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quinta-feira, 31 de julho de 2014

DA ARTE, DA PINTURA, DE VAN GOGH, DE COQUELICOTS, BLEUETS


Vincent Van Gogh, Champs de Coquelicots, 1890, Óleo s/tela, 73 x 91.5 cm.

A 24 de abril, Maria Vilas escreveu um belíssimo texto sobre Van Gogh, pelo que hoje me escuso a incursões sobre a sua extraordinária biografia ou sobre a sua pintura de tensão e suas principais obras de referência.
Na semana em que celebramos o centenário da eclosão da Primeira Guerra Mundial, permitam-me fugir um pouco à temática de sempre e que vos fale de flores. Das flores de Van Gogh. Não, hoje não vos falarei dos célebres girassóis, omnipotentes do amarelo que este pós-impressionista tanto apreciava…mas sim de coquelicots e de bleuets. Dessas simples flores do campo que teimam sempre em crescer, dando esperança e sinais de que a vida continua, sempre, ali, mesmo sob um palco de morte e destruição como o eram as horríveis trincheiras...trincheiras plenas de honra dos jovens soldados em luta por ideais e inundadas de sentimentos tenebrosos e assustadores também.
Hoje, permitam-me deixar convosco em homenagem a todos os soldados mortos na Primeira Guerra Mundial, os bleuets e os coquelicots que Van Gogh tão bem pintou e que tanto alento e esperança deram a todos os que, nas insalubres trincheiras, lutavam pela pátria e pelos seus ideais. É sabido que Van Gogh admirava a cor e a trabalhava como ninguém. Por falta de dinheiro para contratar modelos, pintava sobretudo paisagens ou flores, que explorava numa busca permanente pelo pormenor expressivo e revolto de tensão. Ao fazê-lo, em vibrações de cor, empastelava as telas, que emergiam em relevos imprecisos, também elas a dar sinais de perturbação incontornável e fatal.

"Les tranchées britanniques dans les champs au printemps 1915 étaient remplis de coquelicots », afirmou Francis Ballace, trazendo a certeza e a esperança a centenas de soldados, de que a vida flui, sempre.
 John Mac Crae escreve o poema «In Flanders Fields», que imortaliza esta singela flor que grassa no horror da terra de ninguém.
Estas flores de que vos falo hoje e cujo nome não traduzo (o francês seduz em musicalidade) transformaram-se em símbolos de memória em honra dos soldados da Commonwealth que pereceram na Primeira Grande Guerra.

«In Flanders Fields»
Au champ d'honneur, les coquelicots
Sont parsemés de lot en lot
Auprès des croix, et dans l'espace
Les alouettes devenues lasses
Mêlent leurs chants au sifflement
Des obusiers.

 Nous sommes morts,
Nous qui songions la veille encor'
A nos parents, à nos amis,
C'est nous qui reposons ici,
Au champ d'honneur.


 A vous jeunes désabusés,
A vous de porter l'oriflamme
 Et de garder au fond de l'âme
Le goût de vivre et de liberté.
Acceptez le défi, sinon Les coquelicots se faneront
 Au champ d'honneur.

 De John Mac Crae
Traduction: Jean Pariseau


Champ de Bleuets, Van Gogh, óleo s/tela

Vase aux coquelicots et bleuets, Van Gogh, óleo s/tela

Os franceses fazem o mesmo, com “… les p’tits Bleuets” e surge pelas mãos de Alphonse Bourgoin o poema que não resisto a transcrever:

Les voici les p’tits Bleuets,
Les Bleuets couleur des cieux
Ils vont jolies,gais et coquets,
Car ils n’ont pas froid aux yeux.
En avant partez joyeux;
Partez,amis,au revoir!
Salut à vous,les petits”bleus”.
Petits bleuets,,vous notre espoir!

Alphonse Bourgoin



Deixo-vos com flores de esperança. Até Setembro.

Rosa Maria Alves da Fonseca



quarta-feira, 30 de julho de 2014

INGMAR BERGMAN


“Filmes são sonhos, filmes são música. Nenhuma arte passa a nossa consciência na forma como o filme passa e vai diretamente para os nossos sentimentos, no fundo escuro das salas das nossas almas.” 
Ingmar Bergman




    A 30 de julho de 2007, o mundo perdia dois monstros sagrados do cinema: o sueco Ingmar Bergman e o italiano Michelangelo Antonioni. Os dois marcaram um modo muito europeu de fazer cinema na segunda metade do século XX e viram a sua vasta obra reconhecida pelas mais prestigiadas academias de cinema do mundo. Hoje falo-vos de Bergman.

   Na sua obra cinematográfica, Ingmar Bergman refletiu sobre o silêncio de Deus, a morte, a falta de comunicação entre as pessoas, as fraquezas humanas, a incompreensão do casal, o amor, a guerra… O seu estilo era inconfundível e muito apreciado entre os críticos de cinema.

