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domingo, 31 de agosto de 2014

REFORMAR A PENSÃO


A questão das pensões de Reforma é uma questão que baila no subconsciente da maioria dos portugueses, suscitando vários sentimentos: preocupação, medo, raiva, indignação…
O sistema português de segurança social não é perfeito, tem entorses de conceção, mas foi desenhado com razoável preocupação social pela Democracia de Abril. É uma conquista do regime democrático tão relevante como o Serviço Nacional de Saúde, o sistema de ensino público ou a própria liberdade. Agora que vemos fugir grandes fatias desses bens tantas vezes desdenhados é que começamos a perceber que tínhamos uma segurança social e um sistema de pensões razoáveis. Tínhamos… já não temos. Atualmente, as pensões de reforma, em Portugal, caminham inexoravelmente para a repetição das injustiças de toda uma vida de trabalho.

É verdade que o sistema apenas tinha capacidade para cumprir 70% das promessas que fazia e que o aumento da esperança média de vida agravou a situação. Talvez por isso os portugueses tenham aceitado com poucos resmungos a subida da idade da reforma para os 65 anos, o que para muitos representa mais uma década de trabalho do que a expectativa inicial.  
No entanto, o sentimento de aceitação dolorosa muda para indignação, raiva e repulsa, quando os governantes reduzem as pensões médias a meros suplementos de sobrevivência quase semelhantes ao rendimento mínimo. Fazem isto com pessoas que trabalharam durante 40 anos (!!!),que fizeram os descontos que as leis foram ordenando e que agora estão frágeis, muitas vezes doentes, isolados nas suas casas cheias de maleitas, sem força nem vontade de viver.

É sobre esta gente que trabalhou durante quarenta anos, para terminar os seus dias a auferir 800/900 euros e cuja reforma não ultrapassa os 500/600 euros, que o ministro Marques Guedes acha que é preciso rever em baixa as pensões “porque não podemos enfiar a cabeça na areia”, pois a “sustentabilidade das pensões está em causa”.
Talvez Marques Guedes tenha razão. Com tantos desempregados, com tantos velhos pobres e doentes, é impossível continuar a garantir reformas superiores a 5000 euros a gente que trabalhou 15/20 anos e usufruirá dessa reforma durante 30 anos.
Já perceberam o desequilíbrio? Quarenta anos a trabalhar e um choradinho obsceno para pagar 500/600 euros durante 15/20 anos; e vinte anos a trabalhar e toda a abertura para pagar uma reforma de 5000 euros durante 30 anos. Que indignidade obscena!

A solução política dos nossos governantes (que nos conduziram em menos duma década a uma penúria humilhante no contexto europeu) é aprofundar esta linha.
Quando Marques Guedes fala em consenso político, alude a mais um “arranjinho” com o PS, na senda do que já aconteceu com o BPN, BCP e BES.
O nosso querido ministro acerta quando diz que “não podemos enfiar a cabeça na areia” e fingir que o problema não existe, só que o “nós” é mesmo o “nós – classe política” e não o “nós – portugueses”.
Entretanto, vão-nos servindo justificações falsas, acenando com os papões comunistas e a força dos mercados, com a mesma desfaçatez com que escondem o património em qualquer off-shore em contramão.
Aproveitam o nosso jeitinho inigualável para a inércia, o nosso medo congénito de cortes radicais com aquilo que nos apodrece, amesquinha e humilha.
Qualquer pessoa decente percebe que não se pode pagar reformas elevadíssimas a partir dos 50 anos; qualquer ser decente conclui que é viável pagar pensões mínimas iguais ou um pouco superiores ao salário mínimo nacional aos mais necessitados.
       Refuto a ideia de que nesse caso o orçamento de estado seria chamado a contribuir e isso seria inaceitável. O orçamento sempre contribuiu e sempre contribuirá. Mas neste caso é para garantir a dignidade na velhice e não para assegurar que uma trupe de ladrões nos goza três vezes durante dez anos, levando bancos privados à bancarrota.


Gabriel Vilas Boas 

sábado, 30 de agosto de 2014

SALAS DE CINEMA



Hoje reabre em Lisboa o histórico cinema “Ideal”, com o filme “E agora? Lembra-me”. A recuperação do edifício custou 500 mil euros e tentou contrariar a tendência geral das últimas duas décadas nas cidades de Lisboa e Porto, onde fecharam dezenas de salas de cinema emblemáticas, como o Éden, o Condes, o Politeama, o Monumental, o Odeon (Lisboa), o Foco, o Águia de Ouro ou o Pedro Cem (Porto), entre muitos outros. Ainda há poucos meses, Paulo Branco, da Medeia Filmes, que não conseguiu acompanhar o brutal aumento da renda, deixou fechar o cinema King, em Lisboa, que se dedicava à projeção de filmes menos comerciais. Há dois meses o edifício foi vendido a um anónimo por 1,2 milhões de euros e será, por certo, usado para fins não culturais. O mesmo acontecerá com o cinema Londres, que acaba de fechar em definitivo, não obstante todas as tentativas do Secretário de Estado da Cultura para evitar mais uma perda dum espaço cultural na cidade.

Por que desapareceram salas de cinema tão emblemáticas em Lisboa e Porto, cuja beleza arquitetónica acompanhava os momentos culturais que, semana após semana, centenas de espectadores lá viviam?
Acho que mudou o paradigma cultural e social do país a que acresce o advento dos canais de televisão privados, da televisão por cabo ou satélite. A isto deve acrescentar-se a erupção dos centros comerciais que surgiram como borbulhas na câmara dum país em desenvolvimento e mudaram a geografia das grandes e médias cidades portuguesas.
          Mas voltemos ao cinema que hoje se vê em sítios bem diferentes daqueles de há trinta/quarenta anos.
                O chique da classe média e média-baixa de hoje não é tomar chá numa pastelaria do Foco, passar as tardes entre jardins frondosos a conversar pacatamente sobre livros, filmes, desempenhos cinematográficos, fait-divers de atrizes a atores.

