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segunda-feira, 26 de junho de 2017

VÃO DESENTERRAR DALÍ


Não é uma ideia surrealista, mas a ordem de um tribunal de Madrid, que determinou a exumação do corpo do genial pintor espanhol, para  esclarecer, definitivamente, se Pilar Abel é ou não sua filha.
Há dez anos que Pilar diz ser descendente de Salvador Dali, mas até agora ninguém lhe tinha dado razão nem maneira de o provar. Hoje, a juíza María Del Mar Crespo decidiu que se desenterraria o que resta de Dalí, para saber se Pilar tem razão ou não.



Aprecio a coragem da juíza, pois sempre achei que um dos direitos inalienáveis do ser humano é Saber Quem É, quem é o seu progenitor, tenha sido ele um cobarde, um péssimo pai ou apenas alguém que nunca soube que teve aquela filha.


Pilar é um oportunista? É possível. Corremos o risco de desfazer o mito, a áurea que cerca o grande Salvador Dalí, quando o desenterrarmos e dermos com um monte desconjuntado de ossos e matéria que nos parecerá repugnante? É provável. Corremos o risco de não ser possível recolher uma prova científica e irrefutável sobre aquilo que procuramos? Não é impossível que tal aconteça. 
Apesar de tudo isto, vale a pena tentar, porque aquela mulher tem o direito de saber, sem margem para dúvidas, quem é o seu pai. Se a ciência lhe dá essa hipótese, a Lei e a sociedade não lho podem negar, apesar de todas as inconveniências e dúvidas.

Em Portugal, tudo é diferente. António Silva Rodrigues, o quinto homem mais rico do país, já faltou a seis testes de paternidade e parece que ninguém o obriga a cumprir com o seu dever perante a justiça. Fernando Pinho Teixeira, um milionário e comendador de Vale de Cambra, com uma fortuna avaliada em 180 milhões de euros, arrastou durante uma década uma querela em tribunal, mesmo sabendo ser o pai, teimando em não reconhecer como filha a atriz Marina Santiago.

Há onze anos, vários investigadores da Universidade de Coimbra viram-lhes retirada, à ultima hora, autorização para exumar o corpo do primeiro rei de Portugal, Dom Afonso Henriques, porque havia o perigo de a ciência desfazer alguns mitos que a História criou. Talvez Dom Afonso Henriques não fosse aquele portento físico que os nossos primeiros livros de História nos contaram, talvez algumas certezas históricas se tornassem dúvidas…

Se a ciência nos permite escrever corretamente a História, seja ela de um povo ou de uma pessoa, ninguém deve ter o direito de o impedir, ainda que seja muito rico, ainda que a verdade seja pouco glamourosa e muito inconveniente.

GAVB

domingo, 25 de junho de 2017

REAPRENDER A ENSINAR


As aulas terminaram! A maioria dos professores está extenuada, apesar de muitos deles ainda terem exames para corrigir e algum trabalho burocrático para fazer. É assim todos os anos, mas não devia!


Agora a classe docente devia estar a preparar-se para sua reciclagem obrigatória! Formação.
Não aquela formação feita para constar e absolutamente necessária para progredir na carreira (quando isso voltar a ser possível), mas a formação que é necessária para não alargarmos o fosso para os alunos, para não cristalizarmos numa forma de ensinar que aprendemos há trinta anos.

Os alunos, as escolas, a sociedade nunca serão aquilo que queremos, aquilo que idealizamos e lutar contra isso é tempo perdido e um desgaste enorme, além de ficarmos desfasados e azedos.

Há anos que penso que a Formação é fundamental para darmos um pulo de qualidade e nos sentirmos realizados na profissão. Uma formação que nos tire o foco das aulas teóricas, que nos ensine a largar o comando da aula, que nos instrua a usar as tecnologias que os alunos usam em prol daquilo que ensinamos, que nos faça trabalhar a partir daquilo que temos e não daquilo que gostaríamos de ter (alunos, escola, colegas encarregados de educação, instalações...).


Todas as profissões foram fazendo lentamente a sua reciclagem. Hoje médicos, bancários, advogados, empresários são profissionais muito diferentes daquilo que eram há duas décadas…
 Só a classe docente se foi deixando ficar, à espera que o ME encaminhasse a Formação. Isso não aconteceu nem vai acontecer. São os professores que a têm de procurar. 
Ou então criá-la para os colegas. Entre os professores há gente que já trilhou o caminho das pedras e foi experimentado novas formas de ensinar. Algumas delas sistematizaram novos métodos e estão disponíveis para passá-los aos colegas.  É preciso requisitá-los, ouvi-los com humildade e adaptar o que têm para dizer à realidade de cada um.
Precisamos de reaprender a ensinar, para voltar a ter gosto naquilo que ensinamos, para vermos outro tipo de fruto do nosso trabalho, para não acabarmos sempre o ano letivo extenuados e um pouco frustrados.