    Filho de um pastor protestante, o sueco nasceu a 3 de julho de 1918, em Uppsala. Estudou Literatura e Arte, ao mesmo tempo que se interessou pelo teatro (experimentou a direção cénica e foi autor dramático). A seguir nasceu a atração pelo cinema e, depois de ter escrito argumentos, abordou a realização, ao dirigir “Kris”, em 1945. 

    Sorrisos de uma Noite de Verão (1955), que lhe deu fama internacional, marcou o final da primeira fase da sua obra cinematográfica, que teve como ponto alto Noite de Circo de 1953, no qual as relações humanas são abordadas sob forma figurada. 

   Bergman partiu, depois, para uma nova etapa. O Sétimo Selo (1957), alegoria sobre o sentido da existência humana, balizou o início duma etapa assinalada por filmes de intenção metafísica, que fizeram do sueco o realizador da moda para a intelectualidade. 



   Morangos Silvestres, 1957, síntese da vida de um velho à beira da morte, No Limiar da Vida, 1958, estudo dos traços femininos no pequeno universo de uma maternidade, ou O Rosto, 1958, conflito entre um racionalista e um hipnotizador mesmeriano, puseram a descoberto as suas preocupações metafísicas. 

   A Fonte da Virgem, 1959, talvez a película mais académica desta fase, deu-lhe o primeiro de três Óscares de Melhor Filme Estrangeiro. 

   A terceira etapa Bergman consolidou-o como um dos grandes mestres do cinema moderno e ficou caracterizada por uma série de obras notáveis. 

   Em Luz de Inverno, 1962, e O Silêncio, 1963, focou a crise de valores do mundo moderno, ao passo que em A Máscara, 1966, e Lágrimas e Suspiros, 1972, confirmou a fascinação pelo rosto feminino. Ele que, no patamar teórico, considerou o olhar como o mais belo meio de expressão de um ator e que, no plano técnico, abusou do “facial close-up”.



  Em A Vergonha, 1968, denunciou a crueldade da guerra; em A Paixão, 1969, constatou a ação destruidora do amor e em Fanny e Alexandre, 1983, foi de algum modo autobiográfico, dando conta de uma infância vivida sobre rígido ambiente familiar. Este filme valeu-lhe seu terceiro Óscar de Melhor filme estrangeiro. 

   Antes de morrer tranquilamente em Fårö kyrkogård, Suécia, ainda haveria de fazer mais um par de filmes e assinar alguns trabalhos para televisão. Morria o homem para quem filmar não era um ofício, mas apenas ARTE.
 Gabriel Vilas Boas




terça-feira, 29 de julho de 2014

AO SOM DE... ALEXEI LUBIMOV


O Festival Internacional de Música da Póvoa de Varzim mantém a mesma qualidade de sempre, tal como os magníficos concertos a que temos assistido comprovam.
A criteriosa seleção programática do festival continua a ser um ponto de honra da organização. Neste contexto de excelentes apresentações quase diárias, é difícil escolher um concerto que se tenha destacado, mas superando essa dificuldade, decidi fazer referência a um pianista absolutamente excepcional que na última quarta-feira protagonizou um dos melhores concertos a que pude assistir nos últimos tempos.
De aparência frágil, apresentou-se perante um público entendido, num auditório repleto, o pianista russo Alexei Lubimov. Assistiu-se a um concerto inesquecível pela forma sublime como interpretou a Sonata em ré maior de Mozart, os Improvisos op. 90 de Schubert e 12 Prelúdios de Debussy.
Alexei Lubimov nasceu em Moscovo em 1944 e os seus 70 anos conferem-lhe a sabedoria necessária para aliar a uma excelente técnica, uma sonoridade muito bonita, resultado do equilíbrio certo entre o pedal, a dinâmica e o fraseado. Muitos jovens pianistas deviam ouvir com atenção estes pianistas mais experientes pois só teriam a ganhar em termos de postura ao piano e de interpretação, sobretudo no que diz respeito à dinâmica. É tão raro, ouvir um piano e um pianíssimo  tocados na dose certa, tal como também é difícil ouvir bons fortíssimos. Alexei Lubimov estava a tocar num dos melhores pianos do mundo da atualidade, um Fazioli, e isso ajuda, mas sem a técnica, a sensibilidade e a inteligência de um grande pianista de nada adiantaria a qualidade do piano. O repertório escolhido, permitiu ao pianista brilhar perante um público de ouvintes atentos e não meros espectadores, que durante cerca de duas horas de recital apreciaram o virtuosismo do executante.
O seu repertório vai desde a música barroca até à música dos compositores do século XX. Tem dado recitais e concertos por todo o mundo e tem inúmeras gravações de músicas de diferentes épocas.
Foi a primeira vez que Alexei Lubimov atuou em Portugal, esperemos que volte.
Como proposta de audição, Improvisos op.90 de Franz Schubert na interpretação de Alexei Lubimov. 
Margarida Assis

segunda-feira, 28 de julho de 2014

A PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL FAZ CEM ANOS



Há precisamente 100 anos eclodia no centro da Europa a Primeira Guerra Mundial. A partir desta data, o mundo nunca mais foi o mesmo, quer do ponto de vista geográfico e político, quer do ponto de vista social e até psicológico. 

