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sexta-feira, 31 de julho de 2015

CAETANO VELOSO & GILBERTO GIL – UMA ESPÉCIE DE IDENTIDADE


Se algum distraído, porventura, perguntar “O que é que estes baianos têm?”, a resposta é muito fácil: são excelentes músicos, magníficos poetas, ilustres representantes da música popular brasileira e bons amigos.
Nasceram ambos na Baia, quase ao mesmo tempo, há 73 anos, mas só em 1964 se conheceram, para nunca mais se separarem. Quatro anos depois desse feliz encontro patrocinado por Roberto Santana, haveriam de participar num projeto musical – Tropicalia ou Panis et Circencis – que lhes mudou a vida, pois a ditadura militar não gostou da música nem da letra e obrigou-os a exilaram-se na europa fria e distante. No dia em que o Homem chegava à Lua, Caetano e Gil tocavam junto para angariar dinheiro para o longo inverno longe da pátria.
Na fria e aristocrática Londres, Caetano haveria de sentir problemas de adaptação, mas a amizade de Gilberto Gil impediria que o autor de “Leãozinho” ou “Sozinho” deixasse a música, nem que para isso tivesse de recorrer a argumentos extremos.
Juntos ou em separado, Caetano Veloso e Gilberto Gil construíram uma carreira com mais de cinquenta anos, onde não faltam êxitos e experiências riquíssimas, como a de Ministro da Cultura do Brasil, abraçada por Gilberto Gil até há pouco tempo.

Felizmente, o italiano Ettore Caretta teve a ideia de desafiar estes dois amigos nascidos na Baía a fazerem uma tournée conjunta pela europa. Caetano estava exausto da sua “Abraçaço” e queria férias, Gilberto Gil andava numa roda-viva com o sucesso da sua “Gilbertos Samba”, mas um convite como o de Caretta era irresistível, irrecusável, adorável. Por isso são eles que hoje fecham o melhor Edpcooljazz de que há memória, no lindo Parque dos Poetas, em Oeiras.

São duas dezenas de temas lindos, icónicos, sonoramente deliciosos. Eles costumam começar pelo simbólico “Back in Baia” e depois seguem pela carreira de ambos a dentro, revisitando temas como Desde que o Samba é Samba, Avisa Lá, Tropicália, Expresso 2222, Sampa, Leãozinho… Dezenas de minutos de prazer musical, onde duas vozes ternas nos cantam belas histórias com a ajuda de dois violões. É o sonho de uma noite de verão!
Gabriel Vilas Boas

quinta-feira, 30 de julho de 2015

HELLO, LIONEL RICHIE


Yes, it is you I´m looking for. Felizmente foi possível trazê-lo a Portugal para um concerto único e derradeiro.
O ex-saxofonista dos Commodores está entre nós para recordar grandes êxitos duma carreira longa cujo epicentro se situa nos anos 80.
Quando, no início dessa década gloriosa da música norte-americana, Lionel Richie gravou, com Diana Ross, Endless Love, percebeu que, talvez, fosse bom tentar fazer carreira a solo.
Os anos seguintes confirmaram o talento de um cantor romântico que vendia milhões de discos com a facilidade com que se diz Hello ou Say you Say me, canção que serviu de banda sonora do filme “O Sol da Meia-Noite” e arrebatou um Óscar da Academia, em Hollywood.
Stuck on you consagra Mr. Richie como um mestre das baladas românticas, que soube trazer para a Américas dos Yankees a sensualidade latina.
Os seus principais êxitos musicais estão cheios desse perfume aveludado do soft rock, onde se cruzaram influências de jazz, country e pop.
A grande empatia que conseguiu com o público não vinha só das belas canções, que criava, mas também das causas humanitárias que abraçou. No auge do êxito pessoal esteve na génese do mítico “We are the world”, que pretendia arrecadar fundos para ajudar as famílias vítimas da fome em África. Há menos de dez anos foi decisivo para a libertação de Dallas Austin, nos Emirados Árabes Unidos, ao testemunhar sobre o seu bom carácter junto do embaixador daquele país nos EUA. Ao mesmo tempo envolveu-se na luta contra a Sida e o Cancro da Mama dando visibilidade à luta de todos aqueles que sofrem, ajudando a angariar fundos.
Esta noite, Lionel Richie talvez comece por dizer Hello. Cabe ao público português terminar com um mais que merecido Thank you!
Gabriel Vilas Boas



quarta-feira, 29 de julho de 2015

A MORTE DE VINCENT VAN GOGH


«O nosso querido amigo Vincent morreu há quatro dias. (…) No domingo à tarde, partiu para o campo, perto de Auvers, encostou o cavalete a uma meda de feno, foi para trás do castelo e disparou um revólver sobre si próprio. Com a violência do impacto (a bala entrou por debaixo do coração), ele caiu, mas levantou-se; caiu mais três vezes, mas regressou à estalagem onde se hospedara (Ravoux, Place de la Mairie), sem falar a ninguém do seu ferimento. 