GAVB

sábado, 24 de junho de 2017

MUSEU EUROPEU DO ANO


NOTÁVEL, DESLUMBRANTE, INOVADOR – foram três dos adjetivos encontrados pelo Fórum Europeu dos Museus para eleger o Memorial ACTe, em Guadalupe, França, como o Museu Europeu de 2017.

A decisão foi tomada no final de 2016, mas foi apenas anunciada no mês passado. O Memorial ACTe é dedicado à memória da escravatura. Apesar de ter sido concebido como um memorial, rapidamente este museu se tornou num lugar vivo, onde o visitante pode compreender como era feito o tráfico de escravos entre a Europa, África e a América, ao mesmo tempo que reflete sobre essa época tenebrosa da humanidade, em que a escravatura era parte fundamental da economia dos principais países mundiais.

Inaugurado há dois anos (Maio de 2015), o Memorial ACTe tem uma forte ligação com a comunidade local, um bairro pobre de Carénage, porque houve a preocupação de recrutar e dar formação à população local, para que esta sentisse o museu com seu.

Quem visita este Memorial não pode deixar de se interrogar sobre como foi possível o ser humano viver tanto tempo numa indignidade tão aviltante como a da escravatura, que, apesar de abolida em grande parte dos países, ainda subsiste de forma encoberta, mesmo em países desenvolvidos. 

Quando observamos fenómenos socais como o racismo, a exclusão social, as desigualdades sociais gritantes e injustificadas, a violação dos direitos humanos não podemos deixar de nos interrogar se aquilo que vemos em Guadalupe já faz mesmo parte da História.
Ainda que a alma escureça durante o tempo que passamos no Memorial ACTe, é necessário conhecer, pressentir essa dor de séculos para que ela permaneça apenas nos livros de História.

GAVB  

sexta-feira, 23 de junho de 2017

FINALMENTE O IAVE PEDE INVESTIGAÇÃO À FUGA DE INFORMAÇÃO NO EXAME DE PORTUGUÊS



Quatro dias e muita pressão mediática depois, o IAVE lá enviou uma participação de “uma eventual fuga de informação” no exame de Português do 12.ºano. Ontem, escrevi que provavelmente a batota ia compensar e, apesar das notícias de hoje, mantenho o ceticismo.
Só hoje, dia 23 de junho, o IAVE publicou uma nota sobre o exame de Português, porque o ruído nos jornais e redes socais é imenso. Se a sua intenção sempre foi esta, por que esperou quatro dias para fazer participação ao Ministério Público?



O MP abriu inquérito, mas creio que isso é só o início de um processo burocrático, destinado a calar a desconfiança generalizada que se instalou entre pais, alunos e professores face à idoneidade de algum(uns) membro(s) responsável(eis) pela realização das provas, pois o processo nunca estará pronto a tempo de produzir efeitos na candidatura dos alunos ao ensino superior, caso seja apurada qualquer tipo de fraude.

O IAVE e o ME pediram a intervenção do MP apenas para lavarem as mãos, pois não dão explicações convincentes sobre o caso (a que eles próprios dão relevância, pois de contrário não faziam participação ao MP), nem acho que ponderem seriamente a anulação da provação, já que não há nenhuma indicação do Ministério da Educação nesse sentido. Se os alunos tiverem de se submeter a nova prova, devia o ME alertar os discentes para essa possibilidade, a fim de os preparar psicologicamente para o facto.

Apesar de algumas informações referirem que o ME mandou que os corretores suspendessem a correção da prova entretanto realizada, não creio que se esteja perto da anulação da prova.

Aquilo que se pede a um político é que esteja preparado para tomar decisões difíceis e arriscadas, se necessárias. Neste caso, como noutros em anos anteriores, acho que o máximo a que chegaremos é admitir que “houve uma EVENTUAL fuga de informação, mas não se consegue apurar os autores da mesma”.
Hoje é noite de São João e os balões vão ficar em terra por causa dos incêndios. Há uns dias escrevi que o aeroporto Francisco Sá Carneiro parava três horas por causa dos balões. Afinal, parece que os aviões vão levantar voo, por causa dos incêndios e das mortes de Pedrógão. Sempre houve incêndios nesta altura do ano, mas foi preciso morrer dezenas de pessoas para termos todo o tipo de cuidado.

