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quarta-feira, 30 de setembro de 2015

O RAPTO DAS SABINAS, de Poussin


Este quadro, de temática histórica, foi uma encomenda feita em 1637, pelo Cardeal Luigi Ormodei. O quadro retrato episódio narrado pelos autores romanos Tito Lívio, Plutarco, Virgílio e Ovídio.
Na Roma primitiva, a ausência de mulheres levou os romanos a urdirem um estratagema para arranjarem esposas que assegurassem a continuidade da cidade.
Rómulo, o fundador de Roma, convida os seus vizinhos, os sabinos, para uma festa na cidade. A um sinal seu, os romanos apoderam-se de uma sabina, neutralizando qualquer resistência por parte dos homens. É este preciso momento que o artista capta na tela, com o rei a fazer sinal aos senadores, em frente do templo de Júpiter Máximo.
A cena é de uma grande agitação, mas no entanto, os gestos das personagens são independentes uns dos outros, como se tivessem sido retirados do contexto e estivessem a cumprir um ritual previamente estudado. Tudo isto é reforçado por uma perspetiva um pouco exagerada, com três pontos de convergência, em direção aos quais dirigimos o nosso olhar.

Poussin não procura obter um efeito ilusório, mas antes submeter uma cena de paixões violentas a uma ordem regida pelo intelecto. Este conjunto tão variado de gestos teve em Degas um efeito tão profundo, que o pintor francês fez uma cópia deste quadro.
Poussin consegue recriar uma atmosfera de tensão, graças aos movimentos alternados das personagens, sobretudo das mulheres que tentam escapar, sem êxito às garras dos romanos. Toda a composição aparece submergida numa luz alaranjada, própria do entardecer.
No canto superior esquerdo, Poussin destaca a figura de Rómulo, conferindo-lhe uma postura um tanto ou quanto amaneirada enquanto o resto dos soldados possuem características bem mais masculinas. A mancha vermelha da capa do rei, bem como o movimento que dela se desprende denota um grande conhecimento da pintura veneziana por parte de Poussin.


Por último, chamo a atenção para o elmo pintado no fundo óleo, ao meio da tela. Nota-se que o pintor possui já um domínio absoluto do claro-escuro, das texturas e da luz. É por esse motivo que o elmo possui uma textura metálica, devido à incidência da luz que recai sobre ele. 

terça-feira, 29 de setembro de 2015

OVO DE COLOMBO

Dizemos que uma determinada situação é um ovo de Colombo quando julgamos estar perante uma situação muito complexa, quase irresolúvel, que depois se revela simples e fácil.
A palavra "Colombo" refere-se a Cristóvão Colombo, mas o feito a que se reporta a expressão não será original do navegador. Consta que, depois de descobrir a América, Cristóvão Colombo viu o seu feito posto em causa e diminuído durante um banquete organizado pelo Cardeal Mendoza de Espanha. Foi-lhe perguntado se achava que se não tivesse ele próprio descoberto um Movo Mundo, outros homens, espanhóis, o podiam ter feito... Colombo respondeu com um desafio: que os presentes tentassem um ovo de pé, sobre a mesa. Ninguém conseguiu. Colombo agarrou então num ovo, deu-lhe uma leve pancada sobre a mesa, partindo-lhe ligeiramente a casaca e eis que o vo ficou de pé. Demonstrou assim que o que parece difícil o deixa de ser depois de concretizado, referindo-se à viagem e descoberta que tinha feito.


Acontece que a expressão apenas se popularizou com Cristóvão Colombo. O truque do ovo em pé terá sido feito anos antes por um italiano, para provar a mesma ideia. Filippo Brunelleschi era um arquiteto a quem foi pedido o projeto de um tomo para a Catedral de Santa Maria del Fiore, em Florença. Quando os governantes da cidade pediram que revelasse o seu plano de construção da cúpula, Brunelleschi recusou-se e fez o desafio "coloquem lá um ovo em pé". Nenhum dos desafiados foi capaz e o arquiteto surpreendeu-os com o mesmo truque que Colombo usaria anos mais tarde. O protesto foi o mesmo: «Assim também eu fazia!», ao que o arquiteto respondeu: «Também vocês aprenderiam a fazer uma cúpula se eu vos revelasse os desenhos e os segredos». 

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

TIM MAIA




Se fosse vivo, Tim Maia celebraria hoje 73 anos de vida. No entanto, entre quem o conheceu poucos apostariam que chegaria a esta idade, devido aos recorrentes problemas com a obesidade, diabetes e consumo de drogas. Viveu 55 anos, mas deixou bem vincada a sua marca na música brasileira.
O carioca nascido na Tijuca, tinha uma voz rouca, grave, carregada e conquistou o exigente público brasileiro interpretando canções de amor. 




