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sábado, 31 de dezembro de 2016

NEM BALANÇOS, NEM PREVISÕES, NEM DESEJOS


Desejos, Previsões e Balanços são três rituais do dia 31 de Dezembro que cada vez têm menos valor. São feitos para cumprir a tradição do calendário. Repetitivos, previsíveis, sem convicção.
Os balanços parecem-me quase sempre um acumular de factos ocorridos ao longo do tempo, sem qualquer reflexão. As previsões ou são lógicas e desenxabidas ou “tarológicas”; quanto aos desejos, tornaram-se uma lengalenga tão fácil de trautear como de esquecer. Daqui por trinta horas já quase todos nós teremos esquecido o que desejamos para nós e, sobretudo, para os outros.

Por que alinhamos nós neste ritual de plástico? 
É sempre mais fácil viver com fórmulas testadas e socialmente aceites do que criar algo realmente nosso. Dá trabalho e até podem acusar-nos de termos a mania de sermos diferentes. Não é disso que se trata, mas de fazer com que aquilo que fazemos e dizemos faça sentido, seja autêntico. Não é crível que a todos apetece formular desejos, fazer previsões ou balanços no dia 31 de Dezembro.  
Ter desejos (ou objetivos), ser capaz de perspetivar o futuro tendo em conta o balanço feito de um tempo transcorrido são ações muito positivas e louváveis, quando sentimos necessidade delas.
Ter alguns rituais é bom, mas viver através deles é suspender a vida e perder um pouco de identidade e personalidade.

Cada ser humano é único e irrepetível! 
Sinto tanta falta desse aroma a humanidade nas ações, nas palavras, nos gestos que preenchem o vazio dos dias! 
E entretanto há desejos que se concretizam, previsões que se cumprem e balanços de grande utilidade…
GAVB

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

KINDER TRISTEZA


Os últimos meses deste ano ficam marcados pelo desaparecimento de várias figuras públicas internacionais, especialmente do mundo artístico, como George Michael, David Bowie, Leonard Cohen. Ontem morreu William Salice, o inventor do ovo de chocolate Kinder Surpresa. Apesar dos seus 83 anos, morreu na sequência de um AVC.
Depois da morte, no ano passado, de Michele Ferrero (fundador da Ferrero e “inventor” da Nutela), o mundo do chocolate e dos criadores de sonhos doces, para milhões de crianças, fica mais pobre.

Salice era um homem bom e humilde. Apesar de ser o «pai» do Ovo Kinder, preferiu atribuir os louros ao amigo e sócio Ferrero: “Quem o [Kinder Surpresa] pensou foi Ferrero, eu só o executei.”
O certo é que a parceria durou mais de meio século e contribuiu para a felicidade de milhões e milhões de crianças e adultos, ao longo de várias gerações, um pouco por todo o mundo. Ironicamente, o homem, que deu cor e sabor à Páscoa, morreu no Natal.
Racionalmente todos percebemos que a vida, na sua finitude, é feita de ciclos e o de Salice estava no fim, mas o nosso coração, a nossa alma não é nenhum CPU, e fica triste quando alguma coisa bela acaba. 

Um criador, seja ele músico, escritor, publicitário ou chocolateiro, transforma a vida das pessoas, fá-las sonhar, fá-las felizes.
É maravilhoso saber que há pessoas que sorriem de satisfação quando experimentam alguma criação nossa. É formidável sentir que os outros, às vezes milhões de outros, têm um momento no dia em que sentem verdadeiro prazer de viver… por nossa causa.

Gabriel Vilas Boas 

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

UMA CAPELA NA PRAÇA DE TOUROS



Ontem, visitei com a minha filha a Praça de Toiros de Sevilha. Tinha uma certa expectativa de ver as suas entranhas, de percorrer a arena, perscrutar nas bancadas vazias aquilo que atraí tanta gente para um ato – tourear o touro para depois o matar na arena – que tem tanto de tradição como de bárbaro. Não consegui.
A esmagadora maioria dos visitantes era turista e a tourada era mais uma atração da cidade como a Torre do Ouro ou o Flamenco, mas para os sevilhanos (homens e mulheres), a tourada não se discute; é parte deles.



