com esses olhos uns

que eu vejo no mundo escolhos

onde outros, com outros olhos,

não vêem escolhos nenhuns.




Quem diz escolhos diz flores.

De tudo o mesmo se diz.

Onde uns vêem lutos e dores

uns outros descobrem cores

do mais formoso matiz.


Nas ruas ou nas estradas

onde passa tanta gente,

uns vêem pedras pisadas,

mas outros, gnomos e fadas

num halo resplandecente.





Inútil seguir vizinhos,

querer ser depois ou ser antes.

Cada um é seus caminhos.

Onde Sancho vê moinhos

D. Quixote vê gigantes.


Vê moinhos? São moinhos.

Vê gigantes? São gigantes.



António Gedeão
In Movimento Perpétuo (1956)



quarta-feira, 24 de maio de 2017

PORTUGAL NO TOP 5 DA OBESIDADE INFANTIL EUROPEIA


Talvez seja mais uma consequência da crise económica de que lentamente saímos, talvez seja a lenta incorporação da mentalidade americana de comer, talvez seja um descuido fatal, mas a verdade é que Portugal já é o quinto país mais obeso da Europa, quando falamos de crianças.
Sim, crianças, aqueles seres fantásticos de quem quase todos dizem ter superiores interesses a defender e pelos quais os pais são capazes dos maiores sacrifícios. Sim, escrevo sobre as crianças, cuja alimentação é assegurada pela Escola em 30% ou 40%.


Há muito trabalho a fazer, a vários níveis. As mentalidades não mudam instantaneamente, mas há decisões a tomar, dentro da esfera pública, urgentemente.
Melhorar a qualidade e apresentação daquilo que se come na Escola é fundamental, ainda que isso possa implicar algum aumento de despesa. As crianças têm de ter prazer em comer aquilo que é servido na Escola. A qualidade dos ingredientes, a competência técnica de quem os confecciona e o empenho de pais e professores na melhoria da imagem da cantina junto dos alunos são alguns dos passos que têm de ser dados, com maior firmeza na Escola Pública Portuguesa.

Nesse sentido, a iniciativa conjunta do Agrupamento de Escolas de Amarante e da Ordem dos Nutricionistas, à volta do Projeto “Ver para Querer”, que mobilizou professores, alunos, técnicas da Ordem dos Nutricionistas, constituiu uma autêntica pedrada no charco no marasmo da educação para a saúde alimentar no concelho de Amarante. Obviamente que esta iniciativa serviu «apenas» para lançar a primeira pedra de um novo edifício alimentar de parte da juventude amarantina, mas teve o mérito de atirar à terra as primeiras sementes de um colheita que se espera ser bem mais saudável e menos pesada.
A comida, a sua apresentação e sedução, tem ocupado o panorama mediático nos últimos anos. É à mesa que nos entendemos, que convivemos, que negociámos, mas também é à mesa que perdemos alguma da nossa saúde. Está mais que na altura de introduzir o magno conceito de comer saudável, com requinte e com prazer. Não é de todo impossível.


terça-feira, 23 de maio de 2017

ROGER MOORE LIVES IN HEAVEN


No ano em que nasci, Roger Moore começava a sua saga como um dos agente mais conhecido do mundo do cinema ao serviço de Sua Majestade: James Bound, aquele agente secreto inglês que resistiu ao fim da guerra fria e levou milhões às salas de cinema de todo o mundo.
Hoje, a saga do «Santo» chegou ao fim, num hospital suíço, depois uma curta e inglória luta contra o monstro do cancro. Viveu muito e bem, o ator britânico que a Rainha Isabel elevou à categoria de Cavaleiro do Império, em 1999, devido às suas ações humanitárias, que o levaram também a embaixador da Unicef.
Durante doze anos, Moore vestiu a pele de James Bound e nesse papel angariou grande parte da sua fama enquanto ator. No entanto, seria injusto não destacar também o extraordinário desempenho em «O Santo» no papel de Simon Templar.

Num tempo em que a sofisticação técnica ainda tinha que disputar lugar ao encantador charme do ator, Moore soube fixar o seu lugar na nossa memória coletiva. Talvez hoje em dia os filmes de James Bound tenham de ser arrumados num certo tempo do século passado, mas Moore permanecerá para além deles como um ícone de uma saga que se soube sempre reinventar.
Por mim, dedico-lhe os últimos versos daquele mítico “Living Dayliths”:
Set your hopes up way too high
The living´s in the way we day
E, segundo a família, ele morreu rodeado de muito amor e ternura. Como merecia!

