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sábado, 31 de janeiro de 2015

PEDOFILIA E CASA PIA


Há onze anos a sociedade portuguesa sofreu um autêntico abalo sísmico com a prisão de Carlos Cruz, Jorge Ritto, Ferreira Dinis, Hugo Marçal, Carlos Silvino, entre outros, acusados pelo Ministério Público do crime de pedofilia sobre crianças e adolescentes à guarda da Casa Pia de Lisboa.
Ao fim de sete anos, após uma longuíssima batalha jurídica, os principais arguidos foram condenados, o que acabou por sancionar, no essencial, as prisões preventivas iniciais e o julgamento popular, feitos pelos media, que cravou em Carlos Cruz e restantes arguidos o carimbo de pedófilos.

Agora que a poeira definitivamente assentou, é possível perceber que este foi um processo doloroso, mas essencial para o sistema judiciário português e também para a democracia, pois um dos pilares fundamentais do nosso sistema é a independência da justiça.
Portugal enfrentou um dos fantasmas mais duros da era democrata: um dos seus ídolos televisivos – Carlos Cruz -  era acusado de pedofilia e havia provas mais ou menos concludentes que o deixavam em maus lençóis. É difícil aceitar que uma pessoa com quem simpatizamos cometeu um crime tão odioso, mas havia um bem superior a defender: a verdade e a dignidade daqueles jovens que sofreram abusos e maus tratos, que os marcaram para toda a vida.
Olho para o processo e retenho o essencial: aqueles menores e outros foram abusados reiteradamente durante anos; alguns dos crimes imputados aos arguidos foram efetivamente cometidos por eles; as condenações pareceram-me justas e equilibradas; alguma da dignidade das vítimas foi resgatada; no final, houve um generalizado sentimento de justiça.


Neste sentido, deste processo resulta uma vitória da Justiça em Portugal. Poderosos foram apontados, julgados e condenados. O país foi coeso na afirmação dos seus valores fundamentais, mesmo que isso tivesse custado uma grande desilusão coletiva.
Foi muito importante ter-se ido até ao fim com o processo e proceder a condenações que não pareceram forçadas. Um médico, um embaixador, um advogado, um apresentador televisivo famoso foram condenados, mostrando que a justiça também se aplicava a quem era rico e influente, mesmo quando do outro lado estavam jovens com baixo estatuto social.

Claro também houve erros e excessos. Os mais relevantes e chocantes pareceram-me o julgamento popular e o excessivo tempo que o processo demorou em tribunal. Aceito que o tempo da justiça nunca possa ser o tempo dos media, mas este processo mostrou que a justiça tem de se tornar mais célere para não lançar lama sobre o carácter e a honorabilidade dos cidadãos. Desta vez quem usou todas as escapatórias da lei para adiar o processo saiu a perder, porque viu os tribunais confirmarem o que televisões e jornais nos impuseram, no entanto, nem sempre será assim.
Não é bom que o Correio da Manhã e a TVI tenham de fazer o papel de justiceiros, rompedores dum status quo que protege quase sempre os poderosos. Os excessos de uns são tão condenáveis como as omissões de outros. É preciso aprender, efetivamente, com o que se fez mal neste processo, para que a sociedade possa ter confiança e se orgulhe nas decisões dos tribunais.
Gabriel Vilas Boas  


sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

BLOODY SUNDAY


O dia 30 de janeiro é um dia manchado de más notícias nos anais da História. Hitler é nomeado chanceler alemão em 1933, Mahatma Gandhi é assassinado em 1948, catorze irlandeses são alvejados mortalmente pela polícia britânica na Irlanda do Norte, quando faziam uma manifestação pacífica, naquele que ficou para a História como o domingo sangrento.
Fiquei a saber o que fora o Domingo Sangrento de 72 através da tocante música dos U2 “SUNDAY BLOODY SUNDAY”, editada em 1983.
A meio da letra, Bono e companhia interrogam-nos
And the battle's just begun
There's many lost, but tell me who has won?

Obviamente ninguém! Mas houve muitas perdas!

The trenches dug within our hearts
And mothers, children, brothers, sisters torn apart

Onze anos depois daquelas tristes notícias que enchiam de dor o seu coração de irlandês, o líder dos U2 perguntava:

How long, how long must we sing this song?

Talvez nem Bono imagina-se que teriam de passar quase quarenta anos para que o governo britânico reconhecesse que os soldados britânicos procederam de maneira errada e apresentasse as suas desculpas aos familiares das vítimas.
O Domingo Sangrento de 1972 foi a chama que alimentou o IRA durante anos, foi a gasolina dum ódio que matou muita gente e no qual várias gerações de norte-irlandeses e ingleses cresceram e viveram.