O interior da praça incluía um museu taurino, onde aquilo que mais me impressionou foi uma série de cabeças humanas de madeira, penduradas na parede e que a guia explicou que eram usadas para os jovens candidatos a cavaleiros profissionais treinarem a mira. Pareceu-me algo sinistro, um modo desastrado de treinar a técnica.
No entanto, aquilo que mais me chamou a atenção foi a pequena capela que a Praça de Toiros tinha (ao que parece todas têm) e que se situava imediatamente antes da porta de entrada principal dos cavaleiros e toureiros na arena. Explicou a guia que por lá passava toda a gente  envolvida na corrida de touros, exceto o touro...

Que sentido faz uma capela numa praça de touros? É o touro que precisa de proteção divina, de um milagre, não o toureiro ou o cavaleiro.
Que pedirá o toureiro naqueles minutos antes da lide? Que Deus o ajude a massacrar e a matar o touro com “estilo”? Que o touro antes de morrer cruelmente se ajoelhe perante si? Como pode o Homem Cristão pedir ajuda divina para matar um ser vivo, para gáudio da assistência? Que achará Deus desta subversão completa dos seus ensinamentos? 
Mais perverso do que o ser humano querer racionalizar e justificar aquilo que em si é instinto, é querer torná-lo santo!

Gabriel Vilas Boas 

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

O PINTOR ANTÓNIO SAMPAIO (III)

Deixou uma vasta obra, um trajecto regular e contínuo dos anos 40 aos anos 90 do séc. XX. Durante o seu percurso António Sampaio explorou as potencialidades artísticas da cerâmica, tendo, por exemplo, executado painéis cerâmicos para uma fábrica (1964) e para um hotel Praia Golfe em Espinho (1972), produziu cartões para tapeçarias executadas na "Manufactura de Tapeçarias Muro", aprofundou a pintura a fresco, realizando frescos para o cinema Batalha. Fundou o “ Atelier Livre” na Rua Formosa, organizou actividades culturais do Carnaval para o Clube Nacional de Montanhismo (1957), ajudou a criar o efémero grupo "Ceramistas Modernos" (1961) e associou-se ao Instituto de Apoio à Criança nos anos 90.


                           S/ Título, estudo para painel cerâmico, 1964,óleo s/tela; 82x80.5cm


 “S/ Título” 1971_tapecaria; 146x317cm

 O Tempo e o Espaço, 1987, óleo s/tela; 79x99.5cm

António Sampaio teve muitas moradas. Depois do casamento trocou Vila Nova de Gaia pela Quinta do Mirante, em Águas Santas, Maia, propriedade dos seus sogros. Entre 1950 e 1952 alugou casa em Ofir, onde passou várias temporadas. Dois anos depois transferiu-se para Viana do Alentejo. Em 1955 voltou ao Porto e, em 1961, começa a construir a "Casa do Rio", casa-atelier, em Gondomar, riscada por Fernando Tudela e para a qual se mudou em 1963. Mais tarde, em 1978, adquiriu uma quinta em Gouvim, Gondarém, nas proximidades de Vila Nova de Cerveira, que começou a restaurar em 1979, numa altura em que residia simultaneamente em Gondomar e Afife, tendo-se fixado nos anos oitenta na Casa de Gouvim.

Fotografia do pintor na Casa do Rio, em frente ao rio Douro nos anos 80
Fotografia do pintor no atelier da Casa de Gouvim em 1992















Em todos os locais onde estudou, trabalhou e habitou, ao longo da sua vida, rodeou-se sempre de amigos, como os pintores Dominguez Alvarez e Carlos Carneiro, o escultor Arlindo Rocha, os poetas Pedro Homem de Melo, Teixeira de Pascoaes, Sebastião da Gama, Júlio/Saúl Dias e António Porto-Além, o mestre ceramista Lagarto, entre outros.

O Pintor foi também um curioso viajante, sempre acompanhado do seu bloco para onde traspunha a poesia das coisas apreendidas. Talvez se possa disser que a sua obra mantém uma identidade ao longo das diferentes fases do seu percurso pictórico, que advêm não só de uma paleta muito própria e limpa e da sua técnica de execução como da mensagem poética que os seus quadros transmitem.

                           Praia, 1993,óleo s/tela 80x100cm

“Pintura” 1972_óleo s/platex 100x70cm

 António Sampaio morreu na sua Casa de Gouvim, a 27 de Março de 1994.

