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quinta-feira, 30 de junho de 2016

O DIRETOR QUE DURA, E DURA, E DURA…


Com a concretização da política dos Agrupamentos de Escola, o poder executivo das escolas passou a ser assumido pelo Diretor, eleito nominalmente.
Ser Diretor de uma Escola ou de um Agrupamento de Escolas é bem diferente do que ser Presidente do Conselho Diretivo ou Executivo. Anteriormente os professores elegiam uma equipa, hoje o Conselho Geral (órgão representativo dos vários elementos da comunidade escolar) elege um diretor e ele depois escolhe a sua equipa.

É verdade que os professores perderam protagonismo na Escola (no meu entender até mais do que deviam), mas o diretor ganhou-o, nalguns casos mais do que seria necessário.
In extremis, os professores lá conseguiram “colocar” na lei que o diretor devia ser sempre um professor, mas não conseguiram evitar que o cargo se tornasse mais político, mais de um gestor do que de um professor, mais propenso a jogos de poder, mais fechado a um grupo restrito de pessoas.
Para se candidatar a um cargo de diretor, um professor tem de fazer prova de um percurso académico na área de gestão escolar e/ou ter comprovada experiência na gestão de escolas. Por outras palavras, precisa de já ter estado na direção de uma escola e ter um curso de gestão escolar. Como a ambição de um professor é (ou devia de ser) ensinar, a esmagadora maioria dos professores portugueses falham logo nos requisitos.

Por outro lado, nada na lei impede que os diretores se “perpetuem” no poder, pois não há limitação de mandatos. A isto acresce uma forma de eleição, através do Conselho Geral, cuja representatividade não me parece a mais justa. Em muitos Conselhos Gerais, o poder político tem uma representatividade injustificada, o que leva as lutas políticas locais para dentro da escola. Outras vezes, as associações de pais detêm um poder eletivo bem superior à sua representatividade.
É claro que os diretores não têm culpa de uma lei que lhes facilita a permanência sine die no poder, mas é certo que dela beneficiam. E as escolas/agrupamento de escolas beneficiam com um diretor que dura, e dura, e dura… mais do que as pilhas Duracell?
Quando os professores conseguiram meter a sua lança em África na legislação que institucionalizou a figura do diretor eleito por um conselho geral não foi para que o critério pedagógico sempre se sobrepusesse ao critério da gestão pura e dura?

Uma escola ou agrupamento de escolas beneficia sempre que o poder se sabe renovar. Um Presidente da República só pode fazer dois mandatos consecutivos e em Portugal nunca houve ninguém que tivesse feito um terceiro passado algum tempo, apesar de a República já levar mais de cem anos; um Presidente de Câmara já só pode fazer três mandatos consecutivos e a maioria dos portugueses concorda com isso. Por que raio havia de ser diferente com os diretores das escolas?

Recentemente os diretores das escolas propuseram ao governo a transformação da organização dos períodos avaliativos do ano letivo de trimestres para semestre. Podiam ter acrescentado à proposta a limitação dos mandatos do diretor. Afinal a missão dum professor é mesmo e só ensinar...


Gabriel Vilas Boas

quarta-feira, 29 de junho de 2016

UM ANO LETIVO EM DOIS SEMESTRES



Dividir o ano letivo em dois semestres é uma proposta dos diretores escolares. Parece-me uma boa proposta, feita com razoabilidade e que pensa a organização do calendário escolar em função da escola e não das tradicionais festividades religiosas.
Apesar de a ideia ser boa, não custava nada aos diretores escolares tê-la posta à consideração de professores, pais, alunos e auxiliares de ação educativa. Estou certo que chegariam à mesma conclusão, mas com uma legitimidade diferente. Não vale a pena andar sistematicamente a criticar o Ministério da Educação, que altera regras a meio do ano letivo sem dar cavaco aos diretores escolares, e depois fazer algo de semelhante com aqueles que dirigem diretamente.

Feito o reparo, debruço-me sobre os méritos da proposta. A primeira grande vantagem é não ter períodos de avaliação assimétricos e que “enganam” professores e alunos face aos momentos-chave na avaliação dos alunos. A assimetria dos vários períodos escolares desengonçava o ritmo de aprendizagem dos discentes e isso sentia-se nas escolas portuguesas.
Por outro lado, a atual fórmula de avaliação é algo perversa, pois muitos alunos chegavam ao terceiro período com a sua situação escolar, quanto à transição de ano, praticamente definida, pois dois períodos positivos ou dois períodos negativos davam ao discente a inclinação mais do que óbvia de qual seria a sua nota. Perante este cenário, alguns tornavam-se facilmente desleixados quanto aos seus deveres escolares, sentido que a positiva já não lhes fugia ou que era pouco possível. No caso dos alunos com várias negativas, a sensação de que iam repetir o aluno fazia muitos deles descarregar a sua frustração em comportamentos desadequados, quando não agressivos e violentos face a colegas, auxiliares e professores.
Com um ano letivo dividido em dois semestres, todos os alunos “estão em jogo” até final do ano letivo e nenhum pode dormir à sombra dos louros alcançados, pois uma segunda nota pode desmentir, por completo, uma primeira avaliação positiva.
Claro que esta possível alteração, que eu penso pacífica entre a comunidade educativa, há de pôr a população e os media a discorrer doutamente sobre o assunto (provavelmente para criticar, pois só assim há polémica e a conversa avança), porque é sabido que sobre educação e futebol toda a gente sabe como é e se acha no direito de explicar como se faz.
Perante este possível novo cenário de organização de ano letivo é importante perceber que tal acarreta algumas mudanças lógicas para as quais devemos estar preparados: diminuição das pausas letivas do natal e da páscoa (muito dificilmente justificaríamos mais de dez dias no natal e uma semana na páscoa, não havendo reuniões de avaliação), aumento para dez dias da pausa do Carnaval, pois será sempre por essa altura que se faria a avaliação do primeiro semestre. No final, os períodos de paragem seriam semelhante aos que agora temos, mas com uma organização, obviamente, diferente.
Isto destrói a tradição? Claro que sim, mas todas as tradições começaram por ser… inovações.