                A vida mudou para os centros comerciais, onde, entre uma vista de olhos pelas novidades da Berska, Zara ou Pepe Jeans, se entretêm os sentidos e o intelecto numa sala de cinema que fica mesmo no centro da praça da restauração, entre a Pizzaria Hut e o MacDonald’s e no meio das pipocas.
                Quando a sessão acabar, é só descer as escadas - sempre protegido pelo ar condicionado do centro comercial - até à garagem, pegar no carro e rumar a casa, onde a cama nos espera para uma boa noite de sono. Provavelmente não ficam grandes memórias do evento nem do filme, que apenas teve o mérito de nos entreter duma maneira diferente.
                O cinema dos nossos pais era diferente. Ir ao cinema era um acontecimento. Cada um vestia-se a preceito e para impressionar a companhia. Ir ao cinema era o ponto alto da semana e não apenas mais uma distração. Além da beleza arquitetónica, as salas não eram apenas salas de exibição de filmes, mas salas de espectáculos e antes do filme era possível ver e ouvir um pianista a criar o ambiente de festa.

                Nesse tempo, os cinemas não eram todos iguais e desenxabidos. As estreias só aconteciam num número limitado de salas e havia salas que se especializavam num determinado tipo de cinema, o que criava um público específico em cada cinema e transmitia identidade ao espaço.
                As salas eram bem maiores, com lugares diferenciados na localização e no conforto. As salas mais famosas das grandes cidades tinham um conforto e luxo tão grandes que algumas pareciam quase quartos de hotel.
                Todavia, tudo isso pertence ao passado! Esse tempo não voltará! Somos diferentes, queremos coisas diferentes. Será possível recriar o glamour desse cinema da década de 70 e 80? Penso que tentar fazer igual ou parecido será uma perda de tempo. Como já referi, o nosso paradigma mudou. No entanto, é possível recriar o prazer de ver cinema, especialmente nas cidades médias onde a falta de equipamentos culturais cria uma oportunidade para o surgimento de cinemas e/ ou teatros que matem a fome de eventos culturais permanentes a uma população que tem sempre que se deslocar para os grandes centros para ver as últimas novidades cinéfilas.

  Há que ousar, romper com a ditadura do modelo do cento comercial e desafiar a população jovem a construir as memórias onde no futuro habitará a saudade.
Gabriel Vilas Boas 

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

ACESSIBILIDADE E INCLUSIVIDADE NA ARQUITETURA


Acessível e inclusivo são dois conceitos que aparecem frequentemente como sinónimos. Parece-nos importante referir que a noção de inclusividade contém em si a de acessibilidade, sendo a primeira, no entanto, mais abrangente, pois apresenta soluções adequadas à diversidade humana.
O dicionário diz-nos que acessibilidade é a “qualidade de acessível” (COSTA, 1994, p. 33). Por sua vez, acessível é o “que se pode atingir, alcançar ou obter facilmente; compreensível; aberto; comunicativo; tratável” (COSTA, 1994, p. 33). Logo, arquitetura acessível será o espaço edificado, que possa ser atingido, percorrido e usado por indivíduos portadores de deficiência."
 A acessibilidade permite a autonomia e participação das pessoas com deficiência, reduzindo ou eliminando as discrepâncias entre as capacidades e necessidades dos indivíduos e a componente física e organizacional do seu ambiente.


O Ministério do Trabalho e Solidariedade Social, através do Instituto Nacional para a Reabilitação, refere  que “as acessibilidades constituem uma condição essencial para o pleno exercício dos direitos das pessoas com deficiência e de todas as outras pessoas que experimentam uma situação de limitação funcional ao longo das suas vidas”, sendo que “as acessibilidades abrangem um conjunto muito diverso de realidades que vão desde as ajudas técnicas ao acesso aos edifícios. Atendendo a que sem acessibilidade, as pessoas com deficiência não podem ser autónomas, nem utilizar os bens e serviços existentes na sociedade para todos, tem sido adoptada legislação e planos de acção que obrigam as entidades públicas e privadas a garantir a acessibilidade nos espaços públicos, nos equipamentos colectivos e edifícios públicos, nos transportes, na informação e comunicação, incluindo as novas tecnologias de informação.” (INR).
A acessibilidade é pois “(…) uma questão chave para atingir os quatro objectivos da estratégia do Conselho Europeu de Lisboa: aumentar a competitividade, alcançar o pleno emprego, reforçar a coesão social e promover o desenvolvimento sustentado.” (INR, Plano Nacional de Promoção da Acessibilidade).
Atualmente é comum ver este conceito aplicado em arquitetura, urbanismo, design, tecnologias da informação, transportes entre outros.


Remetendo-nos novamente à definição do dicionário, inclusivo é “ o que inclui ou pode incluir ou abranger” (COSTA, 1994, p. 1007). Portanto as soluções mais inclusivas são benéficas para todos os cidadãos e não apenas para os que apresentam problemas de relação com o meio. No entanto são estes que mais vantagens retiram da sua aplicação pois é-lhes proporcionada uma melhor qualidade de vida, integração social e igualdade de oportunidades.
Podemos dizer que arquitetura inclusiva se define pela elaboração de projetos arquitetónicos que possibilitem o acesso e o uso em segurança de todas as pessoas, a espaços públicos ou privados, qualquer que seja a sua condição física ou nível etário.
Sendo a arquitetura inclusiva um direito de cidadania, este conceito surgiu no vocabulário português recentemente. Uma habitação inclusiva será então, a adequação à diversidade humana, banindo as barreiras arquitetónicas e promovendo o bem-estar e qualidade de vida.