 O ME também precisa de evidências brutais para tomar decisões difíceis?
GAVB

quinta-feira, 22 de junho de 2017

EXAME DE PORTUGUÊS: SE HOUVE CRIME, VAI COMPENSAR


Já passaram mais de 72 horas sobre o exame de Português de 12.º ano e a PGR diz que ainda não recebeu nenhuma denúncia de possível fraude. Se ainda não surgiu, provavelmente não irá surgir. Nas últimas 48 horas, vários órgãos de informação fizeram eco de uma denúncia formal de Miguel Bagorro, professor, ao Ministério da Educação e ao Júri Nacional de Exames, tendo por base uma gravação áudio, com data de sábado (dois dias antes do exame), onde uma aluna aludia às matérias que seriam testadas no exame nacional de Português do 12.º ano. Para sorte dela e de todos aqueles que tiveram acesso à informação e nela acreditaram, parece que bateu a bota com a perdigota.
Se a rapariga teve acesso indevidamente a informação privilegiada será difícil de provar, pois não estou a ver ninguém do IAVE a assumir tal indignidade. No entanto, à mulher de César (ME e Júri Nacional de Exames) não basta ser séria, também tem de o parecer, e neste caso nada do que veio a público parece sério.

Fonte do IAVE disse ontem ao Diário de Notícias que as denúncias chegadas iam ser enviadas à PGR, mas hoje, à hora do fecho do expediente, nada tinha chegado. Amanhã é sexta-feira… se houvesse mesmo intenção de investigar seriamente, para admitir tomar uma posição radical (anular a prova), o caso já devia estar no MP – não está!
A maioria dos alunos não acredita na anulação da prova, embora desconfie da possível batota de alguns. Ora, esta é uma imagem de enorme fragilidade que os Ministérios da Educação e da Justiça dão aos nossos jovens. Querem que eles acreditem num estado de direito, se o seu primeiro contacto com o mundo dos adultos é feito através de uma suspeita de fraude que os pode ter prejudicado?

Muitos argumentam que as datas dos outros exames e os prazos de candidatura ao ensino superior não deixam outra alternativa que não seja abafar o caso e deixar que o interesse mediático se vire para outro lado.
Mesmo que o ME quisesse anular a prova, como a substituiria? Outra prova tinha de ser executada nos próximos sete dias, para que os professores tivessem tempo de a corrigir! Fazer valer a 2.ª chamada como primeira, está fora de hipótese, pois ela acontece um dia antes do início das candidaturas à universidade…
O sistema parece feito para que as fraudes, por mais evidentes que possam parecer ou ser, não passem de boatos!
É pena que os jovens aprendam tão cedo os truques manhosos de quem tinha obrigação de ser e parecer honesto.

GAVB

quarta-feira, 21 de junho de 2017

VENCER O CALOR SEM AR CONDICIONADO

Há uns dias ouvia uma senhora a discursar entusiasmadíssima contra o ar condicionado que não resisti a atirar-lhe, em forma de provocação: «Isso é tudo muito bonito, mas quando vives numa cidade, onde em dias consecutivos, a temperatura diurna oscila entre os 30 e 40 graus celsius e a notura raramente baixa dos 20, é difícil não pedir um ar condicionado!» A mulher não se ficou e desvendou alguns dos seus truques para vencer a tentação em noites de calor.

Tudo começa no jantar, uma sopa fria basta. Nada de comidas calóricas, pesadas e quentes. Se não gostas de sopa fria, come um gaspacho.” Como fiquei com um semblante pouco convencido, ela continuou “Depois, nada de levar computador para o quarto. Produz muito calor e aquece o ambiente com facilidade.” Concordei de imediato, até porque já o substitui pelo smartphone para grande parte das tarefas, mas não lhe disse nada, não fosse ela fazer uma adenda para telemóveis.

O quarto deve ser mantido em completa escuridão todo o dia, ou seja, janelas fechadas enquanto houver luz solar.” Ok, isso já fazia, mas não me parece suficiente…
“… Se não for suficiente, levar um pedaço de gelo e coloca-o frente a uma ventoinha! Confere à atmosfera um ar bem mais fresco.” Eu pensei que não valia o recurso a objetos elétricos, mas não se deve contrariar uma senhora e por isso deixei-a continuar.

Antes de deitar, convém também tomar um banho de água morna. Morna! Nota bem! Nada de água gelada, porque o corpo reage, tentando compensar o choque térmico!”. Eu anotei, embora não tivesse à mão nenhum bloco de notas. E ela lá foi prosseguindo…


Há ainda mais alguns truques a respeitar: dormir com os pés de fora e completamente nu!” Neste ponto grande parte da audiência concordou totalmente, mas logo a senhora desfez os sorrisos marotos: “Mas está totalmente fora de questão dormir em conchinha! Bebam um copo de água que ajuda a libertar o calor do corpo”. O calor e as ideias… Acho que a mulher escolheu mal a sequência dos seus conselhos. Não me parece que o problema do calor excessivo se resolva sem o recurso ao ar condicionado. São demasiadas restrições, demasiados apetrechos, muito truque para decorar e eu não tenho vontade em me tornar ilusionista.

