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domingo, 31 de julho de 2016

DESCOBRINDO PICASSO NO EL BORN (BARCELONA)


Instalado no típico bairro do El Born (um dos mais charmoso de Barcelona, onde ruas estreitas, edifícios antigos e lojas, bares e restaurantes modernos coabitam pacificamente), o Museu Picasso é uma visita obrigatória para quem passa uns dias em Barcelona ou não fosse Pablo Picasso um pintor mundialmente conhecido.
O Museu, inaugurado há mais de cinquenta anos, ocupa cinco belíssimos palácios góticos, interligados entre si, para albergar as 3.800 obras de Picasso.



Jaime Sabertés (grande amigo de Picasso e principal impulsionar do museu) queria que este espaço ficasse em Málaga (terra natal do artista), mas o pintor preferiu Barcelona, intuindo que o seu Museu teria muitos mais visitantes se tivesse na cidade de Gaudi, Domèneche i Montaneri ou Puig Cadafalk.
A grande atração da coleção permanente é a série de reinterpretações do famoso quadro de Velasquez, As Meninas (cujo original está no El Prado, em Madrid), em paralelo com os valiosos e surpreendentes quadros que Picasso pintou na sua adolescência. Surpreende qualquer visitante verificar que Picasso pintava quadros tão belos e com tanta técnica aos 13/14 anos. Há uma série de retratos, principalmente ligados à família e círculo de amigos, onde se perceciona que o jovem Pablo tinha um dom fabuloso para a pintura.


Antes, o visitante é fica estupefacto com a série de desenhos de Pablo Picasso, onde o denominador comum são as mulheres em pose eróticas e o pintor Degas, muitas vezes ridicularizado entre prostitutas.
A coleção permanente do Museu percorre cronologicamente todos os períodos da obra de Picasso, apresentando vários quadros dos períodos da sua obra: período azul, período rosa, período africano e cubismo (analítico e sintético).



É também possível ver no Museu Picasso esculturas e peças em cerâmica do autor de Guernica, mostrando quanto o malaguenho era multifacetado.

O único senão que encontro neste museu é não ter no seu espólio algumas das principais obras do autor como Guernica, que devia estar em Barcelona, já que é o quadro mais famoso de Pablo Picasso.

Gabriel Vilas Boas

sábado, 30 de julho de 2016

PALAU DE LA MÚSICA CATALANA



O Palau de la Música Catalana foi o edifício que mais me surpreendeu em Barcelona.
Neste local já atuaram Ravel, Montserrat Caballé, Richard Strauss, Igor Stravinski, Arthur Rubinstein, entre muitos outros.
Criado pelo famoso arquitecto Lluís Domènech i Montaner este magnífico palácio, construído entre 1905 e 1908, é um local onde nos conseguimos emocionar.
Todo o edifício é de uma beleza fulgurante, onde a luz natural assume um papel fundamental, quando combinada com os lindos vitrais que dominam a extraordinária criação de Domènech i Montaner.
A fachada, repleta de colunas com mosaicos e arcos de tijolos, indicia toda a beleza que nos espera no interior. Montaner chamava à sua criação o “jardim da música” e quem entra naquele éden percebe a razão.
Cada superfície do foyer é decorada com motivos florais; a sala de concertos é um hino às formas naturais, com vitrais e clarabóias iluminadas pela luz solar. A clarabóia central é algo de fabuloso que atrai o olhar de cada visitante. Montaner desenhou uma abóbada invertida de vitrais de tons quentes, por onde, durante o dia, a luz entra inundando a sala de luz e tornando os concertos, ao final da manhã, algo de mágico, uma experiência indizível para quem assiste e para quem atua.
Para marcar uma fronteira pouco definida entre o interior e o exterior, o arquitecto catalão envolveu a sala de concerto com janelas de magníficos vitrais por onde o sol namora com a música.
O palco é outro lugar majestático. Em forma semicircular, é um foco de actividade, mesmo quando não há concerto. Dezoito musas de mosaico e argila saltam do fundo a tocar harpa ou castanholas. O órgão de centenas de tubos produz um som magnífico e imponente.

Além da sala de concerto, este magnífico palácio do senhor Domènech i Montaner destaca-se pelos bustos de compositor catalão Joséf Clavé olhando de frente Beethoven, como que mostrando que neste palau de la música Catalana toda a música é bem-vinda, da clássica internacional, à catalã, ao jazz, à popular, entre outras.

Quem deambular pelas salas do palácio há de dar à sala Lluís Millet, onde brilham os belos vitrais, que dão para a varanda de colunas revestidas a mosaicos que estão na fachada.
Por ano, este palácio recebe mais de 500 concertos e bailados. Qualquer um deles é uma experiência a não perder, porque a música ou o bailado exprimem-se melhor quando a arte transpira das paredes, do teto, das colunas, dos assentos. 

quinta-feira, 28 de julho de 2016

O SONHO AMERICANO

 