Gabriel Vilas Boas

terça-feira, 28 de junho de 2016

O IMPREVISÍVEL ESTÁ À ESPERA DE UMA OPORTUNIDADE



No dia 28 de Junho de 1914, o arquiduque da Áustria, Francisco Fernando, era assassinado nas ruas Sarajevo. Esse assassínio desencadeou uma série de acontecimentos que fizeram eclodir a guerra na Europa seis semanas mais tarde. O arquiduque e a mulher tinham vindo a Sarajevo para assistir a manobras militares na capital da Bósnia-Herzegovina, que fora anexada pela Áustria em 1908 e não podiam ter escolhido pior data, pois em 28 de Junho de 1389, o reino da Sérvia tinha sido conquistado pelos turcos na batalha de Amselfelde. A presença de Francisco Fernando soava-lhes a um insulto e a uma provocação. Os membros do grupo terrorista Mão Negra aproveitaram a oportunidade para o matar. A partir desse dia a Europa nunca mais voltou a ser a mesma e poderosos impérios acabaram por ruir, transfigurando por completo o mapa da Europa.
Claro que a Primeira Grande Guerra Mundial não aconteceu por acaso. A insatisfação de vários povos era evidente e por toda a parte cresciam os movimentos extremistas que ampliavam essa insatisfação.

“Cada povo é ele e a sua circunstância”, dizia Ortega Y Gasset, por isso é preciso conhecer bem a maneira de ser de cada povo, quando lhe criamos uma circunstância que os apouca e os constrange. No rescaldo da votação dos ingleses favorável ao brexit, Paulo Portas disse sem rodeios: “Receio que isto seja o princípio do fim da União Europeia, porque ninguém consegue convencer os ingleses que não conseguem caminhar sozinhos.”
Ainda que quisessem (e não estou certo que mesmo depois de caírem na realidade o queiram), os ingleses não voltarão com a palavra atrás. Está em causa a sua honra, a sua credibilidade institucional. É certo que eles não mediram bem o alcance do seu passo como é certo que os restantes países da União Europeia nunca pensaram nessa possibilidade. A burocrata União Europeia, tal como está, não encanta nem seduz nenhum povo. Mais parece uma confederação dos grandes fundos financeiros, cujo rosto ninguém conhece. Os povos sofrem com ela, desentendem-se por causa dela, sentem-se escravos dos seus injustos mecanismos financeiros e não lhe vêem grande utilidade. No entanto, esta entidade sem rosto e odiada por muitos europeus conseguiu uma coisa fantástica: todos têm medo de estar fora dela. Conseguiu amarrar de tal modo os Estados a uma economia de empréstimos e dívida que há um receio fundado de que quem quiser sair vai penar e muito.
O Brexit estoirou o frágil e cínico compromisso entre os países da União Europeia. Eis-nos chegados ao mundo do imprevisível. A oportunidade é esta e é ideal. A partir de agora pouco há a fazer, porque tal como aconteceu em 1914 ninguém imagina o que pode acontecer. Vagas de violência? Xenofobia? O regresso a uma Europa de fronteiras, onde cada um trata da sua vida?Ninguém sabe, mas o processo está em marcha.
Quem não aprende com a História arrisca-se a vê-la repetir-se, na sua pior versão. Os líderes políticos da Europa do século XXI parecem aquelas crianças que, depois de uma asneira grosseira, lamentavam não terp prestado a devida atenção à fábula que a mãe lhes contara uns anos antes.

Gabriel Vilas Boas

segunda-feira, 27 de junho de 2016

NECESSIDADES EDUCATIVAS ESPECIAIS


Uma escola de qualidade!
 Ultimamente, este argumento tem sido muito esgrimido pelos professores, pais, alunos e diretores das escolas do ensino privado e cooperativo, para justificar a continuação da subsidiação de várias turmas do ensino privado.
Mas o que é uma escola de qualidade? E quem deve ter direito a ela? A resposta parece evidente: uma escola que faz crescer os alunos, que os torna melhores. Essa escola deve estar ao dispor de todos.
Hoje queria recordar que nesses todos também cabem os alunos com Necessidades Educativos Especiais. Talvez a designação seja um pouco estranha para quem está um pouco desfasado dos assuntos relativos à Educação, mas estes são aqueles alunos a quem é reconhecido um atraso mais ou menos profundo no seu processo de desenvolvimento cognitivo, que os impede de acompanhar, no mínimo, o ritmo de aprendizagem dos restantes colegas. Depois de um relatório psicológico e de outro de um pedopsiquiatra, uma comissão especializada propõe o aluno para a Educação Especial, sendo definido um Programa Educativo Individual, onde (conforme cada caso), são definidas várias medidas, que podem ir de simples adequações curriculares e adequações ao processo de avaliação até à definição de um currículo específico individual.

Em Portugal, há quase oitenta mil alunos com Necessidades Educativas Especiais. Por estes dias, nas escolas públicas portuguesas (porque nas privadas estes alunos são geralmente rejeitados), centenas de professores reveem dezenas de milhares de processos, tentando, pelo menos, manter a maior destes alunos dentro deste programa de assistência mínima.
O Ministério da Educação manda dizer que o número de alunos tem de diminuir, que eles custam dinheiro, que uma escola com X alunos, não pode ter mais de Y alunos com NEE, como se tal coisa fosse possível ver por este prisma.
A verdade é que estes alunos estão muito mal apoiados nas escolas portuguesas. Alguns agrupamentos com mais de 2000 alunos, onde 8% tem NEE, dispõem apenas de um psicólogo e uma equipa de professores especializados que não chega a dez elementos. No agrupamento onde dou aulas, o rácio é 17 alunos por cada professor. Ora, estamos a falar de alunos que precisam de um forte apoio individualizado, que têm carências cognitivas, sociais, afetivas, médicas, psicológicas. Por vezes um único aluno “consome” quase todo o horário de um professor. 