GAVB

segunda-feira, 22 de maio de 2017

DESVINCULAÇÃO DE ARTISTA


Dentro de algumas semanas, o Ministério da Educação promete vincular extraordinariamente mais de três mil professores. Numa espécie de vinculação mínima e justiça tardia, o MEC prepara-se para fazer um grande estardalhaço com a medida, lá para o verão, em plena campanha eleitoral autárquica.

Pelo meio, foi deixando de fora dezenas de milhares de professores contratados, com regras e regrinhas feitas à medida para excluir a maioria. Numa dessas alíneas absurdas incluiu os professores do ensino artístico. Obviamente é fácil excluí-los: são poucos, quase nenhum pode cumprir os critérios de banda curta que o Ministério impôs, pois o ensino artístico só é uma aposta mais ou menos consistente  do MEC há poucos anos.
A Fenprof fez questão de explicar ao Governo aquilo que ele sempre soube: aquelas regras de vinculação extraordinária de professores excluíam quase automaticamente os professores do ensino artístico, colocando fora da luta os professores de música, dança, teatro, etc, mas o MEC encolheu os ombros como Pilatos lavou as mãos.

Tem sido assim há décadas com os professores em geral e com os contratados em particular. Agora especializaram-se em fazer regras tristes para o ensino artístico.
É nestas pequenas/grandes atitudes que o MEC mostra aos professores, alunos e encarregados de educação qual o seu real compromisso com a introdução do ensino artístico na escola pública. Para este como para outros governos, o ensino artístico é muito bonito, faz imensas flores, mas só existirá se o MEC tiver dinheiro para extravagâncias. E isso é para se ver ano a ano.

Lá no fundo pensam como Crato: o essencial é Português e Matemática, pois a arte é a sobremesa da educação – só se come em tempos de desafogo financeiro.

Na verdade pouco há de novo: há uns meses as escolas artísticas desesperavam por verbas do MEC para pagar, aos professores, os seus ordenados, portanto como poderiam os professores do ensino artístico almejar a ser tratados como os demais? Não podiam, claro que não podiam…
GAVB


quinta-feira, 18 de maio de 2017

JÁ ERA DE TEMER O PIOR


Não foi preciso esperar muito tempo para vermos aquilo que quase todos temiam: também o presidente Temer seria apanhado nas teias da corrupção. Ontem, o Globo divulgava uma gravação, onde o presidente brasileiro foi apanhado a autorizar o pagamento de um suborno ao ex-deputado Eduardo Cunha.
Toda a gente sabe como Temer chegou ao poder – destituição da presidente Dilma – e com que bases formou o seu governo. Temer não ganhou eleições, Temer não inspirava confiança, Temer apenas se aproveitou das circunstâncias políticas lamentáveis e degradantes a que chegou o PT de Lula e Dilma para se apoderar do cargo mais importante da nação. Foi uma tomada de poder legal mas ilegítima.

Claro que Temer podia ter aproveitando para formar um governo exemplar, privilegiando a correção de procedimentos administrativos, a lisura política, mas o seu passado indicava quase um regresso ao tempo do coronéis em que não se tinha pejo em usar a corrupção, o poder discricionário, o nepotismo para fazer vingar ideias e projetos injustos e negativos para a generalidade da sociedade.


Temer foi apanhado numa cilada porque um homem que tem poder tem inimigos, mas também porque o seu ADN é este mesmo. Temer não percebeu que a sociedade da informação aberta e instantânea não permite filtros nem protege ninguém, por mais poderoso que seja. Por isso, poucas horas depois da delação se ter tornado pública já o Supremo Tribunal Brasileiro confirmava a abertura de um inquérito por corrupção ao presidente do Brasil.
É provável que Temer caia como Dilma caiu e Lula também recolheu ao aquário. 
A desgraça do Brasil, no entanto, está muito para além de Temer, Lula, Dilma ou Collor de Mello; a desgraça do Brasil é que parece que a corrupção no país é endémica. Desmascarar, punir, prender é muito mais fácil do que mudar uma mentalidade enraizada durante séculos. Mais uma triste herança portuguesa que o sol ampliou.