Acordei para a beleza da sua música, no inverno passado, quando Adriana Calcanhotto anunciou à plateia do Theatro Circo, em Braga, que o seu “Me dê motivo” era uma reinterpretação do tema de Tim Maia. A música é belíssima assim como a letra e levou-me à descoberta de um cantor fabuloso e muito considerado e respeitado no panorama musical brasileiro.
Tim Maia teve a sua época de glória nos anos 70 e 80 do século passado. Músicas como “Primavera (Vai Chover)”, “Não Quero Dinheiro (Só Quero Amar)” , “Gostava Tanto de Você”, “Sossego” tornaram-no num ícone da música brasileira, que várias cantores jovens seguiriam.



Tim tinha sido o introdutor do soul norte-americano, no Brasil, aproveitando a curta experiência que passou na América do Norte, onde fico maravilhado com a música de Ray Charles, Otis Redding, James Brown. A junção do soul com a música tradicional brasileira criou um estilo musical inovador, à época, o que contribuiu para o sucesso do cantor nascido no Rio de Janeiro.
Tim haveria de passar igualmente por uma fase racionalista, onde imperava o funk, mas acabou por se desencantar com a experiência. Entretanto, novos êxitos foram abrilhantando a sua carreira: “O Descobridor dos Sete Mares”, “Do Leme ao Pontal”, “Me Dê Motivo”.
 O “motivo” de hoje é recordar Tim Maia.

Gabriel Vilas Boas

domingo, 27 de setembro de 2015

O PRINCÍPIO DO FIM DA ESPANHA?




Há minutos as urnas fecharam na Catalunha e as primeiras projeções de resultados dão às forças políticas que defendem o começo do processo de separação da Catalunha de Espanha uma maioria, mas não absoluta. Para fazer avançar o processo como pretende, Artur Mas, provavelmente, terá de se coligar com a extrema-direita catalã.
Para mim, a questão fundamental que este processo põe a claro é que para os catalães a questão da separação/independência não é para adiar mais!
Atropelando a Constituição espanhola, acordos e ameaças, Artur Mas conseguiu que a Espanha e a Catalunha se olhem finalmente olhos nos olhos.

Por regra, sou favorável a que qualquer povo com língua, identidade, cultura e territórios próprios decida se quer permanecer ou não como região de um país. Também acho de muito mau tom estar a tecer considerações valorativas sobre uma votação. Garantidas as condições de democraticidade, o resultado de umas eleições é sempre bom. Goste eu muito ou muito pouco deles.
Reconheço aos catalães o direito de quererem abandonar a Espanha, mas não lhes reconheço o direito de imporem condições. Querem ir embora? Pois que vão, mas assumindo as responsabilidades dos seus atos.

Obviamente fora do euro, obviamente fora da União Europeia; obviamente pagando taxas alfandegárias para a entrada e circulação dos seus bens; obviamente construindo o seu próprio sistema judicial e de saúde públicos; obviamente pagando as suas dívidas e criando os seus próprios bancos. Obviamente assegurando as reformas dos seus cidadãos (aquelas que já se encontram a pagamento e aquelas que ainda o serão).
Obviamente começando do zero como qualquer um! Pedindo para entrar nas várias instituições europeias e esperando vez, como os outros esperaram!
Se os catalães amam assim tanto a sua independência, a sua cultura, a sua língua, não se importarão que os grandes bancos europeus vão fazer negócio para outro lado, que o seu querido F. C. Barcelona não jogue o Campeonato Espanhol de Futebol (não faria qualquer sentido) e de esperar alguma duvidosa alteração especial para competir na Liga dos Campeões; que a sua moeda desvalorize como outra qualquer fora do euro.
Era isto que Artur Mas devia ter dito de forma clara ao povo catalão. E quando lhes disse que não haveria retorno devia ter esclarecido que que isso queria dizer “não a haverá lugar a qualquer desculpem lá, mas queremos voltar para Espanha”.

Se a clara maioria dos catalães, que votou hoje no sim, quer ISTO e outras minudências não despiciendas, encantado da vida! A luta vai ser longa, mas estou do seu lado.
Infelizmente acho que aquilo que une muita gente à volta do nacionalismo catalão é mais o ódio a Madrid, ao seu poder, à maneira autoritária como sempre lho esfregaram na cara. Ora isso não é suficiente. Nenhum país se pode alicerçar no ódio nem na geometria dos interesses.
Madrid gosta muito da Catalunha dentro de Espanha porque esta é riquíssima. Fosse esta pobre e já o Rei e o Primeiro-Ministro tinham desistido de lutar pela união.
Talvez a Catalunha acabe por capitular como o Syriza o fez na Grécia, mas a Espanha terá sempre o seu Cavalo de Tróia na Catalunha, à espera que o poder central dormite profundamente.
 Gabriel Vilas Boas 

sábado, 26 de setembro de 2015

MARLON BRANDO


A década de cinquenta do século passado foi inequivocamente a década dourada de Marlon Brando. Cinco nomeações, um Óscar. Depois de andar três anos a prometer, a Academia cumpriu em 1954, quando premiou o polémico ator com o Óscar de Melhor Ator Principal, pela sua interpretação em “Há Lodo no Cais”.
Marlon é ainda hoje dos mais controversos atores da história do cinema. Foi o ídolo da sua geração, o mito dos rebeldes sem causa. Por eles, recusou o Óscar em 1972, surpreendendo a América e o Mundo.

