Etiquetas

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

ALCINO SOUTINHO, O SEDUTOR DOS ESPAÇOS




Alcino Soutinho foi um dos mais renomados arquitetos portugueses do século XX. Há cerca de um ano deixou-nos para sempre, mas a sua obra perdurará em várias cidades e vilas portuguesas, fazendo jus a uma arquitetura moderna, realista e confortável.
        O que mais ressalta na obra do arquiteto nortenho é a sua preocupação em tornar os espaços que idealizou sítios confortáveis, agradáveis e belos.
            Soutinho começou a pôr em prática as ideias da famosa Escola do Porto ainda na década de cinquenta, optando por iniciar a carreira em regime livre, mas volvidos poucos anos resolveu aprofundar os seus conhecimentos em museologia, em Itália, aproveitando uma bolsa da Fundação Gulbenkian. Este contacto com os arquitetos italianos e os conhecimentos que adquiriu sobre arquitetura museológica deram os seus frutos na década de setenta quando concluiu a sua primeira grande obra: o Museu Amadeo Souza-Cardoso, em Amarante, e os Paços do Concelho, na mesma cidade. Este trabalho mereceu o reconhecimento da crítica e culminou com o Prémio da Associação de Críticos de Arte – Secção Portuguesa.


O aumento de prestígio rendeu-lhe novo grande projeto: a recuperação do antigo Castelo de Vila Nova de Cerveira que Soutinho converteu na Pousada D. Dinis e que lhe renderia novo prémio: Prémio Europa Nostra.
Apesar de ter trabalhos espalhados um pouco por todo o país, o melhor da obra deste arquiteto gaiense situa-se na área metropolitana do Porto. Matosinhos recebeu duas das suas obras mais emblemáticas: a Câmara Municipal e a Biblioteca Florbela Espanca. A edilidade matosinhense reconheceu o magnífico trabalho de Soutinho e agraciou-o com a Medalha de Mérito da Cidade, o mesmo acontecendo na sua terra natal.



Além destas obras mais conhecidas, Alcino Soutinho assinou trabalhos como a Casa Museu Guerra Junqueiro, no Porto; alguns edifícios da Universidade de Aveiro (Departamento de Química e Departamento de Cerâmica e do Vidro), o Museu do Neo-Realismo em Vila Franca de Xira e o Centro de Estágio do Futebol Clube do Porto, em Gaia, uma das poucas obras que projetou na terra onde nasceu.
O melhor que podemos fazer para homenagear este incansável arquiteto com mais de cinquenta anos de atividade é apreciar a sua obra, reparar como a integrou no espaço e no tempo e perceber como foi tão multifacetado e moderno.


Gabriel Vilas Boas

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

DA ARTE, DA PINTURA, DO EXPRESSIONISMO EM AMADEO DE SOUZA-CARDOSO


Amadeo de Souza-Cardoso, Tristezas cabeça (1914) 

“Tenho sentido momentos em que tudo me aparece de uma esterilidade negra, de impotência realizadora, de gasto, de inútil; outros de irradiação celeste, de fecundidade imensa, de um abrir criador como a flor se abre ao sol. E contra isto, choques de sentimentos, massacres de ideias, onde pensamentos velhos resistem a pensamentos novos e pensamentos novos se formam de sentimentos velhos. Nos momentos de calma, das entre-lutas refaço as trincheiras da resistência, examino a minha capacidade de energia vital e aparece-me a vitória nítida.”
Carta de Amadeo de Souza-Cardoso a sua mãe, abril de 1914, Paris

A personalidade de Amadeo, imbuída de intensa espiritualidade e algum drama podem, se quisermos, ajudar a explicar também o seu envolvimento no movimento expressionista que se desenvolveu na Alemanha, na primeira década do séc. XX.
Esta vanguarda, caraterizada pela utilização expressiva da cor e da forma, surge como reação à objetividade do Impressionismo, propondo uma pintura mais intensa, em jogo de emoções e sensações, num dramatismo só comparável à própria vida. Os mais profundos sentimentos deveriam emergir da cor, intensa em pinceladas violentas e bruscas. A analogia com a época impõe-se. A situação política e económica da Europa na viragem do século, o mal-estar social e a crise de valores provocada por uma invasão desenfreada da tecnologia, pelos excessos da industrialização desumana e pelo crescimento assustador das cidades é denunciada pelos expressionistas; influenciados pela generalização da crise, que atinge o seu auge com o rebentar da Primeira Grande Guerra, estes pintores privilegiam a expressão dos estados de espírito subjetivos em temas como a doença, a solidão, a ânsia do amor insatisfeito ou a deceção e angústia.
                Inspiram-se nos primitivos e na arte negra e tribal, isentas de mácula de modernidade; imagens arcaicas e quase naif, em distorções e fortes contrastes cromáticos invadem as telas dos pintores dos grupos Die Brucke (A Ponte),de Dresden e Der Blaue Reiter, (O Cavaleiro Azul)a segunda vanguarda expressionista em direto de Munique.
Amadeo foi permeável a esta nova vanguarda aquando da sua passagem meteórica pela Alemanha e desenvolve trabalhos que se aproximam desta estética em trabalhos quer de pintura quer de desenho, num interessante diálogo com o pensamento expressionista do seu tempo.
A inspiração primitivista e a recuperação das máscaras africanas está presente no conjunto de cabeças/máscaras que vai produzindo desde 1908. Estas figurações integram-se em tipos humanos com estados emocionais alterados, onde se chega a roçar a violência física e emocional, num grotesco inesperado e sem fim.

Alma de expressionista, portanto. Assim era Amadeo.