GAVB 

domingo, 14 de maio de 2017

O ESTRONDOSO INCÓMODO DOS TRÊS F


Logo após ter conquistado o festival Eurovisão, Salvador Sobral (o novo herói da nação) acentuou a ideia fundamental do seu discurso, nos últimos dias: “A Música não é fogo-de-artifício, a música é sentimento”.
Ontem, Portugal encheu-se de festa por causa de três inéditas conquistas (presença do Papa Francisco em Portugal para fazer  santos os três pastorinhos de Fátima, conquista do inédito tetra campeonato consecutivo pelo Benfica, conquista do festival da Eurovisão, pela primeira vez, por Portugal), que imundaram de felicidade o coração de milhões de portugueses.

Alguns assinalaram que se tratava do regresso do Portugal dos três F, aludindo, em tom irónico e crítico, a um Portugal ignorante, atrasado, antidemocrático, pobrezinho de conteúdo, de estilo e de classe. No entanto,  maioria mandou às malvas a alusão e foi festejar, porque se há coisa que os sub-30 não têm é complexos.

Há milhões de portugueses que apreciam Fátima e têm tendência a acreditar nos seus milagres? Há. Como há gente que não tem vergonha de expressar a sua fé da maneira mais tradicional. Há uma enorme maioria que adora futebol e o seu clube é o Benfica? Há. E qual é o mal disso? Em que é que essa gente é inferior a quem gosta de teatro, bailado ou cinema? Ontem, Portugal descobriu que havia muito mais gente a gostar dos festivais da Eurovisão do que se suponha. Ou foi apenas o inebriante cheiro a vitória que fez muitos ficarem colados à televisão? Afinal, parece que os festivais da canção já não são aquela coisinha pirosa que ninguém via nem dava importância…

Nós somos como somos e não há nada de errado nisso. Gostamos de futebol, somos cristãos católicos (por muito que o Estado seja e tenha de ser laico) e gostamos da nossa música, que é uma música onde os sentimentos do amor e da saudade se misturam frequentemente. É piroso? É atrasado? É pobrezinho? Não, é genuíno! E não foi essa a grande lição que Salvador Sobral deu em Kiev? Não foi por causa desse modo genuíno de cantar e de ser que conquistou o coração e admiração dos outros concorrentes, do júri e do público europeu?
Por que é que precisamos sempre que sejam os outros a dizer que não há nada de errado com a nossa maneira de ser? Tentar fazer melhor, tentar progredir, fazendo coisas com qualidade e novidade, não é esconder aquilo que sentimos e nos faz felizes, com se fosse algo feio.
Por vezes, parecemos mesmo complexados e masoquistas…

GAVB

sábado, 13 de maio de 2017

ACABOU A TRETA, CHEGOU O TETRA!



11 de Maio de 2013, Estádio do Dragão -  a poucos segundos do final jogo, Kelvin “saca” um pontapé fabuloso e inesperado e marca o golo da vitória do Porto sobre o Benfica, fazendo Jesus ajoelhar, e o Porto escancara as portas do seu último campeonato de futebol. Qualquer benfiquista tem este momento cravado na memória e essa dor não se apaga, apenas cicatrizou.

Levantando-se dessa amarga lição do destino, o Sport Lisboa e Benfica encetou uma série de vitórias memorável com 10 títulos oficiais (4 campeonatos nacionais, 3 taças da liga, 2 e uma taça de Portugal), havendo ainda a possibilidade de conquistar mais um título brevemente.
Hoje conquistou o seu quarto campeonato de futebol consecutivo – o famoso TETRA – um feito inédito na centenária história do Clube.

Um feito que muito orgulha os milhões de benfiquistas espalhados por todo o mundo e que se deve ao trabalho de muitas pessoas, desde os jogadores, treinadores, dirigentes até aos fabulosos adeptos, que acompanharam a equipa quer nos jogos no Estádio da Luz quer nos jogos fora de casa, com um fervor, alegria e presença fora do comum.
Há, claro, alguns heróis que merecem destaque – Ederson, Luisão, Jardel, Pizzi, Jonas, Mitroglou, Maxi Pereira, Eliseu, Salvio, Gaitan, Lima, Fejsa… - mas seria injusto não destacar o papel de dois treinadores excecionais como são Jorge Jesus e Rui Vitória.  E acima destes todos, o presidente Luís Filipe Vieira.

Durante quatro anos, eles construíram um sonho de várias gerações de benfiquistas e por isso ficaram na história do clube, a não ser que eles próprios se ultrapassem e daqui por um ano nos deem o extraordinário penta.
Por agora, resta-me agradecer-lhes as inúmeras alegrias que me deram ao longo destes quatro anos. Desejo que saibam ser grandes na vitória, respeitando os valerosos adversários que tudo fizeram para os contrariar, como souberam ser determinados em reagir à derrota.
O futebol desperta as nossas paixões e a nossa irracionalidade; é capaz de fazer rir, chorar, pular, gritar, porque junta arte e emoção, porque nos faz gregários, porque transpira Vida.