Hoje a minha filha perguntou-me o que era o sonho americano. Sucintamente falei-lhe em "ter sucesso", em "ser próspero", em viver em liberdade, mas esqueci-me de outros valores fundamentais como a igualdade de oportunidades e a mobilidade social.
O Sonho Americano está enraizado na Declaração da Independência dos Estados Unidos que proclamou que todos os homens são criados com direito à vida, liberdade,  prosperidade e a busca pela riqueza.
Por coincidência, o presidente Obama também falou ontem do sonho americano para dizer que "nenhum muro travará o sonho americano", referindo-se à acéfala intenção de Donald Trump de construir um muro, na fronteira com o México, com o intuito de travar a emigração ilegal vinda do sul.
Também Trump fala do sonho americano, mas o dele é bem diferente do american dream do primeiro presidente negro dos EUA.
Para o candidato republicano, a personificação do sonho americano é ele próprio: ser rico, próspero e exercer o poder como um líder. Essa coisa da liberdade também é bem vinda senão atrapalhar muito o plano de enriquecer rapidamente.
Já a igualdade de oportunidades é coisa que diz pouco a Trump e muito a Obama.
 Também Obama personifica o sonho americano, mas na vertente da efetiva igualdade de oportunidades. Obama preocupa-se genuinamente com os outros e nos seus mandamentos milhões de americanos puderam sentir pela primeira vez o gostinho do sonho americano; já Trump preocupa-se com o seu ego, com o seu sucesso.
 É há muitos americanos que pensam como ele, que agem como ele, que gostariam de construir muros em vez de pontes. Apenas são pouco corajosos e escondem-se atrás de um pseudo líder como Trump.
Aquilo que mais gosto no sonho americano é a igualdade de oportunidades, ainda que isso permita a uma destituída e infeliz personagem como Donald Trump candidatar-se a presidente dos Estados Unidos.
Gabriel Vilas Boas.

terça-feira, 26 de julho de 2016

OS PATRÕES EXIGEM!


Quem pode, pode! Já os trabalhadores "pedem" e é se querem!
 António Saraiva, que já foi sindicalista e agora é representante  dos patrões, fala grosso com o governo, como é próprio de um patrão em Portugal.

Saraiva diz-me preocupado com o anémico crescimento da economia portuguesa e exige (isso mesmo) políticas de crescimento ao governo.

Como se os patrões não tivessem nada a ver com isso, como se não fossem eles agentes económicos de relevo e não estivéssemos nós numa economia de mercado.

Cá para mim, o governo devia responder, exigindo aos patrões "políticas sustentadas de crescimento económico", que é como quem diz, menos pedinchice e mais investimento privado.

O que os  querem é o mesmo de sempre: menos impostos, mais benesses públicas.

Mas Saraiva não se contenta em pedir e também quer governar, dizendo ao governo que tipo de leis aprovar e reprovar, que tipo de política económica seguir, dando instruções sobre a política laboral.

Se fosse possível voar no tempo ainda gostaria de saber o que pensaria "Saraiva sindicalista" do "Saraiva patrão"...

segunda-feira, 25 de julho de 2016

LA FAMÍLIA ES SAGRADA, di-lo Gaudi


Pode ser sagrada, mas ainda é  uma obra inacabada. Como a perfeição, o sonho de Gaudi ainda não está concluído, mas já é uma das maiores maravilhas arquitectónicas do mundo.

Visitei-a hoje pela primeira vez e senti o que milhões de pessoas já sentiram: o maravilhamento absoluto perante a beleza, a grandiosidade, a ousadia arquitectónica do catalão.

É impressionante pensarmos como a vida, a história, a divindade de Jesus Cristo inspirou e desafiou os maiores génios da humanidade, nas mais variadas artes, a produzirem obras primas de valor e beleza incomensuráveis.

Antes de entrar, sentado numa esplanada da avenida Gaudi, aproveitando a brisa mediterrânea, admirei a monstruosidade da obra face à pequenez humana; lá dentro, seguindo uma audioguia muito claro e sucinto, observei com atenção a fachada da Natividade, mas foi a fachada da Paixão que mais me comoveu.

No interior do templo, encantaram-me os vitrais e os jogos de cores frias e quentes seguindo o trajetória do sol desde que nasce até que se põe.

Claro que é impossível não abrirmos a boca de espanto perante a "floresta" de colunas inclinadas que suportam a nave central e os claustros. Obviamente não deixamos de dar uma olhadela curiosa à cripta onde Gaudi repousa há noventa anos nem deixamos de subir a torre do nascimento contemplar Barcelona como um anjo. Mas quando saí do igreja que Gaudi criou não deixei de olhar de novo para os vitrais e pensar na frase de Antoni Gaudi: " O sol é o melhor pintor!".
Gabriel Vilas Boas

domingo, 24 de julho de 2016

O SOLO SAGRADO DE MONTJUIC


O parc de Montjuic, em Barcelona, é um dos mais belos e narrativos da península ibérica. Além do imponente castelo, no seu topo, de onde se tem uma vista assombrosa sobre a cosmopolita Barcelona, há um sem número de atrações que nos prendem um dia completo ao parque onde a cultura se alia à natureza e ao desporto.

Desde de 1992, Montjuic é território sagrado dos desportistas de todo o mundo, pois lá  se concentrou a maioria das competições dos Jogos Olímpicos de Barcelona.

Depois de admirar a cidade do altaneiro castelo, fiz o percurso a pé até à Fundação Joan Miró. Chega gente de todo o lado para ver os seus quadros surrealistas abstractos.

Prossegui a viagem até ao Museu Olímpico e do Desporto onde foi recebido pela estátua do arqueiro que acendeu a pira olímpica dos Jogos de Barcelona. Entre o museu e o estádio olímpico de Montjuic fui calcorreando o passeio da fama, onde deixaram a sua pegada Miguel Indurian, Michael Jordan  ou Nádia Comanesi. Depois de visitar o estádio, dei uma olhadela ao palau Santa Jordi, onde jogou o melhor dream team da história do basquetebol: Michael Jordan, Magic Jonshon, Léry Bird, Pipen...

Bom,o melhor foi deixar as saudades desses jogadores para trás e descer até ao Palau da Catalunha, hoje Museu Nacional de Arte da Catalunha. Que monstruosidade arquitectónica, que magníficas obras que guarda, que belas vistas sobre a Fonte Mágica  e a Praça de Espanha permite.