No ano de 2016 várias entidades promoveram exposições comemorativas do centenário do nascimento do pintor António Sampaio. Na Fundação da Bienal de Cerveira esteve patente a exposição “100 anos do nascimento do pintor António Sampaio: António Sampaio e a pintura poética”; No Museu do Vinho do Porto realizou-se a exposição “António Sampaio: do Douro ao Mar”; A Câmara de Gondomar abriu na sala de exposições do Auditório Municipal de Gondomar, a mostra “António Sampaio: Lugares de Atelier”.



Nota: Pode consultar a lista de Prémios, Homenagens, Exposições e Colecções do pintor António Sampaio em:

Maria Antónia Beyer Sampaio

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

HAVIA UM ILHA EM TI


Houve uma ilha em ti que eu
Conquistei.
Uma ilha no mar da solidão.
Tinha um nome de ilha onde morei:
Chamava-se Coração.

Que saudades do tempo que passei,
Nenhum desses momentos foi em vão.
Do teu corpo, de ti, já não sei.
Também não sei da ilha, não sei, não.

Só sei da mim, coberto de raízes.
Enterrei os momentos mais felizes.
Vivo agora na sombra do recordar.

A ilha que eu amei já não existe
Agora amo o céu quando estou triste
Por não saber do coração do mar.


Joaquim Pessoa

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

O PINTOR ANTÓNIO SAMPAIO (II)

Em 1944, António Sampaio finalizou o Curso Superior de Pintura na Escola de Belas Artes do Porto, onde foi aluno bolseiro e prémio “Rodrigues Soares”. Ainda estudante, fez parte do ”Grupo dos Independentes”.

Desde essa data até 1993 não deixou mais de expor. Fez-se representar em numerosas exposições individuais em Portugal (Porto, Lisboa, Vila Nova de Gaia, Amarante, Viana do Castelo, Braga, Póvoa de Varzim, Ofir, Vila Praia de Âncora e Leiria), em Londres e Nova Iorque.


Flores do Campo, 1950, óleo s/tela, 100x80 cm.
Veneza, 1969, técnica mista, s/platex, 59 x 81 cm.






Entre 1943 e o início dos anos 90 participou também, com frequência, em exposições colectivas, patentes ao público em instituições como a Sociedade Nacional de Belas Artes, o Secretariado Nacional de Informação, o Museu Nacional Soares dos Reis e o Museu Municipal Amadeo de Souza-Cardoso e associou-se às mostras dos "Independentes" e às Bienais de Cerveira.

Entretanto, em 1945 apresentou a tese na ESBAP, (retracto do pintor Guilherme Camarinha); casou com Marie Thérèse Beyer de quem teve duas filhas (Maria Antónia, 1949 e Maria Teresa, 1951).

Retrato de Marie Thérèse, 1945, óleo s/tela, 34 X 27 cm
Quinta do Mirante, s/d c.1945, óleo s/platex, 40x45 cm



Em 1946 fez uma viagem de estudo, visitando vários museus da Europa. Instalou-se em Paris, onde em 1947 e 1948, frequentou a Escola de Belas Artes de Paris, aprendendo a técnica do fresco sob a orientação de Duco de La Haix, as Academias “Grande Chaumière” e “Julien” e o Atelier do Pintor André Lhote. No Museu do Louvre copiou os Mestres Flamengos e Italianos. Conviveu nesta época com Júlio Resende, Nadir Afonso. Passou pelo atelier de Vieira da Silva e Arpad Szenes e fez gravura, estudos de nus, cenas de interior e vistas citadinas. Visitou a Alsácia, terra natal da mulher.

António Sampaio e esposa, e o pintor Júlio Resende, Paris, 1947


Jardim, Paris, 1948, tinta negra s/ cartolina, 26x21,5 cm


 S/título 1948 (Paris), desenho à pena s/papel vegetal; 25.5 x 24.8cm


Fotografia de uma aula de pintura na Academia Alvarez, 1954
Em 1954, fundou no Porto, juntamente com Jaime Isidoro, a “Academia Dominguez Alvarez”.
António Sampaio além de pintor, foi também professor, tendo exercido até 1986. Lecionou, entre outras, na Escola de Cerâmica de Viana do Alentejo que orientou e durante treze anos na Escola de Artes Decorativas Soares dos Reis, no Porto.



