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domingo, 31 de janeiro de 2016

ALGO VAI MAL NA REINO DA DINAMARCA


Como um soco de gelo que te magoa a alma profundamente, a notícia de que a Dinamarca aprovou uma lei que confisca os bens aos refugiados que neste frio inverno lhe pedem asilo atingiu a minha confiança na bondade da humanidade.
A ideia dinamarquesa é desnecessária, desumana, incompreensível e sinistra. Traz-me à memória imediatamente o ritual nazi nos campos de concentração, quando os judeus chegavam para ser sugado até ao tutano antes de serem asfixiados nas câmaras de gás.

A lei dinamarquesa viola várias convenções internacionais, mas acima de tudo achincalha a dignidade daquelas pessoas que atravessaram toda a europa para pedir asilo e ajuda aos dinamarqueses. Se não querem dar asilo ou ajudar àquela gente que foge das bombas do Estado Islâmico e do carniceiro Bashar al-Assad, negam-no e pronto. Escusam de submeter esta gente que é gente como eles a mais uma humilhação, como se a matassem aos bocadinhos, fazendo-a descrer por completo de uma europa humanizada que viam na internet.

Acham mesmo que os sírios atravessaram toda europa, atolados de objetos de ouro e títulos do tesouro em bancos suíços, para “sacar” um subsídio dinamarquês de 1300 euros? O dinheiro que trazem, que pode ser algum, tem de ser administrado por longos meses ou anos e não pode nem deve ser entregue como caução. Que ajuda humanitária é esta que exige pagamento antecipado como se se estivesse em qualquer check-in de um hotel?
Andamos décadas a gabar o equilíbrio nórdico, a sua organização, a maneira como sensatamente distribui a riqueza pelos seus cidadãos para depois aparecer uma lei destas, onde revelam enorme e cruel desumanidade? É certo que os dinamarqueses, suecos ou noruegueses nunca foram um modelo de calor humano, mas “isto” só está ao alcance de corações negros e xenófobos como o do húngaro Viktor Orbán ou o do americano Donald Trump.
Neva imenso nos corações humanos e na Dinamarca eles petrificaram.    

Gabriel Vilas Boas

sábado, 30 de janeiro de 2016

SLOW TIME LOVE, Blind Zero


Passaram ontem 22 anos que os Blind Zero se juntaram pela primeira vez para criar música. A banda de Miguel Guedes, Nuno Espinheira, Pedro Guedes, Vasco Espinheira e Mário Ventura escolheu o início de 1994 para se lançar numa aventura musical que já dura há mais de duas décadas.
Poucos meses depois desse primeiro ensaio surge o primeiro EP, Recognize, que alcança surpreendentemente um enorme êxito entre o público português, encorajando a banda a editar o primeiro álbum, «Trigger», muito bem recebido pela crítica musical assim como pelo público, que o fez Disco de Ouro, caso inédito até então, para um disco de rock, cantado em inglês, por uma banda portuguesa.

Nessa altura Miguel Guedes ainda tinha cabelo comprido e a banda procurava corresponde a todas as oportunidades que tinha para se mostrar.
Desse álbum inicial, que agora completa vinte anos, faziam parte temas como “Big Brother”, “More Than Ever”, “No Soul”, “Amem”, “Keeping in Wonder”, que foram fazendo o estatuto do grupo dentro da música rock nacional.
Com a passagem dos anos, o grupo sofreu algumas alterações, mas o sucesso foi aumentando à medida que os álbuns foram saindo. O mais recente trabalho, Luna Park, contém a música do grupo que mais admiro – Slow Time Love. Esta música tem o ousado e jovem ritmo do rock, a melodiosa voz de Miguel Guedes a remeter-nos para a sensibilidade da letra, e um toque de música eletrónica que desperta os sentidos e o corpo para a pista de dança.


Slow Time Love é uma música que desafia os nossos sentidos e emoções. O início é a melhor parte, quer do ponto de vista musical quer ao nível da qualidade da letra. A ideia musical inicial surpreende-nos e a letra propõe coisas grandiosas:  
Bring down the world
I hold the map, you start a fire
We'll meet where the sun burns
Lançado o desafio, a música desenvolve um diálogo desafiante e misteriosamente sedutor, que leva o ouvinte a segui-la, sempre à espera que mais de um desenvolvimento novo ou da repetição daquele trecho inicial tão gostoso. O jogo rítmico proposto nunca deixa cair essa tensão e o mistério adensa-se até ao final inesperado e doce que nos deixa com vontade viver um amor intenso durante um tempo longo.

Gabriel Vilas Boas

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

RANZI DEVIA COBRIR-SE DE VERGONHA


A cultura de um povo não é um bem negociável, porque ela materializa e sintetiza a alma e a essência desse mesmo povo.
Durante esta semana, o presidente iraniano, Hassan Rouhami, visitou a Itália e o Vaticano, num périplo pela europa. Quando visitou a pátria de Michelangelo, o presidente italiano, Matteo Ranzi, “aceitou a sugestão” (como abomino os eufemismos da hipocrisia política) do protocolo e mandou tapar algumas estátuas do Museu Capitolino, em Roma, dado que estas exibiam a nudez, em sinal de respeito perante a cultura e sensibilidade iranianas.


