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quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

HOJE NÃO É DIA DE BALANÇOS




Aprendi com “O Principezinho” a dar valor aos rituais. No entanto, muito poucos são aqueles que adquirem a relevância definida na magnífica história de Saint-Exupéry, porque não brotam do nosso coração. Quando assim acontece toda a importância que possam ter torna-se banal.
Hoje é dia de fazermos um balanço do ano. Jornais, revistas, rádios, muitos de nós fazem-no porque sim, porque é da praxe, como autómatos dirigidos pelo convencionalismo do calendário. De nada servem! São um acumular de informação que queremos arrumar no baú da memória como qualquer peça de roupa que decidimos deixar de usar e vamos arrumar para sempre numa arca.

Os balanços são importantes mas não necessariamente no dia 31 de dezembro. Não somos contabilistas da vida nem do tempo, todavia, pode ser útil, de vez em quando, fazermos um balanço do que fizemos. Não no dia 31! Isso saberá sempre a falso. Se achamos importante este exercício retrospetivo, façamo-lo em qualquer dia do ano, mas não hoje, não por estes dias, não por imposição exterior.
Os balanços mais importantes são os pessoais. Verificar o que fizemos e deixamos de fazer, quanto a rota projetada se cumpriu ou foi desviada. Percebermos o porquê de determinados acontecimentos na nossa vida. Acho que esta reflexão faz sentido e pode ser útil, sobretudo se pretendermos agir sobre o nosso destino e não deixar que o destino nos conduza por completo.

Refletir sobre o que nos aconteceu e o que fizemos acontecer pode ter várias consequências. Pode ser nostálgico, pode-nos entristecer, pode ser galvanizador ou até assustador, quando tomamos consciência que andamos há meses a viver ao sabor das circunstâncias. No entanto, os frutos desta reflexão apenas se colhem se ela nascer de uma intrínseca e verdadeira necessidade pessoal.

De vez em quando gosto de fazer este exercício. É inquietante concluir que, com o passar dos anos, consigo fazer melhor os balanços externos do que internos. 
É um exercício particularmente doloroso olharmo-nos ao espelho e desenharmos corretamente, para a nossa consciência, os caminhos percorridos. Sabemos perfeitamente que vamos tropeçar nos íntimos e secretos lugares da nossa existência e tememos a recordação fria e objetiva das nossas falhas. Por isso, há anos que fugimos de nos olhar através do espelho.
Os balanços forçados, como os de hoje, são inúteis, mentirosos e arriscam a tornar-se ridículos. Se continuarmos bovinamente a seguir a cartilha mecânica do calendário arriscamos a que, um dia destes, a vida nos imponha um balanço à força, onde nenhum truque contabilístico será permitido.
O melhor a fazer hoje é deixar o corpo divertir-se, durante umas horas. Deixar a mente balançar gostosamente no largo oceano das horas que nos transportarão a um novo ano e guardar o fato das coisas sérias e necessárias para um dia especial e só nosso.
As coisas sérias devem ser tratadas com seriedade.

Gabriel Vilas Boas

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

O CASAMENTO DE ARNOLFINI, de Jan Van Eyck


Este pequeno duplo retrato de corpo inteiro regista não apenas um casal trocando votos de casamento, mas também o interior de uma casa de um abastado mercador de Bruges no início do século XV.
Sabemos que o artista testemunhou a união deste casal através da inscrição em latim Johannes van eyck fuit hic 1434 (Jan Van Eyck esteve aqui em 1434) na parede do fundo.
O artista pintou objetos do dia-a-dia com uma precisão tão espantosa que até o espelho convexo reflete a sala e os visitantes que entram.
A pintura pode ser considerada como uma alegoria do casamento ideal. A prosperidade abunda – as janelas com vidros, os tecidos cor de laranja e o vestuário orlado de peles, o espelho decorado com cenas da Paixão de Cristo, a cabeceira da cama entalhada, as tapeçarias ricas  e o tapete são tudo evidências do êxito deste mercador. Tudo aponta para um casamento feliz – o cão fiel entre eles, a limpeza do quarto, o rosário pendurado na parede, o gesto de aceitação do noivo, a cabeça da noiva inclinada com modéstia e a expectativa da criança que há-de vir, a qual deverá nascer na confortável cama do casal sob os auspícios da imagem de Santa Margarida – santa padroeira do parto.

Além dos noivos, são de destacar mais dois elementos: o cão e o casamento. Ao cão são atribuídas muitas qualidades, nas artes. Criatura de fidelidade e lealdade, ele é representado em túmulos medievais aos pés dos seus donos e em retratos que representam qualidades semelhantes. Também podem ter o papel de guardiões. Certos pintores usam-nos para exprimir o desejo carnal ou para significar a ganância, como na fábula do cão que, com um bolo nos dentes, olha para a água e perde o bolo numa tentativa de captar o seu reflexo. Um cão é atributo de São Roque e os cães pretos e brancos nas cenas com dominicanos são, num trocadilho com o nome da ordem, representados domini canes (cães do senhor); podem ser vistos a caçar lobos, que representam os heréticos.

Outro elemento é o casamento, que é um dos sete sacramentos da igreja católica. O casamento ideal é por vezes representado pelo da Virgem e José. A fidelidade no matrimónio é muitas vezes simbolizada por uma personificação da fé – uma das Três Virtudes Teologais – que pode ter na mão um livro, uma vela acesa e um coração, uma cruz ou um cálice.   