Estamos a falar de gente que provém de famílias pobres ou muito pobres. Para estes, o Estado oferece um professor especializado, na maioria dos casos, duas horas por semana. No resto do tempo o aluno vai às aulas, com os colegas da turma, mas pouco aprende pois o desfasamento para os outros alunos é muitíssimo. 
Sobra a enorme solidão dos cantos da escola, a tristeza de um corpo a crescer num mundo que compreende muito mal.
As direções das escolas, os professores de educação especial, os pais destes 80 mil alunos lutam todos os anos pelo futuro pessoal e educacional destas crianças, pedindo nada mais que as migalhas que possam cair do orçamento do Ministério da Educação. Um Ministério da Educação que obriga muitas destas crianças a fazer exames nacionais, que nega formação aos professores, que retira docentes especializados a meio do ano letivo sem qualquer explicação, que investe zero euros em recursos materiais e no fim diz-se defensor de uma escola inclusiva. Claro que é inclusiva… eles vão à escola! E é tudo! Uma escola inclusiva como o Ministério da Educação entende faz parte da lei geral. O que eu queria era uma escola de qualidade para estas crianças, ou seja, uma escola que lhes permitisse crescer a vários níveis.
Quando alguns professores, diretores de escola e pais falam do direito a uma escola de qualidade, apetece-me perguntar-lhes quanto qualidade acrescentaram eles a este tipo de alunos. Não têm vergonha de ficar com recursos que lhes deviam ser destinados?

Gabriel Vilas Boas

domingo, 26 de junho de 2016

E O QUE É QUE EU GANHO COM ISSO?




Quantas vezes já ouvimos esta resposta e ela significou um enorme balde de água fria sobre as nossas pretensões? Algumas, por certo.
Não acontece muitas vezes, mas algum dia acaba por chegar a nossa vez de fazer algo desinteressadamente, no trabalho, na comunidade em que nos inserimos, na associação de pais da escola dos nossos filhos. Convocamos os amigos mais confiáveis, disponibilizamos tempo e dinheiro, enchemo-nos de positivismo e orgulhamo-nos antecipadamente daquela solidariedade que víamos nos filmes. Até que aquela gargalhada insensível nos esbofeteia as ideias: “E o que é que eu ganho com isso?”
Apetece-nos gritar-lhe a nossa indignação: NADA. Mas estamos demasiado feridos para dizer algo.

Com um enorme sorriso amarelo, engolimos a deceção daquela resposta materialista e egoísta, normalmente embrulhada numa gargalhada revoltante, arrumamos o nosso projeto filantrópico no baú das ideias tontas e ficamos umas horas a deglutir a vacuidade da alma humana.



É então tão claro para nós que nem tudo na vida se quantifica ou materializa.  Percebemos a pobreza daquele “o que que eu ganho com isso?”, mas não vemos que aquele amigo ou amiga fomos nós uns anos antes, que a nossa tristeza de hoje foi a de outros ontem.
Talvez precisemos de afastar esse último sintoma de vaidade e egocentrismo, para não desistir de uma boa ideia. Talvez seja apenas a nossa persistência e coragem a única maneira de fazer ver ao nosso parceiro que ele também tem muito a ganhar com um trabalho/projeto, cujo lucro não se traduz em euros.
Nada é mais invejável do que a satisfação estampada no rosto dos outros. O nosso amigo perceberá logo que ganhámos alguma coisa de relevante com aquele projetozinho cheio de boas intenções.
 É nessa altura que as moedas perdem brilho, a inquietação cresce e ele resolve pegar no dicionário para rever o conceito da palavra “ganhar”, porque pressente que o nosso se escreve com maiúscula e o dele com minúscula, além de outras evidentes diferenças.

Gavb

sábado, 25 de junho de 2016

EU SOU O TEU CARVÃO


Hoje Moçambique completa 41 anos de vida. 
Quatro décadas de uma caminhada difícil, mas saborosa, tendo a liberdade como guia.
 A terra de Eusébio produziu excelentes pensadores como Mia Couto e Craveirinha. Ambos escreveram textos de uma beleza e profundidade enormes que nos tocam a alma e nos ajudam a perceber a essência do ser humano à luz de um pensamento tão puro como o do africano.  
Hoje proponho-vos um poema de Craveirinha - Grito Negro. Nele, o primeiro autor africano a vencer o Prémio Camões (1991) recorda os tempos em que o africano era tratado por "carvão" pelo colono português, numa alusão ao seu tom de pele, mas também à sua pouca importância. No entanto, o maior poeta de Moçambique mostra como o negro era a fortuna ("mina") do seu senhor ("patrão") e lamenta a exploração indigna de que o negro era vítima. Felizmente deixamos de procurar aquela mina sem riqueza e deixamos que o carvão ganhasse a forma de diamante. O calor daquele sorriso livre e puro é a maior riqueza que Moçambique nos pode dar. 
Esse carvão já não vive no chão, esse carvão já não precisa de arder em mágoa e revolta,  esse carvão é um diamante que aquece qualquer coração.

Grito Negro
Eu sou carvão!
E tu arrancas-me brutalmente do chão
e fazes-me tua mina, patrão.
Eu sou carvão!
E tu acendes-me, patrão,
para te servir eternamente como força motriz
mas eternamente não, patrão.
Eu sou carvão
e tenho que arder sim;
queimar tudo com a força da minha combustão.
Eu sou carvão;
tenho que arder na exploração
arder até às cinzas da maldição
arder vivo como alcatrão, meu irmão,
                                                          até não ser mais a tua mina, patrão.