GAVB


sexta-feira, 12 de maio de 2017

UM EMPREGO PARA DUAS PESSOAS


Recentemente, um dos homens mais ricos do mundo, o mexicano Carlos Slim deu uma interessante entrevista ao jornal argentino Clarin, onde defendia uma radical transformação da organização do trabalho. Para Slim, as pessoas deviam trabalhar três dias por semana, durante 11 horas e até aos 75 anos.
À primeira vista pode parecer uma ideia maluca (e não é certo que não o seja), mas merece ser analisada, tendo por base a sua argumentação, o mundo em transformação acelerada e robotização industrial a que chegamos.

Slim olha para a realidade e não a lamenta nem  tenta alterá-la, mas antes percebê-la e atuar a partir daí. Mais do que uma ideia neoliberal, o que acho que Slim tenta é encontrar emprego para o máximo de pessoas, o que se torna cada vez mais difícil num mundo em que a máquina faz mais rápido e melhor o trabalho do ser humano.

 O que Slim propõe é que duas pessoas façam o trabalho de um, mas em contrapartida o façam com maior intensidade e durante mais tempo.
No fundo, aplica ao trabalho a tática do ginásio: menos trabalho, mas trabalho mais intenso. Por outro lado tenta cobrir 80% a 90% do tempo atual de trabalho semanal (33 horas, na proposta de Slim, contra as atuais 40 horas), para que o rendimento não desça, pois a maioria das pessoas não pode ganhar menos do que aquilo que aufere.

O grande atrativo do plano Slim está no tempo livre ganho por cada pessoa – dois dias por semana, o que a somar aos dois de que já gozam, daria mais de 50% do tempo disponível para dedicar ao lazer, educação, descanso.
O problema é saber como o corpo humano reagiria a esta brutal transformação de hábitos. Até porque seria trabalhar até morrer (só aos 75 anos chegaria a reforma). 
Embora perceba que caminhamos mais rápido do que pensamos para a execução de algo parecido com aquilo que Carlos Slim propõe, acho que não temos uma medicina tão evoluída assim que consiga responder aos problemas que uma tão brutal alteração comportamental traz.

GABRIEL VILAS BOAS

quinta-feira, 11 de maio de 2017

TALAQ, TALAQ, TALAQ


Quem é com quem diz em indiano «estou divorciado». No entanto, só resulta se for homem e isso tem feito a indignação das mulheres.
O triplo Talaq, uma espécie de divórcio imediato no Islão, existe há cerca de oitenta anos na Índia e está neste momento a ser posto em causa por um movimento de mulheres que conseguiram que o Supremo Tribunal de Justiça discuta a constitucionalidade da norma.
Trata-se claramente de mais uma luta entre tradição e lei, porque não há muito como defender legalmente uma norma discriminatória. Todavia é bom lembrar que a lei ainda emana da tradição e em muitos países islâmicos a tradição manda mais do que a Lei.

O governo indiano já declarou a prática do triplo talaq inconstitucional, referindo que tal tradição atenta contra a igualdade de género e tira dignidade a mulher, mas também vai ter esperar porque quem sabe da constitucionalidade ou não da bizarra tradição muçulmana é o Supremo e este está hesitante e medroso.
O que seria deveras interessante era ver a coisa da perspetiva contrária: se as mulheres (e só estas) pudessem declarar “Talaq, Talaq, Talaq” e como um passo de mágico verem-se livres dos seus indesejados maridos. Como reagiriam os homens indianos? O que diriam sobre a importância de se respeitar as tradições? Provavelmente a tradição já tinha deixado de ser o que ainda é e o Corão tinha sofrido corajosas interpretações.