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

O MERCADOR DE VENEZA, de Shakespeare


Há 420 anos Shakespeare levou à cena uma das suas mais brilhantes comédias: O Mercador de Veneza. Mais do que fazer rir o público, Shakespeare consegue escrever um texto sobre a força do amor, da amizade, da honra, ao mesmo tempo que critica, sem piedade, a rapacidade (avidez) absurda dos judeus.
Na peça de Shakespeare, encontramos Pórcia, a rica herdeira de Belmonte (povoação italiana perto de Veneza), que está preste a casar e ricos pretendentes não lhe faltam. No entanto, para obterem a sua mão, estes deviam adivinhar em qual dos três potes (ouro, prata, chumbo) estava escondido o retrato de Pórcia. Diversos pretendentes fracassam na prova, mas não Basânio, que está enamorado de Pórcia e escolhe o pote de chumbo. No entanto, o amado de Pórcia, antes de comparecer para a prova e no desejo de se apresentar convenientemente, pediu dinheiro ao amigo António (o Mercador de Veneza), o qual, não dispondo da soma necessária na ocasião, a pede emprestada ao agiota judeu Shylock.

O vilão da peça impõe como condição que, se António não pagar no prazo estipulado, teria de lhe entregar uma libra da sua própria carne. Na data do vencimento do empréstimo, António vê-se impossibilitado de pagar e é detido e encerrado na prisão.
Ao ter conhecimento da notícia, Basânio corre em socorro do amigo e oferece ao cruel judeu o triplo da dívida de António, mas o judeu não aceita e, no seu ódio por António, exige ao tribunal de Veneza o cumprimento do contrato.
Desejosa de salvar o amigo do noivo, Pórcia apresenta-se em tribunal sob o disfarce de um advogado e declara que Shylock tem o direito a receber a libra de carne, mas deve ser ele a cortar o corpo de António, ao mesmo tempo que o avisa que só poderá receber a carne se não derramar gota de sangue. Desta forma confunde o judeu que, além de se ver privado da vingança, vê confiscados todos os bens.

Ainda sob disfarce, Pórcia rejeita os três mil ducados que António e Basânio querem dar-lhe como retribuição dos seus serviços, mas pede a este último o anel que ela própria lhe havia dado. Sem nunca reconhecer a sua noiva, Basânio hesita, mas acaba por aceder ao pedido por insistência de António.
De novo em Belmonte, Pórcia pede ao amado o anel que lhe havia dado e que ele prometera nunca largar, e este confessa a sua falta. Cena semelhante passa-se com outro par romântico: Nerissa (criada de Pórcia) e Graciano (amigo de Basânio). Apesar da aparente fúria das duas belas mulheres tudo acaba a contento do amor. É então que Jéssica, a filha do judeu Shylock que havia fugido com o namorado Lorenzo, se vê perdoada e nomeada herdeira – decisão à qual Shylock se obrigou, em tribunal, por imposição de Pórcia.


É verdade que a peça de Shakespeare é feroz com a avidez e maldade dos judeus, destacando o desejo de vingança de Shylock. Para destacar esta maldade em estado puro, Shakespeare coloca Shylock a recusar o triplo do pagamento do contrato, mas fora de prazo, preferindo a libra de carne de António.

Outro elemento fundamental da comédia do dramaturgo inglês é a vitória do amor sobre as barreiras sociais, económicas, legais. Não é por acaso que ele personifica o amor nos jovens, pois eles trazem a ousadia, a determinação, a coragem que compõem o código genético de quem ama.
Devemos ainda destacar, nesta peça, a defesa de valores nobres como a amizade, o cumprimento da palavra dada, a coragem.
Todo o texto é uma lição de vida, escrito numa linguagem elegante e bem-disposta. O rendilhado das palavras de Shakespeare pode parecer excessivo, mas é apenas epocal e adequado ao elevado nível social e moral da maioria das personagens.
Com mestria, Shakespeare consegue arquitetar um peça, onde a progressão temática acompanha a tensão dramática em crescendo e habilmente importantes indícios são semeados, em aparente descuido, para o espectador/leitor.
Ao ver ou ao ler esta peça, ficamos com muito mais que um sorriso nos lábios, ficamos com a alma cheia de humanidade.

Gabriel Vilas Boas

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

LOVE ME LIKE YOU DO, Ellie Goulding



É verdade que “50 Sombras de Grey” foi o maior flop cinematográfico do ano, mas teve o condão de iluminar duas músicas que atingiram o top das preferências musicais durante o ano de 2015: Crazy in Love, de Beyoncé e Love Me Like You Do, de Ellie Goulding.
Gostei especialmente desta última. A voz de Ellie Goulding surpreendeu-me pela sua doçura, beleza e firmeza.  Ellie tem uma voz que consegue transmitir toda a força do refrão: Love me like you do … What are you waiting for? - ao mesmo tempo que exprime uma suavidade de veludo nas várias estrofes da canção. A cantora britânica consegue exprimir a alma da letra, na medida em que dá voz ao duplo papel da apaixonada carente e voraz, que exige e pede em simultaneamente, baralhando por completo as emoções do seu amante.