Na verdade, Ranzi não se deu ao respeito e envergonhou o povo que devia representar. Nem respeitou o presidente iraniano nem respeitou o cargo que exerce.
A cultura italiana é a herdeira natural da cultura greco-latina que enche de orgulho a europa ocidental. O nu das estátuas, pinturas ou esculturas vincou (vinca) a supremacia do estético e do humanismo sobre a censura das diversas religiões.

Durante séculos, pensadores, filósofos e artistas “explicaram” aos hipócritas guardiões de uma moral restritiva e punitiva que a arte greco-latina precedeu o cristianismo ou o islamismo e por isso delas não recebia ordens absurdas ou lições de comportamento.
Um artista provoca sentidos; representa o mundo e o Homem e por isso não se submete. Ele sabe ser estético sem nunca deixar de ser ético. Demorou vários séculos, mas a Igreja Católica acabou por perceber o que era a Arte e que esta só podia funcionar num espaço de liberdade.
Quem vive e aceita as sagradas regras da liberdade, democracia e respeito entre os povos não pode censurar os outros, mas também não pode censurar-se. Se Ranzi fosse a Teerão, jamais pensaria pedir ao presidente Hassan Rouhami que permitisse ou obrigasse as mulheres iranianas a tirar a burka. Se o fizesse, estou certo que não só não alcançaria os seus intentos como também veria a sua viagem ao Irão cancelada. E, a meu ver, com inteira razão. Há pedidos que não se fazem, há sugestões que não se admitem.

O nu das quatro estátuas do museu romano é icónico, obviamente, mas não irrelevante. Ele traduz a liberdade de uma cultura e uma forma de pensar o mundo. Com a sua cobardia, Ranzi humilhou a Itália e a cultura ocidental, pois não soube explicar ao seu homólogo iraniano a humanidade e a beleza daquelas figuras nuas. Se Ranzi sente vergonha da história, da cultura ou da arte italianas não devia ter levado ao museu Capitolino o iraniano. Se este se incomoda assim tanto com o nu das estátuas italianas, então, devia também recusar fotos ao lado da estátua equestre de Marco António.
Não é assim que se estreita as relações entre povos. O medo, a falsidade, a vergonha daquilo que fomos, somos e representamos são péssimos atributos de um Presidente. Ranzi pode aproximar governos, presidentes, interesses económicos posições diplomáticas, mas jamais aproximará povos e culturas. Assim sendo, os seus esforços serão sempre infrutíferos.
Como muito bem sentencia um ditado popular: Quem perde a honra por causa de um negócio, perde o negócio e perde a honra.  

Gabriel Vilas Boas

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

ENTREVISTA A UMA PROFESSORA CONTRATADA

GENTE FELIZ COM LÁGRIMAS

Maria Alice Azevedo Costa é uma professora da escola pública que começou a lecionar em 1997. Durante quase duas décadas percorreu o país ensinando Inglês, Português e, mais recentemente, trabalhando com os alunos da Educação Especial. Natural do Marco de Canavezes, distrito do Porto, está atualmente a lecionar em Lisboa. Perto de casa só esteve sete anos, porque os outros doze passou-os em sítios tão distantes como a ilha Terceira, nos Açores, Guimarães, Gaia, Viana do Castelo, Lousada, Cinfães, Baião, Rebordosa, Paredes, Amarante, Carrazeda de Ansiães e Torre de Moncorvo.
Milhares de quilómetros percorridos, milhares de alunos diferentes pela frente, muitos obstáculos pessoais e profissionais ultrapassados, muitas lutas diárias vividas com paixão e a almejada meta da vinculação ainda por cortar. 



Os professores contratados são os mais bem preparados e atualizados professores da Escola Pública portuguesa?
Não gostaria de fazer um juízo desses, porém acredito que cada vez mais os professores contratados se preparam e atualizam mais para o exercício das suas funções. Aliás, é a este grupo de professores que são exigidas todas as qualificações e todos os requisitos. Na BCE, por exemplo, “eram” aqueles critérios todos: formação específica, experiência na área, avaliação, dinamização, etc. Até o registo criminal e o atestado de robustez física, os professores contratados têm de fazer prova. Curiosamente, entrando-se nos quadros, todos estes requisitos deixam de ser relevantes e deixam de ser solicitados.

Achas que as escolas privadas melhoram a Educação em Portugal ou apenas aprofundam as desigualdades sociais?
Não acho de todo que as escolas privadas tenham melhorado a educação em Portugal. Cumpriram apenas com a sua função. Têm recursos que a escola pública não tem. Não são escolas de massas, pelo contrário, são escolas seletivas e em alguns casos ainda beneficiam do erário público.