Do ponto de vista da arquitetura acessível, o projeto de uma casa é pensado exclusivamente em função do indivíduo portador de determinada deficiência. Já um projeto inclusivo pressupõe como diz Renata Mello em Arquitectura Inclusiva “(…) uma visão relativamente nova de casa para a vida toda. Esse conceito garante que a moradia suporte mudanças e adaptações ao longo dos anos, de modo que atenda as 
diversas necessidades que cada fase da vida solicita, sem prejuízo ou comprometimento do espaço.”



 Desenho Universal
Recorrendo à definição de Desenho Universal publicada pelo Ministério do Trabalho e Solidariedade Social, através do Instituto Nacional para a Reabilitação, “Desenho para Todos visa a concepção de objectos, equipamentos e estruturas do meio físico destinados a ser utilizados pela generalidade das pessoas, sem recurso a projectos adaptados ou especializados, e o seu objectivo é o de simplificar a vida de todos, qualquer que seja a idade, estatura ou capacidade, tornando os produtos, estruturas, a comunicação/informação e o meio edificado utilizáveis pelo maior número de pessoas possível, a baixo custo ou sem custos extras, para que todas as pessoas e não só as que têm necessidades especiais, mesmo que temporárias, possam integrar-se totalmente numa sociedade inclusiva”. (INR).
Não podemos confundir o desenho universal com o desenvolvimento de projetos exclusivos para indivíduos portadores de deficiência. O desenho universal apresenta maior abrangência e engloba vários itens como inclusividade, acessibilidade, sustentabilidade, igualdade, competitividade, entre outros.


É consensual que para realizar um projeto inclusivo o seu desenho deve basear-se em sete princípios básicos, sendo eles: “Utilização equitativa: pode ser utilizado por qualquer grupo de utilizadores; Flexibilidade de utilização: Engloba uma gama extensa de preferências e capacidades individuais; Utilização simples e intuitiva: fácil de compreender, independentemente da experiência do utilizador, dos seus conhecimentos, aptidões linguísticas ou nível de concentração; Informação perceptível: Fornece eficazmente ao utilizador a informação necessária, qualquer que sejam as condições ambientais/físicas existentes ou as capacidades sensoriais do utilizador; Tolerância ao erro: minimiza riscos e consequências negativas decorrentes de acções acidentais ou involuntárias; Esforço físico mínimo: pode ser utilizado de forma eficaz e confortável com um mínimo de fadiga; Dimensão e espaço de abordagem e de utilização: Espaço e dimensão adequada para a abordagem, manuseamento e utilização, independentemente da estatura, mobilidade ou postura do utilizador.” (INR).
O conceito de desenho universal é cada vez mais aplicado à arquitetura, resultando na promoção da inclusão social, na contribuição para a adaptabilidade e sustentabilidade.

Teresa Beyer

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

MONA LISA





Mona Lisa, o sorriso misterioso
    
     Mona Lisa, também conhecida como a Gioconda, é um quadro do brilhante artista italiano Leonardo Da Vinci, pintado entre 1503 e 1506.
    Pensa-se que a modelo inspiradora da pintura, vista por quase 6 milhões de pessoas por ano, é Lisa Giocondo, esposa de um abastado comerciante.
    Pintado em Florença, Itália, o quadro está hoje exposto no Museu do Louvre, em Paris, França. Foi trazido de Itália, país natal do pintor, em 1506, quando Leonardo foi convidado para fazer parte da corte do rei francês Francisco I que, posteriormente, comprou a pintura. O quadro começou por ser exibido em Fontainebleau e, mais tarde, no Palácio de Versalhes.


     Só após a revolução francesa é que o quadro foi exposto no Museu do Louvre, pois até lá o quadro mantinha-se nos aposentos de Napoleão Bonaparte. Durante as guerras com a Prússia, o imperador foi obrigado a desfazer-se dele e a escondê-lo num lugar seguro, assim como outras peças de arte do museu.
      O quadro já foi vítima de vários atentados: o primeiro, em 1911, foi o seu roubo do museu, levado a cabo pelo operário Vincenzo Peruggia. Foram suspeitos do roubo o pintor Pablo Picasso e o poeta francês Guillaume Apollinaire, chegando mesmo a serem presos e interrogados. Meses mais tarde, foram libertados e encontrou-se a pintura em Itália, nas mãos do verdadeiro ladrão.


      Mais tarde, em 1956, a obra-prima de Leonardo Da Vinci sofreu dois atentados no mesmo ano: o primeiro, quando um psicopata lançou um ácido sobre a pintura, cujo processo de restauração foi muito demorado e o segundo, quando um boliviano atirou uma pedra contra a pintura e estragou parte de uma das sobrancelhas de figura retratada.
Felizmente, até aos nossos dias, o rol de incidentes fica encerrado com o atentado de uma russa que, em 2009, atirou uma chávena ao quadro, que, felizmente, partiu-se no vidro de proteção antes de chegar ao quadro.


A maior atração do museu do Louvre é famosa pelo seu sorriso misterioso, indiciador duma enchente de emoções. É de notar que a “Mona Lisa” foi sujeita a um programa de deteção de emoções que determinou que ela está 83% feliz.
        O quadro é um grande exemplo da técnica do sfumato (a técnica que lhe dá o aspeto esbatido e esfumado) e do brilhantismo do artista, um dos maiores pintores da sua geração e que nos deixou um grande legado.