Às vezes, tenho a sensação que as tradições só são defendidas e evocadas quando egoisticamente nos interessam e não nos importamos nada que causem danos profundos aos outros. É triste que, muitas vezes, não tenhamos a coragem suficiente de corrigir uma tradição absurda, injusta e indigna apenas porque nos dá jeito. E por vezes, não era preciso mais do que um Talaq, Talaq, Talaq de bom senso que «coisa» desaparecia sem deixar saudades.
GAVB

quarta-feira, 10 de maio de 2017

UMA AGRESSÃO QUE MANCHA A CORPORAÇÃO


Costuma-se dizer que uma andorinha não faz a Primavera, mas a verdade é que há atos isolados tão simbólicos que são capazes de manchar, por longo tempo, a imagem de uma corporação tão respeitável como a GNR.
Hoje, no Montijo, um homem foi detido brutalmente por um GNR, à civil, que usou indevidamente da força e aplicando à pessoa que pretendia deter um golpe no pescoço, o mata-leão, capaz de provocar asfixia.

Na era da imagem, onde toda a gente fotografa e filma tudo o que mexe, era óbvio que a agressão seria filmada e difundida. Por isso, os superiores hierárquicos do militar d aGNR reagiram de pronto e abriram um processo de inquérito.

Provavelmente, o militar será punido, porque procedeu com uma brutalidade desnecessária e, sobretudo, porque o seu ato foi filmado.
A justiça mediática é célere e não admite recurso, qualquer tipo de justificação ou «mas». Em muitos momentos é cruel e pode ser injusta, mas é a justiça com que temos de lidar. A justiça das câmaras dos smartphones dá-nos o poder de julgar através de um click, de um gosto, de uma partilha multiplicados à velocidade do som, sem filtro. É uma justiça em bruto e à bruta; uma justiça popular e justiceira.
Agora é o GNR, ontem foram os pais que não vacinaram os filhos. Quem tem uma ação pública e coletiva tem que perceber que todos os seus atos são medidos, julgados e deles se tiram ilações imediatas.

A esta hora o GNR já percebeu que sujou a imagem da corporação. Todos falarão de um GNR, puxarão à conversa outras histórias, ditarão sentenças definitivas sobre a corporação.
A sociedade da informação e da exposição mediática tornou-nos nisto: atores e julgadores, lobos e cordeiros uns dos outros.

Gabriel Vilas Boas  

terça-feira, 9 de maio de 2017

DESABITUA-TE!



“Habitua-te!”
Quem não já ouviu isto, em jeito de conselho à resignação? Quase todos nós. E talvez seja das coisas mais terríveis de se dizer a alguém, especialmente quando nos pedem algo que não é justo e que não nos faz bem.
Já não basta a sociedade de consumo nos querer tornar num conveniente animal de hábitos, também temos de levar com os fáceis conselhos de quem acha que desistir é a solução.
Não temos que nos habituar à mediocridade, venha ela do miserável salário que nos pagam, do modo descortês com que nos tratam, da comida que o shopping nos quer meter pela goela abaixo, dos programas de televisão que nos querem obrigar a ver, do tipo de relação social que os outros praticam mas que nos deixa insatisfeitos…


É verdade que os hábitos nos organizam a vida, mas também é verdade que nos destroem a personalidade e nos tornam pouco mais que um número e absolutamente previsíveis.
Quando nos pedem que nos habituemos a qualquer coisa, situação ou pessoa, muitas vezes, pensam que essa atitude de resignação nos será mais útil, como se um mal menor não deixasse de ser um mal, mas isso não é verdade. 

A solução para uma relação mal resolvida, uma profissão insatisfatória, um estilo de vida decadente é arrasar com esses maus hábitos.
Desabitua-te! Não és um hábito, és uma pessoa. Quando um hábito deixou de ser uma zona confortável, não tens mais de o aguentar.
Desconstruir. Aceitá-lo e aprender a fazê-lo. Não como uma derrota, mas como uma correção de rota. Apenas isso, apenas isso…

Gabriel Vilas Boas 

segunda-feira, 8 de maio de 2017

AUTOESTIMA E VIDA


A Autoestima é a experiência pessoal de se ser capaz de enfrentar os desafios que a vida contém. Esta definição parece-me a mais correta e ao mesmo tempo inquietante.
Saber avaliar qualquer ato, por si próprio, exige a cada pessoa cuidar de si mesma independente do resultado que essa ação possa ser. Quando tudo acontece como queremos e quando queremos é fácil gostar de nós. Todavia, quando acontece o contrário, pomos em causa as nossas capacidades e culpamo-nos. E aí entra em campo a desvalorização do nosso ego.
Ter autoestima é saber avaliar-se, apreciar-se, estimar-se, mesmo quando o resultado não depende exclusivamente de nós.