“Ele é um anjo como homem e um monstro como ator”. Foi assim que Bertolucci definiu Marlon Brando, depois de o ter dirigido no célebre filme erótico “O Último Tango em Paris”, que Brando protagonizou com Maria Schneider em 1973.
Marlon nunca foi brando. Símbolo de uma nova geração atores, rebelde e inconformado, Marlon Brando dividiu a sociedade conformista dos anos 50. Para os mais novos era o emblema da beat generation, para os mais velhos era uma ameaça social.

Senhor de um talento e versatilidade ímpares, foi na representação de personagens brutais que mais se destacou como na pele do violento Stanley Kowalsky em Um Elétrico Chamado Desejo (1951) que lhe valeu uma nomeação para Óscar.
“Há Lodo no Cais” (1954), de Elia Kazan foi o seu primeiro grande momento de glória, depois dos ameaços do já citado “Um Elétrico Chamado Desejo”, “Viva Zapata” (1952), Júlio César (1953).  
Na década de sessenta Marlon Brando tentou a sua sorte como realizador, mas as suas primeiras incursões não foram bem-sucedidas. O mesmo aconteceu na sua vida privada, onde três casamentos terminaram em três divórcios. Por outro lado acentuava-se a ideia de que Marlon Brando era um ator temperamental com quem era difícil trabalhar.

Mas o ator nascido no Nebraska deu a volta por cima e regressou em grande estilo na década de setenta. Além de ter participado no polémico “”O Último Tango em Paris”, foi O Padrinho, 1972, de Francis Ford Coppola que lhe deu o tal Óscar recusado em protesto contra os maus tratos infligidos aos seus amigos índios.

Logo depois, Brando preferiu uma vida de ócio no Tahiti (comprou uma ilha onde residiu até perto do fim), para fugir a mais atribulação dentro da sua vida sentimental. Muitos dos seus últimos filmes fê-los apenas para ganhar dinheiro, embora quase sempre lhe oferecessem papéis de destaque como o diabólico Kurtz em Apocalipse Now, outra obra de Coppola dominada pelo génio do ator.

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

PRIMEIRO ESTRANHA-SE, DEPOIS ENTRANHA-SE

Trata-se de uma expressão que nos habituamos a ouvir e a ler nos mais variados contextos, mas nem todos saberão as suas nobres origens. O seu criador foi Fernando Pessoa, mas o célebre poeta não a inseriu em nenhum poema ilustre, mas antes a transformou em slogan publicitário para a Coca-Cola.
É verdade, além de poeta, filósofo, jornalista, Fernando Pessoa também trabalhou como criador publicitário. Na década de 1920, ao serviço da agência “Hora” criou este “Primeiro Estranha-se, Depois Entranha-se”, que se tornaria num dos slogans publicitários mais conhecidos do século XX em Portugal.
No entanto, a Coca-Cola não viria a tirar grande partido deste momento de inspiração do poeta dos heterónimos, porque rapidamente ficou interdita no nosso país, por alegadamente se tratar de um produto suscetível de criar habituação.

O médico Ricardo Jorge (esse mesmo que deu o nome ao Instituto Ricardo Jorge), na qualidade de Diretor de Saúde de Lisboa, mandou apreender todas as garrafas de coca-cola que já circulavam no mercado. Para o doutor Ricardo Jorge, o grande problema da coca-cola é que tinha coca no nome e “coca” era a planta donde se extraía a cocaína.
A proibição da coca-cola baseava-se em dois argumentos algo contraditórios: o refrigerante não podia ser vendido porque podia intoxicar os consumidores…. Por outro lado, se o produto não tinha coca (como defendiam os seus vendedores), então anunciá-lo com essa palavra no nome seria, no mínimo, publicidade enganosa. Para quem mandava, estas eram razões mais do que suficientes para impedir que a coca-cola fosse comercializada.
O slogan de Fernando Pessoa ficou, no entanto, para a posterioridade, passando a ser usado em diversas ocasiões com propriedade e elegância literária. No fundo, Pessoa só antecipou o êxito que a coca-cola teve em Portugal, quando a 4 de julho de 1977, foi finalmente permitida em garrafas de vidro de 20 cl.
Não sabemos ao certo se ao escrever “Primeiro estranha-se, depois entranha-se”, o poeta se referia à bebida ou à cocaína que supostamente conteria, mas o que é certo é que a expressão se aplica ainda hoje a tudo o que, causando primeiro uma estranheza, depressa se torna familiar… mas não obrigatoriamente uma dependência.  