Neste dia, há cem anos, os soldados do império austro-húngaro invadiam a Sérvia, respondendo brutalmente ao assassínio, um mês antes, do arquiduque Francisco Fernando da Áustria (herdeiro do trono austro-húngaro), em Sarajevo, na Bósnia, pelo nacionalista jugoslavo Gravilo Princip. Ao mesmo tempo, as tropas do Império Alemão entravam pelas fronteiras da França, Luxemburgo e Bélgica dentro. Ainda que passasse por dificuldades, o Império Otomano acabou por alinhar ao lado do Império Alemão, pois era deste lado que incidia as principais perspetivas de vitória. 

Contra estes desejos imperialistas de expansão ilegítima, levantou-se a invadida França, o Império Britânico e o Império Russo. Mais tarde juntou-se-lhes o Reino de Itália e os EUA. Muitos outros países alinharam ao lado de cada um dos dois blocos em conflito, tornando esta, uma verdadeira guerra à escala planetária. 

O palco foi a Europa, que ficou totalmente destruída, e envolveu cerca de 70 milhões de pessoas, dos quais 60 milhões foram europeus. O número de mortos também foi assustador: 9 milhões, ou seja, quase toda a população atual de Portugal. 



Os combates duraram mais de quatro anos (o final da guerra foi declarado em 11 de Novembro de 1918) e neles foram usadas armas surpreendentemente letais. Os avanços tecnológicos, proporcionados pela revolução industrial, revelaram exércitos com uma grande capacidade destruidora. Apesar do impressionante número de mortos, o futuro mostraria conflitos ainda mortíferos de tal modo que este é apenas o sexto conflito com maior número de mortos de sempre. 

Os avanços na tecnologia militar significaram um poder de fogo defensivo mais poderoso que as capacidades ofensivas, tornando a guerra extremamente mortífera. O arame farpado era um constante obstáculo para os avanços da infantaria; a artilharia era muito mais letal que no século XIX, pois estava armada com poderosas metralhadoras. Os alemães começaram a usar gás cloro em 1915, no que foi a primeira utilização de armas químicas, e logo depois ambos os lados usavam a mesma estratégia. Nenhum dos lados ganhou a guerra pelo uso de tal artifício, mas eles tornaram a vida nas trincheiras ainda mais miserável tornando-se um dos mais temidos e lembrados horrores de guerra.



No início o conflito ainda parecia haver alguma ética militar, pois no Natal de 1914, soldados de ambos os lados cessaram as hostilidades, saíram das trincheiras e cumprimentaram-se. Isto ocorreu sem o consentimento do comando, no entanto, foi um evento único. Não se repetiu posteriormente por diversas razões: o número de baixas aumentou os sentimentos de ódio dos soldados e o comando, dados os acontecimentos do primeiro ano, tentou usar esta altura para fazer propaganda, o que levou os soldados a desconfiar ainda mais uns dos outros.

Com a entrada em cena dos EUA, chegaram novas estratégias militares dos aliados e inovadores equipamentos de guerra como o carro de combate e os aviões militares. Rapidamente, os aliados ganharam ascendente decisivo sobre as forças imperialistas, que não conseguiram evitar a derrota. 

O desfecho da Primeira Guerra Mundial trouxe alterações geográficas e políticas na Europa: desapareceram os Impérios Alemão, Austro-húngaro e Otomano. O Império Russo também viu chegar o fim da sua existência com o triunfo dos bolcheviques na revolução comunista de 1917, que tornaria vermelha a ideologia a leste e mudaria as coordenadas políticas da Europa no século XX. 

Os vencedores impuseram uma rendição humilhante, dolorosa e dispendiosa aos alemães através do Tratado de Versalhes e isso estaria na génese do ódio recalcado dos alemães que conduziria a Europa a novo conflito vinte anos depois, apesar do final do guerra ter trazido a criação da Sociedade das Nações (precursora da ONU), cujo objetivo era evitar que novo conflito mundial tornasse a eclodir.


Portugal teve uma participação breve e infeliz na Primeira Guerra Mundial. Apesar de ter alinhado ao lado dos vencedores, a nossa partição provocou inúmeras baixas no Corpo Expedicionário Português que entrou completamente impreparado na Guerra e sofreu, em muito pouco tempo, um número inusitado de baixas. 