Sofia Correia Vilas Boas

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

MÁQUINAS DE TORTURA


Não é uma exposição qualquer, é uma exposição sobre tortura. Nela não vamos apreciar o belo, mas o terror e o horror. Mesmo sabendo aquilo que vamos ver não deixa de impressionar. Enquanto percorremos aquelas sombrias salas da Alfândega, no Porto, ainda que não o queiramos, os nossos sentidos, os nossos sentimentos, as nossas emoções são expostas ao que de pior o ser humano pôde fazer a outro ser igual a si, “só” porque não comungava das mesmas ideias, da mesma religião ou tão somente… porque sim! São mais de cinquenta máquinas de tortura! Na verdade são máquinas de morte com requintes de malvadez e crueldade que ultrapassam o inimaginável.


A Guilhotina: ainda que a adição cultural associe esta máquina de decapitação à Revolução Francesa e à pena de morte em França, é na realidade muito mais antiga. Algumas versões primitivas foram usadas no século XIV para executar nobres na Escócia. 
Deve no entanto seu nome ao médico francês Joseph Ignace Guillotin, que propôs uma lei para que as execuções de presos comuns e plebeus  fossem feitas por uma "máquina que decapita de forma indolor" - uma morte fácil, por assim dizer. No entanto, mais tarde, a ciência descobriu que a cabeça cortada, por guilhotina ou machado, sabe que é uma cabeça decapitada enquanto rebola pelo chão, pois a consciência sobrevive o tempo suficiente para tal perceção ter lugar.



Cada máquina é acompanhada da respetiva descrição de funcionamento e do relato histórico do seu uso. Não há uma que seja “melhorzinha”, todas são tão más e tão inqualificáveis que parecem vir do mundo dos horrores. No entanto, ninguém fica com dúvidas de que existiram e que serviram para matar muita gente. Há pouco dias, houve uma notícia que mostrou ao mundo a execução dum cidadão americano pelo denominado “Estado islâmico”. A descrição da tortura causada pela maioria das máquinas desta exposição sobre a Tortura causou-me uma impressão bem superior.

Cadeira de Interrogatórios: a vítima está sempre nua e sofre atrozmente desde o primeiro instante que começa o interrogatório, o que pode ser intensificado com sacudidelas e golpes nos braços e nas pernas. O assento era muito vezes de ferro de forma que se podia aquecer com o braseiro ou uma tocha. 

A Exposição internacional de máquinas de tortura relata sobretudo o período da Inquisição e reúne mais de 50 peças originais, restaurações e réplicas de instrumentos de tortura que foram usados do século XIII ao século XVII, durante a época da Inquisição. A mostra passou por mais de dez países e foi vista por mais de um milhão de pessoas.
A Exposição “Máquinas de Tortura” tem como objetivo passar ao público, como memória histórica, a crueldade institucionalizada e gerar consciência universal contra a tortura e a favor da liberdade de pensamento.
A Inquisição foi uma instituição eclesiástica criada na Idade Média pela Igreja Católica. Era um sistema de controle social por meio dum policiamento organizado, especialmente criado para pesquisar e punir os indivíduos considerados ameaças às doutrinas da Igreja, mediante o tribunal do Santo Ofício. Também impedia a difusão de novas ideias no âmbito científico e cultural e era usado como instrumento de aniquilação dos adversários políticos.
Cavalo de Madeira: A vítima é literalmente esticada e ao longo do interrogatório, assiste-se ao  estiramento e desmembramento da vítima. Os músculos vão sendo destruídos e os diversos membros vão-se separando da coluna vertebral: braços, pernas, cotovelos, joelhos...

Em países como Portugal, França, Espanha, Itália a repressão inquisitorial foi muito dura em comparação com outros países.
Os suspeitos eram perseguidos, torturados cruelmente e condenados a diversas penas, desde a prisão temporária à perpétua e, em casos extremos, à decapitação e morte, ou à morte no fogo, em praças públicas.
Esta mostra, que passou por países como Rússia, Alemanha, Espanha, Polónia, Argentina e agora Portugal, também aborda grandes personagens da história como Joana D’Arc, perseguida e morta em 1431; Nicolau Copérnico, censurado ao apresentar a teoria heliocêntrica e Galileo Galilei, condenado à prisão e obrigado a retratar-se por sustentar a mesma teoria que Copérnico.

 
Touro de Fálaris: a vítima é fechada na estátua de metal de um touro. Uma fogueira é acesa sob o touro até que as suas paredes brilham com o calor incandescente. Os gritos e gemidos das vítimas emitidos das narinas do touro, faz parecer que este está a berrar.

Máquinas como a “A virgem de Nuremberg” ou a “donzela de ferro”, “o banco de estiramento”, “o triturador de cabeças” ou a “cadeira inquisitorial” são alguns dos objetos que foram criados para torturar, humilhar e conseguir confissões dos considerados hereges pela Santa Inquisição e que estão expostos até 28 de Setembro no Edifício da Alfândega do Porto.
Gabriel Vilas Boas.  

terça-feira, 26 de agosto de 2014

MILLÔR FERNANDES


“O homem é o único animal que ri. E é a rir que ele mostra o animal que é!”





Millôr Fernandes é uma figura incontornável da literatura, do jornalismo e, sobretudo, do humor brasileiro do século XX.
Millôr tinha um especial talento para a tirada certeira, muito bem-humorada e satírica. Pelas redes sociais encontramos dezenas de frases do escritor brasileiro que analisam com ironia e uma boa gargalhada o ser humano em geral e o brasileiro em particular.
Millôr Fernandes era um génio e como todos os génios não cabe num espartilho por muito dourada que seja a gaiola. Escritor, desenhador, tradutor, jornalista, dramaturgo, Millôr deixou a sua marca na sociedade brasileira, pela maneira incisiva com a fotografou em pequenas legendas que ficaram célebres.