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

DESFRUTAR É UM PRAZER DE SÁBIOS


“Desfrutar é um prazer de sábios.” – Talvez a frase que mais me faz brilhar os olhos e a alma.
Muitas vezes a recordo ao longo deste maravilhoso percurso que é a vida. Desfrutar da natureza, dos amigos e da família; desfrutar da saúde, do tempo, do pensamento; desfrutar da música, da pintura e do teatro.
A vida é uma fonte inesgotável de prazer e sabedoria. Impressionante como à medida que temos mais consciência da sua beleza vamos desfrutando menos. Talvez porque tudo o que é bom e belo não sirva para estar aprisionado numa gaiola dourada. Sim, é a velha questão entre o Ser e o Ter. O sábio como a vida “é”, não “tem”.

É muito difícil ser sábio, porque a sabedoria é humildade, desprendimento, liberdade, partilha. Não são conquistas fáceis de alcançar. Infelizmente, chegamos a algumas delas de um modo doloroso e amargo.
É muito difícil aceitar que as circunstâncias nos vencem muitas vezes e com enorme facilidade. Mais chocante é constatar como desistimos de lhes dar luta. Acossados como um animal ferido, desistimos. Achamos que essa sabedoria é coisa de filósofos ou está apenas ao alcance de quem domina a atividade intelectual.

Não é verdade! Desfrutar a vida é um projeto pessoal em permanente construção; um livro aberto que cada um constrói à sua medida. Claro que tem que ser um projeto caríssimo, pois não custa dinheiro.
Os momentos mais radiantes da minha vida (e foram alguns) nunca foram meus, mas isso nunca impediu de me fazerem feliz. Foram um poema inteligentíssimo ou sensível, uma música arrebatadora, um quadro assombroso de expressividade, o sorriso das minhas filhas ou as gargalhadas de um amigo. E muitas vezes o sol, a chuva e o barulho do vento. 
Aprendi que nada disso era para possuir, mas para deixar fluir. A memória, com as suas falhas, foi-me convencendo, aos poucos, que a verdadeira sabedoria da vida é transformar os sonhos em realidade. Ninguém pode privar-nos de tudo aquilo que já vivemos como ninguém nos pode dar aquilo que deixámos por viver.

Gabriel Vilas Boas 

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

ESCOLA DE ATENAS, de Rafael


Rafael foi um pintor e arquiteto italiano cujas obras encarnam o protótipo do renascimento, devido ao seu equilibrado classicismo e à sua perfeita aplicação de perspectiva, da composição e da luz.
Em Roma pintou um dos mais famosos ciclos de frescos nas salas do Vaticano, encomendados pelo Papa Júlio II, mas foi o seu sucessor, Leão X, que se tornou no grande mecenas de Rafael. O seu estilo pessoal exerceu uma enorme influência ao longo de toda a história da arte, incluindo o neoclassicismo com Ingres.
O quadro que hoje vos proponho é um fresco. Talvez o mais conhecido fresco de Rafael: A Escola de Atenas.

Trata-se de uma obra que foi alvo de múltiplas interpretações, mas a mais adequada é de Wölfflin, que afirmou que apenas se podem reconhecer algumas das personagens representadas. A composição possui o mesmo formato semicircular que "A Disputa”, visto que ambos são frescos para decorar o teto das salas.
O centro da composição é presidido pela presença de Platão e Aristóteles. O primeiro traz nas mãos o Timeu e o segundo a Ética. Ao mesmo nível e à esquerda, vemos a figura de perfil de Sócrates, abaixo da qual aparece Pitágoras, representado como um homem idoso ajoelhado e escrevendo um livro, enquanto um rapaz lhe segura uma tábua onde se encontra escrita a teoria da harmonia.
Na zona direita da obra e voltado para o observador, vemos o astrónomo Zoroastro, um homem de barba espessa que segura uma esfera celestial com a mão direita. Diante dele vemos uma personagem, que exibe uma coroa e uma esfera do mundo, que foi identificado como Ptolomeu. Outra das representações corretas é a do homem que apareceu sentado de lado nas escadas, adivinhando-se a sua forte musculatura, que sempre se pensou ser Diógenes.
O resto das figuras presentes não foram identificadas por falta de elementos objetivos. É interessante observar a genialidade de Rafael Sanzio através das representações das figuras clássicas e das suas vestes, elemento que serve ao artista para criar uma gama cromática muito rica.

Como já foi referido, um dos elementos centrais deste fresco de grandes proporções (770 cm) é Aristóteles, que é colocado de frente para o observador e com um pé ligeiramente avançado. O célebre ateniense aparece vestido com uma túnica azul, ou seja, da mesma cor que o céu que se adivinha pela luz que penetra na sala.