Músicos amadores, 1960, óleo s/tela; 87x66.5cm
Mulheres” 1988_óleo s/tela


Maria Antónia Beyer Sampaio

(Continua)

domingo, 25 de dezembro de 2016

O NATAL E A SOLIDARIEDADE



António Gedeão, num dos seus poemas mais irónicos e mordazes, referiu-se ao Natal como “O dia de ser bom /(…) dia de pensar nos outros – coitadinhos – os que padecem / de lhes darmos coragem para continuar a aceitar a sua miséria”.

Lembrei-me muitas vezes deste poema nos últimos dias, em que quase todas as reportagens jornalísticas nos brindavam com sessões de solidariedade, como se houvesse um concurso para premiar a instituição mais solidária, a família mais solidária, a figura pública mais solidária. 
A ceia solidária X, os não sei quantos sem-abrigo que foram jantar à Associação Y (e lá aparece o presidente benemérito, ufano da sua caridadezinha de calendário). Como se sentirão aquelas pessoas que foram objeto dessa solidariedade, ao verem-se transformadas numa espécie de atração de natal, pousando para a foto do outro como coitadinho?

Claro que o Natal apela aos sentimentos mais nobres em quase todos nós, mas por que é que eles desaparecem logo de seguida? Por que é que estas pessoas têm necessidade de se autopromover? Por que é que estas ações não se multiplicam pelo resto do ano, ou melhor, por que é que elas são ainda tão necessários?

A solidariedade é um ato de contrição social! Não mais do que isso. É o reconhecimento de que, de algum modo, falhámos e procuramos, agora, remediar a situação. Não fomos nós, foi o outro? Isso pouco interessa; como grupo, falhámos!

A solidariedade não é um selfie de Natal para colocar nas redes sociais. Há imenso solidariedade por fazer ao nível dos afetos e outra tanta por fazer e calar. 
Temo que um dia destes, algum repórter mais insensível cometa a loucura de perguntar a um sem-abrigo algo do género: “Então, gostou da ação solidária da …..? Que nota lhe dá?”. Já faltou menos.

No Natal há solidariedade; é natural que haja mais predisposição a isso, mas não é natural que que ela se transforme num desfile de vaidades.

Gabriel Vilas Boas

sábado, 24 de dezembro de 2016

UM PRESÉPIO DE NATAL PESSOAL



No último Verão, quando regressava de férias, passei por Évora, onde vi dos mais belos presépios. Uma coleção extensa, magnífica e muito diversificada. Havia presépios de todo o mundo; em cada um espelhava-se um pouco da cultura do povo e o modo como viam o nascimento de Cristo.

Hoje dei comigo a pensar Como seria o «meu» presépio, se fosse eu a construí-lo? Teria de ser um presépio que fosse além das figuras, da recriação pura e simples da cena do Nascimento de Cristo: um presépio imaterial, que durasse para sempre e me iluminasse.

A figura central seria o Amor. Sem ele ninguém vive; sem ele todas as lutas, canseiras, caminhadas ou metas perdem força. 
Depois escolheria a Bondade. Tem a cara de uma mãe perfeita, envolvendo cada ação com afeto, sabedoria e justiça. 
Completaria o trio primordial com a Alegria. Acho-a uma espécie de dínamo da vida. A alegria tem uma capacidade transformadora e aglutinadora fora do comum. Pode parecer algo mais leve ou de somenos importância, quando comparada com o Amor ou a Bondade, mas parece-me imprescindível à Felicidade.


Substituiria os Reis Magos e as suas valiosas ofertas pela Sabedoria, a Resiliência e a Coragem. É possível que esteja a ser um pouco ambicioso, mas de ofertas régias só se pode esperar o melhor. Atingir objetivos tão elevados como o Amor, a Bondade ou Alegria torna-se mais fácil quando dispomos de Sabedoria, Coragem e Resiliência.

Apetrecharia ainda o meu presépio de outras “figuras”, aparentemente menores, mas igualmente importantes: humildade, integridade, companheirismo, sentido de humor, desapego. Seriam como pequenas estrelas que me guiariam silenciosamente ao centro do meu presépio.
Não referi nenhuma estrela-guia, porque não há melhor guia de qualquer vida que o Amor. Não é porque acaso que Cristo fundou a sua religião com base nele e é através dele que nos exprimimos melhor.