Eu sou carvão.
Tenho que arder
Queimar tudo com o fogo da minha combustão.
Sim!
Eu sou o teu carvão, patrão.

Craveirinha

sexta-feira, 24 de junho de 2016

AFINAL ELES SEMPRE SAÍRAM


Afinal, os britânicos sempre tiveram coragem para dizer bye-bye à União Europeia. A vitória do «Não» no referendo sobre a permanência do Reino Unido na União Europeia abalará não só as relações da Inglaterra com os outros países da União como porá a nu as fragilidades do projeto europeu.

Este «Não» marcadamente emocional trará consequências imprevisíveis também para os ingleses, mas pressentia-se que era algo que eles queriam fazer. Está feito. Agora resta aos verdadeiros detentores do poder dentro da União Europeia (Alemanha, França, Holanda, Dinamarca) definir que Europa vão patrocinar. Ou aprofundam a união, contribuindo para políticas de desenvolvimento sustentado dos países mais pobres, favorecendo a criação de emprego, defendo a proteção social dos cidadãos europeus, ou aprofundam a desintegração, dividindo a União Europeia entre os ricos do norte e os pobres do sul.

Há ainda a possibilidade de fazer de conta que nada se passou e seguir em frente. Essa solução só nos levará mais rapidamente para o precipício da desintegração. Se ela ocorrer, será um processo doloroso e desordenado, em que os conflitos e as tenções sociais se podem descontrolar.
A saída do Reino Unido obriga a Alemanha de Merkel a decidir-se. A França de Hollande está mais próxima de Portugal, Espanha, Itália, Grécia. Com a saída do Reino Unido, a economia holandesa leva um rombo considerável…
Talvez a Alemanha não tenha arcaboiço nem vontade de arrastar tanta divida acumulada pelos seus parceiros europeus, talvez até pense que mais vale ser ela a abandonar o euro, retomando marco. Não creio, pois nesse caso não seriam apenas os países pobres perder muito.
            Mais cedo que suporíamos a Alemanha vai ter que decidir se perdemos todos um bocado ou se perdemos todos um bocadão. Quanto mais esperarmos pela decisão mais a conta vai aumentar.
Gabriel Vilas Boas

quinta-feira, 23 de junho de 2016

A SARDINHA DO SÃO JOÃO E A BOLA DA TELEVISÃO


A esta hora milhares de portuenses e bracarenses devem estar frente a frente com uma deliciosa sardinha assada enquanto deitam o olho ao bailarico e esperam pelo fogo-de-artifício. Provavelmente muitas conversas giram em torno do europeu do futebol, que por estes dias decorre em França, e da fraca participação da seleção portuguesa.
Hoje dei comigo a pensar nas rainhas esquecidas das duas festas: a sardinha e a bola do europeu (“Beau Jeu” – Joga Bonito). Sem elas não haveria jogo nem festa. E em dias de festa quase ninguém quer saber das mãos que as trouxeram ao palco de todas as atenções. Por isso proponho-vos um pequeno exercício de reflexão.


A bola da Adidas que Ronaldo, Iniesta ou Muller tratam de forma tão artística custa 140 euros no mercado europeu, mas é produzido manualmente em Sialkot, no Paquistão, onde o trabalho infantil é uma realidade e as empresas não pagam mais do que o salário mínimo local. Se um paquistanês quisesse comprar um Beau Jeu tinha de trabalhar um mês e meio para ter no bolso os 140 euros que a Adidas pede pela bola oficial do europeu 2016.


A sardinha que alguns agora têm na boca deve-lhes ter custado entre 1 euro a 1,50 euros. Dizem os entendidos que o cabaz das sardinhas sobe exponencialmente nestes dias. É verdade. Normalmente um cabaz de 400 sardinha pode custar, um mínimo, de 10 euros e, nesta altura, do ano o preço pode chegar (e chega) aos 100 euros. Mesmo tendo em conta o preço mais alto, pagamos quatro a seis vezes mais o preço a que a sardinha sai da lota. Imaginem ao preço que cada sardinha fica em lota, em época de menos procura… menos de cinco cêntimos a sardinha.


Ontem, o JN acompanhou um grupo de pescadores que passou a noite na pesca da sardinha. No final de 13 horas de faina, um pescador levou para casa 15 euros. Um euro e quinze cêntimos por hora foi tudo o que ele ganhou. Se por esta hora for à Ribeira e lhe pedirem quinze euros por meia dúzia de sardinhas, um copo de vinho e uns nacos de broa, é possível que perca toda a vontade de festejar o santo padroeiro da sua cidade e nem fique para ver o fogo sobre o rio. Cada martelada que apanhar dos foliões de ocasião terá o peso desta gigantesca injustiça social, fruto de um “sistema que nos consome e aleija”, como cantava Jorge Palma.


O cabaz da sardinha chega a 100 euros por estes dias, mas o pescador da reportagem do JN continua a receber como se ele tivesse custado 10 euros. Ele foi para o mar ontem. Arriscou a vida por uma dúzia de sardinhas. Para ele não há sonho nenhum desenhado no céu da Ribeira como não há sonho nenhum para as mulheres de Sialkot, que cosem as bolas da Adidas.
A europa continua como no tempo do Império Romano: pão e circo. A maioria de nós está nas bancadas, contentinho da vida, vendo os chutos na Beau Jeu, discutindo as birras do Ronaldo ou do Ibrahimovic, enquanto nas masmorras os escravos da era moderna engraxam as chuteiras dos novos gladiadores ou servem sardinhas nos santos populares.
Gavb

quarta-feira, 22 de junho de 2016

"RETER O ALUNO NÃO É SOLUÇÃO!" ENTÃO, QUAL É A SOLUÇÃO?