Um final de tarde sublime, que fez esquecer o cansaço e desejar voltar rapidamente.

sábado, 23 de julho de 2016

JUST THE WAY YOU ARE, Diana Krall


Diana Krall é das melhores companhias que podemos ter numa noite de verão. Ao vivo, como música de fundo de um bar junto ao mar, no silêncio da varanda da nossa casa, qualquer lugar é bom para ouvir a voz suave, delicada, relaxante da cantora canadiana.
Ontem, em Lisboa; hoje, no Multiusos de Gondomar, o público português pôde novamente sentir a magnificência de um jazz de primeira água. 
Hoje, proponho-vos voltar a ouvir “Just The Way You Are”, um tema relançado por Krall em 2002, provavelmente para “homenagear” o êxito de Bill Joel, de finais dos anos setenta.
Adoro a calma que transparece em toda a música. Os vários instrumentos combinam perfeitamente com a voz descontraída de Krall que nos convida a ser fiéis à nossa personalidade.

E como às vezes andamos longe da nossa identidade! Procurando seguir tendência, buscando o lado “fashion” da vida sem cuidar do que somos. Por vezes a melhor maneira de agradar a quem amamos é praticarmos aquela autenticidade que nos torna únicos e especiais.

“Don’t changing, to try and please me”
(…)
I took the good times, I’ll take de bad times
I’ll take you just the way you are”

Toda a música é um convite à confiança naquilo que somos. Claro que não devemos confundir confiança com autismo ou arrogância, mas também não precisamos de ter vergonha daquilo que somos, ainda que isso, circunstancialmente, pareça fora de moda.
Diana Krall apela ao amor tranquilo, confiante, seguro. A confiança é um valor fundamental em qualquer relação. Ela está nas palavras, no olhar, nos atos.
“Just the way you are” há sempre acalmar alguns corações inquietos, porque a boa música vai sempre além da arte ou do prazer, penetrando um pouco a nossa alma, fazendo-nos um bocadinho mais felizes.

sexta-feira, 22 de julho de 2016

GUTERRES ESCALA A MONTANHA DA ONU


Guterres e Durão Barroso – ambos chefiaram o governo português, ambos saíram do cargo antes do tempo por vontade própria, ambos ocuparam lugares de destaque a nível internacional, mas a comparação deve ficar para aí, porque tudo o resto os distingue, sobretudo a nível ético. Durão procurou subir nada vida, Guterres procurou cumprir a vida.
Há uns dias, soube-se que Durão Barroso ia ocupar um cargo de relevo na Goldman Sachs, o banco mais odioso do mundo, onde os lucros atingem número pornográficos face às dificuldades económicas que muitos povos sentem; ontem soube-se que António Guterres venceu a primeira etapa da corrida ao cargo Secretário-Geral da ONU. Ainda haverá mais três, até Outubro, altura em que os países que formam o Conselho de Segurança decidirão quem liderará a ONU, nos próximos anos.

Os primeiros resultados, ainda que preliminares, são muito animadores: 12 dos 15 votantes, decidiram encorajar António Guterres a prosseguir a sua candidatura e nenhum se pronunciou contra ele.
As candidaturas melhor posicionadas são aquelas que revelam um conhecimento profundo dos projetos das Nações Unidas, como é o caso de António Guterres que nos últimos dez anos foi o Alto-Comissário das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR).
Guterres parte para esta corrida, ao mais alto cargo da ONU, com elevadas expectativas, fruto do excelente trabalho que realizou no ACNUR, mas também com uma enorme óbice: a vontade de muitos países em eleger uma mulher como Secretária-Geral da ONU.


Apesar desta contrariedade, o antigo primeiro-ministro português não se encolheu e mostrou, no primeiro debate entre candidatos, que era o mais bem preparado, o que veio a ser confirmado por esta votação preliminar. Por outro lado, Guterres firma a sua candidatura em propostas consistentes e válidas e não apenas no curriculum.
O homem que abandonou o poder em Portugal no início deste século propõe duas grandes medidas: a reformulação do Conselho de Segurança e a paridade entre homens e mulheres, nos cargos das Nações Unidas. Com a segunda proposta, Guterres pretende sensibilizar todos aqueles que acham que agora chegou a vez de uma mulher presidir aos destinos da ONU; com a primeira proposta Guterres dá mostra de querer mudar a configuração do poder na ONU de molde a dotá-la de uma intervenção mais eficaz nos grandes problemas que afligem os povos.

E, indubitavelmente, a grande questão da atualidade é o problema dos imigrantes que entraram na europa e que ninguém quer receber. Como antigo ACNUR, Guterres é a pessoa mais qualificada para liderar a resolução deste problema.
Como escreveu recentemente o “The Guardian”, António Guterres tem o perfil mais adequado para o cargo, até porque é um orador eloquente e apaixonado, que sente verdadeiramente os problemas dos mais vulneráveis, das mulheres e das crianças. Guterres é um pacificador nato.
Os portugueses podem achar o antigo secretário-geral do PS algo mole para governar Portugal, mas todos lhe reconhecem atributos humanos e técnicos de grande categoria. Sabem que o seu interesse pelas pessoas não é circunstancial nem fingido e que o cargo de Secretário-Geral da ONU lhe assenta na perfeição, pois têm a certeza que ele lutará para acabar com todas as grandes ameaçam que cercam a paz mundial: o racismo, a xenofobia, a islamofobia, o antissemitismo, o egoísmo, o materialismo.
Ainda é cedo para cantar vitória, mas Guterres é um dos poucos políticos de que Portugal se pode orgulhar pela sua ação além-fronteiras; um homem que honrará os valores humanistas que fazem parte da matriz nacional.
Gabriel Vilas Boas