Morreu, finalmente, na segunda-feira à tarde, a fumar o seu cachimbo que se recusou a largar, explicando que o seu suicídio fora absolutamente deliberado e que a sua lucidez era total. (…). 
A urna estava coberta com um simples pano branco e rodeada de montes de flores, os girassóis de que ele tanto gostava, dálias amarelas, flores amarelas por todo o lado. Era, como se lembram, a sua cor preferida, o símbolo da luz que ele sonhava ser tanto no coração das pessoas como nas obras de arte.»
Carta dirigida pelo artista Émile Bernard ao colecionador de arte Albert Aurier, em 4 de agosto de 1890.


O artista pós-impressionista Vincent Van Gogh suicidou-se com um tiro no estômago, num campo perto de Auvers-sur-Oise, nos arredores de Paris, a 28 de julho de 1890. Foi o local onde pintou um dos seus últimos quadros, Campo de Trigo com Corvos. O irmão, o marchand Théo (que o encorajara a seguir arte) fora o esteio emocional imprescindível do pintor atormentado e foi em seu auxílio, registando as últimas palavras de Vincent “A tristeza ficará para sempre.” Vincent morreu a 29 de julho, com 37 anos.
Numa carta dirigida uns dias antes à irmã de ambos, Elizabeth, Théo escreveu:
«As pessoas deviam perceber que ele é um grande artista, algo que muitas vezes coincide com ser um grande homem. Com o tempo, isso virá a ser reconhecido e muitos lamentarão a sua morte prematura.»
Théo morreu apenas seis meses depois, demasiado cedo para testemunhar a adulação global de que Vincent e a sua obra seriam alvo.

Vale a pena refletirmos sobre o desespero em que vivem muitas pessoas que nos rodeiam. Muitas delas cometem atos como o de Vincent Van Gogh e só então reparamos na pessoa que vagueou à nossa frente durante meses e percebemos que podíamos ter feito algo para anular aquela angústia.      

terça-feira, 28 de julho de 2015

MARK KNOPFLER IS COOL


O Edpcooljazz 2015 apresenta um dos melhores cartazes de sempre. Esta semana, as noites de Oeiras estão cheias da magia da grande música, produzida por autênticas lendas como Mark Knopfler, Lionel Richie, Melody Gordot ou Caetano Veloso & Gilberto Gil.
A noite de hoje enche o Parque dos Poetas com a sonoridade ímpar da guitarra de Mark Knopfler. Quase a fazer 66 anos, o britânico, que encantou a nossa juventude quando liderou o Dire Straits, vem a Portugal apresentar o seu nono álbum a solo, Tracker.

Considerado pela revista Rolling Stone um dos melhores guitarristas de sempre, Knopfler persiste na nossa memória pelo que fez enquanto guitarrista e vocalista dos Dire Straits na década de oitenta do século passado. Músicas como Money For Nothing, Sultans of Swing, Brothers in Arms, Walk of Live, Romeo & Juliet, Tunnel of Love, So Far Away, fazem parte do nosso património emocional. Knopfler sabe disso e costuma guardar um quarto dos seus concertos para revisitar essas gratas memórias de um grupo mítico da música pop do século XX.
No entanto, é preciso ter a consciência que os Dire Straits terminaram há vinte anos e desde então Mark tem percorrido o seu caminho a solo, fazendo vibrar a sua guitarra em solos magníficos, onde se nota a influência da música celta bem como elementos do folk e country norte-americanos.

De qualquer maneira, Wherever I go, a guitarra de Mr. Knopfler será sempre aquele brother in arms, que nos devolverá à inocência apaixonada de um Romeo & Juliet, e nos fará acreditar que true love will never fade. O importante é saber walk of life com o virtuosismo com que Mark Knofler exprime emoções a partir da sua guitarra.


Se não puderem apreciar ao vivo este regresso de Mark Knopfler, não fiquem so far away da sua música. Desliguem o barulho das luzes, passem a mão pelo veludo das memórias do dia e sorvam cada música como uma bebida única.