Enquanto Diretor de Turma entreguei hoje os registos de avaliação dos alunos da minha direção de turma. Cerca de 90% dos alunos transitaram. Pais, alunos, professores sabem perfeitamente que mais alguns deviam ter ficado retidos, no entanto, várias circunstâncias acabaram por ditar a sua transição. Foi a melhor solução? Provavelmente, foi a menos má.
Mesmos os professores da velha guarda já se renderam à evidência do sistema: reprovar o aluno, raramente melhora o seu rendimento escolar. Nos anos seguintes, o aluno repete a atitude desinteressada, continua desatento, desmotivado, relapso nas suas obrigações. Se for colecionando “chumbos”, provavelmente vai tornar-se também num problema de comportamento, pois a disparidade etária dentro da sala de aula aumenta assim como a sensação de frustração e impotência perante o insucesso.

E fazer transitar o aluno, resolve algum dos seus problemas? Na verdade também não resolve. Na maioria dos casos, o aluno acomoda-se ao facilitismo da sua transição quase administrativa, enquanto professores e colegas vão moendo, desgostosos, a mágoa da injustiça. O trabalho e o empenho desce de intensidade e qualidade e passados alguns meses estão todos a fazer o mínimo.
Como sair deste nó que afunda a escola portuguesa? Em conversa recente com a colega Anabela Magalhães, professora de História do meu agrupamento, convergimos numa opinião: os alunos deviam transitar (salvo raras e evidentes exceções), mas ostentando na sua caderneta as reais notas que foram obtendo em cada ano letivo. No final do seu percurso escolar, além do certificado de frequência do ensino obrigatório, levavam consigo o nível de conhecimentos adquiridos ao longo dos anos em que frequentaram a escola, quer ele fosse um nível de excelência ou um nível a raiar a mediocridade.
Ao longo do seu percurso escolar os alunos disporiam, todos os anos, de reais oportunidades de “acertar o passo” com os colegas, disponibilizando a escola recursos humanos e materiais para que o aluno recuperasse o seu atraso de aprendizagem. O aluno frequentaria esse apoio, individual ou em pequenos grupos, se assim o entendesse.

Obrigar, punir, ameaçar são ações largamente infrutíferas em educação. Envolver, trabalhar em equipa, responsabilizar são, no meu entender, ações mais produtivas face ao contexto social em que vivemos.
A escola deve deixar a obsessão do resultado, do sucesso ilusório dos números e das estatísticas, para se centrar na qualidade e modernidade daquilo que ensina. Ter a coragem de rever métodos de ensino e programas das disciplinas, cultivar no aluno o gosto por aprender, pela descoberta, pelo conhecimento, independentemente do resultado final.
Passar ou chumbar é só relativamente importante, porque realmente importante é saber e saber fazer.

Gabriel Vilas Boas  

terça-feira, 21 de junho de 2016

O DREAM TEAM DE CARAVAGGIO EM MADRID



Se somos capazes de nos deslocar a uma cidade europeia para ver um jogo de futebol que passa em todas as televisões do mundo, também devemos ser capazes de nos deslocar a uma capital da Europa para apreciar as melhores gravuras de um pintor de excelência, como é Caravaggio, quando um Museu as reúne, para gáudio dos apreciadores de arte, apesar de múltiplas reproduções dessas obras passearem pela internet. Como diriam os apreciadores do futebol, ao vivo é outra coisa!

Doze dos melhores quadros do pintor italiano Caravaggio estão, durante o verão de 2016, à disposição dos visitantes do museu Tyssen-Bornemisza, em Madrid, em paralelo com mais de quatro dezenas de quadros de Pintores do Norte da europa que se inspiraram em Caravaggio. Também por isso, a proposta do Thyssen-Bornemisza é interessantíssima. Além de perceber toda a modernidade, estilo e técnica de um pintor extraordinário, é possível entender como este influenciou pintores tão famosos como Vermeer, Velasquez e Rembrandt.

Esta exposição do museu madrileno é a mais importante mostra de Caravaggio fora de Itália alguma vez realizada. Os apreciadores do milanês podem confirmar in loco o inimitável claro-escuro que Caravaggio consegue expressar como nenhum outro pintor, assim como a maneira como liga profano e sagrado na sua obra, ao inspirar-se em figuras mundanas para retratar personagens como Maria, os apóstolos e os santos.
Quem for ao Thyssen durante este verão verá um Caravaggio que explora tanto a violência e a morte como o amor e a penitência.

O pintor controverso e de vida curta revela nos seus quadros uma enorme capacidade de surpreender, de se superar, inovando na técnica e no estilo, mas conseguindo quase sempre pintar obras maravilhosas e únicas. Tão únicas que é muito difícil convencer os curadores do Hermitage, da galeria Uffizi de Florença ou do Metropolitan de Nova Iorque a libertarem as pérolas de Caravaggio que lhes pertencem. Felizmente, Guillermo Solana conseguiu-os convenver e por isso é possível desde o início desta semana ver raridades de Caravaggio como “A Adivinha” ou “O Martírio de Santa Úrsula”. 
Gabriel Vilas Boas

segunda-feira, 20 de junho de 2016

A MAGIA DA MEDIEVAL DUBROVNIK


A liberdade não se vende, nem por todo o ouro do mundo.
Esta é a divisa que domina a entrada de Dubrovnik, cidade da costa dálmata fundada do século VII.
A «pérola do Adriático», temível potência marítima que rivalizou com Veneza até ao século XVIII, soube conservar sempre a sua autonomia, até à invasão de Napoleão em 1808.
Certo dia, o dramaturgo irlandês Bernard Shaw chamou-lhe “paraíso terrestre” e Dubrovnik faz por merecer o elogio. Até 1991, esta cidade croata conservava, por detrás das suas imponentes muralhas, igrejas, mosteiros, palácios de estilo gótico, renascentista e barroco que atraiam milhões de turistas todos os anos. No entanto, nesse fatídico outono de 1991, mais de duzentos projeteis do exército sérvio de Milosevic danificaram 563 dos 824 edifícios existentes. 