quinta-feira, 21 de julho de 2016

DESPREZO OLÍMPICO


O que se passou com a convocatória da seleção portuguesa de futebol para os Jogos Olímpicos é vergonhoso.
Para quem não está inteirado (que vocábulo tão português), descrevo rapidamente o sucedido: Rui Jorge (o selecionador nacional) telefonou a 57 jogadores a pedir-lhes (nalguns casos a suplicar-lhes) para aceitarem a convocatória para os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, para obter 18 aceitações.
Obviamente não vão ao Brasil os nossos melhores futebolistas com menos de 23 anos, mas uma terceira equipa, pois em cada três jogadores contactados, dois recusaram. Na verdade foram obrigados a recusar.

Os grandes responsáveis por esta pouca vergonha, por esta falta de sentido patriótico, ético e desportivo são os dirigentes do Porto, Benfica, Sporting, Braga que impediram os seus jogadores de ir aos Jogos do Rio. Impediram até os jogadores que emprestaram a clubes de menor dimensão nacional.
Isto só é possível porque a FIFA não obriga os clubes a ceder os jogadores à representação olímpica, não lhes impondo qualquer castigo. Tacitamente até os apoia, porque a FIFA não quer os torneios olímpicos de futebol tenham qualquer visibilidade mediática, de molde a não fazerem concorrência televisiva e económica aos seus próprios torneios.

No meio disto tudo, os jogadores são tratados como autênticos joguetes nas mãos dos seus clubes, que tomaram esta decisão tão desumana e eticamente reprovável. 
Desumana, porque para a maioria destes jogadores participar nuns Jogos Olímpicos é um momento único na vida de qualquer desportista e essa oportunidade só ocorre uma vez na vida, até pelo constrangimento da idade (devem ser atletas com menos de 23 anos, com a exceção de três).
Além da posição ignóbil dos clubes, a Federação Portuguesa de Futebol também não fica bem na fotografia. Um instituição de utilidade pública tem deveres para com o país e podia ter “obrigado” os clubes a ceder os seus melhores jogadores. É o nome do país que está em jogo e a FPF não se devia encolher.

Os media também fizeram menos do que podiam. Durante o Euro 2016, tivemos uma telenovela com o microfone da CMTV que Ronaldo atirou ao lago, agora não temos uma página de indignação por este desprezo que os clubes de futebol dedicam aos Jogos Olímpicos.
Se a Federação, os clubes, os media desprezam assim o melhor e maior acontecimento desportivo que existe no planeta, o melhor é ser coerente e abdicar de lutar pelo objetivo da qualificação.
Acho que o COI (Comité Olímpico Internacional) devia tomar nota desta situação e castigar os países que tanto desprezam esta nobre competição, impedindo-os de participar na próxima edição em que obtivessem qualificação.

Os Jogos Olímpicos simbolizam o que de melhor o desporto tem. O futebol tem de decidir se, em primeiro lugar, é só um negócio ou um desporto. Talvez os dirigentes não se tenham apercebido de que o negócio só funciona na perfeição porque para os adeptos o futebol nunca deixou de ser um desporto. É por ser um desporto que move paixões. E os negócios precisam das paixões para serem um sucesso.
gavb

quarta-feira, 20 de julho de 2016

O QUE É QUE TENS MEDO DE PERDER?


Provavelmente, a maioria de nós dirá: a saúde. É verdade que sem ela, muitos dos nossos projetos ficam irremediavelmente perdidos, mas também é verdade é que durante grande parte da vida não pensamos a sério nela como um entrave.
Haverá um grupo que dirá “um grande amor”, outro lembrará a “carreira de sucesso”, outro falar de determinado projeto, muitos pronunciarão a palavra “sonhos”.
Todavia, se inquirimos várias pessoas idosas, já perto do fim da vida, e lhe perguntarmos de que é que se arrependem, elas dirão: “daquilo que não fiz”. E esse arrependimento vem do facto de terem sucumbido ao medo, “preguiça”, ao facilitismo…

Quando a morte se aproxima tudo fica mais claro: a grande frustração não é morrer, mas deixar a vida sem ter vivido realmente. 
É então que tudo se torna claro: devia ter corrido aquele risco, teria sido magnífico ter perseguido aquele sonho…
Verificar que existimos apenas para cumprir rotina atrás de rotina, compromisso atrás de compromisso traz uma insuportável sensação de derrota, especialmente porque fizemos essa opção de livre vontade.
Todos nós nascemos com um dom, que mais tarde ou mais cedo, se nos revela. Ignorá-lo, sufocá-lo ou dar-lhe asas depende da vontade de cada um.
Talvez não sejam as pessoas a ter sonhos, mas o contrário. As pessoas não escolhem os sonhos, os sonhos é que escolhem as pessoas.
A grande questão que cada um tem que responder em tempo útil é: terei eu coragem para agarrar o sonho que me escolheu, através do dom que me dotou, ou deixá-lo-ei escapar?
Tal como as águias foram feitas para voar, também cada pessoa foi feita para viver o sonho que tem dentro dela. Ter asas e não levantar voo é uma grande perda, uma grande frustração.