Gabriel Vilas Boas






segunda-feira, 27 de julho de 2015

TERRAÇO EM SAINTE-ADRESSE, de Monet


Um dos quadros que mais admiro do pintor francês Claude Monet é TERRAÇO EM SAINTE-ADRESSE, um óleo de 1867. Nele podemos observar claramente a sua maior fonte de inspiração: a luz.
No verão de 1867, Monet não tem dinheiro suficiente para viver e comprar material para pintar. Decide então fingir o rompimento com Camille, o grande amor da sua vida e prestes a dar à luz o seu primeiro filho (Jean nasce a 8 de agosto de 1867), para poder voltar a usufruir do apoio da família, que o acolhe novamente. Monet passa o verão de 1967 na casa da tia, em Sainte-Adresse.
Tinha sido em Sainte-Adresse, no verão anterior, que Monet descobriu o tema dos jardins. As flores cultivadas, as suas cores e o seu vigor fascinam-no e são um tema que permite o estudo da luz.
Na tela Terraço em Sainte-Adresse, as flores e luz reúnem-se com outra grande inspiração de Monet, a água. A par dos elementos naturais, Monet mete na cena, em primeiro plano, o pai. Ele é o senhor sentado e com um panamá na cabeça. As outras figuras são também seus parentes: a prima Jeanne Marguerite Lecadre e o pai desta, o Dr. Lecadre, ambos junto ao muro, e Sophie (irmã de Jeanne), mulher sentada de costas para o espectador.
Monet pintou terraço, mar e céu como três bandas distintas em que as três zonas horizontais da composição parecem aumentar em paralelo com o plano de imagem, em vez de recuo para o espaço. Esta técnica não só cria uma tensão subtil resultante da combinação de ilusionismo e os bi-dimensionalidade da superfície, como enfatiza a superfície plana da tela. Esta técnica constituía uma grande ousadia para a época.

Monet costumava chamar a esta tela “a pintura chinesa em que há bandeiras”, pois a construção deste quadro teve uma forte influência do quadro Pavilhão Sazai do Templo dos Quinhentos Rakan (1829-33) de Katasushika Hokusai, onde já era evidente uma sobreposição de níveis horizontais.
Atualmente, este maravilhoso quadro de Caude Monet está em Nova Iorque, num dos mais importantes museus do mundo, o New York Metropolitan Museum of Art, desde de 1967.

domingo, 26 de julho de 2015

ADORÁVEIS DEFEITOS

«Todos temos defeitos!» Ouvimos muitas vezes, em jeito de aviso, defesa ou simples constatação. No entanto eles têm sabores diferentes, conforme sejam os nossos ou os dos outros. Para uns temos mil desculpas, para outros pouca paciência.
Os nossos defeitos são consequências enquanto os do vizinho são causas. Na verdade, ambos são hábitos maus, que se perpetuam no tempo e no espaço, azucrinando a vida de todos.
Claro que há defeitos e defeitos, mas se há defeitos impossíveis de tolerar também não é tolerável que defeitos tão insignificantes persistam irritantemente no tempo.
Os defeitos nascem e crescem quando a humildade nos abandona e o orgulho nos consome. São dois companheiros terríveis e insidiosos. Domá-los é um exercício difícil e permanente, mas perfeitamente viável.
O que não é viável é justificar os nossos defeitos com os defeitos alheios. Não resolve o nosso problema nem o do outro. Os únicos defeitos que nos devem interessar são os nossos, pois só esses podemos eliminar. Então, por que não o fazemos? Na verdade, suspeito que a verdadeira razão é porque os adoramos, ainda que saibamos que nos fazem mal. Achamos imensa piada aos nossos defeitos e a primeira tentação é justificá-los. Normalmente não resulta e por isso passamos à segunda parte do plano: vesti-los de alguma graça que os torne engraçados. 
Naturalmente captamos apenas sorrisos amarelos e decidimos mudar de estratégia: torná-los pequenos monstros caprichosos que dominam desassombradamente a nossa débil vontade. Por esta altura, os outros deixam de nos tentar ajudar e vão à vida deles, deixando-nos com os nossos diabetes de personalidade, para sempre.
Ora isto não tem que ser assim nem é preciso ser um herói para escrever outra narrativa pessoal. Os defeitos são coisas más e feias, que nos magoam o carácter. Quase todos os defeitos são elimináveis ou reduzíveis à sua insignificância. Se agora estão monstruosos, há que começar por deixar de alimentar o glutões.
A melhor maneira de ajudar o outro a fazer alguma coisa pelos seus defeitos é tratar dos nossos. O bom exemplo tem efeito devastador no mau exemplo.

Gabriel Vilas Boas 

sábado, 25 de julho de 2015

ATORES SECUNDÁRIOS


Em 1936, quando foi atribuído pela primeira vez, chamaram-lhe prémio para o melhor ator/atriz secundário(a). Walter Brennan, que viria a conquistar mais duas estatuetas da mesma categoria, e Gale Sondergaard, no seu filme de estreia, receberam aplausos por terem encarnado personagens que não eram, de facto, as figuras centrais dos respetivos enredos.

Hollywood ainda vivia um tempo em que – apesar das exceções que sempre confirmam a regra – havia estrelas com estatuto de protagonistas e atores talhados para “supporting role”.
As regras dos novos Óscares, todavia, não eram muito claras e em pouco tempo a categoria começou a ser desvirtuada e explorada como uma via fácil para obter uma estatueta, havendo quem fosse nomeado por desempenhos que de secundários nada tiveram.