Como mera curiosidade, chamo a atenção para o canto inferior direito, onde ao mesmo nível que Pitágoras aparece Euclides, debruçado e de perfil, cuja túnica arroxeada traz uma inscrição na parte de trás em que vemos escrito: R.V.S.M. (Raphael Urbinas Sua Manu).

terça-feira, 22 de setembro de 2015

YESTERDAY, dos Beatles


Paul McCartney contou há pouco tempo que a letra da música “Yesterday” foi inspirada na sua mãe.
Um dos maiores sucessos dos Beatles apaga cinquenta velas de vida, conquistando milhões de corações, várias gerações, diferentes épocas e estilo.
É fácil outorgar os créditos de tamanho amor à letra de Paul, mas a chave do sucesso está na perfeita de combinação de melodia e letra, na medida em que ambas guiam as nossas almas àquele passado saboroso, onde tudo estava bem. Um passado de paz, amor, de presenças, onde a vida era naturalmente fácil.

É o famoso mito da Idade do Ouro, onde no passado mora tudo o que é bom. A mãe é a melhor imagem que podemos ter desse tempo de amor e paz, porque ela nos permite viajar no tempo, tornando o ontem sempre presente e uma garantia para o futuro.
Todavia, McCartney não escreve sobre “Yesterday” apenas para elogiar o passado, mas para o antepor a um presente de separação e ausência. É impossível não sentir a melancolia que se solta lentamente dos acordes da viola que a letra verbaliza:




 “Suddenly
I'm not half the man I used to be
There's a shadow hanging over me
(…)
Now I need a place to hide away
Oh, I believe
In yesterday”

Acho que o magnífico tema dos Beatles é muito mais que um exercício belo sobre a melancolia, a nostalgia ou a tristeza. “Yesterday” é a recordação da importância das nossas raízes. É um apelo sensível e cheio de ternura às coisas belas de que somos feitos: a paz, o amor, a concórdia.
Gosto muito de pensar que todos os dias construímos um passado melhor do que aquele que tínhamos. Talvez um dia a nossa memória precise desse tesouro.

Gabriel Vilas Boas

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

A MORTE HORRENDA DE EDUARDO II DE INGLATERRA


O rei Eduardo II de Inglaterra, muito malvisto pela nobreza devido à alegada relação homossexual com Piers Gaveston e às suas derrotas militares na Escócia, foi deposto em janeiro de 1327 por Roger Mortimer, conde de March, com a ajuda de Isabella, a amante de Mortimer e mulher francesa de Eduardo.
Com o seu filho de 14 anos, Eduardo III, no trono, sob a regência de Mortimer, constou que Eduardo II morreu a 21 de setembro de 1327, quando estava preso no Castelo de Berkeley, em Gloucestershire.
Os relatos medievais da primeira parte do século XIV dizem que “Roger Mortimer enviou ordens sobre a maneira como o rei devia ser morto. Quando viram a carta e a ordem, mostraram-se simpáticos com o rei Eduardo à hora do jantar, para que o rei não soubesse nada da sua traição. E quando ele foi para a cama e adormeceu, os traidores dirigiram-se sem fazer barulho aos seus aposentos, pousaram uma mesa grande sobre a barriga do rei e com a ajuda de outros homens comprimiram-no…. Enfiaram-lhe um longo chifre no ânus, tão fundo quanto possível e pegaram num espeto de cobre incandescente, espetaram-lho no corpo e revolveram-lhe as entranhas. E assim mataram o seu senhor e nada se soube.”
Mortimer e Isabella
Várias crónicas efabulam acerca do método horroroso dessa morte, mas nenhum é de todo fiável. Não só restam dúvidas sobre se este foi de facto o método utilizado, como da data precisa da sua morte, no entanto este relato é dos mais consensuais.
Visto aos olhos de qualquer época ou de qualquer mentalidade, estamos perante um ato cruel e ignóbil, que mancha de pecado e malvadez qualquer reinado.
Vários reinados de nobres povos ficaram marcados por atos como este. A História dos grandes é também feita de muita treva.

Gabriel Vilas Boas

domingo, 20 de setembro de 2015

AMIGO DE PENICHE



Regresso hoje a um tema que me agrada muito: as expressões idiomáticas do português.
Hoje resolvi explorar “Amigo de Peniche”. Como muitos saberão o “amigo de Peniche” é um amigo falso, traiçoeiro, em que não se pode confiar.
Obviamente, os naturais de Peniche não têm lá muita simpatia por esta expressão, que tem tanto de histórica como de injusta.