O teu percurso profissional enquanto professora foi atípico: primeiro professora de Inglês, depois de Português e agora professora de Educação Especial. Isso tornou-te, involuntariamente, melhor professora?
 A educação especial surgiu como mais um recurso que me complementou. À questão se me tornei melhor professora não te posso responder, pois essa avaliação deixo para os meus alunos. Todavia, consigo dizer-te que cada vivência contribui para o meu crescimento enquanto professora.

O que pensas das recentes medidas do novo Ministro da Educação quanto ao sistema de avaliação, com o aparecimento das provas de aferição e o fim dos exames do 4.º e 6.º anos?
Concordo com as medidas. Nos exames do 4.º e 6.º anos fazia-se a comparação entre o incomparável. Quanto às provas de aferição, há toda uma cultura de se desvalorizar tudo o que não é quantificável para a nota, porém poderá servir como um descritor para cada escola.


O Ministério da Educação determinou o fim da BCE (Bolsa de Contração por Escola). Concordas com esta medida? No teu entender, qual o método mais correto para a contratação de professores?
Concordo plenamente. Já vai tarde. A BCE foi o concurso mais injusto. Julgo que a lista de graduação será o método mais correto para a contratação de professores.

Achas que os vários sindicatos de professores têm feito tudo o que está ao seu alcance para vincular os professores que estão em regime de contrato há vários anos?
Não sou sindicalizada nem estou por dentro do trabalho por eles desenvolvido, mas tenho a sensação de que poderiam ser mais persistentes nesta questão.

Como resolver o problema dos professores contratados há vários anos sem causar injustiças entre eles?
Aplicando a mesma lei que obriga as empresas privadas a cumprir. Isto é, se o professor é necessário e tem três contratos com o Ministério deveria passar aos quadros, salvaguardando o caso de professores que, como eu, lecionam há quase duas décadas e que, por injustiças como a BCE e a dita norma travão, ainda permanecem contratados.

Que consequências teve para a tua família andares duas décadas a saltar de escola em escola?
A família para mim é tudo. Como deves imaginar não é nada fácil chegar ao fim de semana e fazer a mala, partir para mais de 300 kms, deixando marido, filho e pais, estes com doenças como Parkinson e Alzheimer. Levo as saudades, as preocupações, a ausência dos momentos em família. E tudo isto que levo e que pesa mais do que a mala, também fica com eles. Felizmente, somos uma família consistente que se apoia mutuamente, pois de outra forma, se calhar já a teria perdido.

Os sindicatos deviam apenas discutir com o governo questões laborais ou também deviam marcar uma posição clara quanto à política educativa que os professores defendem para a Escola portuguesa?
Acho que, se calhar, uma coisa devia implicar a outra.

Costumas sentir pressões de elementos da Direção das escolas onde lecionastes para melhorares as notas de alunos “problemáticos”, no sentido de facilitar a sua transição ou dos melhores alunos para que este atinjam determinada média?
Felizmente nunca senti qualquer pressão. Sei que as Direções têm de mostrar resultados, sei que apelam às responsabilidades de cada um de nós, mas comigo nunca nenhum elemento das Direções por onde tenho passado me pressionou para fabricar resultados.

O que achas do chamado “Ranking” das escolas?
Acho uma verdadeira farsa. Discordo com os princípios orientadores de tal comparação de resultados. É como comparar uma grande cidade cosmopolita a uma simples aldeia no interior.

As escolas públicas portuguesas têm as condições materiais necessárias para que os professores desenvolvam corretamente o seu trabalho com os alunos?
Neste momento existem as escolas que tem todas as condições físicas com bons recursos materiais e aquelas que estão no esquecimento, onde muitas vezes até o básico falta. Esta dicotomia mostra um bocadinho a realidade das nossas escolas públicas.

Que imagem fazem os portugueses do professor? Essa imagem têm em conta as diferenças entre o professor contratado e o professor efetivo?
Julgo que a grande maioria tem uma visão negativista do professor. Veem-nos como ociosos (muitos dias de férias), muito implicativos com as crianças (quando exigimos).
No que diz respeito aos professores efetivos versus professores contratados, hoje em dia não sinto tanta discriminação relativamente a estes últimos, pelo contrário, sinto que nos valorizam e apreciam.

Os professores efetivos são os “instalados” do sistema?
Não querendo ser injusta com aqueles professores efetivos que continuam a dedicar-se à sua profissão, e eu conheço alguns, na minha opinião há um número bastante significativo daqueles que se “instalaram” no sistema.
O atual modelo de gestão das escolas públicas portuguesas, que muitas vezes perpetua os diretores no poder, é benéfico ou prejudicial ao aumento da qualidade de ensino?
Acho que não é apenas o atual modelo de gestão de escolas públicas que perpetua os diretores à frente das escolas, também os anteriores modelos o permitiam. Quanto ao ser benéfico essa continuidade, é como tudo, se o diretor corresponder às necessidades da escola, esta só ganha com o seu trabalho.
Na escola portuguesa, há uma excessiva cultura da nota?
Sim, há uma excessiva cultura pela nota.
Que valências deve ter o professor atual?
O professor atual tem de amar a sua profissão, ser dinâmico, estar atualizado e ter espírito aventureiro. ;)
Ser professora faz-te feliz?
Hoje, é com tristeza que te digo que me sinto cansada e muito injustiçada. Ainda assim sinto o apelo pelo ensino, o que me leva a avançar. O meu estado de alma pauta-se pela desilusão em virtude das políticas educativas que têm sido implementadas. No entanto, há um sentimento antagónico, porque quando estou em frente aos meus alunos, quando sou professora, ensino, partilho, demonstro e aprendo. Aí sou feliz.