Amadeo de Souza-Cardoso, Luto cabeça boquilha (1914)


Amadeo de Souza-Cardoso, O rata (1915)

Rosa Maria Alves da Fonseca

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

O DIA EM QUE O CAPITALISMO «CRASHOU»


O dia 29 de outubro de 1929 ficará para sempre conhecido como um dos piores dias da história dos Estados Unidos e do sistema capitalista. Naquela terça-feira negra a bolsa de Nova Iorque entrou em colapso e com ela arrastou toda a economia americana e mundial que tentava levantar-se, depois da destruição provocada pela Primeira Guerra Mundial.
                Só na primeira meia hora da sessão foram vendidas 3 259 800 ações. O desespero tomara conta dos acionistas que tentavam desfazer-se das ações que detinham o mais rapidamente possível, pois o seu valor descia vertiginosamente. A queda começara na quinta-feira anterior, mas os bancos haviam intervindo durante o fim-de-semana, tentando evitar a derrocada do sistema financeiro, mas de nada valeu, pois o pânico estava instalado entre os investidores que continuavam a vender na segunda-feira. Na terça-feira, foram vendidas 16 milhões de ações e as empresas norte-americanas cotadas em bolsas perderam, num só dia, 40 biliões de dólares de valor.


  
Os acontecimentos dos dias subsequentes vieram provar que o mundo financeiro entrava no movediço terreno da especulação e os preços das ações continuaram a cair para valores inimagináveis, umas semanas antes.
A Terça-Feira negra representou o começo de dez anos de colapso económico e a entrada na “Grande Depressão” que afetaria toda a economia mundial e criaria condições propícias à Segunda Grande Guerra Mundial.
O sistema capitalista como qualquer outro sistema económico tem virtudes e defeitos. No entanto, agora que o conhecemos há quase um século podemos perceber de que se alimenta: especulação, ambição, ganância, trabalho, rotação de capital, gestão de expectativas e do medo.
Oitenta e cinco anos depois pouca coisa mudou. Pensou até que piorou, pois agora não são «apenas» as grandes empresas dum país importante que desmoronam como castelos de cartas, mas assistimos à queda de países como a Islândia, a Grécia ou Portugal que deixam de honrar os seus compromissos e têm de pedir ajuda externa para sobreviver, sujeitando-se à ditadura de quem empresta.


  Quando a bolsa de Nova Iorque crashou há oitenta e cinco anos, toda a gente percebeu os efeitos radioativos duma economia apenas assente na especulação financeira, mas como todos os viciados, o mundo voltou a entregar-se nos braços do seu carrasco.
Depois de novamente embalados no poder do dinheiro, os governantes das principais economias mundiais voltaram a jogar a vida dos seus povos na roleta do casino. Obviamente o prémio sai sempre à casa. Desde há dez anos vivemos algo semelhante à grande depressão dos anos trinta do século passado. Milhões perderam o emprego, milhões vivem abaixo do limiar da pobreza, centenas vivem em condomínios fechados, sem remorsos. O sistema financeiro foi feito para ter este resultado! Não há que ter ilusões.

A solução não está em banir o capitalismo ou as bolsas de valores como grande satã das sociedades modernas. Na minha opinião, há que ver as coisas em perspetiva: as bolsas são o coração do sistema financeiro, mas este é só uma parte da economia. E a economia é só uma parte da sociedade. A solução é não permitir àquilo que é minoritário atuar como maioritário…
Isto é muito difícil de fazer? Estamos a mexer com pessoas poderosas e com muito dinheiro e poder? Difícil é pagar dívidas colossais que não fizemos; difícil é deglutir BPN, BES e BPP. Afinal de contas, o ex. dono disto tudo nem dono da casa dele é…  por isso, o medo não se justifica!

Gabriel Vilas Boas



terça-feira, 28 de outubro de 2014

AH, OS DIAS FELIZES





Domingo à tarde. O sol tornava-se morno e o Porto ganhava lentamente os tons de outono. Entro apressado no Teatro Nacional de S. João, pois a peça já estava a começar. Na plateia, não mais de quatro dezenas de apaixonados do teatro aguardam pacientemente o começo da peça. Mal no sento, as luzes apagam-se e o pano sobe. 

Ao centro da cena, Emília Silvestre vai dar corpo a uma das mais famosas peças do renomado dramaturgo irlandês, Samuel Beckett: AH, OS DIAS FELIZES. Sabia muito pouco sobre a peça, no entanto, os nomes de Beckett (autor) Nuno Carinhas (encenador) e Emília Silvestre (protagonista) atraiam-me. 

A peça é um longo monólogo de noventa minutos, divididos em dois atos, sem intervalo. A protagonista –Winnie - passa o primeiro ato, enterrada até à cintura, no alto de um monte, a falar sozinha. Com palavras e gestos banais, Winnie enche o vazio com as memórias dum passado feliz. (“Ah, os dias felizes”). A sua existência, presa a um monte, é infeliz e muito condicionada. O seu companheiro, ainda que presente em cena, não lhe responde. Ela fala sozinha… horas e horas a recordar, a conjeturar, a tentar vencer o vazio da existência. 




Mas Winnie não se dá por vencida. É admirável a sua capacidade de luta e de sobrevivência, a sua resistência ao tempo e às circunstâncias adversas. 

Admirável é também o trabalho da atriz Emília Silvestre. Um trabalho duma exigência enorme, não só pela quantidade de texto que tem de decorar, como pela condição em que a protagonista se encontra. Além disso, Emília Silvestre “constrói” uma mulher que está numa situação extrema e que continua a acreditar no amor, a lutar contra o tempo e a ocupar o espaço com a linguagem. 