Quando terminou, a guerra tinha devastado toda a Europa central, havia mesmo países completamente destruídos e os vencedores impuseram a ruína aos vencidos. Impérios tinham sido desfeitos e o ódio instalou-se nas relações entre povos, por longas décadas. 
A raiz do mal, disfarçada de nacionalismo exacerbado, veio para ficar e o mundo nunca mais seria o mesmo a partir de então. Poucos foram aqueles que aprenderam com a História...


Gabriel Vilas Boas

domingo, 27 de julho de 2014

LE TOUR DE FRANCE


Terminou, hoje, no Champs-Élysées, Em Paris, a centésima primeira edição do Tour de France. A volta a França é talvez o maior e prestigiado evento desportivo francês, mas nos últimos anos tem vivido um período negro, por causa dos constantes casos de doping que envolveram alguns dos vencedores da prova, nomeadamente o norte-americano  Lance Armstrong.
                O tour nasceu em 1903, por inciativa do jornal francês L’Auto, que passava uma crise de vendas e lançou esta prova de ciclismo com o objetivo de aumentar as suas tiragens. O líder da prova anda vestido com uma camisola amarela, pois essa era a cor das páginas do jornal.
                O tour começou por ser uma prova destinada a ciclistas franceses, mas a pouco e pouco foi acolhendo ciclistas doutros países, ganhando fama e tornando os seus vencedores verdadeiros heróis nacionais. Devido à sua exigência e dificuldade, os melhores ciclistas mundiais projetavam a sua melhor forma física para os 23 dias em que a prova decorre, sempre no mês de Julho. São cerca de 3500 km, percorrendo as principais cidades franceses, entre planícies, planaltos e as altas montanhas dos pirinéus e dos alpes, para terminar no centro da capital francesa nos míticos Champs-Elysées.  
                A história do Tour é também a história dos seus heróis, ou seja, os seus mais consagrados vencedores. Jacques Anquetil (França), Bernard Hinault (França), Edy Merckx (Bélgica) e Miguel Indurain (Espanha) venceram a prova cinco vezes e são os maiores vencedores de sempre. Até há pouco mais de um ano, o norte-americano Lance Armstrong detinha o record de vitórias na volta à França com sete vitórias consecutivas, entre 1999 e 2005, mas estes títulos foram-lhe retirados depois duma longa investigação e posterior condenação por uso de doping.


O uso de doping sempre foi o grande problema do ciclismo, mas nas últimas duas décadas têm-se multiplicado os casos, envolvendo os melhores ciclistas mundiais. Depois do caso de Lance Armstrong muitas suspeitas se têm lançado sobre os vencedores das principais provas de ciclismo mundial e muitos fãs desta modalidade desportiva afastaram-se, desgostosos com os pés de barros dos seus “deuses” que voavam até ao col du tourmalet.
                Depois de completar a sua centésima edição, vivendo a maior crise de honorabilidade de sempre, o Tour inicia o seu segundo centenário de existência tentando recuperar credibilidade. Talvez não interesse tanto fazer surgir novos heróis, como Armstrong, Hinault, Marcks ou Lemond, mas fazer acreditar os milhões de fãs do ciclismo na Europa e na América que o ciclismo é um desporto limpo, onde triunfa o mais forte e dotado, aquele que merece inscrever o seu nome no livro sagrado do Tour.




                Nunca um português triunfou na maior prova velocipédica mundial. O melhor resultado de sempre foi conseguido por Joaquim Agostinho, essa força bruta da natureza, em 1978 e em 1979, com dois terceiros-lugares. Atualmente, o maior ídolo do ciclismo português é o campeão do mundo de estrada, Rui Costa. Infelizmente ainda não foi este ano que conseguiu uma classificação honrosa e acabou por desistir.
                Hoje, em Paris, triunfou um desconhecido, o italiano Vicenzo Nibali. Talvez o Tour precise destes heróis involuntários e passageiros, que daqui por um ano se afundem novamente no anonimato, para voltar a ser a prova que seduziu tantos milhões de pessoas em toda a europa.

Gabriel Vilas Boas

sábado, 26 de julho de 2014

CINEMA PARAÍSO


        É certo que Giuseppe Tornatore sempre afirmou que o seu Cinema Paraíso (Nuovo Cinema Paradiso, 1988) não era um filme autobiográfico, mas vendo o filme depois de conhecer a biografia do realizador é difícil acreditar na veracidade de tal afirmação. 

        Lançado a 17 de novembro de 1988, Cinema Paraíso começou por ser um quase fiasco de bilheteira, mas depois de ganhar a Palma de Ouro em Cannes (1989), o Globo de Ouro para melhor filme estrangeiro (1990) e o Óscar de melhor filme estrangeiro (1990), o público do cinema percebeu que estava perante uma pepita de ouro da História do Cinema. 