 Em alguns momentos foi claro como isso foi um expediente para alargar as possibilidades de êxito de determinado ator. Richard Burton, por exemplo, foi candidato entre os secundários pelo seu papel principal em A Minha Prima Raquel, 1952. No caso do filme The Sunshine Boys de 1975, ficou bem evidente que se dividiu a nomeação dos dois protagonistas (Walter Mathau e George Burns) pelas duas categorias, de forma a abrir possibilidade de triunfo a ambos.
O cúmulo da indefinição deu-se em 1944, ano em que o mesmo ator, Barry Fitzgerald, foi nomeado pelo mesmo desempenho em O Bom Pastor, para as duas categorias: ator principal e secundário. Fitzgerald venceu entre os “secundários”.

Com o tempo, procurou-se ser mais rigoroso, chegando-se mesmo a alterar a própria designação do prémio, hoje chamado Óscar para o Melhor Desempenho de um Ator/Atriz num Papel Secundário.Em paralelo, um ator com estatuto de vedeta não rejeita um pequeno papel que esteja ao nível do seu prestígio, verificando-se frequentemente que mais do que um elemento do mesmo elenco aparece a concorrer pelo Óscar de secundário.
Por 13 vezes dois atores do mesmo filme concorreram entre si à estatueta de melhor ator secundário e em três ocasiões verificou-se que um trio de candidatos saiu do mesmo filme. Assim aconteceu no ano em que Robert De Niro, ganhou entre os “secundários”, os seus concorrentes eram Michael Gazzo e Lee Strasberg, que contracenaram com ele em O Padrinho II.

De Niro não é o único monstro com o nome na galeria dos “secundários”. Ali se encontram, por exemplo, Jack Nicholson ou Gene Hackman.
Quatro atores conseguiram esta estatueta por duas vezes: Anthony Quinn, Peter Ustinov, Melvyn Douglas, Jason Robards.

Bem pior, em matéria de candidatura ao Óscar de Ator/Atriz Secundário(a) foi a sorte de Arthur Kennedy e Thelma Ritter. Ele foi nomeado quatro vezes, ela por seis. Nunca venceram!

sexta-feira, 24 de julho de 2015

A DESCOBERTA DA «CIDADE PERDIDA DOS INCAS»


O jovem e rico académico americano Hiram Bigham tropeçou na «cidade perdida dos Incas», Machu Picchu, em julho de 1911.
Datada do século XV e situada a cerca de 110 quilómetros de Cusco, a capital Inca, o seu papel histórico é alvo de controvérsia. Mas não restam dúvidas quanto à majestade do cenário impressionante, no cimo dos Andes, nem quanto à sua popularidade como destino turístico, pois atrai quase meio milhão de visitantes, por ano.


Como entender esse fascínio? Nada melhor do que ler parte do relato do próprio Hiram Bingham
«Mal tínhamos contornado o promontório quando o tipo de trabalho em pedra começou a melhorar. Um lanço de terraços magnificamente construído… fora resgatado pouco tempo antes à selva pelos índios… entrei na floresta intacta à minha frente e de súbito encontrei-me num labirinto formado pelas belas casas de granito! Estavam cobertas de árvores, musgo e uma vegetação secular.

Por baixo de um rochedo esculpido, o rapazinho mostrou-me uma gruta extraordinária forrada pela mais bela pedra trabalhada. Destinava-se, como era óbvio, a ser o mausoléu real. No cimo deste penedo especial, fora erigido um edifício semicircular. A parede acompanhava curvatura natural da pedra e estava ligada a ela por um dos mais belos exemplares de alvenaria que alguma vez me foi dado ver… 


As linhas ondulantes, a disposição simétrica dos silhares (blocos esculpidos), e a produção gradual dos caminhos combinavam-se e surtiam um efeito encantador, mais suave a agradável que o do templos de mármore do Velho Mundo. Devido à ausência de argamassa, não há espaços feios entre as pedras. Era como se tivessem crescido juntas.

As surpresas sucediam-se de uma forma atordoante. Subi uma escada maravilhosa e imponente de grandes blocos de granito… e desemboquei numa pequena clareira. Aqui estavam as ruínas de duas das estruturas mais belas que vi no Peru. Não só eram feitas de blocos selecionados de granito matizado de branco como as suas paredes continham silhares de dimensões ciclópicas, com três metros de comprimento e mais altos de que um homem. Fiquei fascinado.»  