À medida que a peça avança, o título não deixa de ecoar no pensamento dos espetadores: “ah, os dias felizes”. Muitos de nós lembram-se dos momentos difíceis que passamos, e suspiram por um passado feliz e cada vez mais longínquo. Talvez seja por isso que muitos críticos de Beckett dizem que ele é eterno ou intemporal…

Entretanto, entramos no segundo ato. A condição da protagonista degrada-se: agora ela está enterrada até ao pescoço, mas isso não altera o seu ânimo. Continua a falar, a falar de tudo o que se pode, a encher esse vazio que derrota e amesquinha qualquer um.

Será assim até ao final, quando o público sublinha a satisfação pelo trabalho dos atores João Cardoso e Emília Silvestre com genuínas e longas palmas. 

Saiu do teatro a pensar no vazio de muitas existências que me rodeiam e imagino a angústia que as invade. Percebo como é preciso ser forte, especial, único para continuar a lutar, a resistir, a amar, quando as circunstâncias nos sufocam e oprimem. 

Novamente na rua, agora já sem pressa, observo os vendedores de castanhas e de gelados. Ambos fazem bom negócio. Pode parecer absurdo como num texto qualquer de Beckett, mas profundamente real. O vazio de muitas existências também é um pouco assim…


Gabriel Vilas Boas

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

MY WAY, FRANK SINATRA


Quando me perguntam qual a música de que me mais gosto, aquela que mais profundamente me comove, a minha resposta é MY WAY, de Frank Sinatra.
É uma música soberba! Nela tudo combina duma maneira absolutamente admirável: a letra, a composição musical, a voz. A voz de Sinatra dá alma e carisma à música. Todas as sensações e emoções que experimentamos ao ouvir My Way devem-se, em grande, parte à voz inimitável do popular cantor americano.
Talvez por isso nunca me aborreceu muito saber que Sinatra fez o seu My Way a partir da canção francesa de Claude François Comme d’habitude, nem que foi Paul Anka a escrever a letra. As inúmeras versões que se seguiram apenas confirmam quão extraordinária é esta música dos anos 60. Este é, nitidamente, um caso em que a interpretação é determinante para a paixão que a canção gerou em milhões de pessoas de várias gerações e geografias.

É uma música em que o cantor faz o balanço da sua vida, para concluir que ela valeu a pena porque a viveu à sua maneira.  
O começo e o final da canção criam uma atmosfera emocional bastante forte:
And now the end is near
(...)
And did it my way
Yes, it was my way.”

Em breves segundos, a vida que construímos invade, melancolicamente, o coração, a alma e a memória e percebemos o que valeu e não valeu a pena.
Sinatra diz que VIVER é fazer as coisas à nossa maneira. Não é uma questão de dever cumprido, de segredo de vida, mas de realização pessoal.


As falhas, os arrependimentos, as derrotas não fazem tanta mossa quando sabemos que fizemos o que tinha de ser feito, ou seja, fomos genuínos.
Impressionante como a voz de Sinatra nos transporta para esse reencontro connosco. E naquelas palavras simples, mas cheias de profundo significado, percebemos, claramente, os erros, as vitórias, as indecisões.
No entanto, My Way é uma música triste e nostálgica. Ainda que afirme orgulho no passado, não tem futuro. Ela é o fim, a despedida, o remate final. Ouvimo-la em silêncio, comovidos, muitas vezes com lágrimas prontas a irromper e a garganta apertada.




O My Way é a poesia do fim, a mais bela despedida que a música imaginou para a vida. Quando a ouvimos, percebemos claramente Louis Armstrong – What a wonderful life!, que nos escapa entre os dedos, até porque Sinatra já tinha avisado desde os primeiros acordes que the end is near e a gente tem saudades de tudo aquilo que deixou por fazer à … nossa maneira.

Gabriel Vilas Boas


domingo, 26 de outubro de 2014

OPORTO FAST TOURIST


A cidade do Porto é hoje uma cidade substancialmente diferente da de há dez anos. Os jovens andam pela rua, há movimento de dia e de noite, todos os dias a Ryanair despeja milhares de turistas low cost na cidade, dezenas de pequenos negócios crescem, com bom gosto e originalidade, impulsionados por uma nova geração de portuenses que viu o que se faz noutras cidades e replica modelos de sucesso na «sua» cidade.  
        O Porto tornou-se uma cidade de turismo e de turistas, de lazer e de charme. Longe vão os tempos em que todos os portuenses diziam com a boca a transbordar de orgulho: «O Porto é a cidade do trabalho». No entanto, proporcionar bem-estar, descanso e prazer aos outros dá imenso trabalho.



    É indubitável o contributo que a Ryanair por um lado e a Câmara do Porto por outro deram à transformação da economia, ambiente e imagem da cidade. A companhia aérea de baixo custo trouxe à cidade o turista low cost, que ocupa os seus fins-de-semana a conhecer cidades europeias. Tem pouco tempo, tem pouco dinheiro, mas uma enorme vontade de viajar, conhecer, descobrir. O Porto abriu-lhes as portas e não marcou preço de entrada. A edilidade liderada por Rui Rio transformou uma zona morta e nobre da cidade durante a noite na mais sexy movida do norte da península ibérica. As noites de sexta-feira e sábado estão cheias de portuenses, londrinos, catalães, madrilenos, holandeses, franceses que procuram o Porto para se divertir e conhecer um pouco a cidade, nas poucas horas que passam na invicta.