GAVB

terça-feira, 20 de junho de 2017

GREVE DOS PROFESSORES TEM TUDO PARA CORRER MAL


Para amanhã a Fenprof decretou uma greve dos professores. 
Os fundamentos são conhecidos de toda a classe docente (descongelamento na progressão na carreira; condições favoráveis na aposentação; novo concurso extraordinário de vinculação de professores; definição correta do que é letivo e não letivo no horário do professores) enquanto o resto da população faz uma vaga ideia do problema.

Obviamente é uma greve aos exames, porque é a única coisa (em teoria) que fará o ME atender a algumas reivindicações dos docentes.
Professores, pais, alunos e restante população fazem questão de afirmar a sua posição face à greve dos docentes à vigilância aos exames (e não só) assim como à lealdade/união dos colegas face à luta em causa. Absolutamente inútil.

Uma greve é para incomodar e causar mossa. A dos professores adia exames, a dos médicos adia operações. Os professores têm todo o direito a lutar por aquilo que consideram justo para a sua classe, independentemente de haver classes em melhor ou pior posição, caso contrário, médicos e juízes, por exemplo, nunca podiam lutar por melhores condições salariais ou de trabalho. Por outro lado, convém esclarecer que tanto é bom colega e bom professor aquele que faz greve como aquele que não faz. Vamos deixar de fazer juízos morais sobre os outros e passar a respeitar a sua avaliação das condições da greve.
No entanto, como disse, nada disto é relevante face ao que interessa – a greve de docentes de amanhã tem condições para ter êxito? Infelizmente, acho que não. Os motivos são vários e poderosos.
Em primeiro lugar, porque a circunstância emocionalmente dolorosa que o país atravessa, por causa da tragédia de Pedrógão faz parecer tudo o resto pequeno e insignificante (e tinha de ser): exames, jogos das seleções, prisões de autarcas e altos dirigentes desportivos por corrupção, as birras de Ronaldo com o fisco espanhol, as greves dos professores,….

Em segundo lugar, temos a pouca convicção dos professores nesta greve. Entre os professores há a intuição que ela não produzirá efeitos palpáveis, até porque a Fenprof passa uma imagem de fragilidade negocial ao tentar a todo o transe um acordo com o ME para a desconvocação da greve, quase ao estilo de pedido - “deem-nos lá qualquer rebuçadinho para desconvocar-nos isto”. O ME já percebeu isso e está tranquilo na sua irredutível posição de força.

Em terceiro lugar, porque as reivindicações, ainda que justas, são facilmente rebatíveis pela tutela. Vejamos:
Vinculação extraordinária de professores? Ainda agora fizemos uma! E prometemos fazer mais, só não sabemos quando! Além do mais, o número de alunos está a diminuir… e nenhum governo vinculou tantos contratados como nós na última década.
Descongelamento das carreiras? Claro que sim. Para vocês e para todos na função pública, mas não temos dinheiro. Ainda agora estamos a acabar com a sobretaxa, imaginem! Depois virá a descida suave no IRS e finalmente o descongelamento nas carreiras, nas não agora. Não é não querer, é não poder.
Condições especiais de aposentação? Sim, reconhecemos o vosso desgaste físico e psicológico, mas não temos dinheiro para mais pensões. Além do mais, falando em desgaste, os enfermeiros têm mais e também aguentam…
Reorganização do vosso horário de trabalho? Ok, nisso vocês têm razão. Mas isso é um pormenor e não nos apetece ceder em nada. Vai ser uma derrota em toda a linha e ninguém vai reparar que nisto fomos mauzinhos…

Quando se vai para uma greve vai-se para uma luta. Devemos assegurar-nos que temos condições de ganhar ou pelo menos de não perder em toda a linha. Ora, isso não está assegurado na greve de amanhã.

GAVB

segunda-feira, 19 de junho de 2017

UM PARQUE AQUÁTICO DE SONHO E DE INCLUSÃO


Amarante tem um dos parques aquáticos mais imponentes e apetecíveis da Península Ibérica. Todos os anos milhares de pessoas procuram a cidade de Amadeo e Teixeira de Pascoaes para deslizar, em alto estilo, nos escorregas gigantes do parque da RTA.
Talvez não fosse má ideia criar condições para que TODOS pudessem aceder a esta diversão de Verão. Como podem as pessoas com deficiência usufruir do prazer das brincadeiras na água? Não podem, a não ser que vivam no Texas, na cidade de Santo António, onde este fim-de-semana foi inaugurado o Morgan’s Inspiration Island, um parque aquático totalmente adaptado a crianças com deficiência motora.