A inglesa, que atinge os vinte e nove anos daqui a dois dias, completa visualmente o fascínio que a música exerce sobre os nossos sentidos.
Toda a letra acaba por ser um convite ao amor, vivido no limite e sem barreiras. Composta de propósito para o filme mais aguardado do ano, “Love Me Like You Do”, deve ser visto muito mais além do que um convite à transgressão. No fundo, o que o sueco Max Martin (compositor e produtor) pretendia, com esta letra, era inspirar-nos a ser fiéis a nós próprios também no amor e não nos deixarmos aterrorizar por convencionalismos, preconceitos ou medos. O amor deve ser vivido como algo absoluto, onde cada um se expressa com toda a pureza do seu coração.
Inspirado pela letra ou enfeitiçado pela voz de Ellie Goulding, o certo que é Love Me Like You Do tornou-se justamente num dos maiores sucessos musicais de 2015 e que dá imenso prazer tornar ouvir mais uma vez – What are you waiting for?

Gabriel Vilas Boas 

domingo, 27 de dezembro de 2015

INAUGURAÇÃO DA BASÍLICA DE SANTA SOFIA, 537


Para uns a Hagia Sophia, para outros Igreja da Sagrada Sabedoria, para mim Basílica de Santa Sofia  - um dos locais mais belos do mundo. Aquela que seria a maior igreja do mundo durante mil anos foi concluída no dia 27 de dezembro de 537. Acho que não há dia do ano mais perfeito!
O imperador Justiniano não se poupou a despesas para substituir a antiga igreja que ardera durante a erupção dos violentos conflitos de fações conhecidos como a Revolta de Nika, em 532. Os seus arquitetos, Isodorus e Antheminus, conceberam um esquema que era maciço – incluía a maior cúpula que era também inovadora (com os seus «pendículos», os arcos côncavos que se erguiam dos enormes pilares para a suportar) e prodigiosamente cheia de harmonia.

Justiniano inaugurou a Hagia Sophia, que muitas vezes era chamada de “grande igreja”, dois dias após o natal de 537, depois de entrar num carruagem, com palavras nada modestas e plenas de orgulho: «Salomão, o meu feito é maior!» Desta forma proclamou a Basílica de Santa Sofia como mais bela do que o perdido Templo de Jerusalém.
A cúpula de Hagia Sophia desmoronou-se durante um sismo em 558, mas foi imediatamente reconstruída, mais leve e mais alta do que a original.

O edifício continua a ser o maior monumento de Istambul, tendo sido secularizado em 1934, depois de servir de Mesquita desde 1453, quando Constantinopla foi conquistada pelos turcos otomanos. Nos dias de hoje é um museu e uma das mais importantes atrações turísticas de Istambul e da Turquia.
Ao ler as palavras de Procópio, em 560 percebe-se por quê…
«(A basílica)… distingue-se pela sua indescritível beleza, inexcedível tanto em dimensões como na harmonia das suas formas, e é mais grandiosa do que as construções normais e muito mais elegante do que as que apresentam proporções tão equilibradas.
A igreja é singularmente cheia de luz e sol. Dir-se-ia que o lugar não é iluminado pelo sol vindo de fora, mas que os seus raios nascem no interior do templo… Jamais alguém se cansou deste espetáculo, mas aqueles que vivem o encanto da igreja naquilo que veem, quando saem, ampliam-no quando sobre ele falam. Além disso, é impossível descrever com rigor o ouro, a prata, as pedras preciosas oferecidas pelo imperador Justiniano, mas pela descrição de uma parte, deixo o resto para ser adivinhado.
A parte da igreja, que é essencialmente sagrada e onde apenas os sacerdotes estão autorizados a entrar, contém 15 toneladas de prata.» 

sábado, 26 de dezembro de 2015

CALHOU-ME A FAVA



Costumava sair-me a fava, mas eu gostava…
A tradição do bolo-rei já não é o que era. É certo que a massa continua a certa feita das mesmas coisas: farinha, ovos e açúcar. A versão original continua a levar frutas cristalizadas, passas e frutos secos, mas algumas “coisas” se perderam com a modernidade: o buraco ao meio do bolo deixou de ser feito com o cotovelo do pasteleiro e, por imposição da União Europeia e excessivo zelo da ASAE, deixou de haver fava mas também de haver brinde. Por isso já não me calha a fava, como era tradição nos Natais da minha infância. Acabaram com o brinde antes de ter experimentado o doce sabor da fortuna.

A expressão “calhou-me a fava” significa que ficamos com a pior parte de alguma coisa e vai buscar as suas origens a esta tradição de Natal: cortar uma fatia do bolo-rei e encontrar nela uma fava. Quem tivesse “essa sorte” teria de comprar o bolo-rei do Natal seguinte. Por outro lado, quem recebesse o brinde ficava com o objeto (normalmente de metal), que muitas vezes tinha a forma de uma animal e era considerado pessoa com sorte.
As entidades reguladoras consideraram que esta tradição podia colocar em risco a saúde e a integridade dos dentes dos consumidores e proibiu que se inserisse brindes no bolo-rei. Ora, o povo decidiu que se não havia brinde, também não haveria fava, porque não gostou nada que o mandassem à fava daquela maneira.
Quando a medida foi tomada, em Portugal, causou grande polémica e muitas vozes se levantaram contra tal proibição, de tal maneira que a ASAE se viu obrigado a emitir um esclarecimento: “É permitida a comercialização de géneros alimentícios com misturas indiretas de brindes, desde que estes se distingam claramente do alimento pela sua cor, tamanho, consistência e apresentação, ou seja, concebido de forma que cause riscos no ato de manuseamento ou ingestão, à saúde ou segurança do consumidor, nomeadamente asfixia, envenenamento, perfuração ou obstrução do aparelho digestivo.”   