       Nesse sentido, aquilo que o Porto pode proporcionar a este tipo de fast tourist é altamente sedutor: um passeio romântico pelas margens do Douro, um jantar à luz de velas no Cais de Gaia ou na Ribeira, um passeio de barco no perímetro da cidade ou Douro acima à descoberta dos mistérios do vinho do Porto. Depois há um punhado de monumentos que o turista raramente dispensa: o Palácio da Bolsa, o interior da estação de S. Bento, a inevitável torre dos clérigos, a clássica livraria Lello, a glamourosa zona das Galerias, o romantismo dos jardins do Palácio de Cristal. No entanto,  melhor do Porto ainda continua a ser aquele entardecer melancólico e singular que podemos abraçar, caminhando da Ribeira até à Foz  ou dentro dum elétrico.



         O turismo está mudar a face e a alma da cidade. A velha urbe está a reconstruir-se com o dinheiro do turismo do século XXI. Crescem hostels, hotéis de charme, pequenos negócios, onde o valor está no extremo bom gosto de alguns produtos.
       Apesar de todo um clima de otimismo e confiança nem tudo são rosas. O turismo é uma opção estratégica e inteligente no desenvolvimento da cidade, mas não pode ser única, pois fazer depender grande parte da economia da cidade do turismo é um risco imenso, já que o turista segue modas. Hoje o Porto está na moda, amanhã pode não estar… Por outro lado, é preciso definir uma estratégia clara quanto à implementação de determinados pequenos/grandes negócios no coração da cidade. Não pode haver ofertas repetidas nem faltar ofertas de serviços que qualquer cidade de média dimensão europeia já tem.  


     A isto acrescento a oferta cultural, ainda muito incipiente. O turista não procura centros comerciais nem cinemas, o turista procura musicais, peças universais de teatro, concertos de música clássica, bailados, desfiles de moda. Tudo isto com qualidade europeia. Talvez esteja na hora da edilidade de Rui Moreira investir seriamente na oferta cultural da cidade.
     O Porto abriu-se ao mundo e o mundo gostou do que viu e do que sentiu. Está na hora de convencê-lo a voltar.

Gabriel Vilas Boas


sábado, 25 de outubro de 2014

MARIE ANTOINETTE, O FILME




Há pouco mais de uma semana fui desafiado pela minha família para uma sessão de cinema familiar: “Marie Antoinette”, de Sofia Coppola, era o filme em questão.
Ainda que não me tivesse enchido as medidas gostei do que vi. Trata-se dum filme biográfico sobre a controversa última rainha de França, cujo fim trágico o filme ignora, numa opção discutível da realizadora.
“Marie Antoinette” relata a história eletrizante, mas íntima, da vida turbulenta de uma das vilãs mais conhecida da história mundial. Kisten Dunst interpreta a infeliz princesa austríaca que casou com o jovem e apático rei de França, Luís XVI (Jason Schwartzman). Sentindo-se isolada numa corte onde abundava o escândalo e a intriga, Marie Antoinette desafiou tanto a realeza como o povo, atuando como uma estrela de rock, o que só serviu unicamente para selar o seu destino: ser morta, quando fugia do povo em fúria.





O melhor do filme é mesmo o guarda-roupa. Um trabalho excelente de Milena Canonero que veste as personagens com um pormenor epocal extraordinário. Os vestidos, os sapatos, a decoração de interiores fazem-nos viver intimamente todo o ambiente de fausto, luxo e exagero da corte de Luís XVI.
Mas o objetivo de Sofia Coppola era outro: mostrar Marie Antoinette com os olhos duma mulher do século XXI. E conseguiu-o. A última rainha francesa surge-nos como uma caprichosa estrela de rock and roll. O tom é dado pela bela banda sonora, toda ela feita de rock puro. Essa é a surpresa com que começa o filme. A pose inicial da protagonista traça imediatamente a personalidade da jovem Marie Antoinette: prazer, luxúria, soberba, futilidade.
O filme mostra mais do que diz. A pobreza do argumento surpreendeu-me, mas talvez a realizadora parta do princípio que todos nós já conhecemos muito bem a história da princesa austríaca que casou com um inexperiente príncipe francês e chegou a Paris sem nunca ter visto o futuro marido, apenas para solidificar a aliança que a mãe queria com a França.



Sofia Coppola não desmente em nada a imagem que temos de Marie Antoinette: fútil, perdida em festas, completamente nas tintas para o povo que passava fome, vivendo no fausto e no luxo sem qualquer tipo de remorsos. São inúmeras as cenas de festas onde os excessos de bebidas, bolos e jogo são a regra. Sofia mostra quase sempre os fins de festa, as salas desarrumadas, a comida pela chão, para ilustrar bem o desregramento em que Marie Antoinette passava os dias.
Mas Sofia Coppola acrescenta algo de novo à biografia da polémica rainha de França: a falta de amor, a solidão, a infelicidade em que vivia. Marie teve de esperar meses para que o marido cumprisse o seu papel de homem. O desinteresse que Luís XVI demonstrava pela bela mulher é até um pouco constrangedor. Foi preciso o cunhado vir expressamente de Viena para lhe dizer o óbvio: os herdeiros, do trono, só nascem quando os reis mostram um mínimo de competência com as suas esposas. O casal lá teve os seus filhos, mas o amor nunca chegou à vida de Marie Antoinette. Desse modo, o leitor enquadra melhor o amante que Marie Antoinette teve sem qualquer tipo de remorsos.
Entretanto, o povo tomou a Bastilha, os reis tiveram de partir e a monarquia também. Chegava a Revolução Francesa. Mas isso já não interessava a Sofia Coppola. O filme, da filha do mestre Francis Ford Coppola, queria falar-nos da futilidade de Marie Antoinette, mas também da sua infelicidade, sem deixar de mostrar a hipocrisia da corte e o desprezo com que os últimos reis de França olhavam o seu povo.
Gabriel Vilas Boas