Custou 15 milhões de euros e foi pensado em função das crianças com deficiência motora e não só: dispõe de cadeiras de rodas impermeáveis para que o público não estrague as próprias; a temperatura da água é regulada a pedido para os visitantes com especial sensibilidade ao frio; as crianças usam pulseiras de alta tecnologia que as permite encontrar rapidamente caso se percam; para as crianças muito sensíveis ao ruído há áreas especialmente silenciosas; cada divertimento aquático tem uma acessibilidade incorporada.

Este magnífico projeto foi idealizado por Gordon e Maggie Hartman, um casal que se inspirou nas necessidades da sua filha, que sofre de vários problemas físicos e cognitivos. Os proprietários tiveram ainda o cuidado de adotar uma política de preços realista e acessível, porque os pais destas crianças são pessoas com altos encargos mensais com os seus filhos. Por isso, as crianças só pagam onze euros e os adultos dezassete.
Este parque existe na América, mas a ideia é facilmente adaptável a Portugal e podia ser acarinhada e desenvolvida, por exemplo, pelos proprietários do Parque Aquático de Amarante. Enquanto pensam no melhor modo de concretizar tão interessante projeto, podiam inspirar-se na política de preços da Morgan’s Inspiration Island e ajustar a sua à realidade portuguesa.

GAVB

sábado, 17 de junho de 2017

BALÕES NO AR, AVIÕES EM TERRA


Nunca um balão se sentiu tão importante! Pela primeira vez, na história da aviação em Portugal, uma largada de balões vai parar um aeroporto. As operações no aeroporto Francisco Sá Carneiro estarão suspensas durante três horas (entre as 21 horas do dia 23 de junho e a 01 hora do dia 24 de junho), por causa da tradicional largada de balões da noite de São João. Durante esse tempo nenhum avião levantará ou aterrará no segundo maior aeroporto português.
Se não é algo de inédito, deve andar lá perto. Não me lembro que uma noite de São João alguma vez tenha parado o aeroporto, mas provavelmente este é o único modo dos pilotos chamarem a atenção de quem manda no espaço aéreo português para o perigo dos drones.

Estes pássaros telecomandos tornaram-se no divertimento preferido de muita gente que acha o máximo exibir o seu brinquedo nas imediações dos aeroportos. Notícias recentes referem incidentes graves evitados in-extremis, constantes alertas dos pilotos e… um absoluto silêncio desleixado das autoridades.
Quando Fernando Medina pensou em arborizar a Segunda Circular, em Lisboa, os pilotos insurgiram-se contra a ideia, pois o corredor de árvores traria ao espaço circundante do aeroporto lisboeta milhares de pássaros, o que aumentaria o perigo para aterragem e descolagem de aviões. E essa foi uma das razões que fez arrefecer a ideia do autarca lisboeta.


Já sobre os drones não há medidas nem intenção de as tomar. E seria fácil proibi-los, nas imediações de aeroportos, mas em Portugal as medidas mais óbvias demoram demasiado tempo. Enquanto o óbvio não acontece, vamos olhando os balões coloridos de São João à espera que um drone não nos faça cair um avião.

GAVB

sexta-feira, 16 de junho de 2017

POPULARIDADE, A DOENÇA SOCIAL


Recentemente, o psicólogo Mitch Prinstein, num artigo chamado “Cracking the popularity Code”, refere que existem dois tipos de popularidade – uma que afeta mais as crianças e tende a ser proporcionada pelo reconhecimento efetivo dos outros e outra, que ocorre na adolescência, e que tem mais em conta o status (visibilidade, influência, poder).
Infelizmente, diz Prinstein, a cultura atual tirou bilhete para a pior das duas e as consequências começam a ser visíveis na vida de cada um.
Não vale a pena verberar contra a cultura do endeusamento da popularidade, ridicularizá-la, classificá-la de doença de adolescente. Seria um desperdício de tempo, esforço e falhar claramente o alvo.
A popularidade é a doença da sociedade atual porque atingiu em cheio os adultos. Aquela faixa etária entre os 25 e os 45/50, onde não é possível obter qualquer desculpa ou desconto para os nossos comportamentos.
É verdade que a questão começa na adolescência (ou até antes), se desenvolve na juventude, mas só adquire moldes profissionais na fase adulta. 


A popularidade hoje é quase tudo o que conta. Uma grande maioria antes quer ser popular que rico. Ainda que inconscientemente a popularidade transporta uma enorme sensação de juventude, sedução, influência e até poder. Quem se sente popular transmite uma grande confiança, autoestima, satisfação. O reverso da medalha é horrível: falta de confiança, tristeza, depressão. Não há meio-termo, porque ninguém é meio popular/meio desconhecido.