quinta-feira, 23 de julho de 2015

ANSIEDADE, de Edvard Munch

Esta obra de Edvard Munch pode ser comparada ao Grito, famoso quadro do mesmo autor e pintado um ano antes, em Berlim. Quer os fiordes de Kristiania (Oslo), que se desenham ao longe na paisagem quer a angústia, que impregna toda a obra, através de algumas linhas tensas que desenham rostos cadavéricos, confirmam essa ligação entre estes dois quadros de Munch.
E o que podemos ver neste óleo de 1894 com um título tão sugestivo da personalidade deste pintor?
O quadro parece retratar uma procissão fúnebre, visto que todos os membros do grupo estão vestidos de negro e dispostos em fila, mas também podemos estar perante uma alegoria da vida, simples caminho para a morte, segundo Munch.
Os rostos pálidos e magros, com enormes olhos redondos, são característicos da pintura expressionista do criador norueguês, um dos grandes percursores desta corrente, conjuntamente com Van Gogh.
As cores são dissonantes e estão dispostas de forma diluída, como se a pintura se fosse desintegrar.
A tensão e a tragédia impregnam a cena, que expressa de forma clara o sentimento de angústia, tantas vezes sentida pelo autor de O Grito.

O céu de Munch, executado através de linhas nervosas, onduladas e empastadas relembra-nos, embora com outras tonalidades e outro ritmo de pincel, os céus de Van Gogh, também profundamente em empatia com o estado nervoso do artista.
Esta obra de Munch causou grande escândalo em Berlim e chegou a ser acusada de ser um “insulto à pintura”. Os críticos não entendiam a sua dissolução da forma e a estridência da sua cor. Todavia, o chamado “caso Munch”, trouxe fama ao pintor e proporcionou-lhe o contacto com o marchand Edouard Schulte.
Para observarmos de perto esta obra magnífica temos de nos deslocar a Oslo, mais propriamente ao Munchmuseet, que é como quem diz Museu Edvard Munch, onde podemos apreciar não só obras de Munch como ver exposições de fotografia, assistir a uma peça de teatro ou ver um filme. Se um dia passarem por Oslo, é “obrigatório” uma paragem neste museu.
 Gabriel Vilas Boas 

quarta-feira, 22 de julho de 2015

ANGRA DO HEROÍSMO, JANELA SOBRE O ATLÂNTICO


Nos últimos meses voar para os Açores tornou-se ainda mais barato e cada vez mais portugueses procuram conhecer as magníficas ilhas atlânticas que têm um encanto e beleza natural fora do comum. São Miguel atrai mais do que qualquer outra e já pude comprová-lo numa curta estadia há quatro anos. No entanto, todas as outras ilhas têm também o seu fascínio. Hoje proponho-vos um olhar atento sobre a capital da Ilha Terceira, Angra do Heroísmo cujo centro foi classificado, em 1983, como Património da Humanidade pela Unesco.

A vida de Angra do Heroísmo sempre foi abalada por fortes emoções e convulsões. Quem não recorda o dia de Ano Novo  do longínquo ano de 1980. A terra tremeu, em consequência dum sismo de grau oito na escala de Mercalli, e em poucos minutos a cidade ficava em destroços.
Todavia, o enorme amor dos angrenses à sua terra fez com que rapidamente a cidade fosse reconstruída segundo o modelo original – uma façanha digna dos maiores encómios.
Angra é uma pequena cidade da Ilha Terceira e ganha relevância geoestratégica no meio do Atlântico, qual porto de abrigo natural que ampara as embarcações. Até à era dos navios a vapor, todas os galeões provenientes da América com destino à Europa, carregados das preciosidades dos impérios Maia e Inca, aproavam à baía de Angra do Heroísmo. Os navegantes reabasteciam-se de provisões, mudavam de velas, reparavam os rombos dos navios e curavam as maleitas no hospital. O porto oferecia ainda um ótimo abrigo natural para os ataques dos piratas.

Quando nos encontramos nas ruas de Angra e temos presente o plano arquitetónico da cidade, reconhecemos rapidamente a nitidez da sua estrutura.
Ainda fiéis à tradição camponesa medieval, os primeiros colonizadores construíram os arruamentos e as casas com a forma de um ípsilon. Em torno da Praça do Mercado, no centro da cidade, desenvolve-se uma rede viária de estrutura radial.
Sete décadas após as primeiras construções, os angrenses mudaram de paradigma arquitetónico. Passaram a seguir o modelo florentino. Tomando por base do traçado urbano, a planta é em forma de tabuleiro de xadrez. Isto constituiu uma opção muito moderna para a época.
Nas imediações do porto surgiram bairros de recorte nítido, com depósitos para cereais, água potável e bacalhau, grandes padarias e oficinas de carpinteiros, adegueiros e fabricantes de caixotes. Desenvolveram-se indústrias de reparações de navios e empresas para a produção de géneros alimentícios. Angra tornou-se percursora do moderno catering.
A importância de Angra foi bem demonstrada pelos espanhóis que, nos séculos XVI e XVII, durante a sua dominação em Portugal, edificaram a gigantesca fortaleza que dá pelo nome de Castelo de São João, a fim de proteger todos os lados da enseada. Tal muralha da China, os caminhos de ronda prolongam-se, até aos dias de hoje, por mais três quilómetros em torno do Monte do Brasil. No bastião, chegaram a estar, temporariamente, mil soldados. Centenas de canhões faziam a receção ao inimigo vindo do oceano.
O Castelo de São Sebastião ocupava o monte fronteiro, de modo que Angra podia atacar uma armada inimiga de ambos os lados, colocando-a sobre fogo cruzado.
No espaço protegido entre as duas fortalezas espraia-se um homogéneo conjunto renascentista. Nas fachadas das igrejas e nas imponentes casas burguesas pode ler-se o apogeu de Angra. Galerias de janelas gradeadas alinham-se umas ao lado das outras, decoradas com ferro forjado ou madeira trabalhada num padrão de silhuetas. Tiras de escura pedra vulcânica cingem as janelas e as portas, as esquinas e os lambris. Telhas tubulares cor de terra, dispostas em forma de favo, servem de cobertura às casas – uma cidade de imagem despojada mas expressiva.