E quando penso que isto partiu duma disputa entre católicos e protestantes, duas igrejas da mesma religião, mais revoltado fico. Tenho sempre muita dificuldade em perceber como quem prega a paz, a concórdia, a harmonia entre povos, dá tão péssimos exemplos.
Quando as igrejas desfocam a sua ação do essencial, rapidamente se tornam num exemplo perverso daquilo que nunca se deve fazer.
O “Domingo Sangrento” de Derry jorrou sangue durante muito tempo. Nesse longo inverno de dor, incompreensão e revolta fermentaram-se terroristas, cavaram-se fossos históricos entre dois povos que tinham tudo para se entenderam.
Foi a passagem do tempo que construiu a paz. E o tempo que se perdeu entretanto…
A vida dos povos e até dos indivíduos está cheia de “dias sangrentos”, onde a ira humana provoca danos consideráveis à paz desejada. A inteligência humana revela-se na capacidade de apreender o óbvio: só há uma saída quando se faz algo de muito errado, é fazer algo de muito certo. Assumir os erros, reparar o que é possível reparar são premissas fundamentais para seguir em frente.
Era magnífico que a História tivesse razões para desenhar uma flor por cima destas cicatrizes sangrentas.

Gabriel Vilas Boas

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

DA ARTE, DA PINTURA, DO ROMANTISMO

O pintor não deve pintar somente aquilo que vê exteriormente, mas sim o que descobre sobre si próprio. E se não vê nada em si próprio, mais vale que deixe de pintar o que tem à sua frente. Caso contrário, os seus quadros seriam como esses biombos, atrás dos quais só se espera encontrar doentes ou, inclusivamente, mortos.” Caspar David Friedrich
  
Caspar David Friedrich (1774-1840) foi uma figura de destaque na pintura romântica alemã. Pintor de cavalete, é profícuo no retrato e em conceções muito particulares da Natureza. Natural de Greiswald, Alemanha do Norte, este é o pintor da subjetividade e da poética da Natureza.
Exímio na pintura de paisagem, mas de uma paisagem inebriada de sentimento e espiritualidade, vai deixar-nos cenários de exceção, como sejam as colinas da Saxónia ou o  litoral do Báltico, com as suas escarpas e precipícios rochosos, num claro convite para o abismo.
Marcadamente individualista, os Românticos isolam-se para questionar Deus, o Mundo, o seu próprio destino…esperam revelações fatais, extraordinárias…
Impossível a calma, a serenidade. Estas obras denotam exaltação dos sentidos, a exacerbação absolutamente passional do mundo, dos homens, das causas. A ideia da Morte obcecava-os e morrer por um amor impossível ou pela  causa da Liberdade era um impulso exageradamente estimulante. Daí, a representação da noite, tão ao gosto romântico, numa prefiguração da Morte. Daí, a fuga da realidade e o mergulho no mistério, na neblina, nas trevas ou no passado longínquo como o era a Idade Média, que vira afirmarem-se as diferentes nacionalidades europeias.
Na obra com que vos deixo hoje e que pode ser apreciada em Hamburgo, Friedrich constrói o verdadeiro herói romântico.

                                                              Kunsthalle, Hamburgo

 Este é um dos maiores museus de arte da Alemanha fazendo parte da sua coleção pintura holandesa do séc. XVII, incluindo obras do grande Rembrandt, pintura do Romantismo alemão, como as obras de Runge e Friedrich, passando pelo Impressionismo e pelo Modernismo clássico.
É também importante o acervo de Arte Contemporânea (Pop Art, Arte Conceptual, Vídeo e Fotografia).Mas hoje, deixemo-nos envolver pelo Romantismo de Friedrich.
Mergulhemos no Viajante Diante de um Mar de Neblina; neste óleo sobre tela, a figura principal aparece representada de costas e apenas temos uns loiros cabelos revoltos a deixar voar a nossa imaginação. Que feições nos esconde o pintor? Suaves, ou marcadas de rugas inglórias por constantes desilusões? Que vencido da vida é este homem que nos volta as costas e não nos enfrenta com ousadia? Usando um elegante sobretudo verde, apenas o bordão de viajante nos leva a pensar na solitária e perigosa caminhada pela encosta grandiosa e mística. A neblina deixa-nos adivinhar a alma da personagem representada, envolvida pela tempestade representada em paisagem de tons ácidos e frios, a começar pelo céu inundado de nuvens…
Que batalhas se travam ali? Que fascínio atrai a personagem para o encontro fatal com a solidão? Que ausências magoam e ferem de morte aquela silhueta esguia? Que visão metafísica procura? Ou sonha apenas momentos vividos?
Soubera eu responder…

Viajante Diante de um Mar de Neblina, Caspar David Friedrich,1818, (Kunsthalle, Hamburgo)
Como não sei, deixo-vos airosamente com uma poesia de Garrett, como sabem, também ele um fervoroso romântico. Haveriam de se entender e de ser amigos, estes dois.

Quando eu sonhava

Quando eu sonhava, era assim

Que nos meus sonhos a via;

E era assim que me fugia,

Apenas eu despertava,

Essa imagem fugidia

Que nunca pude alcançar.