Esses bombardeamentos do exército sérvio foram uma resposta à declaração de soberania da Croácia e levaram a UNESCO a inscrever a orgulhosa e bela Dubrovnik na lista de património mundial em perigo.
Sete anos mais tarde, um exército de arquitetos, escultores e restauradores levaram a cabo um trabalho extraordinário de recuperação dos edifícios danificados pela guerra dos Balcãs, permitindo que a pérola do Adriático voltasse a reluzir intensamente.
O que não foi possível recuperar foram os treze mil mortos e grande parte dos quarenta mil feridos que seis meses de guerra causou entre a população croata.

Talvez as grandiosas belezas de Dubrovnik ajudem a sarar as feridas de uma guerra fratricida que marcou o final do século XX, na Europa. 



domingo, 19 de junho de 2016

A DIFERENÇA NÃO SE TOLERA, RESPEITA-SE


Quando se debate um tema, se discutem ideias ou trocam argumentos, pensamos, com frequência, que o objetivo é ganhar o debate ou “ver quem tem razão”. Muitas vezes não é disso que se trata! Todos os assuntos podem e devem ser discutidos, mas perdem interesse para mim quando aquilo que se pretende é aniquilar a liberdade individual do outro.
A liberdade do outro é tão inegociável como a nossa. Infelizmente, muitos de nós só percebem isso quando alguém se quer apossar da sua liberdade. É uma tentação ingénua mandar na vontade do outro. Quanto muito, podemos mandaremos no outro, mas isso só nos desqualifica.
Quer queiramos quer não, as pessoas de qualquer sociedade são diferentes. Quando pertencemos a um grupo maioritário tendemos a dar ares de grandes senhores, tolerando a diferença, aceitando a diferença. A diferença não é coisa que se tolere, a diferença respeita-se. A tolerância não é um valor que se deva aplicar à diferença. Falar de tolerância aplicada à diferença é uma arrogância de carácter tremenda e não contém qualquer bondade.

Então não devemos tolerar? Sim, devemos tolerar o excesso de velocidade ocasional, um excesso de linguagem impróprio e extemporâneo que rapidamente percebe a sua falta, um egoísmo esporádico, mas não podemos aplicar o conceito a alguém que afirma ser comunista, gay ou benfiquista no Porto.
Irritam-me solenemente comentários do género “Mário Nogueira, esse comunista, que nunca foi outra coisa que não sindicalista toda a vida e nunca deu aulas.” Mas há problema em alguém ser comunista? É algum crime ser sindicalista? É por causa dos sindicatos que alguns não trabalham em clima de escravidão. E se Mário Nogueira é sindicalista há vinte anos, à eleição dos seus colegas o deve, só a isso. O mesmo raciocínio se aplica a frases como “Só tens um problema, és do Benfica!”, “Eu logo vi que eras de Lisboa!”, “Coitado, não sabe mais, é preto!”. Este tipo de tolerância é arrogância. O lugar dela é no caixote do lixo.
Gozar com o outro é sempre feio, quer seja de modo abrutalhado quer seja usando uma fina ironia cortante. “Ao menos sou sincero!” – Claro que sim! É sinceramente preconceituoso e assumidamente arrogante. Só isso.
Revela pouco crescimento pessoal precisarmos que alguém nos ponha na pele de um negro, uma lésbica, um adepto de um clube derrotado, para percebermos que a nossa posição minoritária é tão digna como outra qualquer.

Há pessoas que só percebem isso quando emigram, outras que nunca percebem. É chamado síndrome do Peter Pan.
gavb

sábado, 18 de junho de 2016

FALTAM RECURSOS OU FALTAM PRINCÍPIOS?

 Os dois, obviamente, mas como diria um amigo, desde que haja vontade, o dinheiro aparece. Para a falta de princípios é que o remédio é mais raro.
Adriano Moreira dá hoje uma entrevista ao DN que é uma autêntica aula de humanismo e lucidez. Na parte final da entrevista, o jornalista questiona-o sobre o Estado Social e o antigo líder do CDS explica como o Estado Social não é contrário aos mercados, à iniciativa privada, mas a sua marca de água são os valores.
Um Estado é antes de mais uma sociedade e esta define-se pelos seus valores. É em redor deles que se organiza, que faz sacrifícios, concessões e, sobretudo, toma opções.


É certo que Portugal não tem dinheiro. O que faz é endividar-se mais e mais. O problema é que se endivida para salvar bancos de gente corrupta. Salva aquilo que não merece ser salvo, porque se perdeu propositadamente. O que lucraram os portugueses com o Novo Banco, com o dinheiro injetado e perdido no Banif ou com a incorporação do BPN na Caixa Geral de Depósitos? Viram os seus salários diminuir 20%, os impostos aumentarem em bens essenciais, muitos concidadãos ficarem no desemprego. E agora veem a CGD a precisar de uma injeção de capital brutal, porque anteriores administrações andaram a conceder créditos malucos a amigos do poder, que sabiam que jamais seriam pagos.

E se esse dinheiro tivesse sido aplicado no Estado Social? Toda a gente diria que tinha sido um regabofe de facilidades e que agora estávamos todos a pagar com língua de palmo tamanha irresponsabilidade. Provavelmente os mesmos que acham impossível aumentar 1 euro por dia ao ordenado mínimo, mas absolutamente entendível que o Estado 150 milhões de euros anuais em análises clínicas e mais de 100 milhões em financiamento de escola privadas, quando manda fechar as públicas e despede professores.
Por que não se pergunta nessa altura se há recursos financeiros para tal? Haver há, aumenta-se o valor do empréstimo, que os pobres coitados que ganham 600 euros podem esperar mais uma década até que alguém lute muito para que passem a ganhar mais um euro por dia.