       Ainda que algumas vozes o considerem muito sentimental, a maioria pensa como eu: estamos perante uma das melhores películas de todos os tempos, uma das mais conseguidas homenagens do cinema a si próprio. 

        Filmado na terra natal de Tornatore (Bagheria, arredores de Palermo, na Sicília), o filme conta, através de constantes flashbacks, a evolução de uma sala de cinema (O Cinema Paraíso) e a amizade entre um projetista de filmes e uma criança que lhe serve de assistente. Essa criança é interpretada por Salvator Cascio que assina uma magnífica interpretação com apenas oito anos. 

        O filme reporta-se a uma época anterior à da televisão, altura em que o cinema era a única distração daquela população siciliana. Entretanto, a história evolui e o jovem Salvatore dedica-se ao cinema e à fotografia quando chega à adolescência e a realizador de televisão quando atinge a idade adulta.


         Ora, foi esse o percurso do próprio Tornatore. Giuseppe foi um fotógrafo talentoso ainda adolescente e tornou-se realizador profissional de televisão aos 23 anos! 

        Ainda não tinha trinta anos, já Tornatore se estreava no mundo do cinema com Il Camorrista (1985). Com o argumento de Cinema Paraíso na mão, o jovem realizador italiano convence o produtor Cristaldi a investir na produção do “seu” filme. Tornatore teve dificuldade em escolher quem daria corpo ao jovem Salvatore/Toto, pois queria uma criança pequena e magra para criar um contraste forte com a figura imponente de Philippe Noiret [Alfredo, o projecionista] mas a escolha revelou-se muito acertada. 

        Hoje, Salvator Cascio é o dono dum restaurante em Chiusa Sclafani, a 80 quilómetros de Palermo. Chama-se Sabores do Óscar. O local foi projetado para lembrar a sua experiência cinematográfica. Nele podemos observar vários elementos que lembram o filme "Cinema Paraíso", bem como os prémios, todos expostos na sala.

        Parece impossível de acreditar, mas Tornatore só precisou de quatro semanas para rodar "Cinema Paraíso”. Talvez porque ele brotasse do mais profundo do seu coração e da sua alma…
         Cinema Paraíso foi apresentado, na versão original, com 155 minutos, no entanto, a versão definitiva teria cerca de menos meia hora, pois o abade-censor resolveu roubar aos espectadores todas as cenas do Cinema Paraíso que incluíssem beijos!

          No final, o realizador monta com uma ternura comovente todos os bocados de fita gerados pela tesoura do censor da aldeia e “monta” uma das mais belas sequências da história do cinema, que a sublime banda sonora, assinada por Ennio Morricone,  torna  ainda mais bela e comovente.

Gabriel Vilas Boas



sexta-feira, 25 de julho de 2014

ARQUITETURA - ESTILOS VINTAGE E RETRO


“VINTAGE” E “RETRO”

Está em voga a utilização de palavras como “retro” e “vintage”, aplicadas em diferentes áreas, como moda, música, arquitectura, decoração, design…. Mas terão o mesmo significado? Ao contrário do que se pensa o “retro” não se inspira no “vintage”, pois possuem características diferentes, o “vintage” é sóbrio enquanto o “retro” é lúdico.


“Retro” será uma revisitação ou uma leitura actual de atributos antigos, utilizada na moda, na decoração, na linguagem gráfica, em produtos, utilizando objetos, na sua grande maioria, inspirados no que se usou nas décadas de 50 a 80, ou então, peças originais dessa época, relançado igual ou semelhante ao antigo, numa recriação ou reedição de móveis, objetos, roupas, brinquedos, carros, eletrodomésticos, etc.




Vintage”, por sua vez, está relacionado com algo realmente antigo e de boa qualidade. É um termo inglês que se refere ao ano de excelência em que foi feito um vinho; em termos gerais, agora, significa algo antigo e bom, um clássico. Este estilo resgata os elementos das décadas de 20 a 60 do século XX, geralmente na decoração tanto dos móveis, como dos objectos, porcelanas, cristais, candeeiros.

 São originais da época.

 

Nos espaços contemporâneos, a decoração de interiores utiliza muitas vezes os estilos “vintage” e “retro”, recorrendo a influências passadas para compor os ambientes. Peças antigas e exclusivas que se renovam ou se combinam com outras mais modernas. Móveis e objectos criados por designers de renome ou peças do passado que se misturam com as actuais, procurando transmitir uma imagem que destaque e identifique esses espaços, criando uma individualidade própria.
Não se “busca” o velho, mas o “glamour” de outros tempos, procurando incorporar os móveis, os objetos e as tendências do passado.