sexta-feira, 24 de outubro de 2014

O AZULEJO NA ARQUITETURA





A meio deste verão, visitei o Museu do Azulejo, em Lisboa. Foi uma extraordinária surpresa perceber quão antiga e riquíssima era história do azulejo em Portugal. Hoje, é para mim claro que o azulejo é uma das expressões mais fortes da Cultura em Portugal e uma das contribuições mais originais do génio dos portugueses para a Cultura Universal.
Atualmente, o azulejo ultrapassou a mera função utilitária e perfila-se como uma intervenção poética na criação de arquiteturas e de cidades.
 A partir da segunda metade do século XX começam a surgir propostas arrojadas que integram o azulejo em modernos projetos de arquitetura e urbanismo.
Os ladrilhos hidráulicos, azulejos portugueses e o patchwork de azulejos, tornaram-se ícones na decoração, ainda que haja alguma confusão de conceitos.

Feito a mão, peça por peça, o ladrilho hidráulico ou piso hidráulico  é um tipo de revestimento artesanal feito à base de cimento, usado em pisos e paredes, que teve o seu apogeu entre finais do século XIX e meados do século XX. Pelas mãos do artesão, as cores são colocadas uma a uma, em moldes confecionados com precisão de uma peça de ourivesaria. 
Com azulejos diferentes, e sem repetição de peças, o patchwork de azulejos  é uma mistura de azulejos coloridos, muitas vezes antigos e encontradas em cemitérios de azulejos. Hoje em dia também encontramos muitas empresas de cerâmica e porcelanato que já fabricam linhas de patchwork; o Azulejo Português é um azulejo feito da mesma maneira que os outros, a diferença é que o padrão de desenho é a cor azul.
Antigamente, os azulejos eram usados somente em construções religiosas, hoje, os azulejos portugueses voltaram a ser moda e aos poucos conquistou o mundo da decoração.
Como já referi, o ladrilho hidráulico pode ser usado tanto na parede como no chão, já os azulejos não são tão resistentes, sendo indicados apenas para revestir paredes. Mas os dois são ótimas opções para alegrar e diferenciar o ambiente.
Existem modelos que combinados formam desenhos padronizados e que descombinados, formam um desenho único para sua casa!
Para quem optar por ladrilhos hidráulicos, as opções são ainda mais variadas, já que se pode desenhar o próprio modelo e mandar reproduzi-lo.




São os azulejos que fazem da estação de S. Bento um das mais belas do mundo, são os azulejos que transmitem uma arquitetura moderna a muitas estações do metro lisboeta, é o ladrilho hidráulico que conquista terreno nas mais modernas propostas de decoração de interiores, dando corpo a uma onda retrô, cheia de originalidade e sofisticação.

Gabriel Vilas Boas

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

DA ARTE, DA PINTURA, DO DADAÍSMO E DE KURT SCHWITTERS




Kurt Schwitters (1887-1948)
  
Em 1917, o movimento DADA era já sobejamente conhecido pela sua facilidade de aceitação de todas as experiências que  subvertessem a ordem, os valores, as normas estéticas estabelecidas. Estes artistas questionavam até o conceito de “arte”, de “artista” e de “obra” e promoviam a provocação, a subversão e o tom de escândalo, que davam a nota a todas as suas expressões artísticas.
Os dadaístas reuniam-se no Cabaret Voltaire, em Zurique, um bar literário aberto por Hugo Ball, poeta alemão, e sua mulher, Emmy Jennings, que quiseram transformar um bar de má fama num local que acolhesse a intelligentsia exilada naquela cidade suíça. Aqui participavam em atividades de características estranhas, absolutamente non sense: performances com apontamentos de poesia absurda, música ruidosa, escrita automática, sempre muito aplaudidos por uma turba eufórica e exuberante. Este bar afirma-se pelas suas soirées culturais onde, em fevereiro de 1916,Tristan Tzara adota o nome DADA, utilizando o acaso e a ironia: abre um dicionário de forma aleatória onde deixa cair uma gota de água. Ao grupo inicial, para além de Tzara ,pertenciam também Jean Harp e Sophie Taeuber.
Em 1918,Tzara apresenta o Manifesto Dada; o movimento já se expandia em Berlim, com Raoul Haussman, John Heartfield e George Grosz; na cidade de Colónia com Max Ernst e em Paris, com John Arp e Man Ray. Nova Iorque já brilhava com Francis Picabia e Marcel Duchamp. Kurt Schwitters, em direto de Hannover, vai criar obras que me agradam sobremaneira também, influenciado profundamente pelo Dadaísmo, mas que vai criar uma “arte de um homem só”. Sobre ele me debruçarei, pois entendo que aos outros foi proporcionada já muita visibilidade.
Todos eles adotam técnicas inovadoras como o ready –made, que consiste em retirar objetos do seu contexto original e transformá-los em obra de arte e a combinação de outras, como a colagem, a assemblage, que reúne objetos fragmentados num quadro, e a fotomontagem, numa nova relação de amor entre objetos e conceitos. Os rayographs –fotografias feitas pelo contacto dos objetos com o papel sensível, também era uma técnica muito usada.
Agora, arte é tudo aquilo que o artista afirma como tal. Vive-se a espontaneidade artística, a anarquia… agora, a arte é sinónimo de antiarte.
Esta característica maior deve-se às circunstâncias históricas da sua aparição, pois emerge durante a Primeira Grande Guerra e o derrubar dos valores ocidentais vai ser o principal motor de rebelião Dada, onde a raiva contra uma sociedade que permitiu o absurdo da guerra é gritada com veemência. Tal como a guerra, os dadas rompem com a norma, com as regras, inclusive com a decência.
Kurt Schwitters(1887-1948), poeta, ensaísta, pintor, escultor e arquiteto, como um verdadeiro vanguardista, experimentou todas as técnicas, até chegar às colagens. Muitas vezes, objetos retirados do lixo ocupam com centralidade as suas obras, integradas num movimento a que ele vai chamar MERZ. Também escolhida ao acaso, esta expressão surge numa tela com a sílaba recortada de um anúncio do Commerzbank e assume tal importância que ele mesmo se apresenta como “Senhor Merz”. Podemos assumir a significância de “obra de arte total”, como ele a entendia.
 Schwitters utilizava bilhetes de autocarro, embrulhos de compras, cordéis de embalagens, para construir as suas assemblages e colagens. Assim consegue obras subtis e de um grande refinamento, produzidas no período entre as duas grandes guerras, num claro anúncio da sociedade de desperdício que já se vislumbrava. Incompreendido, visto pelos dadaístas como um burguês a tentar chocar outros burgueses, Schwitters assumiu os seus dois amores, o dadaísmo e o construtivismo russo, numa  vivência conturbada que termina de forma difícil, com um exílio forçado por Hitler, que o considera um artista degenerado ,mas que vai marcar de forma intensa a arte da segunda metade do século XX.
Porque muito esquecido, trago-o hoje aqui. Considerado pela História da Arte a ovelha desgarrada do dadaísmo, (de forma injusta, entendo eu), deixo-vos com algumas das obras que mais aprecio.