Agora,que estou desperto.

Agora a vejo fixar…

Para quê?-quando era vaga,

Uma ideia, um pensamento,

Um raio de estrela incerto

No imenso firmamento,

Uma quimera, um vão sonho,

Eu sonhava-mas vivia:

Prazer não sabia o que era,

Mas dor, não na conhecia…
                                                  Almeida Garrett, Folhas Caídas


Rosa Maria Fonseca

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

A EXPLOSÃO DO VAIVÉM ESPACIAL CHALLENGER


FOI E NUNCA MAIS VOLTOU
Há precisamente vinte e nove anos o projeto espacial da NASA sofria um tiro mortal no seu coração: o vaivém espacial Challenger explodia, matando toda a tripulação e determinado a morte dum projeto que começara a ganhar força uns anos antes mas que em 1986 passava já por algumas dificuldades.
O desastre causou um grande impacto em todo o mundo e enorme consternação nos Estados Unidos, pois os americanos tinham decidido incluir nessa viagem de 28 de janeiro do Challanger, pela primeira vez, um tripulante civil e decidiram, igualmente, transmitir em direto a descolagem do Vaivém.

Pelos piores motivos foi um momento histórico e marcante, pois 37 segundos após a descolagem, uma fuga de combustível fez com que o foguetão que transportava o vaivém se desintegrasse num nuvem de fumo branco. Christa McAuliffe, a primeira civil a ser enviada ao espaço, e os restantes seis tripulantes tiveram morte imediata.
  Com o coração mergulhado em profunda dor, o presidente americano, Ronald Reagan, dirigiu-se ao seu povo com palavras serenas e consolou a nação. Citou John Gillespie Magee e o seu célebre poema “High Flight” que homenageava um aviador, que morrera numa colisão no ar sobre Inglaterra em 1941.

  "Oh, I have slipped the surly bonds of earth,
And danced the skies on laughter-silvered wings;
Sunward I've climbed and joined the tumbling mirth of sun-split clouds -
and done a hundred things You have not dreamed of -
wheeled and soared and swung high in the sunlit silence.
Hovering there I've chased the shouting wind along
and flung my eager craft through footless halls of air.
"Up, up the long delirious burning blue
I've topped the wind-swept heights with easy grace,
where never lark, or even eagle, flew;
and, while with silent, lifting mind I've trod
the high untrespassed sanctity of space,
put out my hand and touched the face of God."


Além disso, Reagan assinalou a coincidência de nesse mesmo dia, 390 anos antes, o grande explorador Francis Darke morrera, no desastre dum navio, ao largo da costa do Panamá, para comparar a dedicação da tripulação do Challanger com a dedicação que Drake devotara aos oceanos. Como Reagan prometera nesse triste 28 de janeiro de 1986, “Nunca os esqueceremos, nem a última vez que os vimos, quando se preparavam para a viagem, e se esgueiravam dos confins da Terra para tocar na face de Deus”.

O povo americano que viveu aquele fatídico dia pode não ter esquecido aquela infortunada tripulação do vaivém Challenger, mas o projeto espacial norte-americano ficou irremediavelmente comprometido. Os americanos tinham já perdido muito do interesse inicial e aquele lançamento de janeiro de 1986 era uma tentativa de atrair público, fundamentar e justificar o investimento no projeto. Infelizmente, foi o canto do cisne dum projeto muito bonito que permitia, entre outras funções, lançar e assegurar a manutenção de satélites.
Gabriel Vilas Boas

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

FELIZMENTE HÁ LUAR, de Luís Sttau Monteiro







No final dos anos cinquenta do século passado desvaneceram as últimas esperanças dos portugueses de terminar com a ditadura de Oliveira Salazar e pôr fim à censura, à falta de liberdade de expressão e ao definhamento civilizacional a que Portugal estava votado. Humberto Delgado, a grande esperança popular dum novo Portugal, fora indecentemente derrotado nas fraudulentas eleições presidenciais de 1958 e daí os portugueses tiraram uma importante mensagem: o longo inverno da opressão ia continuar.
Restava a denúncia da situação, especialmente através da literatura. Foi o que fez Luís Sttau Monteiro através da extraordinária peça de 1960 “Felizmente Há Luar”, cuja encenação foi, obviamente, proibida pela censura do regime salazarista.


Muito influenciado pelo teatro épico de Bertholt Brecht que se debruça sobre a constante luta do Homem para mudar a sociedade, Sttau Monteiro cria um texto dramático que relata uma tentativa frustrada de uma revolta liberal, em 1817, liberada por Gomes Freire de Andrade. Recriada em dois atos, a sequência de factos históricos ocorridos em Outubro desse mesmo ano, revela que o regime do marechal Beresford, apoiado pela Igreja, conduziu ao cárcere e ao enforcamento Gomes Freire de Andrade, no forte de São Julião da Barra, causando grande consternação entre os seus amigos e no povo, que via Gomes Freire de Andrade um homem íntegro e com valores.
Como era normal no teatro épico, Sttau Monteiro usou a técnica da distanciação histórica e o realismo, ou seja, procurou um facto histórico passado e comparou-o com a sua realidade, que queria denunciar. O objetivo era que o público (a sociedade) tomasse consciência dessa realidade e a partir daí partisse para a acção, ou seja, para a mudança.