Em 1579, o rei D. Sebastião desapareceu na batalha de Alcácer Quibir, em Marrocos, e deixou o reino sem sucessor. O parente mais próximo era o cardeal D. Henrique (tio do desaparecido) que foi aclamado rei dias depois. Todavia, o cardeal já tinha uma idade muito avançada e vínculo religioso, ou seja, não tinha filhos nem maneira de os arranjar, o que criava um grave problema à sucessão, como se veria um ano depois. Em 1580, o cardeal morreu e vários candidatos perfilaram-se à sucessão, mas a disputa resumiu-se a três candidatos: Filipe II (rei de Espanha e neto de D. Manuel I de Portugal), Dona Catarina de Bragança (neta de D. Manuel I) e D. António Prior do Crato (também neto de D. Manuel I). D. Filipe II ganhou vantagem e arrebatou a coroa, depois da invasão do exército castelhano ter aberto o caminho para o trono.
D. António ficou furioso e pediu ajuda a Isabel, a suposta rainha virgem de Inglaterra. Isabel emprestou uma armada de cerca de vinte mil homens e cento e sessenta navios. Aos comandos desses navios, o general John Norris desembarcou na praia sul de Peniche a 26 de maio de 1589. Começou então a marcha terrestre rumo a Lisboa, ao mesmo tempo que a esquadrada que desembarcara em Peniche navegava rumo a Cascais.
As notícias chegaram depressa a Lisboa: «Vêm aí os nossos amigos… os amigos que desembarcaram em Peniche». Ou seja, os amigos que libertariam os portugueses do jugo dos espanhóis.
O problema foi que D. António Prior do Crato acabou traído pelo avanço do exército britânico em direção a Lisboa e que durante essa viagem acabou por devastar e pilhar as terras por onde passava. Foram recebidos pelos canhões do Castelo de São Jorge…. John Norris ficou muito surpreendido porque ninguém lhe tinha falado em combates, mas antes em grandes festejos pela chegada dos ingleses. Após várias mudanças de acampamento, o grupo de soldados britânicos retirou-se de Lisboa. Dentro das muralhas, a incógnita cresceu e todos perguntavam: “Mas, afinal, quando chegam os nossos amigos de Peniche?» Acabariam por nunca chegar, desapontando D. António e os seus apoiantes.
Afinal, os amigos de Peniche não nasceram em Peniche, mas em Inglaterra, mas ninguém resolve esta “falsidade” aos de Peniche!

sábado, 19 de setembro de 2015

A TIRANIA MEDIÁTICA


Os media são o maior poder dos tempos modernos. São eles que impõem a agenda política, social e cultual. Ajudam a criar mentalidades in, destroem e constroem estrelas com uma facilidade assustadora.
O poder dos jornais, televisões e sítios da internet começou quando os poderes clássicos deixaram de fazer o seu trabalho e criaram um vazio que os media souberem aproveitar e capitalizar. Rapidamente os jornais e as televisões apareceram aos olhos da opinião pública como os guardiões do templo; os únicos capazes de defender os fracos, os oprimidos, aqueles que não têm voz. Inebriados pela sua elevada missão, rapidamente passaram de advogados de defesa a acusadores e, finalmente, a implacáveis julgadores.
Respaldados na opinião pública que formataram, passaram a condicionar toda ação daqueles que decidem, mandam ou detêm o poder.

O grande erro foi que o fizeram sem alma, sem convicção nem rigor. O barulho das luzes ativou a vaidade mediática de muitos jornalistas que escolhem uma determinada causa social para cavalgar, apenas porque esta lhes aumenta o share; resolvem atacar determinado político ou figura mediática, porque eles decidiram que ele é culpado. São eles que apresentam a acusação e que o julgam sumariamente nos telejornais, nos programas de debate, na direção que imprimem às reportagens.
Além da impressionante parcialidade e falta de rigor jornalístico com que tratam os factos, o que mais me revolta é o desprezo com que abandonam causas sociais ou o caso particular de um qualquer cidadão que antes fora apresentado como emblemático.

Os juízes sempre se queixaram dos media, referindo que o tempo da justiça não era o mesmo que o tempo mediático, todavia a classe jornalística sorria com desdém e assobiava para o lado, tratando de fazer a justiça que lhe convinha.
O grande problema é que qualquer questão precisa de tempo para ser bem resolvida. Não apenas na justiça como também na educação, na economia, na agricultura, na administração pública. Ao exigirem ações concretas para ontem, os media estão apenas a contribuir para que elas não se resolvam ou fiquem mal solucionadas.

O tempo mediático é aquele fazedor de obra pública que esburaca as ruas das nossas cidades, começa a reabilitação urbana ou lança uma qualquer obra de grande envergadura, mas que ao primeiro contratempo se desinteressa e deixa tudo numa grande trapalhada, bem pior do que estava. O tempo mediático é absolutamente interesseiro e cruel. Expõe o problema, lança as acusações, dá a sua sentença sobre os factos e parte para “outra”, porque aquela bomba jornalística já deu as audiências que tinha a dar. Entretanto, a desorganização causada deixa o cidadão com um problema maior do que aquele que tinha.
Os políticos já perceberam como funcionam estes novos polícias da coisa pública e adaptaram a sua inação ao estilo. A sua pseudo ação segue as vagas informativas. Se o problema for profundo e de difícil resolução, há que marcar umas reuniões para discutir o problema, fingir que se está a estudar a solução e, sobretudo, esperar que o tempo mediático passe e a questão esgote o interesse para os jornalistas. Obviamente, eles sabem que tudo ficará igual ou até pior, mas também sabem que não haverá mais debates na imprensa porque o tema murchou.
As populações ficam então como sempre estiveram: sós! E depois nem se podem queixar que a imprensa não tentou ajudar.
O tempo mediático anda a tirar-nos o discernimento necessário para resolvermos os nossos problemas coletivos e contribui para que nos andemos a enganar uns aos outros.
Gabriel Vilas Boas