Vinte anos é muito tempo. Muito tempo para continuar a acreditar que um dia a vinculação vai chegar, muito tempo longe da família e com a casa às costas, muito tempo para acreditar em erráticas políticas de educação por parte dos vários Ministérios da Educação, mas também muitos dias, semanas e meses de uma profissão vivida com gosto e paixão comoventes que temos de aproveitar e agradecer. Como diria Camões, n’Os Lusíadas:
“A gente vem perdida e trabalhada
Já parece bem feito que lhe seja
Mostrada a nova terra que deseja.”


quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

A LIBERTAÇÃO DE AUSCHWITZ-BIRKENAU, 1945


«Foi graças ao maior milagre que eu sobrevivi. Em todas as casernas havia uma pequena cabina à frente, com uma caixa na qual forneciam pão. Mas a dobradiça da caixa estava solta e eu escondi-me nessa caixa virada ao contrário. Alguém veio fazer uma busca e até lhe deu um pontapé, mas felizmente eu estava tão magro que ela cedeu. Foi assim que sobrevivi. Quando eles se foram embora, os alemães, eu quis voltar para as casernas, mas os polacos e os ucranianos não me deixaram entrar. Então, escondi-me no meio da pilha de cadáveres, porque na semana anterior os crematórios não funcionavam e os corpos foram-se acumulando. E eu escondi-me no meio daqueles cadáveres porque receava que eles voltassem. Passava ali a noite; durante o dia deambulava pelo campo. Em 27 de janeiro fui um dos primeiros, Birhkenau foi um dos primeiros campos a ser libertado» - Bart Stern


O húngaro Bart Stern foi um dos sobreviventes encontrados pelo Exército Vermelho Soviético quando entrou no complexo do campo de extermínio nazi em Auschwitz-Birkenau, no sul da Polónia, a 27 de janeiro de 1945. Nessa altura, depois de ter assistido ao assassínio de mais de um milhão de pessoas, o complexo albergava cerca de sete mil prisioneiros, a maioria dos quais demasiado velhos ou doentes para se juntarem aos outros sessenta mil que tinham sido obrigados a encetar uma marcha de evacuação assassina, ordenada pelos nazis 15 dias antes.


Entre outros prisioneiros libertados nesse frio dia de janeiro encontravam-se Otto Frank (1889- 1980), pai da jovem diarista holandesa e vítima do Holocausto Anne Frank e o químico italiano Primo Levi (1919-1987), demasiado doente com escarlatina para ser evacuado. Depois de regressar a Itália, Levi passou uma grande parte do tempo a escrever sobre a sua experiência nos campos de concentração, dando origem ao extraordinário livro Se Isto É Um Homem (1947). Todavia, nem ele se sentiu qualificado para dar um testemunho completo. Mais tarde, numa entrevista, afirmou: «Nós, os que sobrevivemos aos campos de concentração, não somos as verdadeiras testemunhas. Somos aqueles que, por prevaricação, habilidade ou sorte, nunca tocámos no fundo. Os que tocaram, e os que viram o rosto da górgona, não voltaram ou voltaram sem palavras.»

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

O TEATRO RIVOLI


O Teatro Rivoli é um dos equipamentos culturais mais importantes e bonitos da cidade do Porto.
Situado numa das praças mais modernas da Invicta – a praça Dom João I – assumiu-se desde meados do século passado como a grande sala de espetáculos da cidade portuense. Pelo seu palco passam espetáculos de dança, teatro, dança, marionetas, música, ópera, cinema. O Rivoli alarga o leque de oferta cultural da cidade, pois tem uma programação complementar ao Teatro Carlos Alberto e ao Teatro Nacional São João. 
O Rivoli nasceu em 1913, como Teatro Nacional, mas as mudanças no centro da cidade obrigaram a obras e pouco anos após a sua abertura já o arquiteto Júlio José de Brito era chamado a pensar um novo Rivoli, onde a projeção de filmes também fosse possível.

Reabriu em janeiro de 1932, já com novas valências, permitindo que o teatro desse lugar ao cinema ou à dança, contribuindo para uma maior amplitude da arte portuense. No entanto, a evolução do espetáculo artístico a necessidade de uma maior comodidade por parte dos espetadores ditaram nova intervenção, na derradeira década do século XX, a cargo do arquiteto Pedro Ramalho. São criados um segundo auditório, um café concerto, uma sala de ensaios e o foyer dos artistas. Por essa altura já o Rivoli era a casa do Fantasporto e Rui Veloso já o tinha associado ao seu “Anel de Rubi”.