Sttau Monteiro queria, claramente, denunciar repressão política injusta e as perseguições de que os cidadãos do Portugal da década de 60 sofriam. A peça era, sem sombra de dúvida, uma oposição política ao regime então em vigor e um incentivo à revolta. 
O dramaturgo trabalha muito bem as personagens, que possuem uma densidade psicológica e simbólica notórias Podemos agrupá-las em quatro grupos, tendo em conta as suas posições: as personagens do poder (D. Miguel Forjaz, marechal Beresford, Principal de Sousa), os delatores (Morais Sarmento, Andrade Corvo, Vicente), os representantes do povo (Manuel, Rita, antigo soldado, Vicente), as personagens “individuais”, ou seja, que se representavam a elas próprias (General Gomes Freire de Almeida, Matilde de Melo, António de Sousa Falcão, Frei Diogo de Melo).

Destacaria uma em cada grupo. Assim, D. Miguel Forjaz é um conservador, retrógrado, medroso, corrupto e mercenário que olha para o liberalismo como um caos. Ele é o falso demagogo que advoga o tão salazarista “pátria, Deus, família” e se julga superior ao seu semelhante, pois afirma “Um mundo em que não se distinga a olho nu entre um nobre e um popular é um mundo em que eu não desejo viver.”
Vicente é um membro do povo que desrespeita e despreza os seus. Ele é o falso moralista, traidor e calculista que vai contra o General. É um homem inteligente e ambicioso, mas põe essas virtudes ao serviço do mais puro egoísmo e materialismo. 
Frei Diogo de Melo é um homem bom. Cheio de compaixão, conforta Matilde e defende o General, corroborando a sua inocência. Ele representa o lado bom da Igreja.
Como já referi, esta peça está cheia de simbolismo. Na mensagem que pretende veicular, na caracterização das personagens, na escolha de alguns objetos. Por exemplo, a moeda representa a miséria do povo que vive de esmola e a traição da Igreja aos seus ideais (Judas vendeu Cristo por trinta moedas). Há também a fogueira, que para D. Miguel é símbolo de purificação e de limpeza, mas que devemos ligar também à Inquisição e às suas tenebrosas fogueiras. Temos também a saia verde a sugerir a pureza, a inocência, a esperança numa liberdade próxima.


No texto de Sttau Monteiro, tudo é pensado ao mais ínfimo pormenor. Por isso as didascálias assumem um papel preponderante. Além das normais, encontramos nesta peça as chamadas didascálias marginais, típicas do teatro de Brecht que corroboram o distanciamento histórico. É lá que o encenador vai buscar as informações que permitem fazer o contraste luz/sombra da cena. A falta de luz no cenário (escuridão total) mostra o clima da época – o regime opressor, a ignorância do povo, a obscuridade. A intensa luminosidade no Manuel (primeira cena) corrobora a indicação inicial “Manuel, o mais consciente dos populares”. 
Deixei, propositadamente, para o fim o título. Para D. Miguel, “Felizmente há luar” para se verem melhor as execuções e para que o medo conseguido seja maior a abranja mais pessoas, ou seja, a lua representa a monotonia, falta de liberdade de ação e expressão. Tal como a lua, os regimes déspotas só sobrevivem se os mais fortes estiverem controlados. Brilham com a luz dos outros. Para Matilde, o luar permite que mais gente veja a fogueira, mais gente vença o medo, mais gente se revolte e se una para mudar.

Gabriel Vilas Boas

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

AO SOM DE... DEMIS ROUSSOS


No dia em que o mundo olhava para a Grécia e para os gregos com incredulidade, por causa da estrondosa vitória da esquerda radical do Syriza, despedia-se da vida um dos cantores gregos mais míticos do século XX: Demis Roussos.
Discretamente, num hospital de Atenas, o cantor de “Forever and ever” e “Goodbye my love, goodbye”, o grego que nasceu em Alexandria, devido ao facto dos pais serem expatriados, encerra definitivamente uma carreira muito bem-sucedida e que marcou a cena musical europeia e americana nos anos setenta do século passado.
Demis Roussos cantou o amor, duma maneira uma tanto ou quanto kitsch, mas que encantou milhões de fãs por toda a europa, que compravam os seus discos e sonhavam histórias românticas ao som da sua música.