Gabriel Vilas Boas 

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

NATAL NO HOTEL


Há dias li uma notícia sobre o número crescente de famílias que passam o Natal num hotel. A notícia não me surpreendeu, apesar de não me agradar. Há uns anos, estaríamos a falar de um nicho de mercado e encontraríamos explicações como a solidão de pessoas desavindas da família ou sem gente próxima que as convidassem para a noite mais bela e familiar do ano. Não é disso que se trata agora.
Famílias inteiras optam por consoar num hotel. Por que o fazem? Muitos falam de um “Natal descansado”, outros falam de uma “casa pequena”, mas a realidade é mais profunda do que circunstancial.

No passado, o prazer de estar junto dos familiares (pais, filhos, irmãos, tios, sobrinhos, primos, avós…) era superior a todos os inconvenientes logísticos. As tarefas dividiam-se e até se encontrava alguma alegria na partilha. À medida que cresceu o nível de conforto, as relações foram perdendo intensidade. A família ficou reduzido ao núcleo restrito de todos os dias e os convites não vão além do “obrigatório”.
A noite de Natal é um espelho interessante do estilo de vida que imprimimos às nossas relações e àquilo que valorizamos nelas. Não é surpreendente este estilo mais confortável, glamouroso e fashion, mas tenho dúvidas que todos se sintam em casa, porque o Natal também é a memória das famílias e as nossas memórias estão normalmente ligadas à casa de família.

Mais do que uma festa bonita e descansada, o Natal é uma festa autêntica. Gosto de ver miúdos a correr pela casa, gosto de ouvir aquela tia solteira ou viúva que não perde uma missa do Galo desde que se conhece, gosto de gente a cair de sono rapidamente enquanto outros não param de pôr a conversa de meses em dia; gosto de observar os comentários que as mulheres tecem acerca da qualidade da variada e farta doçaria de Natal e, sobretudo, gosto da ver a paz e a alegria no olhar da gente reunida à volta da mesa.
Tudo isto é possível num hotel? É, mas em “nossa” casa é outra coisa!

Gabriel Vilas Boas

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

O PINTOR ANTÓNIO SAMPAIO (I)

O centenário do nascimento do pintor António Sampaio é pretexto para lembrar algumas das suas obras e deixar umas notas biográficas. 

António Sampaio nasceu em Vila Nova de Gaia a 19 de Agosto de 1916.
 Com 14 anos de idade ingressou na Escola de Belas Artes do Porto, no curso Preparatório, e em 1932 transitou para Curso Especial de Pintura. Na mesma Escola prosseguiu os seus estudos no Curso Superior de Pintura (1937-1944) em que foi aluno de Dordio Gomes e Joaquim Lopes.

Durante o seu percurso académico conciliou os estudos com o trabalho na "Cerâmica Lusitânia", tendo durante a licenciatura concretizado vários trabalhos artísticos e frequentadas tertúlias e grupos de intelectuais.
Podemos destacar, deste período, a realização de decorações murais para estabelecimentos comerciais e equipamentos culturais, assim como obras oficiais, nomeadamente os trabalhos em parceria com o pintor Abel Moura para a Exposição Colonial Portuguesa, em 1934. Na baixa portuense, entre outros, pintou os frescos da pastelaria Bocage, na Rua Santo Ildefonso, ilustrou a obra "Sede" de António Ramos de Almeida (1942), livros escolares de Pedro Homem de Melo e postais de cariz etnográfico (1944). Com o arquiteto António Neves desenhou brasões para ornar reposteiros de solares (1938).

Em 1939, associou-se a uma tertúlia cultural de oposição política ao Estado Novo, que reunia no Café Majestic, na Rua de Santa Catarina, Porto, e era frequentada por vários intelectuais como Eduardo Santos Silva, Virgínia Moura, Vital Moreira, Artur Vieira de Andrade e Januário Godinho. Em 1940, fundou com outros tertulianos a Sociedade Editora Norte, que publicou um jornal clandestino.

Autorretrato, 1940, óleo s/tela, 58.5x49
Arlequim,1940, óleo s/tela, 92x73

Na Escola de Belas Artes conviveu com outros futuros artistas plásticos e arquitetos como Abel Moura, Januário Godinho, Fernando Távora, Nadir Afonso, Dominguez Alvarez, Guilherme Camarinha, entre outros.
Entre António Sampaio e Dominguez Alvarez, apesar da diferença de idades gerou-se uma cumplicidade especial que os levou a pintar juntos e a partilhar muitos momentos neste período escolar. Em 1938 através de Dominguez Alvarez, vendeu os seus primeiros quadros a coleccionadores que eram figuras influentes da cidade do Porto.