 E assim se dá cabo de uma tradição que pode ter dois mil anos. Reza a lenda que o bolo representa os presentes que os três reis magos deram ao menino Jesus quando nasceu: a côdea era o ouro, os aromas o incenso e as frutas a mirra. A introdução da fava terá nascido quando Gaspar, Baltazar e Belchior viram a estrela que anunciava o nascimento de Jesus Cristo e disputaram entre si qual dos três seria o primeiro a dar o presente. Um padeiro fez então um bolo onde escondeu uma fava, e o Rei Mago que ficasse com a fatia que tinha a fava seria o primeiro a entregar a sua oferenda ao Menino. Ou – nos tempos mais moderno – o próximo a oferecer um bolo-rei.

           As favas já foram usadas também como votos e, durante o tempo dos romanos, as crianças usavam as favas, durante as brincadeiras, para escolher o rei da festa. A mesma prática terá sido usada pelos adultos, durante os banquetes das Saturnais. 

Este festival romano em honra do deus Saturno acontecia em Dezembro e foi depois absorvido pelas comemorações de Natal até ao dia 6 de Janeiro. Ora, no dia de Reis, também manda a tradição que se coma… bolo-rei e em Espanha é nesta altura que se trocam presentes entre familiares e amigos.
Quanto à receita do bolo-rei, é francesa e remonta ao tempo do rei Luís XIV, sendo depois exportada para diversos países. Em Portugal, o doce começou por ser vendido pela Confeitaria Nacional, em Lisboa, em 1870. Dada a sua ligação ao rei Luís XIV e a França, o bolo-rei chegou a ser proibido com a Revolução Francesa e quase desapareceu com a República por causa da palavra «rei». Ainda lhe tentaram de mudar de nome e chamar-lhe «bolo Arriaga», mas a tradição manteve-se.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

O QUE QUERES FAZER DO TEU NATAL?

Sim, o Natal é um tempo único e especial. Um pouco por todo o lado, fomos encontrando luzes, festas, árvores iluminadas, presépios e em cada um de nós instala-se, por dois dias, a supremacia de sentimentos nobres. E não vejo nisto nenhuma falta de sinceridade. Acredito na nobreza dos nossos desejos, mas não na sua força.
            Nestes dois/três dias, fazemos sobressair o melhor de nós, numa espécie de “trégua-conto de fadas” do quotidiano.
            É óbvio que a maioria das pessoas deseja que este “melhor de nós” sobreviva além de hoje ou amanhã, mas, a cada ano que passa, fazemos muito pouco para que tal suceda. Percebo a desilusão do Papa Francisco que há dois dias declarou, em Roma, que a maneira como muitos de nós vive o Natal é uma farsa. Não creio que seja uma farsa, mas acho cada vez mais pobre o seu conteúdo.
As luzes, a árvore, o presépio são um símbolo e não a essência. A essência é o espírito de paz, de fraternidade, concórdia que subjaz ao nascimento de Cristo. Cristo é amor, é paz, é harmonia.
É bom comemorar, mas convém ter algo para brindar além dos copos e do champagne. E é nesse sentido que importa manter viva a mensagem do Natal. Não é preciso que seja Natal todos os dias, mas é necessário que o seu espírito preencha o coração de muitos homens e mulheres durante vários dias do ano. Seria bom e tudo o que é bom vale a pena ser tentado.
            Talvez morram menos inocentes em guerras estúpidas, talvez o terror mate menos, talvez a ganância perca mais vezes o jogo da vida com a humanidade e tenhamos de lamentar menos mortes evitáveis em hospitais, talvez se trafiquem menos armas, talvez se governe melhor os recursos dos povos, talvez… Sim, talvez, porque nunca teremos certezas tal como nunca alcançaremos um mundo ideal, mas, certamente, ele será melhor se tentarmos.
            A melhor mensagem de Natal seria aquela que desejasse manter e não mudar, visto que necessitamos mudar o que está mal e manter o que há de bom.
            Durante dois dias resgatamos a consciência e acendemos a luz de um mundo melhor. Apesar de todas as pobrezas que nos invadem, acho que temos suficiente riqueza para comprarmos um futuro mais digno, mais pacífico e mais harmónico.