A popularidade tornou-se numa espécie de elixir da eterna juventude. Cada semana que passa procuramos doses cada vez mais intensas dessa sensação de felicidade instantânea. Basta ver a frequência com que mudamos de foto de perfil no facebook, em busca de mais e mais gostos, de mais e mais comentários elogiosos; ou então repararmos na profusão de fotos altamente produzidas e cuidadosamente selecionadas com que quase diariamente atualizamos o Instagram.

E como dá trabalho a popularidade! Estar sempre atento ao que está in e out, fazer um gestão cuidada do que se diz e pensa, dos eventos em que se comparece, das fotos que se publica.

É um erro crasso rirmo-nos disto ou achar que apenas acontece aos outros, que têm uma cabeça de vento. 
Partindo do princípio que todos trazemos um pouco de vaidade incorporada, talvez não seja má ideia pensarmos que se ainda somos nós que dominamos o desejo compulsivo de popularidade ou é já ele que nos domina.

GAVB 

quinta-feira, 15 de junho de 2017

QUANDO PERDES NÃO TENS PRESSA DE IR A LADO NENHUM*


A não ser que seja apenas um jogo ou somente mais um jogo. Todavia a vida não é «apenas» nem tu somente «mais um» ou sequer um «jogo», porque no jogo podemos admitir perder, mas na vida não. E no entanto, perdemos… Por vezes, de maneira clamorosa e calamitosa. É nessa altura que não nos apetece ir a lado nenhum e deixamos de ter pressa. A pressa ou a vontade, quando nos des(ligam a) ilusão.

Tendemos a acreditar que não há mais balões tão bonitos como aquele que rebentou. Não é verdade! Apenas não haverá mais aquele balão, mas haverá mais balões tão ou mais bonitos… assim queiram os olhos do coração. E esses são tão teimosos como pouco inteligentes. Deixá-los! Um dia hão de cansar-se da sua miopia, especialmente se não lhe dermos toda a atenção.

Entretanto, o melhor é concentrarmo-nos na derrota com os olhos da razão. Vamos vê-la em perspetiva. (É essa a técnica que usamos com os outros e costuma resultar)
Concluiremos, então, que precisamos de tempo, mas não de ficarmos parados. Sim, não há pressa, mas apenas a necessidade primordial de continuar a caminhar, para que a vida nos traga novas ilusões que encherão novos balões. Um dia irão rebentar também ou talvez sejas tu a rebentar com eles.
Então esta derrota foi «apenas só mais uma». “Foi”… todo o pretérito deve ser perfeito.

E como chegar à perfeição? Devagar, porque temos pressa.
GAVB

* Título do primeiro romance de Dulce Garcia, subdiretora da revista Sábado

quarta-feira, 14 de junho de 2017

PINTURA PARA CEGOS


Há muitas frustrações que os cegos experimentam. Uma delas é não conseguirem viver a maravilhosa sensação da cor. 
E como a pintura explora a cor e as diferentes tonalidades de cada cor!!!
 No entanto, a pintura é também o movimento e a forma. O problema é que um museu é um local onde só se pode usar os olhos e nunca as mãos, por isso é um local desinteressante para um invisual. Era…



Recentemente o antigo fotógrafo John Olson resolveu processar pinturas em modelos 3D texturados, procurando abrir a beleza da pintura às mãos dos cegos. Ver com as mãos e com o… cérebro, porque um estudo científico provou já que os invisuais conseguem distinguir as formas com os restantes sentidos, pois o córtex visual é estimulado pelo tato.
Um rapaz cego, de 13 anos, conseguiu percebeu o celérrimo sorriso da Mona Lisa pintado pelo Leonardo Da Vinci depois de ter tateado a versão 3D do famoso quadro renascentista.
Este projeto das pinturas tácteis, a expandir-se um pouco por todo o mundo, é um passo maravilhoso no processo de inclusão na sociedade dos invisuais. 
E finalmente deixará de fazer sentido aquela máxima anunciada em todos os museus – “é para ver, mas não é para tocar”.
Agora fará mais sentido dizer, “se não podes ver, toca… e sente como é bela!"

GAVB

terça-feira, 13 de junho de 2017

CINEMA GOURMET


Apesar de ninguém o admitir abertamente, o cinema perde espectadores de forma acelerada um pouco por todo o mundo. Só o inusitado aumento do preço dos bilhetes tem permitido que as receitas vão cobrindo as vorazes despesas da indústria cinematográfica. No entanto, este truque não é sustentável por muito mais tempo e a chegada em força da Netflix ao mercado ao europeu bem como a disponibilização do streaming dos filmes mais recentes poucas semanas após a sua estreia ditarão o fim deste modelo de negócio.