Construção Merz 46

Esta colagem de 1921 pode considerar-se inclusive precursora da Arte Povera desenvolvida em Itália. A distribuição dos objetos no quadro é harmoniosa e expande-se a partir do centro da obra.


Construção Merz 25

Nas suas obras, recortes de jornais e outros materiais impensáveis que atestam a sua paixão pela recolha de lixo ,que ele vai transformar em arte, são combinados de forma dinâmica. Cria igualmente três Merzbau (casas Merz), em Hannover, Noruega e Londres-que enche com objetos que acha aqui e ali, sendo por isso considerado o precursor da arte da Instalação.



Merz 163

Merzbild 29A



A colagem também funcionava na poesia. Este seu poema pode ser visto como uma paródia aos poemas de amor e criador de uma nova linguagem poética; publicado na revista Der Sturm, sem ser dadaísta, rompe com a lógica, tal como o dadaísmo. Estranha-se. Depois, entranha-se.


An Anna Blume
(Para Ana Flor)

Ó tu, bem-amada dos meus vinte e sete sentidos, amo-te!

Tu teu tu a ti eu a ti tu a mim – Nós?

Isso (diga-se de passagem) não é daqui.

Quem és tu, inumerável fémea? Tu és – és tu? –

Há quem diga que deves ser – deixa-os dizer, os que não sabem

como o campanário está de pé.

Trazes um chapéu nos teus pés e andas com as

mãos, com as mãos é que tu andas.

Olá roupas vermelhas e tuas, justas em pregas brancas. Vermelha

te amo, Ana Flor, vermelha a ti amo – tu teu tu a ti eu a ti tu a mim –

Nós?

Isto (diga-se de passagem) pertence ao fogo frio.

Vermelha flor, vermelha Ana Flor, que diz a gente?

(…)

Tu, simples rapariga com o vestido de todos os dias, tu querida verde

criatura, amo-te – tu teu tu a ti eu a ti tu a mim –

Nós?

Kurt Schwitters, An Anna Blume, 1919


E depois de um toque poético de Schwitters, deixem-se envolver pela música magistral de Satie, que acompanhou muitas das performances Dadaístas de inícios do séc. XX. Porque a música embeleza a vida, deixem-me tornar mais bonita a vossa quinta-feira. Sintam-se à vontade no Cabaret Voltaire.

 Rosa Maria Alves da Fonseca


quarta-feira, 22 de outubro de 2014

O DIA EM QUE NASCEU A PIDE



Quando a paz se instalava na Europa devastada pela mais violenta guerra que o mundo conhecera até meados do século XX, Oliveira Salazar criava a PIDE (Polícia Internacional de Defesa do Estado) que veio suceder à PVDE, criada em 1933.

Apesar de ter ido criada para prevenir e combater o crime, sendo também responsável pela instrução de processos crimes contra estrangeiros que tentavam entrar ou permanecer ilegalmente em Portugal, a PIDE ficou conhecida como uma polícia política que tudo fez para neutralização da oposição ao Estado Novo.

Durante mais de 24 anos em que existiu não teve pejo nenhum em torturar para obter informações sobre os mais ínfimos movimentos da oposição ao regime. Se fosse preciso, e algumas vezes foi, matava, como foi o caso do General Humberto Delgado, assassinado em Espanha por um agente da PIDE, depois do General Sem Medo ter desafiado o regime ao ter concorrido contra o candidato da união Nacional nas eleições presidenciais de 1958.


Na maioria das vezes, usava a censura, nos jornais, revistas, televisão e livros, o que impedia que as ideias contra o regime se difundissem.
A teia pidesca estava tão bem montada que incluía as relações pessoais mais íntimas dos investigados, os  quais muitas vezes eram denunciados por irmãos, familiares, amigos de infância.

Nesse sentido, a PIDE instalou um clima de medo e terror na sociedade portuguesa em que ninguém confiava em ninguém. Isso demorou anos a refazer e em muitos casos foi preciso que a substituição geracional completasse o processo de regeneração de confiança. 

Os portugueses mais antigos ainda recordarão como a sua juventude e dos seus progenitores foi marcada pelo medo de ser denunciado como oposicionista ao regime, como alguns amigos desapareceram sem deixarem rasto, como pessoas próximas foram torturadas da maneira mais cruel e ignóbil até confessar o mais insignificante detalhe.