Ribeira de Gaia, 1940, óleo s/tela, 48,5x59cm

Em 1941 realizou a sua 1ª exposição individual no salão Silva Porto. A partir de 1942 participou na VII Missão Estética de Bragança, passando a deslocou-se com frequência a Trás-os-Montes.

S/título, 1942, óleo s/tela, 23.5x33 cm


Casas do Douro, 1942/43, óleo s/tela, 24.4x29cm


Numa das suas deslocações ao Marão, António Sampaio conheceu e fez amizade com João Teixeira de Vasconcelos, autor do livro “Memórias de um caçador de elefantes” e irmão do escritor Teixeira de Pascoaes. Através dele, conheceu o poeta e também a família deste, com a qual manteve sempre uma grande amizade. Passou a visitar frequentemente Amarante.


Fotografia com Almada Negreiros e João de Vasconcelos (sobrinho de Teixeira de Pascoaes) e António Sampaio em casa de Pascoaes, em 1969

Em 1944 finalizou o Curso Superior de Pintura na Escola de Belas Artes do Porto, onde foi aluno bolseiro e prémio “Rodrigues Soares”. Ainda estudante, fez parte do ”Grupo dos Independentes”.

Maria Antónia Beyer Sampaio

(Continua)


quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

NÃO TEM CASA NEM EMPREGO? ENTÃO, FICA SEM A FILHA


“Sinto-me pequenino perante tamanha onde de solidariedade. Tenho orgulho de pertencer a este povo.”

Num momento de dor e revolta, ao ver um tribunal retirar-lhe a filha porque não tinha casa nem emprego, um pai conseguiu salientar a nobreza de carácter da gente anónima que o ajudou a encontrar casa e emprego rapidamente, de molde a obstar à monstruosa decisão do Tribunal de Família do Porto, que decretou a retirada de uma criança ao seu progenitor, enviando-a para adoção.
O Tribunal podia argumentar com o desleixo do pai, com a sua impreparação para cuidar da filha, com a sua conduta moral… mas não podia invocar a falta de casa e a situação de desemprego do pai.
Quantas mães e pais não estão na mesma situação? Onde na lei está escrito que se deve retirar uma filha a um pai ou mãe por falta de habitação e emprego? Um juiz que decide de tal maneira não pode estar à frente de um tribunal que determina o futuro de menores, tamanha é a insensibilidade e desumanidade revela.

Portugal tem centenas, milhares de crianças abandonadas pelos pais, maltratadas, abusadas, que merecem a atenção e a intervenção judicial, em sua defesa, mas esta criança tinha um pai que queria cuidar dela, que a queria acolher e bem tratar, apesar da sua débil situação económica. Este pai não rejeitava a sua filha, não a tinha maltratado e foi honesto, ao relatar ao tribunal a sua situação. Em vez de decretar um apoio social extraordinário a este pai, o tribunal decide dar a sua filha para adoção. Não consigo entender, aceitar, perdoar uma atitude destas.
Felizmente, temos uma população com um sentido de justiça e de humanidade superior a alguns juízes, que não deixou os valores essenciais da nossa sociedade à mercê de uma atitude incompreensível, para ser eufemístico...

Não é o senhor Armando Sousa (pai) que tem de se sentir pequenino, mas o seu orgulho nas pessoas que corrigiram esta injustiça é perfeitamente justificável. 
Gabriel Vilas Boas

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

TESTAMENTO RARO


O testamento mais valioso que podemos deixar não está guardado no gabinete de nenhum notário ou advogado, nem se abre apenas à morte do benfeitor.
Mais do que uma herança, é um testemunho. O testamento, que me interessa legar, é aquilo que quero que fique de meu para alguém que muito estimo. Quero que lhe seja útil por muito tempo e o faça viver melhor.
Ainda que casas, terrenos, ações ou dinheiro possam fazer muito jeito ou alavancar uma vida próspera, dificilmente isso o fará lembrar-se de mim com satisfação plena.
Passados alguns anos, todos esses bens ter-se-ão dissipado ou multiplicado, e o meu testamento será apenas uma memória difusa, esvaindo-se na ampulheta do tempo.