Caro doutor Adriano Moreira, talvez a sua suspeita sobre os princípios que regem os dirigentes políticos portugueses seja infundada. Os políticos portugueses e quem os elege têm princípios, o problema é que eles começam no “Eu” e não passam daí. Eles sabem Maquiavel de cor e salteado: os fins justificam os… princípios.

Gavb

sexta-feira, 17 de junho de 2016

O ERRO INGLÊS


E por um dia a Inglaterra emudeceu, perante a bárbara morte da deputada Jo Cox, às mãos de um monstro que tirou a mãe a duas crianças menores.
É claro que o momento político é delicado (estamos a uma semana de os ingleses decidirem, em referendo, se querem ou não continuar a pertencer à União Europeia), mas várias informações não desmentidas apontam para o facto do assassino de Jo Cox ter gritado “Britain First”, momentos antes de matar a jovem mãe. A polícia não confirma esta informação, mas também não a desmente.

Os britânicos sabem que este assassínio tem relação com o referendo. Estão surpreendidos, revoltados, chocados. No entanto, deviam aproveitar o tempo de luto que se estenderá até à data do referendo (Estou certo que não haverá grande clima psicológico para o debate entre o Sim e o Não à U.E.) para pensar por que chegaram a este ponto.
Na minha opinião, esta loucura, embora isolada, é fruto do clima do debate. A provável vitória do Brexit assentou num argumento emocional e xenófobo: pertencer à União Europeia retirou aos britânicos o poder de rejeitar o grande fluxo de migrantes que chegou à Europa no último ano. Os sírios, líbios, eritreus meteram tanto asco aos ingleses que eles ponderam seriamente abandonar a U.E. por causa disso. Querem voltar a ter o controlo, querem o país de volta, pois sim… Fossem os sírios magnatas americanos, oligarcas russos ou xeques árabes e este problema jamais se colocaria.

É verdade que a U.E. desencanta cada vez mais os europeus, tão cheia de burocracia, egoísmo, corrupção, tratamento desigual entre países, mas os britânicos sempre foram tratados com deferência pelos seus pares europeus, por vezes, até com deferência a mais.
É óbvio que os britânicos são livres de decidir o seu futuro e a sua decisão, desde que democrática, não deve ser atacada ou criticada, pois é perfeitamente legítima. O que ataco e me indigna são os argumentos dos defensores do Brexit. Eles não honram a história da Inglaterra e mostram uma arrogância cultural tola que repudio.
Se querem sair com base neste tipo de argumentação, pois que saiam. Talvez esteja na hora de os britânicos aprenderam uma lição de humildade e de a União Europeia ganhar alguma vergonha e medo para se obrigar a reformar-se, com base nos esquecidos valores que a fundaram.
Mais do que a saída da União Europeia, o grande erro dos britânicos é a arrogância e a xenofobia seletiva.

Gabriel Vilas Boas

quinta-feira, 16 de junho de 2016

FAVELA: COMO NASCER FLOR ENTRE O ENTULHO?


Dos dezasseis milhões de cariocas, um sexto (cerca de dois milhões) vive nas 500 favelas do Rio de Janeiro, que desde meio do século passado conheceram uma grande expansão e se tornaram o berço de uma violenta e incontrolada delinquência.
Agarrados, na sua maioria, aos flancos das colinas, estes bairros pobres e subequipados sofrem, regularmente, mortais deslizamentos de terras, durante as chuvadas.
Paralelamente, a jusante das favelas, as classes médias e ricas da cidade maravilhosa (cerca de 20% da população do Rio) ocupam zonas residenciais à beira-mar.



Este contraste social reflete a realidade brasileira no seu conjunto, em que 10% da população controla a maior parte da riqueza e aproximadamente metade da população vive abaixo do limiar da pobreza.
Em todo o Brasil, cerca de 12 milhões de pessoas vivem em favelas.
Nascer numa favela pode ser inevitável, mas não permanecer lá para sempre. A favela não é uma condenação perpétua. 

Por mais que os encantos da grande cidade seduzam, por mais fácil que seja um estilo de vida onde o dinheiro parece nascer na ponta da arma, a dignidade do ser humano exige a cada um uma opção de vida diferente.
A realidade já provou aos favelados que a sua degradação não incomoda aqueles que vivem em condomínios fechados, junto à praia, nem aqueles que detêm o poder. 
Não partirá destes o desmantelamento das megaestruturas sociais, onde a vida segue acorrentada à droga, à delinquência e à miséria.
Cada um terá que limpar a favela da sua vida, renascendo noutro local, onde viver faça mais sentido e tenha mais dignidade. Por mais bela que seja a flor que nasça na favela, ela será sempre soterrada pelo entulho acumulado encosta acima.
Todos os dias, dos morros do Rio e de São Paulo, escorrem vidas entre a lama e o entulho, quando apenas deviam nascer flores.

Gavb

quarta-feira, 15 de junho de 2016

O LABIRINTO DE VENEZA


Veneza não é uma ilha, mas um arquipélago de 118 ilhas, separadas por 160 canais que são atravessado por mais de 400 pontes.
O Grande Canal é a artéria principal e nas suas margens foram construídos os mais belos edifícios da cidade. Uma centena de palácios do Renascimento e da época barroca foi erigida pelos ricos mercadores venezianos e mostra a importância que estes comerciantes assumiram quando Veneza se abriu ao mundo exterior.
A partir do ano 1000, a cidade afirmou a sua supremacia no mar Adriático e, mais tarde, em todo o Mediterrâneo. Aqui foram criados várias lojas comerciais até que, nos finais do século XVII, os fluxos continentais suplantaram os fluxos marítimos. Nessa altura, Veneza desapareceu da cena comercial internacional.