O ex-libris de Angra do Heroísmo é a Sé Catedral, com o característico padrão quadriculado em azul-e-branco nas duas torres que o terramoto e um incêndio danificaram gravemente.
O majestoso convento dos jesuítas não deixa subsistir qualquer dúvida quanto à influência política da ordem. Após a expulsão de Portugal dos seus poderosos membros, o sumptuoso edifício amarelo e branco foi ocupado pelo poder temporal: nele passaram a residir os capitães-generais.

Na igreja do antigo convento de São Gonçalo, da ordem das Clarissas, a decoração em azulejo azul e branco e a talha dourada aludem ao antigo apogeu da cidade. Só as partes “remendadas” em gesso que se deixou ficar a branco, no meio do ouro, recordam os “tempos inquietos”.

terça-feira, 21 de julho de 2015

TEATRO DE VERÃO EM AMARANTE



Esta semana o Teatro é rei em Amarante. De 19 a 25 de julho, os claustros da Câmara Municipal ficam cheios de amarantinos ávidos por soltar uma boa gargalhada com as peças que os grupos teatrais convidados trazem à cidade de Teixeira de Pascoaes e Amadeo Souza Cardoso.
Gosto muito de teatro e por isso fico muito satisfeito com a iniciativa, da edilidade amarantina, de promover esta semana dedicada às artes cénicas, alargando a oferta cultural de verão, além da música.

Um público de várias gerações lota a bancada amovível, em todas as noites. O cartaz da 15.ª edição é variado e promete não defraudar as expectativas. A primeira noite coube ao grupo da terra, o T’ Amaranto, que escolheu a peça “Rosinha, A Solteira” para mostrar ao público amarantino. Ontem, a noite ficou a cargo do Teatro de Comédia de João Carracedo que trouxe até nós “All You Need Is Love, Uma Comédia Quase Romântica”. Num estilo sitcom, um casal de atores abordou, de forma cómica e caricatural, alguns dos clichés mais conhecidos da relação homem/mulher.

Para hoje, está prometida uma peça que levará o público até ao início do século XVII. “Entrada do Rei”, levada à cena por Este – Estação Teatral. O rei Filipe viaja de Madrid para Lisboa, onde sonha entrar triunfalmente, mas esse momento esconde uma surpresa para revelar ao espectador…
Amanhã, o festival prossegue com “Novecentos, o Pianista do Oceano” pela companhia Peripécia Teatro. Cada ator assume a interpretação de várias personagens, onde a ironia se cruza com o humor, e as histórias desfilam naturalmente tendo como pano de fundo a música, a beleza, a amizade.
Na quinta, o Teatro de Montemuro (Teatro de Rua) encena “Caídos do Céu”, no magnífico espaço do Largo de São Gonçalo, onde conhecidos santos visitam a terra para umas merecidas férias. A noite de sexta-feira leva os espectadores de volta aos claustros camarários para ver os atores da Filandorra Teatro do Nordeste abrir o “Saco de Nozes”, que se esconde uma história onde as mulheres, supostamente, deviam ser submissas aos maridos, mas em que, na verdade, acontece o contrário.
O festival fechará, no sábado, com a peça “O Farrusco, o Telefone e Eu”, uma comédia da famosa Geraldine Aron, interpretada por Maria Henrique, onde uma quarentona procura a felicidade, depois de o marido a ter trocado por uma mais nova.  
Propostas não faltam, em Amarante, para um final de noite longe da televisão, em boa companhia e com diversão garantida.