Durante catorze anos (1993-2007), Isabel Alves Costa assumiu a direção artística do Rivoli, transformando-o numa sala de espetáculos referência da cidade, sobretudo nas áreas da dança e do novo circo.
Quando o anterior presidente da câmara do Porto, Rui Rio, assumiu a edilidade, decidiu concessionar o Rivoli a privados, tendo a empresa de Filipe La Féria sido a escolhida para dinamizar o teatro. Ainda que debaixo de fortes protestos da comunidade artística portuense, La Féria trouxe para o Porto o seu conceito de teatro, fundado essencialmente no teatro de revista, mas o público portuense não apreciou particularmente a experiência.

Durante sete anos o Rivoli foi o centro da controvérsia do panorama cultural portuense, até que a eleição de novo Presidente da Câmara, em 2014, ditou o regresso do Rivoli à gestão pública. Integrando o Teatro Municipal do Porto juntamente com o Teatro do Campo Alegre, o Rivoli, sob direção artística de Tiago Guedes, voltou a estar ao serviço das Companhias da cidade e voltou a dar primazia à dança, sendo frequente, atualmente, encontrarmos em cartaz espetáculos da Companhia Nacional de Bailado.
No sábado passado, a direção artística do Rivoli preparou uma festa do 84.º aniversário com dezoito horas seguidas de espetáculos. Os mais novos tiveram direito à estreia nacional de Partituur, da croata Ivanna Muller – um jogo performativo que permite aos mais pequenos jogar e refletir em simultâneo. Os mais velhos tiveram direito a um espetáculo de dança – Ha – coreografado pela marroquina Boucha Ouizguen e criado a partir das quadras do poeta persa Djlaâl ad-Din Rûmi. Antes houve declamação de poesia portuguesa e depois música até às cinco da madrugada, no bar Passos Manuel, ao som do coletivo D.M.A. (Disco My Ass).

    

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

NÃO DÁ, dos D.A.M.A.


Caro Jeroen van der Boom, Deixa-me Aclarar-te a Mente Amigo, essa coisa de plagiar plagiares uma canção portuguesa cheia de estilo e musicalidade “Não Dá”. Nós sabemos que a música é gira, faz sucesso entre as raparigas, garante uns bons concertos e vende CD´s que se farta, mas “Não DÁ” para olvidar que andas a cantar a música de outros sem lhes dares cavaco. É feio, amigo, e também é ilegal.

Jeroen van der Boom, o plagiador
Eu sei que estás habituado a fazer isto com regularidade, especialmente aos ibéricos, que as leis internacionais de direitos de autor são uma treta e que quando fores chamado a assumires responsabilidades pelo teu “copianço” já terás açambarcado todo o êxito que os portugueses criaram!
Sabes, var der Boom, não deixa de ser curioso que as regras e regrinhas da União Europeia andem preocupadas com os fornos a lenha das pizzas italianas e as bolas de Berlim das praias portuguesas, mas não te apreendam os discos que vendes ou te obriguem a declarar o plágio que descaradamente cometeste.
Nós por cá também já estamos habituados a “comer e a calar”, no que à reclamação dos nossos direitos diz respeito. Entre a incredulidade e o espanto, a reação do grupo português foi ténue e não teve repercussão internacional.

Quanto à música, é já um hit nacional e revela que, afinal, os D.A.M.A. não se ficaram por aquele “Às Vezes” que nos caiu no goto há um ano e trouxe o grupo para a ribalta da música ligeira portuguesa. Pensei que seria um grupo de um êxito só e que as canções seguintes não se conseguiriam sequer aproximar daquele jeito descontraído e sedutor com que “Às Vezes” nos conquistou. Enganei-me e ainda bem. No espaço de ano e meio o êxito de sucessivos singles confirmou que os D.A.M.A. vieram para ficar. Do primeiro álbum, que tem o sugestivo nome “Uma Questão de Princípio”, devo destacar além do hit “Às Vezes”, o interessante tema “Luísa”.
O outono passado trouxe o segundo álbum, alavancado pelo sucesso de “Não Dá”. A música mantém o mesmo registo leve e adolescente de “Às Vezes”, onde a simplicidade da letra conjuga bem dois estilos musicais distintos: a balada (predominante) e breve notas de Hip hop, num encontro feliz entre o antigo e o moderno.
Quanto a ti, van der Boom, cria a tua música porque esta coisa de plagiar a dos outros NÃO DÁ prestígio nenhum.
Gabriel Vilas Boas  

domingo, 24 de janeiro de 2016

FINALMENTE MARCELO É PRESIDENTE


Não foi preciso Cristo descer à Terra nem voltar a mergulhar no Tejo frio e poluído: aos sessenta e sete anos Marcelo Rebelo de Sousa torna-se no vigésimo Presidente da República Portuguesa. Numa corrida eleitoral com dez candidatos mas sem nenhum interesse político, o professor Marcelo atingiu finalmente o objetivo e o sonho de toda uma vida.
Enfrentando uma panóplia de candidatos menores e usufruindo da simpatia de uma população descrente na classe política que a governou nas últimas duas décadas, Marcelo conseguiu o extraordinário feito de ser eleito sem precisar do apoio de nenhum partido político. Depois de mais de vinte anos a fazer comentário político na rádio e na televisão, a ser escutado como nenhum outro português o foi, a ser seguido com atenção por sucessivos decisores políticos, Marcelo ganhou finalmente coragem para se candidatar à Presidência da República.