Hoje, o desaparecimento pode vir a ser total: a Sereníssima poderá ser engolida pelas águas, vítima das inundações que se multiplicam por causa do alargamento dos canais, do enfraquecimento do solo veneziano e da subida do nível do mar (seis mm por ano).
A beleza labiríntica de Veneza evoca em mim o esplendor perdido da humanidade. Em cada recanto da alma humana há um tesouro escondido que corre o sério risco de perecer às mãos da boçalidade moderna: o materialismo, o egoísmo, a falta de civismo.
Por detrás de cada palácio, de cada museu ou teatro há uma história onde o talento se uniu ao sonho e à riqueza para criar sítios mágicos. Também em cada ser humano existe uma alma capaz de produzir belos monumentos de solidariedade, generosidade, amizade. No entanto, a maioria da humanidade afunda-se num labirinto de incompreensão e ódio, a uma velocidade bem superior à de Veneza.
gavb

terça-feira, 14 de junho de 2016

ESCOLA SUPERIOR DE ARTE E DESIGN, das Caldas da Rainha


Ao longo de mais de quarenta anos, o arquiteto figueirense Vítor Figueiredo projetou vários edifícios, para diferentes funcionalidades. Se nas décadas de 60 e 70 do século passado começou por privilegiar a habitação coletiva, já nos anos oitenta a sua arquitetura virou-se para os equipamentos públicos. No começou da década de noventa projetou a ESCOLA SUPERIOR DE ARTE E DESIGN das Caldas da rainha, obra que lhe valeu o Prémio Secil em 1998.
A obra de Vítor Figueiredo demorou seis anos a ser construída e nela o arquiteto nascido na Figueira da Foz pôs toda a sua arte.

Tendo por base a localização do projeto – no meio de um pinhal -, Vítor Figueiredo definiu o branco como cor elemento unificador dos vários componentes construtivos (lajes, pilares, vidros, caixilhos de janelas), conferindo ao conjunto uma unidade abstrata.
A Escola Superior de Arte e Design das Caldas é composta por dois volumes unidos por um átrio e por uma ponte. Descobre-se primeiro o volume curvo, que se ergue do solo em robustos pilares à medida que invade o pinhal, deixando intacta a topografia. Só depois se descobre o segundo volume.
Os circuitos interiores fazem-se através de compridos corredores que sublinham as perspetivas do espaço canal, pressentido entre os dois grandes espaços da Escola.

O pinhal está sempre presente no interior do edifício, filtrando a intensa luz que se reflete no branco omnipresente. À verticalidade do pinhal, o arquiteto contrapõe aquela imensa nave espacial branca (pilar, laje, viga, caixilho), na horizontal, criando uma interessante polaridade entre a natureza o edifício. Vítor Figueiredo toma a altura das árvores como referência para as proporções que escolheu para o edifício.  

O arquiteto figueirense trabalhou durante grande parte da sua vida em programas de habitação coletiva e nelas aprofundou conceitos como o da economia de meios, o que lhe permitiu apurar um processo de eliminação do supérfluo ao mesmo tempo que valorizava a “ideia”, traduzida numa única opção formal. Com a Escola Superior de Arte e Design das Caldas, inequivocamente uma das suas obras de referência, essa disciplina aparece com um sentido expressivo muito pessoal, numa espécie de síntese plena da arquitetura moderna do século XX, mas também num jogo irónico à volta do sentido de realidade da construção e respetiva função.

segunda-feira, 13 de junho de 2016

O ARTISTA É UM FINGIDOR?


Fernando Pessoa escreveu no poema Autopsicografia que o poeta é um fingidor. Todo o escritor precisa de o ser! E também o ator, o pintor, o cineasta… O artista precisa de fingir para criar! A realidade é notícia, é história e, sobretudo, é, muitas vezes, aborrecida.

No entanto, ao contrário do leitor, do espetador, do ouvinte, o artista não pode ser um fingidor amador. Fingir é a sua arte, fingir é a sua profissão e todo o seu encanto está em fazer, por momentos, os outros acreditar na verosimilhança do seu poema, da sua atuação, da sua pintura futurista. Para isso, ele precisa de viver a personagem que criou, de sorver a sua personalidade, de entrar dentro dela e fazê-la caminhar num palco ou numa folha de papel. É ele que lhe dá vida, que lhe empresta personalidade, comportamentos e sentimentos.
Quando o consegue plenamente, será que podemos afirmar que continua a fingir? Quem representa, quem escreve com frequência ou até quem pinta com regularidade e alguma qualidade sabe perfeitamente quão doloroso é o processo criativo. A dor não é nenhum fingimento. O amor, o ódio, a alegria, a revolta, a compaixão, o medo que poeta ou ator expelem das suas personagens foram vividos, muitas vezes sofridos.


É comum os escritores falarem de experiências traumáticas de escrita como é recorrente vários atores falarem com assombro das experiências que viveram (não fingiram viver) ao representar determinada peça.
Claro que essas experiências passam e os atores partem para outra história, como cada um de nós o faz com as diversas experiências por que passa na vida.
Escrever, representar, criar qualquer objeto artístico é tão sério e tão “verdadeiro” como outra coisa qualquer. Ninguém diz de um economista que tem um “jeitinho” para as contas, nem que faz uns cálculos para desenfastiar do aborrecimento da vida; ninguém desdenha da arte de um pasteleiro ou de uma cozinheira como um ócio tolo de quem tem muito tempo para desperdiçar, apesar dos bolos fazerem mal à saúde.
O artista sente a dor que finge, transmutando-se em várias personalidades, num trabalho incansável que alimenta o espírito daqueles que precisam de algo mais do que a intragável mesmice.

gavb