Gabriel Vilas Boas  

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

A VIRGEM E O MENINO COM SANTA ANA, de Leonardo Da Vinci

Para esta noite especial, escolhi um quadro de Leonardo Da Vinci, pertencente à coleção do Museu do Louvre, que celebra a maternidade, pois, além da Virgem e do Menino, ilumina a mãe da Virgem, ou seja, a avó do Jesus Cristo. Com ela, Da Vinci dá humanidade à figura de Cristo, mostrando a sua família desconhecida.
A pintura, datada de 1510, que Leonardo Da Vinci realizou a partir do popular tema da Virgem e do Menino Jesus, com a mãe da Virgem, Santa Ana, está muito afastada dos primeiros arranjos rígidos e frontais de grupos familiares e executados pelo pintor.
O artista trabalhou em versões deste tema nos primeiros anos do século XVI: um tratamento algo diferente que inclui São João Baptista criança, sobrevive na forma de desenho na National Gallery em Londres e um esboço que se perdeu causou sensação quando foi exibido no convento de Annunziata, em Florença em 1501.
Embora Santa Ana pareça aqui na sua habitual posição com a Virgem à sua frente, as três são vivas e naturais. Num afastamento claro da tradição que apresenta Ana como uma matrona envelhecida, Leonardo Da Vinci mostra-a surpreendentemente jovem e atraente. O infeliz cordeiro a que o Menino deita a mão sugere o seu próprio papel no futuro como Cordeiro de Deus, o irrepreensível sacrifício pelo pecado; mas, à parte esta referência, o trio íntimo e divertido, nesta paisagem de sonho, faz um uso ligeiro de significados simbólicos.
O elemento-chave desta composição pictórica do século XVI é Santa Ana. O culto de Ana (século I), mãe da Virgem, chegou inicialmente ao Ocidente com os refugiados cristãos que escaparam às conquistas islâmicas.
 Uma primeira imagem da Santa, datada de 650, aparece um Santa Maria Antiqua, em Roma, onde é mostrada com a Virgem. Por volta do século XIV, Santa Ana era uma figura popular, em parte porque a maternidade numa idade avançada confirmava a doutrina da imaculada conceção da Virgem. Normalmente aparece com a filha. Diz a lenda que se casou três vezes e teve três filhas. ´É representada no final da Idade Média, com toda a sua família, por artistas como o mestre de Santa Verónica. Em 1479, as Carmelitas, em Frankfurt, formaram uma irmandade de Santa Ana e encomendaram um retábulo que lhe era dedicado, ilustrando cenas da sua vida.


Há cerca de quatro anos, este quadro de Leonardo Da Vinci este envolvido numa polémica, pois o Museu do Louvre decidiu restaurá-lo, mas o resultado dessa intervenção foi muito criticado por peritos em conservação e pintura, como Ségolène Bergeon Langle e Jean-Pierre Cuzin, que acusaram o Louvre de fazer uma limpeza exagerada à obra que ficou com cores diferentes das originais e um brilho pouco comum em trabalhos renascentistas. Na altura, houve técnicos que defenderam a intervenção de restauro executado enquanto outros a criticaram.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

PARA QUE SERVE UM PRESENTE DE NATAL?


Todos os anos assisto à expectativa de uns, ao lamento de outros, às críticas ao consumismo de muitos, mas a verdade é que o Natal institucionalizou as “prendas”. Quase tão ou mais obrigatórios do que o bacalhau, as batatas ou o presépio, os presentes de Natal já fazem parte do senso comum da sociedade.
Desde já declaro que gosto de receber e dar presentes no Natal. Faço-o com convicção e prazer, tanto no ato de oferecer como de agradecer. Compreendo as críticas ao excessivo consumismo e mercantilismo deste ato nobre de trocar presentes, no Natal, porque também o sinto e me desgosta.

Sei perfeitamente que as motivações de cada um, no ato de oferecer um presente de Natal, são diferentes de pessoa para pessoa, mas custa-me ouvir todos os anos os constantes lamentos de vários amigos e conhecidos acerca dos presentes de Natal.


Afinal, para que serve um presente de Natal? Para mim, sempre foi claro que os presentes de Natal servem para, num momento único e singular do ano como é o Natal, mostrar a minha amizade, amor, gratidão e reconhecimento com todos aqueles que me são mais queridos. Claro que de ano para ano esse grupo vai mudando, mas nunca fiz disso um drama. Sempre me recusei a dar um presente por convenção, porque “parece mal não dar”, porque “se dei a um tenho de dar a outro”. Isso quebraria a essência do próprio ato, na minha perspectiva. Talvez por isso me faça uma certa confusão aquela ideia: “No Natal, só dou presentes às crianças.” Gosto de crianças como gosto de adultos. Não gosto de convenções misturadas com sentimentos. Nunca me causou qualquer constrangimento que a lista de Natal contemplasse mais adultos do que crianças ou vice-versa. Sempre me preocupei é que lá estivessem as pessoas de quem gosto muito, de quem sou mais próximo, com quem compartilho momentos únicos e pessoais.

Nesse sentido, encaro a escolha dos presentes com alguma exigência. Não pode ser qualquer coisa. O presente de Natal tem que ter sobretudo um valor afetivo e, por isso, cada presente é escolhido em função da pessoa a quem se destina. Não me preocupa o valor monetário, até porque normalmente não são presentes caros, mas sim que a pessoa que o recebe perceba quanto a estimo, através daquele objeto/símbolo.
Dir-me-ão que há outras formas de manifestarmos a nossa amizade, amor ou apreço por alguém que não envolvem troca de presentes. Completamente de acordo, mas eu gosto de incluir presentes na lista de possibilidades. O dinheiro que gasto com os presentes de Natal é só uma pequena parte daquele de que disponho para gastar da maneira que melhor me aprouver e os amigos e familiares mais chegados são muito mais do que uma pequena parte de mim.
O que é fundamental, no que toca aos presentes de Natal, é gostarmos de presentear os outros e termos bem resolvida na nossa cabeça as razões por que o fazemos. Se é fantástico percebermos, através de um pequeno presente, quanto carinho e amor pôs nele quem no-lo endereçou também é penoso receber algo, apenas por convenção ou porque podíamos “reparar” ou “levar a mal”.
O Natal e o prazer de presentear e ser presentado são muito bonitos para serem estragados com motivações tão… cinzentas.