Chega demasiado tarde. Há dez anos faria mais sentido e temo que estejamos a repetir o erro que cometemos com Cavaco Silva, quando procuramos dar ao outro professor mais famoso da democracia portuguesa uma espécie de prémio de final de carreira e obtivemos em troca um presidente imóvel, partidário, incoerente, sem reação nem determinação para orientar o país na grave crise económica, social e política que ainda atravessamos.
Chega ao mais alto cargo da nação um dos mais bem preparados e informados cidadãos do país, um homem que consegue ser das elites e ao mesmo tempo amado pelo povo; um homem que simplificou a política todos os domingos à noite, explicando-a. No entanto...

Talvez Marcelo não tenha reparado mas, nos últimos anos, tornou-se muito consensual, muito politicamente correto, condescendendo com algumas práticas políticas que tinham de ter sido obstruídas. Não sei se o fez por tática ou poque a idade sénior o tornou menos irrequieto, mas não foi esse Marcelo que a minha geração ouvia com atenção na TSF, nas temidas notas semanais que dava aos governantes e outras figuras públicas da sociedade portuguesa.

Não sei se Marcelo terá força ou vontade de voltar a ser o enérgico professor “Martelo” que mereceu um boneco do Contrainformação, mas sei que Portugal precisa de um Presidente da República que seja mais do que um velhinho consensual que ameaça usar a bomba atómica da dissolução da Assembleia da República. Governar o país está difícil, mas ser um bom presidente não está mais fácil. Portugal precisa de um presidente com sabedoria e com golpe de asa, que una geracionalmente o país e o torne respeitado no estrangeiro, que nos faça ter orgulhe em sermos portugueses e termine de vez com o fado do desgraçadinho que já ninguém tem pachorra para mais desculpas, para mais um “mas”, para um outro “para o próximo é que é”. 
Que seja desta e nos faça voltar a sorrir.

GABRIEL VILAS BOAS 

sábado, 23 de janeiro de 2016

FEIOS, PORCOS E MAUS, de Ettore Scola


A semana que agora finda foi pródiga em acontecimentos funestos para a sociedade e arte europeias. Em Portugal, desapareceu o político Almeida Santos e a arquitetura despediu-se de Nuno Teotónio Pereira; em França, chora-se a partida do criador de “Sexta-Feira ou a Vida Selvagem", Michel Tournier, e Itália disse adeus ao cineasta Ettore Scola. Estamos em janeiro e a História imita a natureza podando da vida velhos ramos que outrora iluminaram o pomar com saborosos frutos.
Hoje, destaco Ettore Scola, um dos mais renomados realizadores italianos do século XX. Scola filmou durante quatro décadas, realizando obras emblemáticas do cinema europeu como Feios Porcos e Maus; Um Dia Inesquecível; Tão Amigos que Nós Éramos.
O homem que cursou Direito e passou pelo jornalismo, encontrou no cinema o campo perfeito para expressar o seu talento. Primeiro como argumentista, depois como notável realizador.

Uma das temáticas prediletas dos seus filmes foi a vida em Itália no pós II Guerra Mundial, não tivesse ele vivido no tempo de Mussolini e na Itália destruída e humilhada das décadas de 50 e 60.
“Tão Amigos que Nós Éramos", filme de 1974 dedicado ao amigo Vittorio de Sica, espelha a sociedade italiana do pós-guerra: desencanto, frustração, um mão cheia de vidas falhadas por causa de decisões erradas por falta de coragem.



Em “Um Da Inesquecível”, Scola junta a fina flor dos atores italianos da sua geração: Marcelo Mastroianni e Sofia Loren. O realizador transalpino consegue da dupla mais glamourosa do cinema italiano uma atuação pungente, tocante e enternecedora, que valeu a Mastroianni uma indicação para Óscar. O filme, que se tornou uma película inesquecível na filmologia de Scola, tem como pano de fundo a visita de Hitler a Itália a 6 de maio de 1938 e revela como os anti-fascistas estavam isolados numa Itália cega e sem valores.