 

Teresa Beyer



quinta-feira, 24 de julho de 2014

NUNO ÁLVARES PEREIRA


Neste dia do ano, mas em 1360, nascia em Cernache do Bonjardim, concelho da Sertã uma das mais conhecidas figuras da História de Portugal: NUNO ÁLVARES PEREIRA.
O seu nome ficará para sempre ligado à História do nosso país pela genialidade militar demonstrada na Batalha de Aljubarrota, em 14 de agosto de 1385, momento chave de afirmação da independência definitiva face a Castela.   
A relevância histórica da figura do Condestável ultrapassou e muito o seu tempo, porque ele ia muito para além do estratega militar ímpar. Nuno Álvares Pereira reunia características psicológicas e de carácter tão invulgares e raras na nossa história coletiva que o tornaram herói até aos nossos dias. Ele seria o rei perfeito, o estadista que o país poderia ter tido depois de D. Dinis, mas a sua condição de bastardo e a sua pouca ambição política aliada à lealdade ao seu amigo de sempre – o mestre de Avis, ou seja, o rei D. João I, inviabilizaram esse encontro feliz entre um povo e uma figura extraordinária para o dirigir.
Nuno Álvares Pereira sofria de patriotismo congénito. A essa doença juntava uma valentia guerreira e uma clarividência fora do comum para comandar o exército português, que Portugal não conhecia desde de D. Afonso Henriques. Tudo isso ficou evidente no momento que o imortalizaria para sempre: a vitória sobre o exército castelhano em Aljubarrota.


Outra característica muito vincada na personalidade de Nuno Álvares Pereira é a sua extrema religiosidade. No final da sua vida, tornou-se frade no Convento do Carmo (que ele próprio tinha mandado construir como cumprimento dum voto). Demorou quase 500 anos, mas a Igreja Portuguesa não descansou enquanto não o beatificou. Isso aconteceu em janeiro de 1918. A canonização chegou apenas 90 anos mais tarde, também por um papa Bento, neste caso o Papa Bento XVI, a 26 de abril de 2009.
Esta tendência de Nuno Álvares Pereira para a vida religiosa notou-se desde muito cedo, pois persistia em manter-se virgem e teve de ser o seu pai a forçar o casamento com Dona Leonor Alvim, com quem teve três filhos. Infelizmente só a rapariga chegou à idade adulta.
Essa propensão de Nuno Álvares Pereira para a santidade (opinião que não deve ser partilhada pelos castelhanos da época…) encontra confirmação na conduta moral e cívica do Condestável. Ao contrário de seu pai e do seu grande amigo, o rei D. João I, não há notícias de deslizes matrimoniais e por isso os seus filhos são naturais e legítimos. A isto acrescentava o desprendimento material, ainda que tenha acautelado muito bem o futuro da sua família e dos amigos.

             Gozando de grande amizade, do reconhecimento do seu patriotismo e da  lealdade ao rei foram-lhe dadas terras e bens em tal número que não era exagerado o título de “dono de metade de Portugal”. É certo que repartiu muito com os seus camaradas, que procurou mimar a sua filha com muitos bens, que doou imenso à Igreja, mas também é certo que não recusou nem títulos nem terras nem bens.
Casou a sua filha com o filho bastardo do rei D. João I e dali nasceria a Casa de Bragança, com um poder que se estendeu até ao fim da monarquia, já em pleno século XX.
Passaram mais de 650 anos do nascimento de Nuno Álvares Pereira, mas Portugal não produziu, entretanto, uma dúzia de homens como ele: patriotas, destemidos, determinados, bondosos e com uma inteligência fora do comum. Gostava que ele tivesse sido mais fonte de inspiração de que ícone de admiração…
Gabriel Vilas Boas 