Muitas pessoas ainda vivas ficaram boquiabertas quando, após a extinção da PIDE/DGS, consultaram os arquivos desta polícia política e verificaram dezenas de cartas suas, algumas íntimas, ali arquivadas.

Felizmente, os governantes portugueses tiveram o bom senso de não entrar num processo de ajuste de contas com aqueles que declaradamente ou de modo mais encoberto traíram a confiança dos seus.

Todos nós sabemos que qualquer país precisa de serviços secretos que defendam a integridade do Estado contra ataques externos, no entanto é de todo intolerável que esses serviços minem a confiança que os cidadãos precisam de ter uns nos outros.

A implementação da PIDE em Portugal, naquele nefasto dia de outubro de 1945, foi um momento muito escuro da nossa História. Recordá-lo é um sinal de alerta para que nunca mais se repita.

Gabriel Vilas Boas

terça-feira, 21 de outubro de 2014

O TEATRO MUNICIPAL




     Quando penso naquilo que é essencial para o desenvolvimento cultural duma pequena cidade portuguesa lembro-me com frequência dos equipamentos culturais básicos: uma biblioteca, um cinema, um teatro, um centro cultural, um centro cívico. Normalmente, o teatro é sempre o último a ser construído e em algumas terras, como por exemplo Amarante, aquele que é esquecido.
Eu sei, perfeitamente, que é o equipamento mais caro e aparentemente com menos rentabilidade. Basta observar quão poucos são os espectadores de teatro nas grandes cidades portuguesas e como maravilhosas salas de espetáculos espalhadas pelo país raramente se enchem por causa duma peça de teatro. Por outro lado, uma biblioteca, uma sala de cinema, um auditório têm um público mais fiel e são muito mais fáceis de construir e gerir, havendo facilidade de ocupação e programação.
No entanto, um teatro municipal é o elemento verdadeiramente estruturante na política cultural duma cidade pequena ou média em Portugal. Quando tecnicamente bem construído, um teatro é multidisciplinar. Serve as representações teatrais, o cinema, a música, as palestras, as conferências, as apresentações de livros.




Se nos centrarmos em exclusivo na arte que Molière, Shakespeare ou Gil Vicente imortalizaram, chegamos à conclusão que um teatro municipal permite que várias companhias teatrais possam apresentar os seus trabalhos, durante todo o ano e não apenas no verão, quando as condições atmosféricas permitem e até convidam  a representações ao ar livre.
Todos os anos, uma cidade como Amarante fica privada de teatro, porque as companhias não se deslocam a uma cidade que não lhes fornece os meios mais básicos de atuação. A cidade apenas dispõe dum pequeno auditório, no centro cultural de Amarante, onde existem algumas condições técnicas para a representação teatral, mas não dispõe, sequer, de duzentos lugares sentados, o que não viabiliza economicamente qualquer espetáculo dum companhia profissional ou semi-profissional de teatro. E sem elas, dificilmente teremos teatro de qualidade, precisamente aquele que conquista e fideliza o público.
Por outro lado, um teatro municipal deve existir em perfeita ligação com as escolas da cidade ou do concelho. Existindo esse espaço, as escolas tinham um ótimo pretexto para oferecer aos seus alunos uma atividade extracurricular tão rica como o teatro. Quem já representou ou encenou a mais pequena ou insignificante peça teatral numa escola, como foi o meu caso, sabe quanto esta atividade desenvolve os alunos em várias dimensões: sociológica, cultural, artística.





Um aluno aprende a estar em palco, ganha autoestima, melhora a dicção, aprofunda os seus conhecimentos literários, faz amigos, vive emoções profundas e irrepetíveis.
Um espaço cultural, como um teatro, cria vida cultural numa cidade. Claro que isso depende da capacidade de iniciativa dos agentes culturais dessa cidade, mas quando não existe onde fazer, o brilho desaparece dos olhos de muita gente e a vontade esmorece com mais facilidade.  
E se fizermos honestamente as contas, veremos que a cultura é dos investimentos mais produtivos e rentáveis que um município pode fazer.


Gabriel Vilas Boas  

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

AO SOM DE... ADRIANA CALCANHOTTO





Há pouco mais de duas semanas, Adriana Calcanhotto fez 49 anos! É quase impossível acreditar que o tempo também tenha passado para a bela brasileira, de voz suave, doce e cristalina, que há vinte e quatro anos se lançou no mundo da música.
A voz de Adriana parece morar eternamente no país das crianças, que ela homenageou com o álbum Adriana Partimpim (nome de infância da cantora) de que faz parte aquela fabulosa canção que quase todos sabemos de cor, “Fico Assim Sem Você”. Pequeno álbum de dez canções, o trabalho de 2004 guarda ainda outra preciosidade que nos lembra como todos já fomos crianças: “Saiba”


Saiba!
Todo mundo foi neném
Einstein, Freud e Platão, também
Hitler, Bush e Saddam Hussein
Quem tem grana e quem não tem...


 Apesar deste trabalho fofo e delicado, Adriana é, sobretudo, uma cantora e compositora que canta o amor e as suas diversas facetas.



Na viragem do século, Adriana lança dois álbuns, sendo que o segundo – Perfil reúne muitos dos seus grandes êxitos: “Devolva-me”, “Mentiras”, “Esquadros”, “Senhas”, “Maresia”, “Vambora”. Em qualquer um destes temas, Adriana Calcanhotto combinou uma ideia musical moderna, sedutora e melodiosa com letras de grande sensibilidade poética. Talvez por isso nenhum de nós estranhe as 500 mil cópias que o disco vendeu.
Se repararmos em canções como “Devolva-me” ou “Vambora” (de que gosto particularmente), observamos como Adriana exprime tão bem os intrincados labirintos duma relação amorosa, onde o desânimo e a descrença moram na porta do lado do mais profundo arrebatamento.