“Feios, Porcos e Maus” (1976) é o filme mais conhecido de Ettore Scola. Realizado há precisamente quarenta anos, a comédia do cineasta italiano obteve grande êxito em Portugal e um pouco por toda a europa. Nino Manfredini interpreta o papel de um ex-operário que recebeu um milhão de liras de indemnização, após ter perdido um olho num acidente de trabalho.
Apesar de viver numa barraca dos subúrbios de Roma, que compartilhava com dez filhos, a esposa e alguns parentes, o protagonista esconde o dinheiro que recebeu do seguro e recusa gastá-lo na melhoria da miserável vida que levava. Movido pelo egoísmo e pela avareza, obriga os outros (mais de vinte pessoas) a continuar a comer, a viver e a fazer amor na mesma divisão da barraca.
A situação complica-se quando o nóvel milionário de espírito pobre leva para casa uma prostituta com quem começa a gastar o seu potinho de ouro em presentes.
Sátira trágico-cómica, sarcástico e pleno de elementos neorrealistas, “Feios, Porcos e Maus” põe em destaque as condições degradantes a que pode chegar a vida humana, num retrato ímpar do egoísmo, miséria, traição, violência, promiscuidade e mentira.
Um dos melhores filmes italianos de sempre. 
Gabriel Vilas Boas

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

A SINISTRA CULTURA DA FAMA


Infelizmente a cultura da Fama começa na escola, onde o importante passou o ser o sucesso em vez da aprendizagem, a quantidade em vez da qualidade, o número em vez da pessoa.
Ser conhecido, ser famoso tornou-se o grande objetivo de vida de centenas de milhares de pessoas. Por causa dele, elas são capazes de sacrifícios enormes, alguns completamente desproporcionados face aquilo que pretendem alcançar.
Ouço diariamente as conversas, os sonhos, os objetivos de vários adolescentes e jovens e não deixo de me interrogar: seremos todos assim tão vaidosos? Como não é claro para eles que só alguns (muito poucos) alcançarão a glória pretendida? Não faltam exemplos de gente triturada e esmagada pela cruel máquina de fazer estrelas instantâneas.

A Fama é como o canto das Sereias: sedutor, poderoso, irresistível… implacável! As suas características não a recomendam a toda a gente nem toda a gente a elege como única deusa do seu altar. O problema é que a Fama se tornou num fator imprescindível ao triunfo social de qualquer indivíduo.
Para qualquer lado que nos viremos sentimos o intenso perfume da Fama: no facebook, na televisão, nas revistas de sociedade. O importante é que falem de nós. Mal ou bem, é quase irrelevante, desde que falem.
Ora, nem todos nós sentimos esta irresistível atração pelas câmaras. Cada ser é único e não pode ser formatado por uma cultura da Fama que lhe assalta a alma, que lhe consome as forças e os valores, para em pouco tempo o vomitar para fora da engrenagem, pois já outros esperam impacientemente a sua vez no carrossel das vaidades.

A afirmação e triunfo pessoais podem ser alcançados por outros caminhos! Há pessoas que desejam trilhar essa estrada alternativa, mas a cultura dominante desaconselha uma escolha livre e pessoal.
Não censuro quem elege ser famoso como objetivo de vida, mas revolta-me que a sociedade em que vivo tenha desenvolvido uma espécie de ditadura da imagem, onde quem quer seguir outro caminho está out.
Uma sociedade livre e madura promove a diversificação, não constrange, não impõe. Gosto da ética e da estética, mas, se tivesse de escolher, não hesitaria em optar pela primeira. Precisamos do belo e do bom e já agora também necessitamos do feio, do erro e da dúvida. A nossa liberdade tanto se afirma na aceitação como na rejeição de modelos apelativos, mas essencialmente totalitários.
A Fama promete-nos uma glória concentrada em cinco minutos. O que queremos fazer com todo o resto?

GAVB

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

SÃO JERÓNIMO, de Albrecht Durer


São Jerónimo, de Albrecht Dürer é um dos mais importantes quadros da coleção do Museu Nacional de Arte Antiga, em Lisboa.
Este óleo sobre madeira data de 1521, ou seja, do período renascentista, e apresenta-nos São Jerónimo já de avançada idade, numa posição reflexiva, no seu escritório.
São Jerónimo morreu em 89, em Belém, tendo dedicado a sua vida ao estudo das Sagradas Escrituras, à sua tradução e à redação de tratados doutrinais. Jerónimo fez quatro anos de penitência no deserto e formou espiritualmente numerosos discípulos.
Para pintar São Jerónimo, Dürer escolheu um modelo, na rua, um velho de 93 anos, que, com a sua expressão enrugada e venerável, pudesse transmitir a força desta personagem sagrada.
Ao nível da composição, esta obra está organizada a partir de uma diagonal que começa no crucifixo, continua na mão direita (sobre a qual apoia a sua cabeça), nos olhos, na mão esquerda e no dedo indicador que assinala a caveira. Tudo parece indicar uma mensagem cuja leitura passa por este caminho.
Neste quadro de Dürer, destacaria dois pormenores: a mão esquerda do santo sobre a caveira e a parte central esquerda do quadro onde sobressai o manto de São Jerónimo.
No primeiro caso, devemos notar que Dürer fez questão de pintar uma mão enrugada, curtida pelo sol e suja, como se de um camponês se tratasse. Neste sentido, Dürer adianta-se oitenta anos aos cânones pictóricos, pois no começo do século XVII, Caravaggio escandalizará a sociedade romana quando usou mendigos como modelos dos seus quadros.
No segundo caso, devemos notar a exuberância das ondulantes barbas brancas de São Jerónimo e a grande superfície vermelha do seu manto.
Este vermelho, que atrai a atenção do espectador, é visto frequentemente na pintura nórdica. 