O único testamento que gostava de legar a alguém que muito estimasse era um exemplo de coragem, determinação, amizade e empreendedorismo. 
É um texto difícil de escrever. Num único momento posso deixar cair um borrão sobre o papel ou deixar a obra incompleta…
É bem mais fácil acumular dinheiro ou prédios. Não preciso de dar o exemplo, não preciso de estar presente, não tenho de o entusiasmar por um estilo de vida.
Talvez seja mais fácil acumular, mas desse modo não cumprirei nenhum desejo de imortalidade.
O melhor testamento não é aquele que deixa sem mais, mas aquele que o beneficiário tem honra em reivindicar.

Gabriel Vilas Boas

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

NOS OUTROS, O PODER É SEMPRE FABULOSO



Quem nunca teve grande poder pensa que se faz maravilhas com ele, que todos os problemas se resolvem através dele e, sobretudo, que se faz o que nos apetece com ele. Não é verdade.
Depois de o ter nas mãos, ele perde grande parte do seu fascínio. Afinal, não podemos fazer o que nos apetece e acrescentou-nos um terrível encargo – responsabilidade.
Quando o temos, todo o poder nos parece pouco, insuficiente, cheio de condicionantes, mas o verdadeiro desafio é saber usá-lo.
O poder que determina e muda a vida das pessoas não é nenhum brinquedo ou guloseima, mas o prato principal que alimentará a vida de muita gente. Deve ser usado com inteligência, sentido de justiça e oportunidade, ser consequente.

Um poder que se diverte a satisfazer egos é redutor e em pouco tempo se esfumará. 
Não é qualquer pessoa que tem capacidade para exercer o poder, ainda que isto não faça dessa pessoa melhor que ninguém. Embora nem toda a gente tenha talento para exercer o poder, há muita gente capaz de o fazer com competência. Por isso, devemos, sempre que possível, rodá-lo de mão, e saber rejeitá-lo quando insistem que peguemos o cetro mais tempo do que o recomendável.
Ao exercer o poder mais tempo do que o desejável, corremos o risco de nos tornarmos autistas, autoritários, burocratas, insensíveis, ditadores. 
Ter o poder não pode/não deve ser um projeto de vida. Quando tal acontece, a vida tornou-se num deserto sem esperança. O vento frio das noites gelar-nos-á o coração e tudo o que fizermos terá pouco sentido.

Antes que o poder te devore, entrega-o, como se ele fosse a tocha olímpica, consciente que fizeste a tua missão. Só assim terá sido um prazer, um privilégio, uma honra tê-lo possuído.

Gabriel Vilas Boas

domingo, 18 de dezembro de 2016

BEBER É UM DIVERTIMENTO PEQUENINO


Nunca entendi o grande prazer de apanhar uma bebedeira. Beber até cair não é divertido e duvido que saiba realmente bem. No entanto, grande parte do convívio social faz-se à sombra de um copo. Para uns basta um; para outros quantos mais melhor.
Mas melhora o quê? A qualidade da conversa? Não me parece… Dir-me-ão que a bebida liberta, desinibe o corpo e a mente, todavia não é certo que seja agradável o resultado dessa libertação inconsciente. Faremos coisas ousadas, mas também algumas constrangedoras. Dificilmente levarão a sério o que dizemos ou fazemos; serão mais aqueles que terão pena do que aqueles que nos acharão uns heróis.

Não percebo os jovens que bebem. A alegria está neles e não na bebida. Há formas mais ousadas de sedução e transgressão.
É curioso perceber como eles bebem em quantidade e elas preferem a qualidade e a diversidade. Sempre achei que dificilmente um rapaz causaria boa impressão numa rapariga emborcando quinze cervejas numa noite. Já elas são mais exigentes com a oferta do barman, procurando fugir do álcool, quando conseguem dizer (e pagar) o que querem. O que poucos dizem é que beber foi o melhor da noite.

Beber não é o passaporte para nada! Beber é baixar o nível da diversão.

Nos dias de hoje, alguns restaurantes estão a implementar a prática da “refeição sem telemóvel”; gostava que houvesse um bar que tivesse a coragem de promover a “noite sem álcool”. Isso sim, seria verdadeiramente cool.
GAVB