Gabriel Vilas Boas

segunda-feira, 20 de julho de 2015

JOHN LEGEND - ALL OF LOVE



Chrissy Teigen é uma mulher belíssima, uma fonte de inspiração para qualquer cantor, mas o seu marido esmerou-se e escreveu e compôs para ela uma das mais belas canções da última década: All of me. Por causa dela, talvez John Roger Stephens venha a tornar-se numa legenda da música internacional.
O músico norte-americano esteve há dias em Portugal, onde foi a cabeça de cartaz do festival “Marés Vivas”, em Vila Nova de Gaia.
Dono de uma voz potente, segura e sedutora, John Legend não desiludiu os seus inúmeros fãs e brindou o público português com um concerto empolgante, romântico, charmoso onde passearam músicas como I can change ou Save room até se atingir o clímax com o inimitável All of me. Com o Douro como cenário de fundo, milhares de casais apaixonados entoaram esse hino ao amor, por entre beijos e olhares cúmplices. Tudo nesta canção é belo: a ideia musical, os arranjos, a letra. E depois há a força daquele início que a todos arrebata. Há trechos de grande sensibilidade poética que revelam quanto inspirador pode ser o amor de uma mulher.

(…)
‘Cause all of me
Loves all of you
Love your curves and all your edges
All your perfect imperfections
Give your all to me
I’ll give my all to you
You’re my end and my beginning
Even when I lose I’m winning
‘Cause I give you all, all of me
And you give me all, all of you


How many times do I have to tell you
Even when you’re crying you’re beautiful too
The world is beating you down, I’m around through every mood
You’re my downfall, you’re my muse
My worst distraction, my rhythm and blues
I can’t stop singing, it’s ringing, in my head for you
(…)

Foi através desta música que John Legend atingiu um estatuto de superestrela, deixando definitivamente a sombra de nomes como Alicia Keys, Kanye West ou Jay Z. Hoje, John é uma estrela e tem plena consciência disso, utilizando esse estatuto para impor os seus caprichos ou lutar por causas nobres. Não achei piada nenhuma quando obrigou todos os fotojornalistas presentes no “Marés Vivas” a ceder gratuitamente as fotos tiradas durante o concerto à empresa que explora a sua imagem, mesmo quando esta as usar com fins comerciais. Mas por outro lado apreciei o facto de ter feito questão em visitar a prisão masculina de Santa Cruz do Bispo, em Matosinhos, onde louvou a humanidade com os presos portugueses são tratados em contraponto com o que se passa nas prisões do seu país. 
Apesar da curta carreira artística, John Legend parece que veio para ficar e fazer jus ao nome.
Gabriel Vilas Boas

domingo, 19 de julho de 2015

ARISTIDES SOUSA MENDES - UM TRATADO DE HUMANIDADE



Passam hoje 130 anos do nascimento de Aristides Sousa Mendes, o cônsul de Portugal em Bordéus, quando a rebentou a Segunda Guerra Mundial e que se destacou por passar milhares de vistos a judeus, para se refugiarem em Portugal da mortal perseguição nazi, contrariando a ordem expressa do governo de Salazar.
Não me quero deter sobre os dados da extraordinária história vivida por Aristides Sousa Mendes naqueles loucos meses dos anos de 1939 e 1940, nem vou discutir se salvou mil, dez mil ou trinta mil pessoas. O importante, e isso é inegável, é a dimensão do que fez: sucessivos atos de coragem, liberdade e humanidade.
Usou o cargo que tinha para salvar pessoas, para afirmar a vitória da humanidade sobre a barbárie.
Violou regras, desrespeitou ordens, colocou o país numa posição difícil a nível diplomático, em plena guerra mundial? É verdade, mas isso é tão pequenino e insignificante, sem o ser, quando comparado com as vidas de gente inocente que salvou.
A política não pode ser só tática, interesse, jogo. A política serve para ajudar as pessoas e a sobrevivência é a ajuda mais fundamental que podemos prestar a alguém.
 Os grandes homens, os grandes políticos, aqueles que querem inscrever o seu nome na história dos povos como verdadeiros estadistas não se acobardam perante as circunstâncias ou opiniões públicas sectárias e cegas pelo ódio.

Nos últimos meses lembrei-me várias vezes do mais famoso cônsul da história de Portugal, por causa do problema dos migrantes no mediterrâneo. Como são tristes notas de rodapé da História atitudes como a de Angela Merkel, ainda esta semana, ao anunciar que alguns dos refugiados palestinianos não poderiam ser recebidos pela Alemanha, porque a política é uma coisa dura, desumana, interesseira.