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

IGREJA DO SAGRADO CORAÇÃO DE JESUS, de Nuno Teotónio Pereira


A dez dias de completar 94 ano de vida, o arquiteto Nuno Teotónio Pereira faleceu hoje em Lisboa. Arquiteto excecional, Teotónio Pereira gostava de dizer que a arquitetura era a mais importante e bela das artes. Durante mais de cinco décadas de projetos, Nuno Teotónio Pereira pensou a arquitetura para todos, ricos e pobres, pois gostava de associar à arte que amava uma dimensão ética.

Talentoso, começou desde de cedo desenhar projetos cujo valor era reconhecido. Venceu o prestigiado Prémio Valmor, por três vezes, a última das quais com o projeto da Igreja do Sagrado Coração de Jesus (1962-1975), que desenhou em parceria com os arquitetos Nuno Portas e Pedro Vieira de Almeida.
Nesse projeto singular, temos de destacar desde logo como marco do tempo e de inovação a organicidade da sua implantação, que a obriga a desmultiplicar-se em incisivos elementos volumétricos hierarquizados.
Neste projeto, Teotónio Pereira consegue o regresso a uma certa monumentalidade silenciosa que se manifesta na expressividade dos materiais e que tem no pátio “vazio”, o primeiro momento de “respiração” e um lugar de encontro.

A nave da igreja é o espaço onde se concentra a densidade do projeto porque é a razão de ser do edifício. Nela cruzam-se duas dimensões: uma horizontal, que reflete o peso da assembleia dos fiéis; e outra vertical, comunicando com o absoluto. Entre elas sente-se a força do espaço enquanto valor material, saturado, envolvendo todos aqueles que participam nas celebrações em fortes contrastes de luz e sombra. Contra o ecrã cru dos blocos de betão coloca-se o celebrante.
Há propositadamente uma luz clara que dramatiza o plano do altar. A assembleia inclina-se por entre as galerias e o chão.
A funcionalidade desta igreja não sai prejudicada do projeto de Teotónio Pereira e parceiros, mas este acrescenta-lhe outros valores que a “humanizam” e que se jogam no recurso dos materiais (betão e madeiras) e da estrutura, assumidos na sua significação mais justa.

Projeto vencedor de um concurso, em 1962, a Igreja do Sagrado Coração de Jesus corresponde ao aprofundamento das teses programáticas e estéticas do Movimento de Renovação da Arte Religiosa (1953) que em Portugal pensou ligar os conteúdos das artes e da arquitetura ao espaço litúrgico católico. 

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

A MORTE DO PRIMEIRO ANARQUISTA, 1865



Em 19 de janeiro de 1865, Pierre-Joseph Proudhon (1809-1865) morria, nos arredores de Paris. Foi um dos primeiros socialistas utópicos e o primeiro a autodenominar-se anarquista.
  Proudhon era um autodidata, nascido no leste da França, e defendeu acerrimamente que os trabalhadores deviam deter os bens produtivos em comum, trabalhando em colaboração uns com os outros de modo colaborativo, e assim opor-se ao capitalismo e ao poder do Estado.
Em 1840 proferiu a memorável frase «A propriedade é um roubo!», foi mais longe ao afirmar, algum tempo depois, que a «Anarquia é a ordem».


Ser governado é ser vigiado, inspecionado, espiado, dirigido, ditado pela lei, numerado, regulado, alistado, doutrinado, criticado, controlado, verificado apreciado, avaliado, censurado, comandado por criaturas que não têm o direito, nem a sabedoria, nem a virtude para o fazer. […] É, sob o pretexto da utilidade pública, e em nome do interesse geral, ser coletado, sugado, espoliado, explorado, monopolizado, extorquido, pressionado, burlado, roubado; depois, à menor resistência, ao primeiro queixume, ser reprimido, multado, vilipendiado, assediado, perseguido, molestado, agredido, desarmado, amarrado, asfixiado, preso, julgado, fuzilado, deportado, sacrificado, vendido, traído; e, para culminar, troçado, ridicularizado, escarnecido, ultrajado, desonrado. Isso é o Estado; essa é a sua injustiça; essa é a suam moralidade."
Pierre-Joseph Proudhon   

Ao contrário daqueles anarquistas do século XIX que adotaram a chamada «propaganda através atos», que encorajava outros a levar a cabo a revolução através de bombas e tentativas de assassínio, Proudhon evitou a violência, mesmo durante a revolução parisiense de 1848 que deu origem à Segunda República Francesa. O inventor do «anarquismo» preferia a escrita como meio de fazer avançar a sua causa, e usou-a com energia, como muito bem o demonstra o energético texto supra citado sobre os malefícios do Estado. Pena é que nem todos os anarquista fossem como ele!