Hoje, apenas recordo a sua faceta de dramaturgo. O teatro brasileiro fica-lhe a dever duplamente: enquanto tradutor de grandes textos dramáticos e enquanto criador. Millôr costumava dizer com graça que para “traduzir é preciso ter todo o rigor e nenhum respeito pelo original”. Foi com esse espírito que os brasileiros conheceram o “Hamlet” de Shakespeare, “O jardim das cerejas” de Tchekov, “Assim é se lhe parece” de Pirandello ou a “Antígona” de Sófocles entre mais de setenta peças de autores estrangeiros.
Ao mesmo tempo que lutava contra a ditadura militar nas colunas dos jornais ou criticava instituições estabelecidas e ideologias perenes, Millôr Fernandes criava as suas próprias peças de teatro. Entre 1950 e 1984, escreveu mais de vinte textos dramáticos, todos eles eivados de humor.


No entanto, as comédias de Millôr não buscavam o riso pelo riso. A ironia e a sátira são permanentes na sua obra e estão ao serviço da análise social, cultural e histórica. Ainda recentemente vi, em Amarante, um grupo de teatro amador de Valongo – A Retorta – levar à cena “A História é uma história”, escrita por Millôr Fernandes em 1977. Nesta peça, a História da humanidade é passada em revista desde os primórdios até à atualidade, dum modo muito sintético e muito bem -humorado.
Todavia, o melhor do dramaturgo brasileiro está em peças como “U elefante no caos” (1960), “Flávia, cabeça, tronco e membros” (1963), “É…” (1976) – unanimemente considerada a mais madura peça de Millôr, não só pela crítica como pelo público – e “Os órfãos de Jânio” (1980).
No teatro como na vida cívica, Millôr é fiel aos seus princípios: criticar é uma arte que se deve fazer com humor, ou não fosse ele um brasileiro, povo para quem até o assunto mais circunspecto deve ser levado a brincar. No entanto, essa é uma visão simplista e muito ligeira para caracterizar uma mente brilhante como é Millôr. Ele possuía um agudo sentido crítico, uma cultura multidisciplinar e uma cidadania incorruptível de que não abdicou mesmo quando o Brasil suspendeu a democracia.


A melhor homenagem que podemos fazer a Millôr Fernandes é procurar uma das suas peças e lê-la com atenção. No fim, o nosso espírito pedirá outra fatia “Millôr”, pois Millôr é melhor que sobremesa porque apetece sempre repetir e não faz mal ao colesterol.

Gabriel Vilas Boas

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

QUEEN


Os QUEEN foram uma banda que marcou a minha geração. Ouvimo-los adolescentes e jovens e continuamos a evocá-los, mais de vinte anos depois do trágico desaparecimento de Freddie Mercury. Em certa medida, eles são a banda sonora da vida de muita gente da minha geração.
As suas músicas são poderosas, sensíveis, apaixonantes. Eles evocam o desejo de ação, o drama, o amor, a amizade, a paixão pela liberdade. Grande parte de nós recorda com um largo sorriso de satisfação músicas como “Friends will be friends”, “Love of my live”, “Under Pressure”, “I want to break free” ou “A kind of magic”.


A música produzida pelo grupo tinha um grande poder de sedução porque despertava em cada um de nós um imenso prazer de viver, de fazer, de ser feliz. Eram uma banda de rock que entoava hinos de amor, liberdade e amizade com uma força e convicção que não deixava ninguém indiferente.
Os Queen eram uma banda de grandes concertos e multidões. Nesses momentos transcendiam-se e as suas músicas ganhavam uma dimensão universal, tocando vários estratos sociais e culturais de forma marcante. Ficaram para sempre na memória dos fãs o concerto no Rock in Rio... de Janeiro, perante 250 mil pessoas e, sobretudo, o concerto realizado em 13 de julho de 1985, no Live Aid, em prol das vítimas da fome na África, por muitos críticos considerado o maior e melhor concerto rock de todos os tempos.




     Ainda hoje as suas músicas são usadas em grandes eventos e cantadas por pessoas que nasceram após a morte de Freddie Mercury. Ouço com frequência nos estádios de futebol o “We will rock you” . Com este tema, adeptos e equipa procuram uma fusão energética que as leve à vitória, enquanto o inesquecível “We are the Champions”, música que Mercury compôs para o “seu” Liverpool, é entoada pelos adeptos de todos os clubes que se sagram campeões, ano após ano. 


     A banda de Mercury, Brian May, John Deacon e Roger Taylor teve um começo titubeante no início da década de setenta, mas em 1975, a canção "Bohemian Rhapsody" lança o grupo para a fama. Insuflados pelo êxito, os Queen editam “We will rock you” e “We are the champions” ainda na década de setenta, afirmando-se como uma das grandes bandas de então. Os anos oitenta são pródigos em músicas, músicos e bandas fabulosas e os Queen conquistam o estrelato precisamente nessa década. “Radio Gaga” e “A Kind of magic” tocam os corações de milhões de pessoas em toda em toda a Europa e na América, que compram em massa os seus álbuns. O grupo atingiu impressionantes trezentos milhões de discos/CD vendidos, batendo todos os recordes. 



     O final da década de oitenta trazia um grupo mais melodioso e sensível. “Somebody to love”, “Who wants to live forever” e “I was born to love you” confirmam o grupo como uma banda mítica e inesquecível.