“Rasgue as minhas cartas
E não me procure mais
Assim será melhor, meu bem!
O retrato que eu te dei
Se ainda tens, não sei
Mas se tiver, devolva-me!”

Devolva-me

"Entre por essa porta agora
E diga que me adora
Você tem meia hora
Pra mudar a minha vida”
Vambora

Na primeira década deste século, Adriana voltou a fazer algo que marcou início da sua carreira: produzir músicas para novelas, além de começar a colher os frutos duma carreira em ascensão. Em 2011, regressa com novo trabalho, Micróbio de Samba, todo ele dedicado ao samba, algo que Calcanhotto nunca tinha feito em duas décadas de carreira.

Dois anos volvidos, lançou a tournée “Olhos de Onda”, durante a qual tive a oportunidade de a ver, ao vivo, na Casa da Música, no Porto. Dessa noite, guardo a imagem duma Adriana algo distante do público, mas muito profissional. Todas as músicas me pareceram duma grande beleza poética, com letras extensas, a exigir uma grande capacidade de memorização à cantora. Entre as várias composições ouvidas, a minha memória guarda “Maldito Rádio”, que Adriana compôs, a partir dum tema de Ricardo Tozzi.

“Maldito rádio
Agora que parecia que eu ia
Mudar de vez o curso dessa história
Agora que parecia que ia ser agora

Não é momento
De repisar canções que são só minhas
Maldito radio não me faça pensar nela
Volte pros anúncios
Para, para o hit da nova novela”


  Adriana Calcanhotto é fácil de descodificar: simplicidade, beleza, talento. Ouvi-la, deixar-nos-á melancólicos, amorosos ou saudosos, mas a sua voz é quase sempre irresistível.

Gabriel Vilas Boas.


domingo, 19 de outubro de 2014

UMA POBREZA PORTUGUESA




Se há ideia com que aprendi a conviver desde criança é a de que somos um país pobre. Rapidamente a escola explicou-me que sempre o fomos, com a rara e ilusória exceção de umas décadas do século XVI.
Como o tempo percebi a dimensão da pobreza do Portugal em que nasci. Há quarenta anos, Portugal tinha fome de comida, liberdade e educação. Éramos pobres e atrasados e não tínhamos a perfeita consciência do tanto que nos faltava. Talvez por isso não fossemos infelizes! Apesar disso, a geração dos meus pais tinha fome de viver.
Como o passar dos anos, eles foram mitigando essa pobreza profunda que um regime de vistas curtas lhes tinha deixado como herança. A liberdade política trouxe a aproximação económica ao modelo europeu de desenvolvimento. A comida apareceu no prato, as crianças apareceram na escola e, durante trinta anos, a palavra “pobreza” foi caindo em desuso. O dia da luta contra a pobreza era sinónimo de solidariedade com os “pobrezinhos do terceiro mundo, coitadinhos e desnutridos”.


Habituámo-nos a comer muito, ainda que mal, como incorporámos a ideia de que a adolescência e a juventude eram realidades para serem vividas nas escolas e nas universidades, ainda que nunca tenhamos rentabilizado metade do tempo que lá passámos.
A imitação cega e parola dos modelos económicos ultra liberais e consumistas hipotecou-nos o futuro aos bancos dos outros. Apesar do bem-estar e dos bens materiais, do crédito no banco e das férias no estrangeiro, além da casa pretensamente nossa, a pobreza estava brutalmente de volta. Bastou uma subida de 4% nos juros da nossa querida e colossal dívida externa para nos recordarem que estávamos de regresso à pobreza dos anos 50/60 do século passado.
De nada serviu tanto investimento na educação. Caímos como patinhos na ilusão dos almoços grátis. Gordos e endividados, somos incapazes de aplicar todo o conhecimento acumulado nas universidades. Talvez porque nunca aprendemos a refletir sobre esse mesmo conhecimento, talvez porque nunca quisemos absorver as lições da História, talvez porque…


Há quarenta anos, atribuímos a culpa da nossa pobreza e atraso à falta de educação básica. Hoje, a nossa pobreza não tem desculpa, é burrice pura. Não aproveitamos os recursos que temos. Do mar, às vias de comunicação, do conhecimento aos fundos externos, temos revelado uma inaptidão completa para agarrar as oportunidades que existem.
A isto acresce a falta duma característica coletiva que muito me entristece: solidariedade. Solidariedade não é dar a esmolazinha ou encher o saco no supermercado quando o banco alimentar solicita, solidariedade é executar uma estratégia comum de retirada em massa de dois milhões de portugueses da pobreza ou limiar da pobreza. É abdicar dum ganho pessoal e momentâneo para construir um país mais equilibrado e justo. Não se cria riqueza no meio da injustiça social e económica. Será que ninguém percebeu por que falhou economicamente o comunismo?


A nossa pobreza de hoje é mais triste porque andamos desmotivados, não vemos solução e estamos marrecos com o peso da dívida. A solução não é importar cegamente modelos, pois nunca resultam, mas adaptar as boas práticas dos outros, corrigir aquelas falhas que só fazemos em Portugal e mudar de mentalidade. Abrir a mente a novas formas de organização política, social e económica, como sugeria hoje José Gomes Ferreira na imprensa portuguesa.

Afinal, já aceitámos que nos torcessem tanto nos últimos dez anos, que não será assim tão difícil fazer uma reorientação de rumo por vontade própria.


Gabriel Vilas Boas