Frequentemente, temos medo que os outros impeçam a realização dos nossos sonhos e usamo-los como desculpa para camuflar o verdadeiro empecilho: a dúvida que se instala na nossa mente. Se não lhe fizermos frente, ela nos transformará num “quase”. O “quase” parece bom, mas é péssimo. Existem muitas pessoas “quase” e bem podemos ser uma delas.
E quantos de nós é aquele que quase mudou de carreira ou aquele tirou boas notas, aquele que foi a traz de um grande amor
Que sonho te escolheu? O que fizeste com ele? Desiste à primeira contrariedade ou nem sequer começaste a subir a montanha?
Claro que há obstáculos, mas o mundo está cheio de casos de sucesso pela persistência. Lionel Messi no futebol, Steven Spielberg no cinema, Oprah na televisão, Beyoncé na música ouviram dolorosos “nãos” e seguiram em frente. Sofrer, lutar, aceitar a crítica são pré-requisitos para quem quer dar asas aos seus sonhos.
Temos que decidir se queremos sofrer perseguindo os nossos sonhos ou sofrer de arrependimento por não os termos perseguido.  
Há sonhos que circunscrevem no tempo, mas há outros que nos dão uma segunda oportunidade. No entanto, é melhor tentar antes que seja tarde.

Gabriel Vilas Boas

terça-feira, 19 de julho de 2016

O DEFICIT MENTAL


Ao que parece a União Europeia pode multar Portugal porque excedeu o deficit previsto para 2015 em 0,2% do orçamento. Ainda que António Costa tenha retorquido que era ridículo penalizar um país por uma falha de 0,2%, Maria Luís Albuquerque tinha razão: o problema é não era o deficit, mas o titular da pasta das Finanças. É verdade: se fosse ela ministra das Finanças de Portugal, o nosso país jamais seria sancionado. Durante quatro anos, Portugal sempre “furou” o deficit e nunca foi penalizado. A chave era a cor política do governo: a Alemanha jamais deixaria que um governo de direita, que cumpria com todas as ordens emanadas de Berlim sofresse qualquer penalização, não fosse o povo desse país acordar para a vida e perguntar-se “Que mais quer Merkel e a Alemanha, se já somos governados pela «sua gente»?”
Costa bem pode dizer que está a cumprir com a execução orçamental, que o problema foi do governo de Passos e Maria Luís, que 0,2% é um desvio ridículo, que o tratado orçamental já sofreu mais transgressões que o código da estrada, que o resultado será o mesmo.

Lentamente as peças vão-se encaixando e tudo se torna mais claro, agora com dados vindos de dentro do governo, ainda que oficiosamente. Hoje o DN, dizia que a maior ameaça ao deficit público deste ano vinha da banca. Mas havia de vir de onde? Do extraordinário aumento de 70 cêntimos por dia do salário mínimo? Os cortes que o governo teve de impor aos portugueses foram por causa dos BPN, dos BES, dos BCP, dos Montepio e dos Banif's desta vida. Foi por causa deles e das PPP que houve resgate. Mas nunca a troika, a União Europeia, o Bundesbank, o FMI exigiu que os conselhos de administração desses bancos ou dessas empresas público-privadas prestassem contas, fossem afastadas ou respondessem criminalmente. Para eles um banco “perder” milhões (na verdade “perder” é um eufemismo de desvio) é perfeitamente aceitável; como é aceitável que o país se endivide mais e mais para pagar esses “desvios” colossais. E como o país já não tem dinheiro para manter a gula dos “Goldman Sachs” da nossa perdição, há que privar os portugueses de mais uma fatia dos míseros ordenados /reformas que recebem.

Somos uns tolos e uns cobardes. Deixamo-nos enredar nesta teia e agora não conseguimos sair dela sem dor, uma grande dor. Eles também nos causam dor, mas é lenta. Morrer em câmara lenta deve ficar bem na fotografia.
Entretanto vamos sendo gozados de toda a forma e feitio: hoje, a "belíssima" Christine Lagarde vem dizer que os bancos portugueses são um risco para a economia mundial! Uau! Então os nossos banquinhos falidos e corruptos são um perigo para a economia mundial? A alta finança mundial deve estar já a tremer… de riso, só pode!
Quando se trata de justificar o injustificável, até o ridículo e o burlesco não têm limite.
Realmente, Portugal tem um enorme deficit estrutural: não pensa. Obedece e é tudo. O grande deficit deste país é mental.

Gabriel Vilas Boas

segunda-feira, 18 de julho de 2016

CRECHES E LARES A CUSTOS CONTROLADOS


Segundo uma notícia do JN, o Governo quer introduzir um teto máximo para os custos dos utentes de creches e lares das Instituições Não Lucrativas. A intenção governamental é que as famílias de idosos ou de crianças não paguem valores exorbitantes, mesmo depois da comparticipação estatal. Atualmente as famílias cobrem o diferencial entre o valor pedido por essas instituições “não lucrativas” e a comparticipação do Estado. Em muitos casos, o valor é muito alto e não tem correspondência com o serviço prestado.
Ao que parece as Misericórdias concordam com o princípio, mas acham que 1200 euros por idoso é pouco. É preciso ter muita lata! Uma entidade que prossegue fins não lucrativos, que está isenta de vários impostos, que recebe benefícios públicos e privados em barda, considerar insuficiente dois ordenados mínimos para cuidar de um idoso, que na maioria dos casos está acamado, come pouco, não sai dos lares e não gasta grandes valores em medicamentos, é, no mínimo, incompreensível.

Nas últimas décadas a atuação das misericórdias portuguesas tem deixado muito a desejar quanto à sua conduta moral e ética. São cobrados valores exorbitantes aos idosos e/ou suas famílias; foram criados níveis de serviços diferentes para os utentes conforme a bolsa das suas famílias; não há um teto máximo de contribuição por utente, estabelecido por lei; é permitido às Misericórdias e outras instituições sociais de fins não lucrativos recusar utentes, quando estes têm parcos recursos, perante a invocação do falso argumento da lotação, entre outras arbitrariedades.