     Ainda que poucos o soubessem o fim estava próximo, Mercury, infetado com o vírus da sida, aguentou até aos 45 anos, mas a doença acabou por vencê-lo no final de 1991. Sem ele a banda perdia a alma. Ainda que o líder tenha deixado um desejo diferente num premonitório “The show must go on”, os Queen acabaram, de facto, quando Mercury desapareceu. O resto é uma saudade imensa duma banda que marcou uma geração e cuja música nos deixou a todos um desejo enorme de viver e ser felizes.
Gabriel Vilas Boas

domingo, 24 de agosto de 2014

CONVENTO DE CRISTO, TOMAR



   Há poucos dias estive em Tomar. Foi um regresso após uma década sem visitar a cidade de Lopes da Graça, que sempre me atraiu por ser a cidade dos Templários. Revisitar Tomar sem ver o Convento de Cristo é como ir a Roma sem ver o Papa, ou seja, inconcebível.
   O Convento de Cristo continua a ser fascinante. Entrar nele, ainda que sem guia (falha enorme que continua por colmatar) é mergulhar no misterioso mundo medieval, onde religião, poder, grandiosidade e arte se confundem, aguçando a nossa curiosidade e satisfazendo os nossos sentidos.


   O Convento de Cristo levanta-se como um cruzado do interior do castelo de Tomar, fundado por Gualdim Pais, grão-mestre da Ordem do Templo, que se situa na impressionante Mata dos Sete Mouros.
   No interior do Convento destaca-se a charola, cuja planta centralizada tem causado tanto fascínio. Serviria o culto dos cavaleiros, tendo também uma função funerária. A sua centralidade remete para o templo divino com vários referentes bíblicos e históricos.


    A charola data do século XII e é um dos edifícios mais importantes da Ordem dos Cavaleiros do Templo de Salomão em todo o Mundo. Esta igreja circular foi concebida segundo o plano da Cúpula do Rochedo (Qubbat-as-Sakhrah, século VII), a qual foi edificada por arquitetos sufis da tradição esotérica muçulmana no recinto atribuído ao Templo de Salomão. Esta imitatio da Cúpula do Rochedo sugere a faceta transreligiosa e universalista dos Cavaleiros de Salomão, já que a “pedra sagrada” da Cúpula do Rochedo está ligada à história mítica das três religiões do Livro. A sua arquitetura de base octogonal transmite-nos claramente a sensação do áxis mundi, do omphalos, do lugar de comunicação entre o Céu (invisível) e a Terra (visível), mas também recorda o mito do Graal já que, segundo Eschenbach (século XIII), o “Templo do Graal simulava a forma radiante do octógono” e era defendido por doze templários.


   No início do século XVI é construído o coro manuelino que transforma a charola na capela-mor da nova igreja. Este coro é planificado segundo a base geométrica do duplo quadrado, seguindo o modelo do Templo de Salomão descrito na Bíblia. No magnífico pórtico sul, dedicado à Virgem, podemos observar no fecho da arquivolta um Cupido. Aquele que entra no espaço sagrado do novo “Templo de Salomão” é “ferido” por uma seta do deus Cupido e renasce no interior da casa do espírito. Este renascimento espiritual está simbolizado na fieira de ovos que une as duas colunas torsas (simbolicamente as duas colunas do Templo de Salomão, Jakin e Boaz) que se encontram no lado interior da porta sul.


   A este corpo românico (charola) foram sendo adicionadas construções, as primeiras por iniciativa do infante D. Henrique, mestre da Ordem de Cristo, sucessora dos Templários. Destas obras góticas, pouco mais resta para além dos claustros da lavagem e do cemitério, cuja inspiração é o Mosteiro da Batalha. Seguiu-se a grandiosa campanha de D. Manuel, a partir de 1510, centrada em torno da charola e destinada a adaptá-la a capela-mor de um novo templo. Foi erguida uma monumental igreja a ocidente, cujo arco triunfal rompe as paredes da charola (agora simbolicamente situada no Oriente) e na junção entre os dois edifícios rasgou-se o novo portal. Na fachada poente, a iluminar a sacristia sob a nave da Igreja abriu-se a famosa janela da Sala do Capítulo, cenográfica e possante, materialização do discurso simbólico do manuelino.


   Esta dramática intervenção é seguida de perto pelas grandes obras do reinado de D. João III. Preparou-se então um imenso mosteiro, desdobrado em seis claustros e dependências anexas, autêntico repositório de estilos artísticos, desde as elegantes e eruditas referências italianas, notáveis na obra-prima do renascimento que é o claustro de D. João III, passando pelas intervenções maneiristas e barrocas que se foram sucedendo até ao século XVIII.    
   
Gabriel Vilas Boas


sábado, 23 de agosto de 2014

RODOLFO VALENTINO


No dia 23 de agosto de 1926, já lá vão 88 anos, o mundo do cinema entrava em histeria: morria o galã do cinema mudo Rodolfo Valentino.
Valentino carregava a aura e aparência dum homem muito belo e charmoso que protagonizou no cinema da década de 20 papéis de vilão ou ladrão. Após ter começado com um papel secundário, Rodolfo foi escolhido para os quatro Cavaleiros do Apocalipse, no qual o jovem italiano, nascido em 1895, protagonizou o papel de Júlio, um amante latino. O filme foi um grande sucesso e guindou Rodolfo ao estrelato. O seu nome ficou a partir de então associado ao do grande sedutor, o verdadeiro amante latino que conquistava as mulheres só com o olhar.
No entanto o ponto alto da carreira cinematográfica de Valentino aconteceu em 1921, quando protagonizou o filme “Sheik”. O filme tornou-se um fenómeno cultural e um ícone da arte de sedução do amante latino.

Valentino era um homem muito dedicado à arte cinematográfica e lutou muito para ter o controlo artístico e criativo dos seus filmes. Era também conhecido por valorizar e apoiar todos aqueles que demonstrassem a mesma paixão que ele tinha pelo cinema.
A vida de galã do cinema era um espelho do que acontecia na sua vida pessoal. Valentino meteu-se em várias confusões com amantes e protagonizou vários escândalos de tal maneira que chegou a ser acusado de bigamia. Desentendeu-se também com as produtoras cinematográficas, com quem chegou a ter um processo em tribunal que o impediu de fazer filmes durante algum tempo. Nesses tempos escreveu poesia, deu entrevistas e promoveu um produto de beleza através duma tournée de dança que fez grande sucesso na Europa.
Valentino regressaria ao cinema mas nunca fez cinema sonoro que começou a dar os primeiros passos com alguma firmeza um ano após a sua morte. Ninguém sabe se a voz de Valentino lhe faria perder a aura de grande conquistador e galã.