Gabriel Vilas Boas 

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

A ESTREIA DA QUINTA SINFONIA DE BEETHOVEN


A Quinta Sinfonia em dó menor de Beethoven, a sua Sexta Sinfonia, o seu Quarto Concerto para Piano e seis outras obras foram simultaneamente estreadas num concerto épico de quatro horas em Viena, na noite de 22 de dezembro de 1808. No entanto, o concerto não foi o sucesso esperado, pois a sala estava fria e a orquestra era medíocre, mas as apresentações posteriores da Quinta Sinfonia tiveram muito mais impacto junto do público, entre os quais se figurava o escritor alemão E.T. A. Hoffmann.
Cinco meses depois do concerto, os exércitos de Napoleão bombardeavam Viena e Beethoven, cuja surdez aumentava de dia para dia, procurou fugir desesperadamente do ruído do bombardeamento para preservar o que restava da sua audição.
Cito as palavras de Hoffmann sobre a extraordinária Quinta sinfonia de Beethoven pela sua sensibilidade artística.


«Poderá haver alguma obra de Beethoven que confirme tudo isto em mais elevado grau do que a sua indescritívelmente profunda, magnífica sinfonia em dó menor? Com esta composição maravilhosa, num clímax que não para de crescer, conduz imperiosamente o ouvinte para o mundo espiritual do infinito! … Sem dúvida que o todo flui para uma engenhosa rapsódia À frente de muitos homens, mas a alma atenta de cada ouvinte é agitada, profunda e intimamente, por um sentimento que não é nenhum outro senão a indescritível e portentosa melancolia, e até ao acorde final é impotente para sair daquele reino espiritual onde a dor e a alegria o envolvem sob a forma de som. A estrutura interna dos andamentos, a sua execução, a sua orquestração, a forma como se sucedem, tudo entre os temas que constroem a unidade que por si tem o poder de manter firmemente o ouvinte num estado de espírito único. Esta ligação é, por vezes, clara para o ouvinte quando a escuta na ligação dos dois andamentos ou a descobre nos baixos fundamentais que têm em comum; uma relação mais profunda que não se revela desta forma, fala noutros momentos apenas de mente para mente, e é precisamente esta relação que imperativamente proclama o autodomínio do génio do mestre.»  

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

BANIF – THE WORST CHRISTMAS GIFT


Titulo em Inglês porque é difícil encontrar em português palavras que traduzam toda a minha raiva, revolta, indignação com mais este roubo que nos fazem. Mais 2,2 mil milhões de euros! Se somarmos os 5,5 mil milhões do BPN, os 3,9 mil milhões do BES, obtemos a estratosférica quantia de 11,6 mil milhões de euros. Só para quem tenha dificuldades com os números, isto equivale a 116 vezes 100 milhões de euros. O Banif foi vendido por 150 milhões… Os portugueses já se endividaram em mais de 80 Banif’s nos últimos seis anos. Já imaginaram quanto a nossa economia podia ter crescido, quanto os salários podiam ter aumentado, quantos impostos não teriam sido necessários pagar? Acham mesmo que é o povo, que ganha 500 euros ou 800 ou mil euros,  que anda a viver acima das suas possibilidades? Acham mesmo que temos assim tanto um problema de contas públicas? Esta dívida foi feita pelos privados mas assumida pelo Estado.

Não me venham com conversa fiada: quem fez perder este dinheiro na banca privada fê-lo, de algum modo, de maneira consciente. Ninguém se deixa afundar tanto e tão irremediavelmente por engano, por acaso, por azar. A banca portuguesa foi lamentável, afundou o país e levou a maioria do povo para a miséria. Só o BPI se salvou desta vergonha miserável que custa a alguns o prato da comida, a outros o estudo dos filhos, a todos um viver sem sobressalto económico.
Os governos, os ministros, o banco de Portugal, a Troika também não saem ilesos desta culpa. Foram coniventes com os poderosos, deixaram andar, pois sabiam que no final havia a solução de sempre: pedia-se mais um mil milhões (sim, mil milhões porque se há coisa em que somos enormes é no tamanho das dívidas, apesar dos bancos serem quase insignificantes) ao bancos estrangeiros até estes se fartarem e duvidarem da nossa capacidade para lhes pagarmos os… juros, que não a dívida.

Foi o que aconteceu ontem, novamente. Fazem todos “aquela cara de enterro”, lamentam imenso, mas quem paga somos nós. A classe política portuguesa sabe que em Portugal não nascem “Ciudadamus” ou “Podemos” que estoirem de vez com este ridículo medinho de mexer com os eternos vampiros dos parcos recursos nacionais. Em última análise, pagaremos durante trinta anos a nossa falta de coragem, a nossa conivência com este sistema corrupto que nos conhece tão bem, ao ponto de explorar na perfeição os nossos preconceitos políticos, sociais, ideológicos.

Chegamos a um ponto em que denunciar não chega. É um pouco como aquele médico que só faz o diagnóstico. É preciso aplicar a cura: banir todos aqueles que nos trouxeram até este estado miserável, punir as mentes brilhantes que nos ludibriaram tão pomposamente. Podem dizer-me que isso não nos trará de volta o dinheiro, pois este voou para longe. Talvez… mas servirá de exemplo para que não tentem novamente humilhar-nos.
Quem não se dá ao respeito só pode esperar que lhe faltem ao respeito!