Respondendo ao desafio, a Alamo Drafthouse, uma pequena cadeia de cinemas do Texas, inventou uma fórmula de atração de espectadores às suas sessões de cinema. Nas salas da Alamo não há lugares vazios e até há lista de espera.
E o que têm os filmes da Alamo Drafthouse que os outros cinemas não têm? Além do conforto das cadeiras e da qualidade do som, quem vai ver um filme na Alamo vai ver muito mais que um filme, porque a Alamo recriou o conceito de ida ao cinema, oferecendo um espetáculo total, que mistura cinema, teatro, comédia, networking.

Em cada sessão, instala-se na primeira fila o Master Pancake, que não é mais do que um trio de comediantes de rádio, que passam o filme a fazer comentários hilariantes às várias cenas e diálogos, produzem sons desconcertantes, substituem diálogos, criam uma alternativa aos momentos de silêncio, interrompem a exibição do filme e resolvem fazer um improvisado momento de comédia...
Apesar de um filme ser sempre o motivo central das intervenções, há espaços para oportunas conexões com a atualidade política, cultural ou social nacional ou local.

Claro que isto só pode ser feito por gente que conheça muito bem o filme, que não se alongue nas intervenções e saiba ser oportuno.
Obviamente que este conceito de Cinema Gourmet não é extensível a todos os filmes nem aplicável a estreias absolutas. Exige que já tenhamos visto o filme pelo menos uma vez, mas cria um mercado que julgávamos morto e atrairá muito mais gente às salas do cinema.

A ideia nascida no Texas chegará a Los Angeles daqui a um ano e estou certo que fará furor na Europa. Voltaremos a ir ao cinema para ver aquilo que temos guardado em DVD ou em ficheiros do computador, na esperança de perceber a transformação que os olhos do espetador/comentador fizeram daquele objeto artístico.
GAVB

segunda-feira, 12 de junho de 2017

NÃO TENHO VERGONHA. TENHO IMENSO ORGULHO!


Disse Diogo Lacerda Machado, após ser nomeado pelo governo português para a administração da TAP. Até há poucos meses ninguém sabia quem era, a não ser que era grande amigo do primeiro-ministro António Costa.

Há uns meses, o banqueiro António Domingues queria presidir há Caixa Geral De Depósitos sem entregar a sua declaração de rendimentos. Fez o banco público e o país perder tempo e dinheiro, até concluir que não se dava com o mínimo das transparências que se exige a um detentor de um cargo público. Quando foi embora também exclamou algo como “Não Tenho Vergonha. Tenho Imenso Orgulho.”

Após alguns anos a dar um enorme baile à PJ, ao Ministério Público e ao Tribunal, Isaltino Morais lá foi obrigado a cumprir pena de prisão efetiva por fraude fiscal, abuso de poder e corrupção, mas como não tinha vergonha, e até tinha um imenso orgulho nisso, anunciou que será candidato a Oeiras nas próximas eleições autárquicas.

Ricardo Salgado afundou um banco centenário que os seus antepassados ergueram e credibilizaram com enorme esforço. No afundanço levou a PT, o país e milhares de incautos depositantes do BES que, pensando estar a fazer depósitos a prazo, estavam a comprar papel comercial do GES que nem a tinta neles usada valia. Também ele não tem vergonha nenhuma, aliás, todos crêem que deve ter um imenso orgulho nisso.

José Sócrates está altamente indiciado em vários crimes de corrupção e abuso de poder, mas continua a dizer que tudo não passa de uma cabala do juiz Carlos Alexandre e do Correio da Manhã  contra ele. Apesar de todas as evidências de que cometeu vários e graves ilícitos, o ex-governante tem imenso orgulho no que fez e culpa não sente nenhuma.


O mesmo se pode dizer de Vale e Azevedo, Pinto da Costa ou Paulo Pereira Cristóvão; de Cavaco Silva, Dias Loureiro ou António Mexia; Valentim Loureiro, Oliveira e Costa,  Duarte Lima; Zeinal Bava, Henrique Granadeiro, Pedro Guerra; ...

A lista é extensa e não é preciso puxar muito pela memória para acrescentar nomes e mais nomes até fazer um mural bem recheado de imundície que não há alzheimer que nos valha. Nós só podemos gostar de ser enganados, não há outra explicação para tanto descaramento sem resposta.
Não são eles, somos nós quem não tem vergonha, mas antes um  grande orgulho nesta imensa pouca vergonha.
GAVB 

sábado, 10 de junho de 2017

DESPACITO, RECUPERANDO O PRAZER DE VIVER


O “Despacito” de Luis Fonsi é uma das grandes músicas deste ano. A sensualidade latina, o ritmo quente, a mensagem clara. Há conquistas fulminantes, pulos inesperados de qualidade de vida, mas, na maioria das vezes, essas conquistas são lentas. E, se falarmos de reconquistas, então o princípio é ainda mais aplicável.