O que é certo é que no dia 23 de agosto de 1926 a morte do ídolo do cinema mudo Rodolfo Valentino levou milhares de fãs a um estado de histeria, fazendo com que dezenas se aglomerassem diante do seu velório. Após sua morte, foram várias as tentativas de suicídio registadas.
A atriz Pola Negri, o então mais recente caso amoroso de Valentino, dizia-se inconsolável. Dezenas de milhares de pessoas, na sua grande maioria mulheres, homenagearam o ator diante do caixão aberto a visitas em Nova York. Mais de cem mil acorreram às ruas por onde passava o carro fúnebre que levaria o corpo a Hollywood.
Rodolfo Valentino morreu como um ídolo e um símbolo sensual e sexual, sem nunca ter pronunciado uma única palavra.
 Gabriel Vilas Boas

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

PIRÂMIDE DO LOUVRE


O projeto de construção da Pirâmide do Louvre inseria-se no chamado programa dos “Grandes Trabalhos”, levado a cabo pelo antigo presidente francês, François Mitterand, na década de 80 – um projeto arquitetónico e urbano que visava transformar e modernizar Paris. O objetivo era assinalar de forma grandiosa o bicentenário da revolução francesa e devolver à França e a Paris uma grandiosidade porventura perdida.
Como acontece com todos os projetos modernistas que nascem em cidades centenárias, também o projeto da Pirâmide do Louvre, da autoria do arquiteto americano de origem chinesa Ming Pei, causou grande polémica.

Em frente do clássico Louvre, símbolo maior da Paris clássico-barroca, Ming Pei propunha um irreverente edifício do mais puro pós-modernismo. A ideia de Ping não era confrontar o Louvre e a sua arquitetura, mas recuperar o esplendor do famoso museu, permitindo que os seus visitantes o desfrutassem com maior conforto. Por isso, o arquiteto de ascendência chinesa construiu uma entrada, situada no meio do enorme pátio em frente ao edifício original e, através dela, os visitantes têm acesso ao piso subterrâneo que, por sua vez, dá acesso às diversas salas.
.A pirâmide principal é basicamente uma complexa estrutura interligada de aço revestida de vidro reflexivo. Ela é, de facto, uma porta de entrada para as galerias principais do Louvre, que se localizam enterradas. Como uma desce para o foyer de entrada, a natureza dramática da intervenção torna-se mais aparente. A pirâmide principal, que certamente rompe o equilíbrio do pátio antigo do Louvre, é complementada por duas pirâmides menores, que fornecem mais luz e ventilação aos espaços subterrâneos.


Neste projeto, o arquiteto M. Pei conseguiu de uma forma muito funcional articular os dois espaços: o subterrâneo, interno e o nível térreo, externo. A pirâmide central serve de articulador, que une a entrada diretamente às três alas principais aonde se encontram as galerias mais importantes e famosas (e consequentemente as mais visitadas) galerias do Museu do Louvre, ao mesmo tempo em que permitia, através da utilização da pirâmide como clarabóia, a entrada de luz e de ventilação, para além de ter conseguido trazer uma monumentalidade, necessária a esta zona central do edifício.
Entre críticas, mitos e controvérsias, a Pirâmide do Louvre foi inaugurada no dia 30 de março de 1989 na cour Napoléon do Musée du Louvre. Vinte e cinco anos mais tarde, a criação do arquiteto sino-americano Ieoh Ming Pei é um dos lugares mais visitados de Paris. O Louvre passou dos 3 milhões de visitantes anuais de 1989 para os 9 milhões em 2013. Depois da Vénus do Milo e da Mona Lisa, a pirâmide do Louvre ocupa o terceiro lugar no ranking das obras mais apreciadas pelos visitantes do maior museu do mundo.

Feita integralmente de metal e vidro, a pirâmide quadrangular evoca toda a história de cultura ocidental, desde o Egito aos dias de hoje.  

Gabriel Vilas Boas

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

PRIMAVERA DE PRAGA




Há 46 anos, tanques soviéticos entravam pela belíssima Praga de Milan Kundera e punham fim a um projeto tão bonito quanto utópico de criar um comunismo/socialismo de rosto humano. Mais de duas décadas depois da segunda guerra mundial, Estaline tinha destruído o sonho dm comunismo libertador para impor um regime autoritário, antidemocrático, aterrador não apenas aos seus como aos países que lhe faziam a cort(ina) de ferro.
Em janeiro de 1968, Alexander Dubcek, com inexperientes 47 anos, achou que era possível libertar a liberdade enjaulada e começou uma série de reformas que o povo checoslovaco desejava. Dubcek projetava rever a constituição e acabar com o monopólio do Partido Comunista checo; achava possível restaurar a liberdade de imprensa; prometeu independência aos tribunais e tolerância religiosa.
Dubcek não sabia, mas estava louco. Pensava pela sua própria cabeça, ambicionava para os seus compatriotas aquilo que almejava para si. Achava que a Checoslováquia era mais do que um Estado de papel.
Durou oito meses, a Primavera de Praga. Terminou abrutamente na noite de 21 de agosto de 1968 com a brutalidade de tanques russos ao serviço dum pacto de bazófia, porque aquilo sempre foi uma imposição e não um acordo.
Os checos podiam ser naifs mas eram muito cultos. Reagiram à invasão sem violência e boicotando qualquer governo fantoche e colaboracionista. Claro que isso desnorteou o processo de “normalização” russa que destituiu Dubcek, o prendeu e levou para Moscovo para que pudesse ver a luz da razão. Como a luz era negra, Dubcek acabou nos serviços florestais de Bratislava.
A Primavera de Praga acabou no verão e deu lugar a um longo inverno de 21 anos, quando Gorbatchev percebeu que temor não é amor e rapidamente se transforma em rancor.