Gabriel Vilas Boas

domingo, 20 de dezembro de 2015

MERCADO NAZARENO EM AMARANTE


Acabo de chegar do Mercado Nazareno que decorre desde ontem nos claustros da igreja de São Gonçalo, em Amarante. E venho muito contente com aquilo que vi, ainda que não surpreendido. Alunos, professores, funcionários do Agrupamento de Escolas de Amarante (onde também eu trabalho) realizam um mercado de produtos regionais e alusivos à época que atravessamos, quase todos eles feitos em suas casas, pelas suas famílias.

Vestidos a rigor, resistindo ao frio, ao cansaço, à maior ou menor afluência do público amarantino, encontrei sorrisos em todas as caras. E não pude deixar de pensar no extraordinário exemplo de partilha, iniciativa, convivência que estes alunos e professores dão à cidade e aos colegas.Ao longo das últimas semanas  pude constatar o esmero, a dedicação, a alegria que alguns dos meus colegas puseram na realização desta iniciativa que tão bem representa os valores da Escola Pública e do Agrupamento em que trabalho. 

A professora Glória Bento, a professora Anabela Magalhães, a professora Elisabete Costa, a professora Ana Paula Vila Real, entre outras, em cumplicidade com pessoas tão simpáticas e dedicadas como o senhor Pinto (o carpinteiro de serviço), a dona Natália ou a dona Filipa, tudo fizeram para que os alunos da E.B.2/3 de Amarante pudessem viver um Natal de 2015 diferente dos anteriores.


Viver o Natal é também ensinar e praticar a partilha, é desfrutar de momentos simples e prazerosos, é participar na evolução pessoal, afetiva e social destas crianças que procuram angariar alguns fundos para as suas atividades extracurriculares e ao mesmo tempo emprestam ao Natal da sua cidade um pequeno e singular colorido.
Amanhã, terça ou quarta-feira é obrigatório passar por lá! Dar-lhes “aquele” abraço com as mãos, os braços, os olhos ou a boca e dizer-lhes “muito obrigado” pelo exemplo de construírem Escola fora da sala de aulas, pela humildade e alegria com que dão cor ao Natal da “nossa” cidade!

Gabriel Vilas Boas

 

sábado, 19 de dezembro de 2015

MARCELLO MASTROIANNI


Há 19 anos, o cinema ficava mais pobre, a Itália chorava a perda de um dos seus mais emblemáticos atores: morria Marcello Mastroianni.
Marcello foi um enormíssimo ator, com um talento fabuloso para a representação, tendo dedicado toda a sua vida ao teatro e, sobretudo, ao cinema. Filmou até morrer, na sua casa em Paris, acompanhado da sua companheira de então, Anna Maria Tatò, pela sua antiga paixão, Catherine Deneuve, e a filha de ambos, Chiara.

Foram amargos e dolorosos esses últimos meses de vida, por causa de um cancro mortífero, mas não o afastaram do cinema. Aos setenta e dois anos, Mastroianni trabalhava em Portugal com o mestre Manoel de Oliveira, no filme “Viagem ao Princípio do Mundo”. Foi o seu último trabalho. Foi um adeus português a um grande senhor do cinema europeu.
O tímido galã de Turim chegava a Roma para conquistar público, realizadores e colegas de profissão, rendidos à sua arte de representar, à sua simplicidade pessoal, ao encanto do seu ar tão desleixado quanto sedutor.
Aos vinte e pouco anos, o cinema italiano começava a familiarizar-se com o seu nome, mas era no teatro que a sua estrela mais brilhava, em peças de Shakespeare (“As You Like It”) e Tennessee Williams (“Um Elétrico Chamado Desejo”). Luchino Visconti tinha “fisgado” o seu natural talento para a representação e o cinema capturou-o na década de cinquenta, onde participou em muitos filmes. Alguns deles revelaram-se enormes sucessos, como “Os Amantes de Florença”, “Eternos Desconhecidos” ou “Um Rosto na Noite”.

A consagração veio da década seguinte, quando o seu caminho se cruzou com o grande Fellini e a belíssima Sophia Loren. Os melhores desempenhos da sua recheada carreira cinematográfica situam-se nesses fabulosos anos 60: “Dolce Vita”, “Oito e meio”, “Divórcio à Italiana”. Sophia e Marcello eram o par romântico da moda, em Itália e um pouco por toda a Europa. Vittorio De Sica juntou-os em “Ontem, Hoje e Amanhã” e em “Matrimónio à Italiana” e os dois criaram momentos inesquecíveis, episódios memoráveis de glamour cinematográfico.
Na década de setenta, Mastroianni voou até Paris e lá conheceu um dos grandes amores da sua vida, Catherine Deneuve. Foram anos de intensa paixão e trabalho, antes de regressar à sua Itália, correspondendo ao chamamento de Fellini que o queria em “Cidade das Mulheres” e “Ginger e Fred”.
Hollywood foi totalmente insensível ao talento e ao charme deste grande senhor. Nunca recebeu o merecido óscar, ainda que tenha sido nomeado três vezes: em 1962, por “Divórcio à Italiana”; em 1977, por “Um Dia Inesquecível”; em 1987, por “Olhos Negros”. Mas se Hollywood o esqueceu, Cannes idolatrou-o, ao atribuir-lhe, por duas vezes, o Prémio de Interpretação Masculina (1970 e 1977), o que só aconteceu com outro ator, na história do renomado festival de cinema francês.
A imensa filmologia (cerca de centena e meia de filmes) tem a particularidade de terminar com duas produções portuguesas: o já citado “Viagem ao Princípio do Mundo”, e “Afirma Pereira”, de Roberto Faenza, a partir da obra homónima de António Tabucchi, rodado no majestoso cenário da baixa lisboeta.
Gabriel Vilas Boas