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

OS MELHORES ANOS DA NOSSA VIDA

Em 1946, o mundo acordava do grande trauma coletivo que havia sido a II Guerra Mundial. Não só na europa mas um pouco por todo o mundo havia muita “tralha” por arrumar e muita gente que tinha dificuldade em recomeçar as suas vidas.
“Os Melhores Anos da Nossa Vida”, que arrebatou sete óscares da Academia de Hollywood, em 1946, entre eles o de Melhor Filme, Melhor Ator, Melhor Argumento Adaptado, é a minha proposta cinematográfica desta semana. É certo que o filme tem setenta anos, mas a qualidade é excelente.
Num sincero discurso de esperança no futuro, o produtor deste laureado filme, Samuel Goldwyn disse: “Todos os homens, mulheres e crianças, geração após geração, deveriam ver este filme”. Ele não pensava no sucesso de bilheteira que o filme também alcançou, mas na mensagem que o argumento da película passava a qualquer espectador.
Em Agosto de 1944, Goldwyn lia na revista “Time” um interessante artigo sobre as dificuldades que os veteranos da II Guerra Mundial experimentavam para se readaptar à vida civil, quando regressavam a casa. Então, contratou um ex-veterano de guerra, Mackinlay Kantor, para desenvolver o tema. Ele começou por escrever uma novela que foi depois convertida pelo argumentista Robert Sherwood em argumento cinematográfico.
O filme conta a história de Fred Derry, Homer Perrish e Al Stephenson, respetivamente capitão da Força-Área, marinheiro e sargento do exército, depois de a guerra acabar. Os três regressam a Boone City, com as marcas físicas e, sobretudo, psicológicas de uma guerra que marcou a humanidade.
Homer, ex-jogador de futebol americano, regressa com duas próteses mecânicas em vez de duas mãos e está relulante em assumir o casamento previamente combinado com a noiva, pois teme que ela o faça por piedade e não por amor. Homer vê-se forçado a regressar à sua vida desinteressante de balconista de uma loja e Fred volta ao banco onde antes trabalhara assumindo o departamento dos empréstimos aos veteranos de guerra como ele.
O filme do realizador William Wyler mostra as dificuldades destas pessoas em retomar vidas, o mundo diferente que encontram, a readaptação dos mutilados (Harold Russell, o único não ator do elenco, que efetivamente prestou serviço na Guerra, tendo perdido as duas mãos, esteve soberbo e arrebatou um Óscar pela sua interpretação), mas também a esperança em dias melhores e na paz por que haviam lutado.
Havia muita apreensão enquanto o filme era feito. Muita gente achava o filme demasiado sério, mas Wyler criou uma fita enternecedora que retrata detalhadamente o ajuste de três soldados e as suas famílias a um país indiferente, em tempo de paz, aos despojos da guerra.
O melhor será mesmo dedicar duas horas deste ou doutro fim-de-semana a ver (ou a rever) este filme.
Gabriel Vilas Boas

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

CENTRO HISTÓRICO DE SÃO SALVADOR DA BAHIA


O maior e o mais valioso (do ponto de vista arquitetónico) conjunto barroco da América Latina é simultaneamente um baluarte da música afro-americana. Mas a terra que viu nascer Jorge Amado é muito mais que isso: é um local exótico, mágico, depravado como nenhum outro do país do carnaval.
São Salvador da Bahia, mais propriamente o seu centro histórico, é  Património da Humanidade há trinta anos. Ninguém o descreveu de maneira tão certeira e naturalista como Jorge Amado como também ninguém o cantou com tanto humor como Dorival Caymmi
“Quem não gosta de samba
Bom sujeito não é
É ruim da cabeça
Ou doente de pé.”

Uma das peculiaridades arquitetónicas de São Salvador são as suas 170 igrejas, uma boa parte delas pré-fabricadas em Portugal. Isto acontecia porque os galeões que viajavam de Portugal em direção à terra de Vera Cruz seguiam quase vazios de mercadorias e por isso os blocos de pedra cuidadosamente numerados e as estátuas de mármore eram bem acolhidos a bordo.
Mesmo ao lado dos embarcadouros do porto, ainda hoje pitorescos, encontra-se uma pérola arquitetónica – a Basílica de Nossa Senhora da Conceição da Praia, com as suas duas torres e uma invulgar pintura do teto, usando a técnica do trompe l’oeil. A uma distância de poucos metros deparamo-nos com outro chamariz da Cidade Baixa – o Mercado Modelo, hoje gigantesca feira de artesanato. Nas imediações e ao longo do dia, jovens negros fazem demonstrações de capoeira, empolgante dança marcial criada pelos primeiros escravos trazidos para o Brasil, a fim de se defender da prepotência dos feitores e da polícia.
Íngremes ladeiras levam-nos à Cidade Alta, zona mais atraente, e onde se situam museus e palácios, mas quase todos os turistas preferem usar o “Elevador Lacerda”, inaugurado em 1930, e dirigir-se para o Largo do Pelourinho, construído em plano inclinado, e cujo nome vem dessa estaca de pedra onde se acorrentavam escravos. Nele eram açoitados e expostos durante dias inteiras por ofensas de pouca monta.
Quando, nos dias de hoje, as famosas bandas afro-brasileiras Oludum ou Timbalada, com os seus oitenta ou mais percussionistas, fazem vibrar noite adentro, o vizinho Museu Jorge Amado, a Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos e outras mansões coloniais, quase poderíamos pensar que estávamos num qualquer lugar de África.