Com uma sensibilidade horripilante, Merkel arrasou o sonho duma adolescente palestiniana que não conseguirá entender jamais as prioridades da chanceler alemã.
Recordar Aristides Sousa Mendes não pode ser apenas lembrar um homem bom, humano, corajoso, porque o seu exemplo não frutificou. É preciso tornar o seu exemplo um farol que ilumine as consciências daqueles que nos governem. A liberdade e a humanidade são valores absolutos que jamais poderão estar sujeitos a jogos de conveniência.
Gabriel Vilas Boas

sábado, 18 de julho de 2015

O MASSACRE DE SREBRENICA


Em 18 de julho de 1995, após uma semana de assassínios concertados, terminou a maior atrocidade cometida em solo europeu desde a segunda guerra mundial. Nessa altura, milhares de homens, jovens e rapazes muçulmanos bósnios – mais de 7500 segundo a maioria das estimativas – tinham sido executados por forças sérvias da Bósnia e os cadáveres atirados para valas comuns.
Como o relatório do Secretário-Geral das Nações unidas esclareceu, o choque não foi apenas o do número de mortos e a tragédia humana, foi também o fracasso das organizações internacionais, em particular as Nações Unidas, que haviam chamado a Srebrenica um «porto seguro» da devastação provocada pela guerra civil na Bósnia. Mal preparadas, mal informadas e muito inferiores em número, as tropas da ONU, sobretudo holandesas, que guardavam o porto seguro, tinham permitido que a forças sérvias massacrassem as suas vítimas.

Em maio de 2011, Ratko Mladic, o general sérvio da Bósnia acusado de organizar o massacre, foi, finalmente, detido e enviado para o tribunal criminal internacional da ex-Jugoslávia, das Nações Unidas, onde foi condenado por “genocídio” e “crimes contra a humanidade”.
Para melhor percebermos a dimensão do acontecido, transcrevo parte do Relatório do Secretário-Geral das Nações Unidas que se seguiu à resolução da Assembleia Geral 53/35, intitulado A Queda de Srebrenica, 15/1999.      

«A tragédia que ocorreu após a queda de Srebrenica é chocante por várias razões. Em primeiro lugar, pela magnitude dos crimes cometidos. Desde os horrores da segunda guerra mundial que a europa não assistia a massacres a esta escala. Os restos mortais de cerca de 2500 homens e rapazes foram encontrados à superfície em valas comuns e em cemitérios de segunda categoria. Continuam desaparecidos vários milhares de homens e há muitos motivos para pensar que outros cemitérios revelarão os cadáveres de mais alguns milhares de pessoas.
A grande maioria dos que morreram não pereceu em combate. Os corpos exumados das vítimas mostram que muitas tinham as mãos atadas, os olhos vendados, ou foram alvejadas na nuca. Numerosos relatos de testemunhas oculares, devidamente corroboradas por provas forenses, evidenciam cenas de assassínio em massa de vítimas desarmadas.
A queda Srebrenica é igualmente chocante porque os habitantes do enclave acreditavam que a autoridade do Conselho de Segurança das Nações Unidas, a presença da Unprofor e o forte aéreo da NATO garantiriam a sua segurança. Contudo, as forças sérvias da Bósnia ignoraram o Conselho de Segurança, afastaram as tropas da Unprofor e avaliaram corretamente que não seriam usados meios aéreos contra elas. Arrasaram a zona segura de Srebrenica e despovoaram o território em 48 horas. Em seguida, os seus líderes envolveram-se em negociações de alto nível com representantes de comunidade internacional enquanto as suas forças no terreno executavam e enterravam milhares de homens e rapazes em poucos dias.   
Numa tentativa de assacar responsabilidades pelos terríveis acontecimentos registados em Srebrenica, muitos observadores apressaram-se a apontar o dedo aos soldados do batalhão holandês da Unprofor, acusando-os de serem os maiores responsáveis. Acuram-nos de não tentar suster o ataque sérvio e de não proteger os milhares de pessoas que procuraram refúgio no seu complexo. Todavia, depois de avisarem o comandante do batalhão que se impunha evitar o risco de confronto com os sérvios e que a execução do seu mandato era secundário para segurança do seu pessoal, o batalhão retirou-se dos postos de observação debaixo de ataque.
É certo que as tropas da Unprofor em Srebrenica nunca abriram fogo sobre os sérvios atacantes. Dispararam tiros de aviso sobre a cabeça dos sérvios e os seus morteiros lançaram sinais luminosos, mas nunca abriram fogo diretamente sobre unidades sérvias. Se tivessem atacado diretamente os sérvios é possível que os acontecimentos tivessem seguido um rumo diferente…
A lição essencial a extrair de Srebrenica é que uma tentativa deliberada e sistemática de aterrorizar, expulsar ou assassinar um povo inteiro tem de ser travada decisivamente com todos os meios necessários e com a vontade de conduzir a política até à sua conclusão lógica.

Nos Balcãs, nesta década, foi preciso aprender esta lição, não uma mas duas vezes…

A experiência das Nações Unidades na Bósnia foi uma das mais difíceis e penosas da nossa História… 
Devido aos erros, a avaliações incorretas e à incapacidade de conhecer a dimensão do mal com que nos confrontámos não fomos capazes de ajudar a salvar o povo de Srebrenica da campanha genocida sérvia… 
A tragédia de Srebrenica assombrará para sempre a nossa História.»