Ter a capacidade de sermos nós mesmos, nesta cultura atual, é dos desafios mais difíceis. Custa-nos muito afirmamo-nos pessoalmente, pois ainda somos fracos/isentos no autoconhecimento. Queremos ter mais conhecimento dos outros do que nós próprios. Preferimos ser bombardeados com todo o tipo de informação externa do que perder tempo a conquistar o nosso Eu, o nosso espaço interior.


O “Conhece-te a ti mesmo!” implica identificar as própria emoções, gostar de si mesmo e, com frequência, solicitar a ajuda dos outros, porque reforçar os aspectos positivos das pessoas com quem partilhamos a existência, ajuda a cultivar a autoestima (a nossa e a dos outros).
A autoestima potencia o autoconhecimento; ajuda-nos descobrir os nossos talentos, as inteligências que nos caraterizam; valoriza as nossas caraterísticas pessoais; permite ter uma visão positiva de nós próprios; possibilita saber aceitar as limitações inerentes à condição humana, acreditar que somos um ser único e irrepetível e, ao mesmo tempo, responsabiliza - nos pelas nossas escolhas, pelos nossos atos e respetivas consequências.




Ter a autoestima é andar pela vida, sem medo de rasgar caminhos; é ir em direção a si mesmo sem medo de descobrir-se e conhecer-se; é encontrar e reconhecer os outros no caminho, sem medo de perder a identidade; é arriscar-se a cair e a levantar-se, sem receio de voltar a caminhar; é errar e corrigir, com vontade de aprender com os erros, assimilando as lições; é fazer e refletir, com vontade de ser membro ativo e cooperante para o bem de si próprio e o bem comum; é parar e meditar, com vontade de mergulhar nas questões que surgem a toda a hora e descobrir as respostas adequadas; é assumir desafios, com determinação, disciplina e vontade de os superar; é tomar decisões nas encruzilhadas, com honestidade, para se responsabilizar pelas consequências, sem culpa.
Em todos estes atos de relação, proporciona-se o bem-estar, a que vulgarmente chamamos Felicidade, pelo mero prazer da nossa EXISTÊNCIA!


Sara Magalhães

domingo, 7 de maio de 2017

A FIGURA DA MÃE NA TELEVISÃO


Como é que a televisão trata a figura da Mãe? Ao contrário do que seria de esperar, não temos um padrão único nem sequer um estilo tradicionalista. A mãe das séries televisivas mais icónicas das últimas décadas oscila entre a mãe-exemplo e a mãe-desnaturada.

Quem é fã de “Uma Família Moderna” há-de lembrar-se de uma Claire Dumphy que tem de lidar com um marido infantil, um irmão imprudente e uns filhos insensatos.

Na mesma linha segue Marge Simpson, exímia a gerir as birras do filho como a imaturidade do marido. No entanto, se nos recordamos da “Guerra Dos Tronos” já a imagem da mãe não é tão positiva. Os filhos de Cersei Lannister são fruto de uma relação incestuosa e proteger o trono foi sempre mais importante que proteger os filhos. Acima da maternidade está a ambição de poder.
A mesma cartilha lê Selina Meyer em “Veep”. Ela é a mãe oportunista, que não hesita em usar a filha para ganhar votos na corrida presidencial do marido.

Apesar destas versões «noir» do papel de Mãe, o normal é a televisão gravar na nossa memória uma mãe e mulher como Alicia Florrick, protagonista de “Good Wife”. Ela é a mulher de armas que decide aguentar ao lado do marido, apesar de lhe descobrir a faceta de corrupto e infiel. Fá-lo contra todas as pressões e mantendo um extraordinário equilíbrio emocional.
Em “Fresh off rhe boat” revisitamos aquele tipo de mãe rígido, intransigente e exigente, que não olha a meios para fazer dos filhos os melhores. Apesar desta inflexibilidade (tão característica em muitas mães), Jessica Huang consegue surpreender-nos com o seu excelente humor.
Por falar em humor, quem não se lembra da “Família Adams” e da desconcertante Morticia Adams, que fazia tudo para torturar os seus pobres rebentos? Já Lorelai Gilmorai (“Gilmore Girls”) parece nunca ter perdido a cabeça adolescente do tempo em que se tornou mãe e preferiu adotar o estilo mãe-permissiva, apostando mais em ser a melhor amiga da filha do que investir no papel de mãe.


Para terminar, recordo Jane Villanueva (“Jane The Virgen”), que encarna o protótipo de mãe focada, responsável e estudiosa. Alguém que nunca deixou de investir em si sem deixar de cumprir, com distinção, o sonho da maternidade. 
GAVB