 Roussos vendeu cerca de 60 milhões de discos, lotou o Maracanã como apenas Frank Sinatra o fizera e não se importava com as críticas, que o acusavam de fazer uma música ultrapassada, onde as baladas delicodoces revelavam influência gregas e árabes, que um europeu do norte absorvia mal, mas um latino adorava.
Apesar de ver a sua música criticada e até depreciada, o grego nunca negou a sua matriz musical, mas soube evoluir. 

O baixista e guitarrista dos Idols sabia aproveitar as oportunidades e, quando o vocalista da banda lhe deu uma das raras oportunidades de ser a estrela, Roussos não desperdiçou a dádiva e aplicou toda a imponência e beleza da sua voz de tenor para interpretar “when the man loves a woman”, despertando atenção, entre outros, do seu amigo Vangelis, com quem viria a fazer uma sociedade musical muito profícua para ambos, a partir de 1966. Haveriam de seguir caminhos separados a partir de 1972, mas a fama já estava conquistada e Demis, com as suas longas barbas, o seu peso absurdo e as suas lantejoulas, dava passos decisivos para se afirmar como um dos ícones da música dos anos 70 ao lado dos míticos ABBA.

Com músicas como “Velvet morning”, “My friend the wind” ou “My reason”, Demis conquistava a América de norte a sul e consagrou um estilo que viria a ser algo ridicularizado nas décadas seguintes. Os anos 80 ainda trouxeram algum sucesso, em parceria com Vangelis, ao associar-se à extraordinária banda sonora de “Momentos de Glória”, mas a ideologia musical dos anos 80 e 90 caminhava noutras direções. Roussos adaptou-se, recriando a sua música e trazendo influências árabes, gregas e balcânicas aos seus temas, mas o êxito não seria nada parecido com o da década de 70.
O final do século ditou a sua retirada, para gozar a vida e viver tranquilamente junto ao mar. Fez bem. A vida fora muito generosa com ele e, ontem, os gregos decidiram despedir-se dele chamando novamente a atenção do mundo.  

Gabriel Vilas Boas

domingo, 25 de janeiro de 2015

SYRIZA E A VERSÃO MODERNA DA DEMOCRACIA ATENIENSE


   Os deuses gregos não estão loucos nem os gregos são malucos, mas a verdade é que o Syriza chegou ao poder e vai governar a Grécia, provavelmente com maioria absoluta.
   Na verdade estou contente com a notícia. Hoje os gregos recuperaram um pouco da sua soberania, da sua dignidade, do conceito de democracia que ensinaram ao mundo. Há na Europa um povo que não se rende aos mercados, aos tecnocratas que nos levaram de mansinho à ruína e à indigência, enquanto uns poucos enriqueciam à sombra dum sistema capitalista puro que nos trouxe à beira da loucura.
   Amanhã os gregos estarão no limite do risco, sozinhos, desafiando o Bundesbank e a senhora Merkel, mas lá no fundo há muitos europeus que gostariam de ter a sua coragem. Não se trata doutra coisa, coragem para tomar o seu destino nas mãos e acreditar num partido que transporta consigo a mensagem mais clara dos gregos à Europa: “Basta! Estamos fartos! Recusámos ser os escravos da Europa!”



   Em quatro anos, os gregos ficaram com 25% da sua população ativa no desemprego; viram o seu rendimento médio reduzir-se a 600 euros mensais (era cerca de 900 euros), têm 50% dos jovens sem emprego, os velhos não têm remédios importantes nos hospitais… E do norte da Europa vinha o mesmo discurso de sempre: “Mantenham o mesmo trajeto que esse é o caminho.”
   Ora, os gregos sentiam-se caminhar para o abismo, sentiam que, metaforicamente, caminhavam alegremente para uma câmara de asfixia financeira da qual jamais se conseguiriam libertar. Hoje disseram: “Não, obrigado! Nós vamos por outro caminho!”
   Daqui para a frente têm dois caminhos: um mais pedregoso que outro. Ou convencem os alemães a aceitar o pagamento da dívida grega nas condições gregas ou saem do euro e percorrem o caminho das pedras, regressando ao dracma e a uma vida de pobre.



   Merkel já veio dizer que os gregos podem sair à vontade, mas acho que a maioria da Europa pensa diferente. Cabe a Tsipras mostrar aos seus colegas europeus, especialmente à França, à Itália, à Espanha, à Bélgica, à Holanda, ao Luxemburgo que a proposta grega é decente. E na minha opinião é!
   O Syriza colocou muito bem a questão na campanha eleitoral: os gregos querem algo parecido com aquilo que foi dado aos alemães depois da segunda guerra mundial: perdão de 50% da dívida e pagamento do restante com o crescimento grego. Afinal de contas, se o plano de austeridade alemão é honesto, ele há de produzir frutos e os gregos devem estar perto de começar a crescer economicamente. Se os alemães acreditam assim tanto neste método só têm que meter dinheiro nele.
    Hoje a Europa dos cidadãos livres e soberanos do seu destino renasceu. Espero que o Syriza não seja nenhuma fraude e seja digno da confiança que muitos depositam nele, nem que tenha sido in extremis. A esquerda idealista, social, plural vai meter as mãos na massa! Espero que a massa não a suje, que não traia os ideais que a elegeram e consiga levantar a Grécia e depois a Europa deste poço negro em que uma e outra caíram.