Em 1989, a um dia de fazer 68 anos, Vaclav Havel (o último presidente checoslovaco e o primeiro líder checo) traz o líder da Primavera de Praga de 68 à Praça Letna para que os compatriotas lhe pudessem dizer “Obrigado! Finalmente conseguimos o que tiveste a coragem de começar!”. Dubcek podia morrer finalmente em paz…
Se para o ocidente, a Primavera de Praga foi um sucesso, pois significou o principio do fim do comunismo; para o leste e, sobretudo, para os checos foi o fim da ilusão da recuperação da liberdade política. Não foi um erro, mas uma lição duríssima que durou duas décadas a ser digerida.
Kundera imortalizou a Primavera de Praga na sua obra prima “Insustentável Leveza do Ser”, Karel Kryl fê-lo através da música. Vinte anos depois Vaclav Havel rubricou o mais belo texto da sua vida, tornando-se o último presidente da Checoslováquia e devolvendo a liberdade primordial ao seu povo. A revolução de veludo de 1989 cumpria o sonho da Primavera de 68.

 Gabriel Vilas Boas


quarta-feira, 20 de agosto de 2014

TETO DA CAPELA SISTINA, DE MIGUEL ÂNGELO


   Deus estende o braço e com o indicador da sua mão direita tenta tocar Adão e assim criar a humanidade. O espaço entre os dois dedos acentua o dramatismo do momento da criação humana por parte de Deus.
   Neste famoso e maravilhoso fresco de Miguel Ângelo está patente todo o simbolismo, genialidade, perfeição e verdadeiro milagre da arte e da técnica que constitui o teto da capela sistina, no Vaticano, em Roma. A obra é tão perfeita, tão monumental, tão difícil de executar que quem a observa ao vivo ou em imagens pergunta-se repetidamente se foi obra dum mortal ou dum ser divino. Provavelmente, o dedo do criador tocou no pincel de Miguel Ângelo durante aqueles longos quatro anos, entre 1508 e 1512, e fez nascer uma criação artística que é património da humanidade.   
   Há cinco séculos, ao pintor Miguel Ângelo foi colocado um enorme desafio: decorar o teto da capela do palácio do Papa, em Roma. O resultado foi uma assombrosa série de cenas religiosas, onde se destaca a já citada imagem de Deus a criar Adão.

 
   O teto era tão grande e tão alto que muitos duvidaram que Miguel Ângelo conseguisse levar a cabo tão ciclópica tarefa. O esboço final enchia o teto de ponta a ponta com mais de 300 figuras. Para as pintar, Miguel Ângelo passou anos empoleirado no andaime, inclinando penosamente o pescoço para cima enquanto a tinta lhe pingava para o rosto.  Ao final do dia, ele tinha cãibras a tal ponto que mal conseguia ler as cartas que seus familiares lhe enviavam. Miguel Ângelo pagou um preço altíssimo por esses anos de trabalho: a sua visão ficou reduzida e desgastou-se muito. Quando terminou a obra, com apenas 37 anos, estava impressionantemente velho.
   Na pintura do teto da capela sistina, Miguel Ângelo aplicou uma técnica conhecida como fresco, o que implicava aplicar as cores diretamente sobre o estuque ainda não enxuto.
   Convém lembrar que o teto tem uns estonteantes 20 metros de altura. As cores fortes e os contornos definidos tornam mais fácil observar as figuras a partir do chão. Nessas figuras vemos corpos musculados, o que revela os conhecimentos de anatomia de Miguel Ângelo.
 

   A parte central do teto da Capela, pintada por Miguel Ângelo, retrata cronologicamente a história do livro Gênesis do Antigo Testamento. (1) Deus separando a Luz das Trevas, (2) Deus criando o Sol e a Lua, (3) Deus separando a terra das águas, (4) A Criação de Adão, (5) A Criação de Eva, (6) O Pecado Original e A Expulsão do Paraíso, (7) O Sacrifício de Noé, (8) O Dilúvio Universal e, por último, (9) Noé Embriagado com vinho.

   Nos quatro cantos são retratadas cenas também do Antigo testamento. No canto superior esquerdo, Judith matando o general assírio Holofornes. No inferior esquerdo, David matando o gigante Golias. No superior direito, a Serpente de Bronze, que salvou os israelitas picados pela serpente do deserto. No inferior direito, O castigo de Amã, que, por querer exterminar o povo Judeu, acabou enforcado com sua família.
   Na região mais lateral do teto estão retratadas as Sibilas – mulheres da mitologia greco-romana, que possuíam poderes proféticos – bem como profetas do Velho testamento: Zacarias, Joel, Isaías, Ezequiel, Daniel, Jeremias e Jonas.


   Concluída a obra, o sucesso foi tal que Miguel Ângelo foi convidado a pintar as paredes da capela. Decidiu cobri-las com uma visão aterradora do episódio bíblico do Juízo final, que abordaremos noutra altura. Entre os demónios e as almas condenadas incluiu um autorretrato inquietante, talvez para lembrar a quem via o sofrimento que ele passara para pintar aquele teto.
   Hoje, quem visita a mais famosa capela do Vaticano não pode deixar de considerar que lá no alto está aquilo que é divino, a imortal obra do genial Miguel Ângelo.
 
Gabriel Vilas Boas