O governo não tem que hesitar, mas avançar com esta ideia quanto antes. Estas instituições cobram uma taxa bem alta pelo serviço que prestam, que muitas vezes deixa bastante a desejar. Prestam um serviço social, mas não de solidariedade, pois obtêm lucros avultados que guardam para usufruto dos seus principais dirigentes, em vez de baixarem o preço da mensalidade dos idosos ou permitirem que idoso de baixos recursos acedam aos mesmos serviços sem os pagar.
As Misericórdias portuguesas estão cada vez mais ricas, poderosas, mas pagam mal aos seus funcionários, recusam os idosos mais pobres e continuam a usufruir de benesses públicas e doações privadas. É preciso começar a introduzir alguma moralidade nesta área de pseudossolidariedade.

Gabriel Vilas Boas 

domingo, 17 de julho de 2016

O PAÍS NÃO PODE TER SÓ DOUTORES!


Nuno Crato dixit. Não pode, não tem nem nunca terá. Ainda bem, mas se tivesse não vinha mal nenhum ao mundo, desde que esses doutores assegurassem, com competência, as diversas funções de uma sociedade, em permanente evolução e progresso.

A questão dos “doutores”, em Portugal, tem muito mais que ver com o estatuto social do que com a competência técnica, infelizmente. E é esse reconhecimento social que muitos jovens procuraram. Ora isso é perfeitamente legítimo. Todo e qualquer cidadão deve poder, em tese, almejar obter a melhor consideração social possível.


Claro que o país precisa de jovens formados para as profissões técnicas, mas a formação disponível nesta área é pífia. Nuno Crato repescou a ideia do ensino dual, com a criação, desde o 5.º ano de escolaridade, do ensino vocacional.
Se Crato acha que era com os cursos vocacionais que ia dotar o país de técnicos de excelência ou era ingénuo ou mal-intencionado. Por que não propôs os Cursos Vocacionais aos alunos de excelência do 1.º ciclo ou do 2.º ciclo, já que eles eram tão bons e tão precisos? Por que é que os colégios de referência e com tanto sucesso e tanta qualidade não promoveram os Cursos Vocacionais, atraindo a nata dos alunos para esses cursos tão necessários ao país? Por que é que apenas os alunos em risco de abandono escolar, com algumas retenções já no curriculum e pertencentes a famílias de baixos recursos eram encaminhados para o ensino vocacional?

Claro que o país não pode ter só doutores, mas Crato é um doutor, os deputados são doutores, a maioria dos cargos de topo da administração (para não dizer a totalidade) ficam destinados aos “doutores”. Antes de dizer que “Portugal não pode ter só doutores”, Crato devia dizer que aqueles que não o são recebem excelente formação como se prova com o exemplo X, Y ou Z; devia explicar que os “não doutores” alcançam com a mesma facilidade os cargos de topo na administração pública ou no setor privado como era facilmente verificável no caso do ministro tal, do presidente da Câmara Y, do diretor-geral da conceituada empresa X.

O que subliminarmente Crato vem dizer aos jovens portugueses é que alguns jovens devem ser empurrados, desde os 10 anos, para um caminho que lhes reduzirá substancialmente as hipóteses de um reconhecimento/ascensão social, por muito palerma e pífio que seja, é o que temos e parece que ninguém quer abdicar dele.
Se um jovem quer ser doutor, deixá-lo ser; o que importa é garantir que ele obtenha uma formação técnica e humana que não envergonhe o título. Há muito doutor que chegou a ministro e não tinha nenhuma vocação para qualquer dos títulos. Lá está, não andou em nenhum curso vocacional do doutor Crato.

GAVB

sábado, 16 de julho de 2016

MUSEU OCEANOGRÁFICO, LE ROCHER, MÓNACO



O Museu Oceanográfico do Mónaco, que culmina 85 metros acima do mar Mediterrâneo, foi construído em cantaria e inaugurado pelo príncipe Alberto, em 1910, depois de onze anos de construção.
Foi ao pé deste local de eleição para os amantes da fauna e da flora marinhas que teve início, há mais de trinta anos, a profunda transformação ecológica que vive o Mediterrâneo.


Em 1982, o comandante Jacques Cousteau, que dirigia o museu desde 1957, comprou uma alga verde, a Caulerpa taxifolia, que rapidamente ficou conhecida como a «alga matadora». No seguimento de uma evacuação de água dos aquários, a alga começou a desenvolver-se por baixo das janelas do museu, antes de contaminar cerca de 10 000 hectares de zonas pouco profundas, entre a Espanha e a Croácia. A alga não mata, mas sufoca a diversidade do ecossistema marinho.

A caulerpa homogeneíza as paisagens e uniformiza as populações de peixes. Já se tentou arrancá-la à mão ou introduzir lesmas tropicais apreciadoras de alga mas os planos de luta mecânica e biológica deixaram de ser eficazes.

sexta-feira, 15 de julho de 2016

IT IS NOT A NICE DAY

Como seria bom que hoje continuássemos a falar do cabeleireiro de Hollande, da azia francesa pela derrota no europeu de futebol, do excesso de cobertura mediática do Euro 2016, pela imprensa portuguesa, das medalhas do atletismo português, das sanções prometidas por Schäuble por termos uma geringonça de esquerda no governo… mas o assunto do dia é mais um atentado terrorista em França.
A comemoração do dia Nacional de França, em Nice, acabou em tragédia, quando um camião se lançou deliberadamente sobre a multidão, causando dezenas de mortos.
Os franceses começam a perceber o drama que os israelitas vivem há décadas. Parece-lhe sum pesadelo sem fim à vista, pois o terrorismo abdica de qualquer justificação.