No último ano, os portugueses foram reganhando autoestima e a sua vida melhorou. Apenas um bocadinho, é certo, mas melhorou. Mais do que a sensação que nos aumentam migalhas, ficamos com a convicção que nos querem devolver aquilo que já foi nosso, mas com realismo. Pasito a Pasito vamos tentando desapertar o duro nó que nós deixou no lixo das agências de rating.

Claro que todos queríamos uma recuperação económica mais rápida e profunda, mas, lá no fundo, sabemos que isso é irrealista, querendo levar toda a gente na viagem. Ainda estamos no patamar básico da recuperação da liberdade económica, mãe de todas as outras. No entanto, o nosso olhar ganhou a cor de uma tímida esperança, fruto de algumas inesperadas vitórias sobre o fatalismo como de um trabalho sustentado de todos os portugueses.

Haverá de chegar a altura em que teremos de fazer escolhas, mais ou menos dolorosas, que nos permitirão (ou não) dar um salto qualitativo e, sobretudo, recusar cometer os mesmos erros do passado. Mas esse será outro nível e outro tempo.

Por agora ficamo-nos pelo Pasito a Pasito, que também é necessário para perceber o sabor das reconquistas, tão deliciosas como trabalhosas.
A vida pessoal não é muito diferente da vida coletiva, quando vista de um drone. 
Na maioria das vezes, a única resposta que conseguimos dar ao desânimo, à tristeza ou à infelicidade é essa recuperação lenta e longa, sem garantias de sucesso. É possível sairmos vencedores? Claro que sim, mas apenas isso - «Possível». Transformar a possibilidade numa probabilidade e depois numa certeza depende da força de cada um em dar o pasito que pode dar.
GAVB



quinta-feira, 8 de junho de 2017

MANUEL ALEGRE VENCE O PRÉMIO CAMÕES




Finalmente é atribuído a Manuel Alegre o maior prémio da língua e literatura portuguesaS – o Prémio Camões. E ele mereceu-o totalmente.
Alegre é um poeta excecional. Apaixonado e apaixonante, interventivo, concreto e idealista, opinativo, sem medo das palavras e das posições. É fácil encontrar beleza singular na maioria dos seus poemas, porque nele respira um talento Ímpar para fazer poesia.




E Manuel Alegre sempre soube fazer da poesia uma «coisa» de todos e para todos. Mais do que uma arma de arremesso contra a ditadura, a sua poesia era a defesa da liberdade, um grito contra opressão viesse ela da Pide ou da Troika.
Talvez o envolvimento político que nunca abandonou nem renegou tenha impedido que fosse o poeta consensual que merecia, mas Manuel Alegre nunca soube ser de outra maneira. Talvez por isso o Prémio tenha chegado tarde, mas o importante é que acabou por lhe ser feita justiça.


A poesia de Alegre aquece-nos o coração e a alma, mantendo sempre um alto nível literário, porque Alegre não ficou parado na “Trova do Vento Que Passa”, ele escreveu também belíssimos poemas sobre Eusébio (“Havia nele a máxima tensão / Como um clássico ordenava a própria força / Sabia a contenção e era a explosão / Não era só instinto era ciência / Magia e teoria já só prática / Havia nele a arte e a inteligência / Do puro e sua matemática / Buscava o golo mais que golo - / …. / Despido do supérfluo rematava / E então não era golo - / Era poema.” ), como escreveu de modo certeiro sobre o "Resgate" que Portugal foi alvo há pouco anos:

 “…./ Por isso podem cortar / Punir / Tirar a música às vogais / Recrutar quem os sirva / Não podem cortar o verão / Nem o azul que mora aqui / Não podem cortar quem somos!”

No entanto, o melhor de um poeta é quando ele escreve sobre sentimentos e nisso Alegre também é fabuloso. De entre os vários poemas que escreveu escolho um de 1995,  «Coisa Amar»

Contar-te longamente as perigosas
coisas do mar. Contar-te o amor ardente
e as ilhas que só há no verbo amar.
Contar-te longamente longamente.

Amor ardente. Amor ardente. E mar.
Contar-te longamente as misteriosas
maravilhas do verbo navegar.
E mar. Amar: as coisas perigosas.

Contar-te longamente que já foi
num tempo doce coisa amar. E mar.
Contar-te longamente como dói

desembarcar nas ilhas misteriosas.
Contar-te o mar ardente e o verbo amar.
E longamente as coisas perigosas.