Gabriel Vilas Boas

sábado, 24 de janeiro de 2015

AMERICAN SNIPER



Estreou há dois dias nas salas de cinema portuguesas “American Sniper”, de Clint Eastwood e aquilo que mais me intriga neste película do renomado realizador e ator americano é como é que este filme conseguiu arrecadar seis nomeações para os Óscares, entre as quais o de melhor filme, melhor ator e melhor argumento adaptado.
O filme baseia-se na história verídica de Chris Kyle, um lendário sniper norte-americano da guerra do Iraque, um soldado que matou mais de duzentas pessoas e se tornou uma lenda por nunca falhar o alvo.
E começa aqui o primeiro tiro falhado do filme do consagrado Eastwood. O filme valoriza a arte de matar! Não há nada de mais errado, civilizacionalmente. Kyle recebeu condecorações, foi tratado como um herói americano porque pôs o seu extraordinário dom de atirador ao serviço da morte. Isso não me atrai, pelo contrário, repugna-me. Esta banalização do mal, da morte alheia, como se matar fosse bom, cria um tipo de mentalidade humana que torna o ser humano vazio, infeliz, antissocial. É por isso, que o herói americano não sabe o que há de fazer quando não tem de matar.



Não é a velha história do trauma de guerra, do homem que larga a guerra, mas, coitadinho, a guerra não o larga a ele, que o filme tenta vender. No meu entendimento, é toda uma mentalidade tão tipicamente americana e tão tipicamente conservadora que explica o falhanço pessoal na vida deste” herói” da morte.
Bradley Cooper teve um desempenho competente na interpretação duma personagem banal. O herói da guerra do Iraque tinha uma história de vida igualzinha à de muitos americanos que acham que é muito patriótico matar os maus que afrontam a grande América, estejam eles no Vietname ou no Iraque: cresceu com o modelo do cowboy que conhece uma rapariga num bar noturno; assiste ao 11 de setembro pela TV, alista-se na marinha e vai para o Iraque salvar a honra da América matando em série.



Clint Eastwood prometera ao pai de Kyle que faria um filme que não mancharia a sua reputação. Bradley Cooper comprou os direitos de autores da “Autobiografia do Atirador Mais Letal da História” com o fito de vestir a pele do protagonista, tentando legendar-se na tela como o seu herói se tornou famoso no Iraque a matar gente. Os americanos adoram heróis à Rambo, porque na América republicana e conservadora o patriotismo também se mede pela quantidade de balas que se enfia no peito do inimigo. De facto, há uma parte dos EUA que ainda não saiu do tempo dos índios e cowboys, o que é uma pena.


Desgraçadamente, este filme é muito real e usa muito pouco a ficção. Bradley chegou mesmo a afirmar com orgulho bacoco “Não tivemos de criar nada com a nossa imaginação, literalmente nada”. Por vezes, a verdade é muito insípida para o cinema e por isso quase nunca ela serve o drama.  
O problema deste herói é que ele tinha muito pouco de humano. Quando em contexto de paz, quando em família ou entre amigos, ele era banal.
Tenho muita pena que Clint Eastwood não tenha abordado esta insipidez pelo ângulo que me parece mais óbvio, à luz do mundo que queremos livre, solidário, fraternal: a arte de matar mata a humanidade que existe em cada um dos nossos mais nobres sentimentos.

                                                                                                                Gabriel Vilas Boas


sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

PALÁCIO DE S. BENTO



  É a casa da democracia portuguesa! O Palácio de S. Bento, nome familiar à generalidade dos portugueses, começou por ser conhecido por Palácio das Cortes, mas as suas raízes são eclesiásticas, pois o sítio onde hoje se fazem, discutem e aprovam leis foi Convento de S. Bento.
   A nossa atual Assembleia da República fica na Lapa, freguesia lisboeta onde alguma elite vive, e começou a ser construída no século XVI, mas só ficou com as formas atuais no… século XX!
   Trata-se duma arquitetura maneirista e barroca, cujas origens remontam a 1598, data da fundação e início da construção de um convento da Ordem de S. Bento. 



    Em 1757, por causa do terramoto de 1755, o arquivo nacional mudou-se para o Palácio das Cortes e aquilo que estava na torre do Tombo passou a ficar preso na Lapa. Já no século XIX (1834), por decreto de D. Pedro IV, as Cortes (Câmara dos Pares e dos Deputados) passaram a funcionar no edifício do antigo Convento de S. Bento da Saúde, entretanto desocupado pela extinção das ordens religiosas. 
    Em 1895, um violento incêndio destruiu a Câmara do Deputados, tendo os parlamentares sido instalados na Academia das Ciências e regressado a S. Bento sete anos mais tarde.
    Mas que edifício é este que tanto impressiona pela sua imponência quem o vê de fora e o visita por dentro?
  O Palácio de S. Bento tem planta quadrangular, de volumetria cúbica, com cobertura efetuada por telhados a duas e três águas. O edifício apresenta-se estruturado em quatro andares, ritmado por pilastras e janelas, sendo as do último piso em sacada com balaústres, exibindo alternadamente frontões angulares e curvos.