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

UM BILHETE POSTAL SÍRIO



Querido Pai Natal
Escrevo-te não para te pedir algo, mas para te agradecer. Agradecer o extraordinário dom de estar vivo e ter junto de mim a minha família.
Há meses, eu e a minha mulher tivemos de tomar a decisão mais difícil das nossas vidas: reunir a totalidade das nossas economias e pagar a um traficante do medo humano uma viagem de barco, para atravessar o mar mediterrâneo, de maneira que pudéssemos ficar a salvo autoproclamado Estado Islâmico. Foi uma decisão difícil e arriscada, pois não tínhamos muito dinheiro e sabíamos que viajaríamos em condições muito inseguras. Nunca senti tanta angústia como naquelas longas horas em que baloiçámos ao sabor das ondas do destino, num bote a abarrotar de gente perdida e desesperada. Famílias inteiras, como nós, que arriscavam a sua vida e dos seus filhos, numa desesperante tentativa de fugir da morte que todos os dias os senhores da guerra nos prometiam certa.

Miraculosamente chegámos à europa do sul, onde fomos acolhidos com algum afeto, mas logo nos disseram que não podíamos ficar. Não tinham lugar para nós. Por isso, tive de explicar às minhas filhas que teríamos de caminhar por estradas desconhecidas, subir montanhas, comendo apenas uma vez por dia.
Passámos por diversas cidades e alguns países. A minha filha mais velha (tem nove anos) não compreendia o ódio, o desprezo, a raiva, com que nos trataram na Hungria. Não nos queriam e fizeram questão de no-lo demonstrar, tratando-nos como animais perigosos. Na Eslovénia também já nos tinham dito que não tinham nada para nos oferecer e trataram de nos apressar o passo.

À medida que os dias passavam, a descrença e a desilusão apossavam-se de mim. Com poderia ser esta a europa da liberdade, da defesa dos direitos humanos, da fraternidade e da solidariedade que via e lia na internet? Falo mal inglês, mas entendia o suficiente para perceber quanto desprezíveis éramos para os europeus. Que desilusão, Pai Natal!
Eu que andei anos a contar às minhas filhas que aqui, na tua terra, tudo era diferente: não havia pessoas más; não havia fome, nem desprezo nem ódio. Todavia, só quando chegámos a Viena de Áustria é que podemos sentir alguma fraternidade no olhar das pessoas.

A cidade era linda, com os seus monumentos, as suas igrejas, os seus teatros. Parecia um paraíso, onde tudo funcionava perfeitamente. Nós éramos a novidade!
Em cada dia que passava, chegavam mais imigrantes sírios. Famílias inteiras como nós! Apesar de toda a boa vontade austríaca, percebi imediatamente que apenas nos poderiam oferecer auxílio de emergência. Não seria fácil sair do nosso acampamento de refugiados e encontrar emprego e normalizar a nossa vida. A língua também era um problema e as nossas filhas estavam cada vez mais silenciosas, tristes, sem esperança.
Até que nos primeiros dias do outono, uma caravana de anjos, certamente requisitados por ti, surgiu com os seus trenós modernos multicolores e puxados a potentes renas. Abeiraram-se de nós e, pela primeira vez, em muitas semanas, as minhas filhas voltaram a sorrir. Falavam delicadamente, sorriam com doçura e propuseram-nos um pequeno paraíso: viajar para Portugal, onde nos esperava uma casa, comida, roupa, um emprego para mim, e escola para as nossas filhas mais velhas.
Nem sabia onde ficava Portugal, mas aquela generosidade, deixou-me de lágrimas nos olhos e só podia aceitar. Disse-lhes que sim várias vezes, e de todas as maneiras que o meu corpo conseguia expressar o nosso agradecimento.

Quando chegámos a Lisboa e depois à pequena cidade nos seus arredores onde vive a família que nos acolheu, percebi que se tratava de um país com dificuldades económicas. No entanto, eles fizeram questão de nos integrar rapidamente e providenciar para que nada nos faltasse.
Entretanto passaram dois meses e ontem chegaram os primeiros refugiados oficiais a esta terra que passei a amar como minha. Estou certo que ouvirei novamente a nossa querida língua, embora o português me soe maravilhosamente.
Ao contrário do que cheguei a temer, este ano passaremos um Natal feliz, em paz e em família. Ganhámos novos amigos e revimos outros que julgávamos perdidos. Daqui a uma semana é o Natal. Não te peço nada! Agradeço-te os anjos que me enviaste a Viena, onde agora a neve cai e as igrejas se enchem de belas canções de Natal.
 Em Viena, Budapeste ou Berlim, não te canses de enviar os teus presentes em forma de humanidade e generosidade, aos meus conterrâneos.  

Ali, um sírio abençoado