Após vasta operação de restauro nesta praça, brota no Pelourinho uma espécie de revolução cultural afro-brasileira: cultos e ritos oriundos de África como o candomblé e a umbanda animam o seu quotidiano. Muito visitada é também a catedral erguida no século XVII, assim como a antiga Igreja do Colégio dos Jesuítas, com os altares laterais e pinturas sacras de minucioso labor. Aqui, o espaço interior transmite uma sensação de austeridade e frieza, contrastando com a vizinha Igreja dos Franciscanos. Nesta, a talha integralmente revestida a ouro e uma infinidade de anjinhos nus e figuras de santos fazem dela a mais exuberante igreja barroca brasileira.
“Toda a sensualidade do barroco encontra aqui a sua expressão”, constata o especialista salvadorenho, Carlos Ott, “e não era fácil pregar a moderação nos púlpitos.” 
Grandes murais de azulejos ilustrando temas religiosos, mas também filosófico-éticos ornamentam o claustro do Convento do Franciscanos. Neste monumento de arte sacra não se podem ignorar os aforismos latinos sobre os valores e a moral, a inconstância e a paixão.

A mais popular e mais celebrada igreja de Salvador é a Igreja de Nosso Senhor Bom Jesus do Bonfim, à noite iluminada com colorido de gosto duvidoso e destino de uma procissão sempre realizada em princípios de janeiro, à qual acorrem dezenas de milhar de pessoas. Nessa altura, mulheres vestidas de branco lavam a escadaria da igreja com água perfumada: o Senhor do Bonfim é, para os negros da Bahia, Oxalá, o deus da fecundidade e é apenas em sua honra que inúmeros habitantes se vestem de branco à sexta-feira. O que acontece à volta desta igreja faz frequentemente lembrar um parque de diversões. O que se ouve não são corais devotos mas ritmos quentes de algumas bandas de samba. No espaço à direita, ao lado do portal, todos aqueles a quem o Senhor contemplou com um milagre deixaram ficar fotografias ou presentes. 

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

VÉNUS E ADÓNIS, de Ticiano


Ticiano escolheu o amor trágico entre Vénus e Adónis como tema para o seu patrono, o rei Filipe II de Espanha, pois o monarca espanhol era um conhecido apreciador da nudez feminina.
O pintor transalpino concluiu este famoso quadro em 1554, quando Filipe II se encontrava em Londres, pouco tempo depois de ter contraído matrimónio com Maria I, rainha de Inglaterra.
Anteriormente já Ticiano tinha enviado ao poderoso Filipe II uma pintura de Dánae, nua, vista de frente. Numa carta ao rei, o veneziano explicou que tinha pintado, desta feita, Vénus de costas para que que as duas pinturas pudessem ficar juntas, permitindo a Filipe II apreciar a variedade.

Ticiano chamou à pintura uma “poesia”, porque o pintor tratou o tema da mitologia com a mesma liberdade poética concedida ao poeta. Ticiano realçou o conteúdo trágico da história, mostrando uma Vénus agarrada ao caçador, que ignora os seu pedidos e sai para uma caçada de madrugada. Cupido encontra-se adormecido debaixo de uma árvore enquanto os primeiros raios de sol saúdam o dia fatal.
Adónis é o elemento chave desta composição de Ticiano e ignorava a fatalidade que lhe estava destinada.
Quando Mirra enganou o pai e o levou a praticar uma relação incestuosa, os deuses transformaram-na em árvore para a proteger da fúria paterna – Adónis nasceu do tronco. Vénus enamorou-se perdidamente do belo jovem depois de Cupido a ter atingido com a sua flecha. Foi então avisada que o amado morreria durante uma caçada, mas não conseguiu dissuadi-lo de tomar parte dela. A mitologia narra que após a sua morte as rosas nasceram do seu sangue e a anémona das lágrimas da deusa.
Este imponente óleo sobre tela (186x207) expressa um grande erotismo, evidenciado no destaque que o pintor italiano dá às costas e aos glúteos da apaixonada deusa do amor.

Posteriormente foram pintadas várias versões deste quadro, mas a versão principal está (como não poderia deixar de ser) no Museu do Prado, em Madrid.