    A sul, podemos observar o alçado principal que se organiza em três corpos, destacando-se, obviamente, o corpo central, ao qual se acede por escadaria monumental, bem conhecida de muitos manifestantes… Nessa imponente escadaria é impossível não deslizar o nosso olhar para as quatro estátuas sobre pedestal e cinco arcos de volta perfeita em cantaria.
    Num segundo nível destaca-se uma colunata rematada por frontão triangular, ornado com baixo-relevo. A galeria, donde muitos portugueses se manifestam até serem expulsos, exibe tetos em caixotões de estuque e expressivas pilastras rematadas por capitéis coríntios, a intercalar cinco janelas tripartidas com bandeira segmentar e com emolduramento superior em arquivoltas, sobrepujado por friso ornamentado e painéis.



    Os corpos laterais, em simetria, apresentam piso parcialmente enterrado e a acompanhar o declive do terreno, com cantaria aparelhada em almofada e pequenas quadrangulares emparelhadas.
    Nos dois pisos seguintes, ao mesmo nível que o piso térreo do corpo central, observam-se dois níveis de janelas de peito, todas com bandeira. Separado por cornija, o último andar, apresenta janelas no alinhamento das inferiores, destacando-se as janelas dos extremos dos corpos laterais, sendo as do exterior com bandeira segmentar em arquivoltas, e as do interior com bandeira retangular.  
    Os alçados laterais apresentam o mesmo tipo de estruturação usada nos corpos laterais da fachada principal, mas com algumas variações, como a existência de diferentes sequências ao nível da disposição dos frontões nas janelas do piso superior.



    No último andar, destaca-se a porta principal, delimitada por colunas rematadas por frontão triangular, “embutida” num arco em asa de cesto, que nos conduz a um átrio com escadaria de honra ao piso da galeria.
    No interior sobressaem a Sala das sessões da Câmara dos Deputados e ainda a Sala dos Passos Perdidos, a antiga Sala do Senado, o Salão Nobre e o Museu Histórico-bibliográfico.

Este é um palácio de visita obrigatória, pela beleza arquitetónica, pela história a ele associada e, sobretudo, pelo simbolismo que encerra.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

DA ARTE, DA PINTURA, DE AUGUSTE RENOIR EM ORSAY


“Tratar um tema pelas suas cores e não por si mesmo é o que distingue os impressionistas dos outros pintores.”  Georges Riviére,1 877