Hollande pode reunir os gabinetes de crise que quiser, porque o problema subsistirá. Claro que terá a solidariedade de todos os líderes mundiais, claro que haverá pesarosas declarações de condolências e veemente repúdio destes bárbaros atos de terror, mas creio que será muito difícil encontrar uma política de segurança comum que proteja mais eficazmente os cidadãos europeus. Até porque os terroristas têm alvos bem definidos e a França é o mais fácil de atingir.

Provavelmente Hollande cederá à linha dura e pedirá um controlo mais apertado das fronteiras europeias e deixará passar medidas contra os migrantes. A opinião pública europeia será facilmente convencida que o DAESH chega à europa, com mais facilidade, devido às imensas vagas de migrantes que fogem à guerra e portanto crescerá o ódio e a xenofobia um pouco por todo o lado. Os apoiantes do Brexit, do primeiro-ministro húngaro, da senhora Le Pen encontrarão facilmente novos apoiantes entre o medo que veio para ficar.

Hollande está acossado por todo o lado. Como não é um grande líder, acabará por negar aquilo em que acredita e executará uma política de segurança e emigração dúbias, onde não terá grandes ganhos. Além do mais não contará com a solidariedade da Inglaterra.
Hollande precisa de ideias claras, firmeza e convicção no caminho a percorrer, e sentido de liderança. Ou lidera a resposta ao terrorismo na europa assim como ao problema dos migrantes ou sucumbirá politicamente em poucos meses.
Talvez haja menos gente a apostar no sucesso de François Hollande do que houve na vitória de Portugal no Euro 2016, mas se Eder foi capaz de fazer de herói improvável por que não será Hollande um herói acidental de uma europa em desagregação?

Gabriel Vilas Boas

OCEANOGRAFIAS, de Antero de Alda


Antero de Alda (nome artístico do professor Antero Pereira) lança este sábado, na Biblioteca Municipal de Amarante, OCEONAGRAFIAS – um livro ciberpoesia!
A apresentação do livro contará com a presença do Ernesto Melo E Castro (pioneiro da videopoesia e fundador da poesia experimental) assim como do professor universitário Rui Torres, o mais relevante investigador da poesia experimental em Portugal.
OCEONAGRAFIAS é um trabalho inovador na área da poesia experimental/visual, o revela como Antero da Alda é um artista que rasga horizontes na poesia animada por computador, introduzindo várias técnicas de interação nos seus trabalhos através da programação em Javascript e Flash.

Oceanografias é um conjunto de poemas gerados num microcomputador Sinclair ZX Spectrum, em 1986. É agora publicado, na oportunidade em que o principal autor de poesia experimental portuguesa, Ernesto Melo e Castro, se desloca e Portugal e a Amarante. Curiosamente, Melo e Castro apresentou também primeiro livro de Antero de Alda, Memória de Hibakusha, numa galeria em Lisboa, exatamente há 30 anos atrás.
A partir de três poemas originais, o artista programou o computador para gerar uma sequência de associações de números, atribuídos a cada vocábulo desses poemas, resultando daqui novos poemas, aleatórios, a partir da descodificação das associações de números resultantes.

Em 1986 esses microcomputadores pessoais eram ainda raros, e foi o poeta Silvestre Pestana (atualmente com uma grande exposição retrospetiva em Serralves) que iniciou projetos desta natureza.

Desde então, os computadores nunca deixaram de ser utilizados para fazer poesia (a chamada poesia eletrónica e ciberpoesia), como é o caso dos Flashpoemas e,principalmente, Scriptpoemas, que podem ser experimentados  em

Quem não tiver a oportunidade de estar este sábado em Amarante, terá uma última oportunidade de conviver com estes grandes monstros da poesia experimental portuguesa (Antero de Alda, Melo e Castro e Rui Torres) na livraria Gato Vadio, no Porto, domingo (17 de julho), pelas dezoito horas.

quinta-feira, 14 de julho de 2016

O CABELEIREIRO DO HOLLANDE


Em França o assunto do momento já não é a humilhante derrota da seleção gaulesa frente aqueles nojentos dos “Bidonville”, mas o salário do cabeleireiro do presidente Hollande: dez mil euros. Sim, dez mil euros para pentear um careca, ou melhor, a calvície de um presidente que exibe algumas melenas na cabeça. Deve ser trabalhoso ter de lavá-las, penteá-las, pintá-las e portanto dez mil euros é um ordenado perfeitamente aceitável.
O fait-divers diverte a França que se mostra indignada com o seu presidente e levou François Hollande a responder: “Fiz diminuir o orçamento do Eliseu de 109 milhões de euros para 100 milhões, desde 2012 até agora. Reduzi 10% ao efetivo do Eliseu. (…) O meu salário foi reduzido em 30% e vêm ter comigo por causa de um assunto do qual não sou o primeiro responsável? Admito qualquer crítica, mas essa não!”

Hollande esteve bem na resposta, exceto no facto de… ter respondido, não respondendo. 
Hollande respondeu com aquilo que deve ser respondido: a despesa com o pessoal do Eliseu baixou; o ordenado do presidente baixou. O resto não interessa. Se não interessa, por que se deu ao trabalho de responder? E, optando por responder, por que não respondeu ao que lhe foi perguntado? Se ele não é o responsável pelo seu cabeleireiro pessoal, quem é?