quarta-feira, 23 de julho de 2014

DA ARTE, DA PINTURA, DE SILVINA ISABEL MIRANDA

Óleo s/tela, Sem título, 2014

A Silvina é uma amiga de sempre. Lembro-a em tempos que já lá vão, nos bancos do recreio do muito nosso Colégio de S. Gonçalo, sempre alegre e sorridente, a irradiar simpatia e uma eterna boa disposição, que ainda hoje tão bem a caraterizam.
É fácil, muito fácil gostar da Silvina. De discurso fluido, dona de um olhar negro cativante, prende a atenção do interlocutor, qualquer que ele seja. Nascida no Marco de Canaveses, a 29 de outubro de 1966, estudou em Amarante, onde também agora reside. Formou-se em Desenho e Pintura na Escola Superior Artística do Porto-Árvore e em Estilismo, pela Academia de Moda do Porto, tendo igualmente concluído uma pós-graduação pelo IESF.
Para ela,” a arte é o instrumento da comunicação humana que permite ao artista, através da sua sensibilidade, exteriorizar formas e cores, sentimentos e emoções.”
A sua preferência recai sempre na pintura a óleo. Aprecia a textura, o relevo, o cheiro, o brilho que emana das telas a que dá vida. O óleo é, para ela, uma técnica mais acessível, mais fácil. Silvina gosta sobretudo de o trabalhar com a espátula, num exercício de paixão e arrebatamento mas também de paciência, até chegar ao preciosismo do pormenor que pretende atingir.
O nu artístico é a sua temática de eleição. Para ela, o nu “é rico e belo em si mesmo”. Ela pinta-o como ninguém, criando imagens de sensibilidades muito próprias, onde o corpo assume centralidade e se perde em diferentes formas e feitios. Estes nus inspiram o pensamento, despertam emoções e porque não, criam ilusões.
Perde-se a conta às telas que já pintou, que já comercializou. As suas exposições, individuais ou coletivas, são inumeráveis mas passaram pela nossa cidade de Amarante e pelo Marco de Canavezes, tendo sido sempre um sucesso.

Óleo s/tela, Nu, 2014

O seu talento é visível nestas duas obras que a artista disponibilizou para os nossos leitores. A primeira, Sem título, inunda-nos de serenidade. O azul apazigua, os tons terra acalmam a caminhada em direção a um horizonte infinito mas prometedor. A sensualidade está ali, a chamar emoções escondidas ou até esquecidas, quer seja no cabelo revolto ou na perna bem torneada que não hesita no caminho a tomar. O dia é cinzento, mas que importa se tudo em redor é tão belo?
A tela Nu é mais densa. Pela cor, forte, imponente, dominante, em contraste com um corpo alvo, inundado de luz, adormecido suavemente porque também gentilmente protegido de panejamentos a lembrar recatos e a provocar adivinhas.
Escrevo-vos de Amarante. Mais uma vez, falo-vos de alguém que, embora não tenha nascido nesta belíssima cidade, a adotou para si. E que foi bafejada pelas ninfas do Tâmega, em toque suave de talento criador. Espero que gostem. Quanto a mim, deu-me imenso prazer escrever estas linhas. Porque é de uma amiga que vos falo.


Rosa Maria Alves da Fonseca

terça-feira, 22 de julho de 2014

TEATRO EM AMARANTE

                


                   O Teatro é uma arte que atrai sempre muito público. A arte de representar é exigente mas altamente compensadora. Felizmente cada vez mais as câmaras municipais compreendem o gosto das suas populações e durante o verão assistimos, em várias cidades, aos “festivais do teatro amador”. Com Amarante acontece o mesmo. A atual edilidade continua uma tradição com mais de dez anos e proporciona aos amarantinos espetáculos de teatro durante esta semana.
                A 14.ª edição do Festival de Teatro de Amarante começou domingo com a peça “A Casa de Bernarda Alba”, levada à cena pelo grupo de teatro da terra, o "Tamaranto". O magnífico texto de Lorca relata as eternas dificuldades no relacionamento entre marido e mulher. Relata também o modo submisso como a mulher do passado se devia comportar perante o marido, ou seja, não procurando investigar traições, preocupações, decisões.

Ontem foi a vez do Grupo Dramático e Recreativo "A Retorta", de Valongo, se apresentar perante o público amarantino. Oito atores trouxeram à cena um texto do consagrado autor brasileiro Millôr Fernandes – “A história é uma história”, na qual são apresentadas as épocas e povos mais importantes da História do Homem: a Pré-história, os Egípcios, os Gregos, os Romanos, a Idade Média, os Descobrimentos, a Revolução Francesa, a Revolução Industrial, o século XX e a Revolução Sexual. E por fim a atualidade, com especial foco na situação do nosso país. A pouco e pouco, atores e texto foram conquistando a plateia, repleta, nos claustros dos Paços do Concelho.
Amanhã o festival prossegue com “Comédia 3D”, onde os reis da stand up comedy, João Seabra, Hugo Sousa, Miguel Sete Estacas, prometem não defraudar as expectativas dos amarantinos quanto a uma noite bem passada entre risos, crítica social e um copo, antes ou depois, na esplanada do Café Bar, com o Tâmega ao fundo, a afagar mais uma noite quente de julho.


Sexta-feira é, no meu entender, o ponto alto deste certame teatral, com a peça “O Dote – A Tragédia da Banana Embichada”, com encenação de Joaquim Nicolau. Aqui já estamos perante teatro profissional e uma peça que percorreu o país, tendo, inclusive, sido apresentada na Assembleia da República. Tive a oportunidade de assistir à representação desta peça, há uns meses, na cidade vizinha de Fafe e fiquei muito agradado com o que vi. Quinzinho Portugal, Maria Faleiro, Marta Melro, entre outros, prometem aquecer a noite de sexta-feira, com uma produção divertida, cheia de jogos de palavras e subentendidos.
As honras de encerramento caberão à peça “Cucurrucucu” do grupo Grande Comédia, quando a semana estiver a gastar as suas últimas horas de vida.
Por estes dias, Amarante é um enorme palco e o teu lugar é na plateia. Traz amigos, sorrisos e palmas que a diversão é garantida.