Museu D’Orsay, Paris


A Estação ferroviária de Orsay,de uma beleza imensa,haveria de ser classificada Monumento Histórico em 1978.
Em 1977,o presidente Giscard D’Estaing toma a feliz iniciativa da criação do Museu D’Orsay naquele espaço arquitetónico oitocentista,que haveria de ser inaugurado por Mitterrand a 1 de Dezembro de 1986.
Este é um dos museus imperdíveis da cidade de Paris.Em primeiro lugar,pelo facto de ser uma jóia da arquitetura parisiense.Depois,pela magnífica coleção impressionista e pós-impressionista que alberga.A pintura, a escultura, a fotografia e até a arquitetura estão ali soberbamente representadas.As artes decorativas também marcam presença nas salas dedicadas à Art Nouveau e ao movimento Arts& Crafts.
Na pintura,obras de Ingres,Delacroix,Millet,Corot,Degas,Cézanne,Gauguin ou Courbet enriquecem e embelezam aquele espaço de exceção onde se transpira cultura.
Como já perceberam, é de  Pierre- Auguste Renoir, natural de Limoges, um dos extraordinários artistas cujas obras também ali podem ser apreciadas,que vos falo hoje.A voluptuosidade da cor transcende todo o seu trabalho.Desde cedo,as suas idas à floresta de Fointainebleu para pintar permitiram-lhe o contacto com a arte de Daubigny,de quem recebe as primeiras influências.Mas é sobretudo Courbet que o fascina e que, a partir de 1866,vai marcar toda a sua obra.
Pintou paisagens,que foi alternando sempre com retratos e quadros de figuras.
 Gleyre (crítico de Arte) criticava-o dizendo que Renoir apenas ”pintava para se divertir”.Renoir em nada se incomodava e respondia “Naturalmente…se pintar não me divertisse,nunca teria pintado”.Acrescentava “A terra,paraíso dos deuses,isto é o que eu quero pintar”.E assim foi.Renoir foi sempre recriando pequenos paraísos,descobrindo a beleza,dando-a a descobrir como ninguém.
Em 1876,pintou várias telas que podemos classificar de puramente impressionistas e que estão espalhadas por diferentes museus do mundo,revelando uma espécie de sentido calmo e tranquilo dos prazeres da vida, num misto de sensualidade apuradíssima e sensibilidades únicas que as inundam.
Desse período é La Liseuse; aqui podemos observar o olhar puro do pintor sobre a jovem que lê. Os cabelos cor de trigo em desalinho são propositadamente inundados de uma luz  intensa que irradia da janela e emolduram um rosto de uma beleza sem fim. O livro por onde a jovem viaja, recebe fios de luz mais subtis e leva-nos a querer fazer parte daquela aventura misteriosa que a envolve naquele sorriso quase inquieto. Os olhos marotos, quase fechados, contrastam com os lábios desenhados em sorriso. A leitura, sendo um ato de solidão, que nos isola dos outros mas que nos traz prazer sem fim, conhecimento e viagens inimagináveis, é capaz disto. Arranca-nos belos e insondáveis sorrisos em que nos deixamos perder e para onde nos deixamos levar.
Nada se sabe sobre esta jovem modelo. Mas ela continua lá, em Orsay. Indiferente a quem a observa, mergulhada e envolvida pelas palavras que vai desvendando numa leitura atenta, persistente, cadenciada. Os olhares de admiração não a afetam, ela sabe do seu sorriso, conhece o seu efeito, acredita na luz de Renoir. E deixa-se ficar no seu mundo.
Esta liseuse é prova inequívoca do gosto e do prazer que Renoir sentia ao representar este tema, recorrente desde o séc. XVIII e que denota um apreço especial pelo grande Fragonnard.
Eu, que já a observei, lamentavelmente com alguma pressa, entendo que este é, sem dúvida, um dos mais belos sorrisos da História da Arte.
A figura feminina sempre seduziu Renoir, tendo-a representado sucessivamente, em nus completos, ou apenas em rostos que desnudava em sentimento. Como ele dizia “Seja Vénus ou Nini, não se pode conceber nada melhor.”
Ora espreitem!


Renoir,La Liseuse (Jeune Fille lisant un Livre), 1876.  Musée d'Orsay, Paris.


 Rosa Maria Alves da Fonseca

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

LUÍS XVI, A GUILHOTINA E OS FRANCESES

  
 A 21 de janeiro de 1793, Luís Bourbon, antigo rei Luís XVI – que perdera o trono de França quando a monarquia fora abolida em setembro do ano anterior -, subiu ao cadafalso e pôs, serenamente, a cabeça debaixo da guilhotina. Depois do golpe fatal, o mais novo dos guardas, um rapaz com cerca de dezoito anos, agarrou imediatamente na cabeça e mostrou-a ao povo, dando a volta ao cadafalso. A princípio fez-se um silêncio terrível, mas por fim alguém gritou «Vive la République». A pouco e pouco, as vozes multiplicaram-se e em menos de dez minutos este grito tornou-se o brado universal da multidão e todos os chapéus se ergueram no ar.
   Este foi o momento culminante de mais de três anos de agitação em França, ou seja, todo o período que se seguiu à revolução francesa.

 A sentença de morte tinha ficado decidida a 9 de dezembro de 1792, dois dias depois de Robespierre ter declarado que «Luís tem de morrer para que o país possa viver». Ainda que à tangente, a Convenção Nacional votou a favor da execução do anterior rei. No cadafalso, Luís recusou ser amarrado e instou os carrascos a cumprirem a ordem que lhes tinha sido dada.
   A execução do antigo rei de França chocou toda a monarquia europeia e poucos anos mais tarde já a França andava em guerra com Espanha, Inglaterra, Holanda, Prússia e Áustria.  A política de terrorismo de Estado levada a cabo por Robespierre, segundo ele para proteger a República, foi das maiores manchas sobre os ideais da revolução francesa.
   Lembrei-me disto, porque duzentos e vinte anos depois a França aparece como a grande guardiã dos valores da tolerância, da liberdade de expressão, da igualdade e da fraternidade.



   Há poucos mais de duzentos anos, Luís XVI tornou a guilhotina a máquina de morte mais conhecida de sempre. Nesses anos loucos, em Paris, foram decapitadas quase 2800 pessoas! Que número assombroso!
   No país da liberdade, dos ideais iluministas, a revolução da igualdade, liberdade e fraternidade fazia-se com decapitações. Calcula-se que entre 1792 e 1799 tenham sido decapitadas mais de quarenta mil pessoas!
  Não há culturas superiores! O que há é culturas com valores diferentes e, desejavelmente, complementares. A arrogância cultural é facilmente desmentida pela História e, caso pretendamos que outros povos atinjam patamares superiores de humanidade, o melhor é investir no exemplo, na colaboração e paciência.

Gabriel Vilas Boas