A situação é ridícula e embaraçosa, mas a melhor maneira de a enfrentar ter sido não lhe responder ou dispensar os serviços de um cabeleireiro que a careca do presidente não justifica.
A resposta do presidente a este divertido fait-divers suscita-me no entanto uma outra reflexão: Hollande não se preocupou em explicar aos franceses o anémico crescimento económico da França, os problemas com os emigrantes, os sucessivos incumprimentos do défice público, a insatisfação dos trabalhadores, mas teve necessidade de justificar o salário bruto de um cabeleireiro, para dizer que era uma tontice. Daqui se pode concluir que Hollande só responde a tontices, porque para assuntos sérios não tem resposta.

Este fenómeno não é um exclusivo do presidente francês, mas de muitos políticos um pouco por todo o mundo. São notícia pelos faits-divers, estão sempre dispostos a alimentá-los quando não a provocá-los, mas fogem a perguntas sérias e objetivas sobre os principais problemas dos povos que governam.
Esta maneira oportunista e pequenina de atuação política e gestão da informação pública é estupidamente alimentada pelos media, especialmente a imprensa, que, em busca do último caso para entalar o seu odiozinho político de estimação, gasta o tempo e a paciência das pessoas com assuntos menores e esquece de apresentar e explicar o plano governamental (ou presidencial) para as diversas áreas económicas, sociais, culturais. Graças a esta gestão show off, vários diretores, ministros, primeiros-ministros escapam ao escrutínio das suas medíocres decisões, das suas omissões, dos seus enganos.

Quando passamos a vida a discutir o superficial, obviamente o essencial fica por avaliar. Depois é fácil escolher outro porque o resultado deste foi mau. O problema é que poucos sabem dizer por que correu mal, o que teria sido possível fazer de diferente nas circunstâncias em que determinadas decisões ocorreram.
Discutir o cabeleireiro de um careca é divertido, mas não deve ocupar mais tempo que o de uma boa anedota.
Gabriel Vilas Boas


quarta-feira, 13 de julho de 2016

O LADO SOMBRIO DAS ESTRELAS DE FUTEBOL

O “The Sun” publicava esta segunda-feira uma foto arrepiante da antiga estrela do futebol inglês Paul Gascoigne. “Gaza” saia de um táxi, em roupão, velhíssimo, escanzelado, cigarro na boca, aparentemente alcoolizado. Segundo o jornal inglês, Paul Gascoigne mal conseguia falar e quando tropeçou no roupão ficou nu. Paul tinha saída para comprar álcool, cigarros e analgésicos, mas a figura que vagueou pelas ruas impressionou tanto que a foto teve reações em todo o mundo. A degradação daquele futebolista atingiu um ponto tal que nenhuma pessoa que viu jogar Paul Gascoigne consegue deixar de ficar chocado.


Paul era um portento de força e técnica, o verdadeiro representante do futebol inglês que se destacou no início da década de 90 do século XX. Paul ainda não completou cinquenta anos, mas parece caminhar apressadamente para a morte tal os destemperos a que sujeita o corpo.
O mundo do futebol está cheio de exemplo destes. Estrelas cintilantes que sucumbiram aos vícios da vida, como o álcool ou a droga, e rapidamente se degradaram a um ponto inimaginável, enchendo de tristeza os milhões de fãs que lhes bateram palmas, que entoaram o seu nome nos estádios e lhes elogiaram as qualidades técnicas e táticas só ao alcance de poucos.


A história do futebol está cheia de casos iguais ao de Paul Gascoigne. Quem não se lembra do genial norte-irlandês George Best, melhor jogador do mundo em 1968, ano em que levou o Manchester United à vitória na Taça dos Campeões Europeus sobre o Benfica de Eusébio, para quem o futebol de alto nível acabou antes do tempo e o final da vida chegou antes dos 60 anos, fruto de uma vida cheio de álcool e mulheres. É dele a arrepiante frase: “Em 1969 deixei o álcool e as mulheres; foram os piores 20 minutos da minha vida.”


O Brasil também teve o seu génio caído em desgraça: Garrincha, o único brasileiro que nos anos 50 e 60 disputava o trono ao rei Pelé. Era um atacante fabuloso, capaz de fazer jogadas incríveis, dribles inesquecíveis, mas que nunca conseguiu derrotar o álcool, que o levou para a morte em 1983, impedindo-o de chegar aos 50 anos.
Em Portugal, a gente ligada ao futebol lembrar-se-á de Vítor Batista, um jogador acima da média, que jogou com a mítica equipa de Eusébio nos anos sessenta. Vitor Batista tinha tanto de génio como de louco. Era um excêntrico e um dia interrompeu um Sporting-Benfica para pôr toda a gente a procurar um brinco que lhe havia caído para o relvado. Também acabou aos cinquenta anos, derrotado pelo álcool e pelas drogas, em 1999.


Contemporâneo de Paul Gascoigne é Diego Armando Maradona, o mais fabuloso jogador que vi jogar. Campeão do Mundo em 1986, no México, pela sua Argentina, Maradona também sucumbiu às malhas do vício, em especial à cocaína. Fez tratamento e teve recaídas. Pelo menos duas vezes já esteve perto da morte, mas tem-se conseguido reequilibrar e parecem longe os tempos em que a degradação física, moral e social parecia ser a sua estrada.

Paul Gascoigne é só o último exemplo de uma longa lista de futebolistas que conheceram a fama, a glória, uma vida luxuosa, mas acabaram de um modo chocante e degradante.

Hoje o desporto faz e desfaz heróis quase à velocidade da luz. Poucos conseguem entrar no coração dos fãs como Maradona, Gaza ou Garrincha, mas seriam interessante que os heróis de hoje não nos dessem mais desgostos no futuro.
Gabriel Vilas Boas