Gabriel Vilas Boas  



segunda-feira, 21 de julho de 2014

AO SOM DE JACQUES BREL


Celebra-se hoje o Dia Nacional da Bélgica, que coincide com a data da elevação de Leopoldo I, em 1831, ao cargo de rei dos belgas, um ano após a revolução que deu origem ao surgimento de um novo país independente no centro da Europa. Na Bélgica há três línguas oficiais, sendo uma delas o francês, falado por cerca de 40% da população. 


Em 1929 nasce em Schaerbeek, região de Bruxelas, Jacques Brel que se imortalizaria como um dos maiores nomes da canção francesa. Em casa de Brel sempre se falou francês pois apesar do pai ser flamengo, era de ascendência francófona, assim como a mãe. Decidido a não seguir os negócios de família, ligados à cartonaria, e tentado a conseguir uma carreira no mundo da música, muda-se para Paris nos anos 50. Aí vai compor os grandes sucessos que ainda hoje ouvimos com muito agrado, pois Brel concilia belíssimos textos poéticos com não menos belas músicas e uma voz única na forma de interpretar. Este conjunto de fatores proporciona uma força impressionante às músicas que compôs, entre as quais podemos destacar as mais conhecidas Ne me quitte pas ou La valse à mille temps. Contemporâneo de Georges Brassens, Léo Ferré, Yves Montand e Edith Piaf, nunca foi um conformista, pelo contrário, era um inconformado, um revolucionário, mas ao mesmo tempo um perfeccionista, de um profissionalismo irrepreensível. Talvez cansado de uma certa rotina que não tinha nada a ver com a sua maneira de ser, a certa altura da vida, Jacques Brel compra um veleiro que o levará numa viagem à volta do mundo até ao seu destino final, as Ilhas Marquesas na Polinésia francesa. Voltou à Europa em 1977 para a gravação do seu último disco que foi um extraordinário sucesso. Já então padecia de um cancro no pulmão que o vitimaria em 1978 com apenas 49 anos. Nessa altura o seu amigo Georges Brassens diria: “Jacques Brel não está morto. Para revivê-lo, basta que escutemos os seus discos”. Entre as suas músicas, há uma dedicada ao seu país de origem, a Bélgica, com um poema tão bonito que decidi partilhá-lo neste blogue.

Le plat pays

Avec la mer du Nord pour dernier terrain vague
Et des vagues de dunes pour arrêter les vagues
Et de vagues rochers que les marées dépassent
Et qui ont à jamais le cœur à marée basse
Avec infiniment de brumes à venir
Avec le vent de l'ouest écoutez-le tenir
Le plat pays qui est le mien

Avec des cathédrales pour uniques montagnes
Et de noirs clochers comme mâts de cocagne
Où des diables en pierre décrochent les nuages
Avec le fil des jours pour unique voyage
Et des chemins de pluie pour unique bonsoir
Avec le vent d'ouest écoutez-le vouloir
Le plat pays qui est le mien

Avec un ciel si bas qu'un canal s'est perdu
Avec un ciel si bas qu'il fait l'humilité
Avec un ciel si gris qu'un canal s'est pendu
Avec un ciel si gris qu'il faut lui pardonner
Avec le vent du nord qui vient s'écarteler
Avec le vent du nord écoutez-le craquer
Le plat pays qui est le mien

Avec de l'Italie qui descendrait l'Escaut
Avec Frida la Blonde quand elle devient Margot
Quand les fils de novembre nous reviennent en mai
Quand la plaine est fumante et tremble sous juillet
Quand le vent est au rire quand le vent est au blé
Quand le vent est au sud écoutez-le chanter
Le plat pays qui est le mien

Que hino mais bonito ao seu país natal, ao seu país plano, que este, Le Plat Pays? 

Margarida Assis

domingo, 20 de julho de 2014

NATALIDADE EM PORTUGAL


CONTABILIDADE PRÉ-NATAL
               Nada me aborrece mais do que discutir um assunto importante dum modo superficial. É o que acho que a comunicação social e o Governo fazem sobre a natalidade em Portugal.
            Há um mês saíram uns dados estatísticos sobre o tema, entretanto o Governo encomendou uns estudos fiscais sobre putativas benesses de 0,3% no IRS dos casais com um ou dois filhos, para figurar no seu álbum de fotografias bem-intencionadas, e os jornais pegaram no tema duma maneira pouco profissional, reduzindo a razão da falta de crianças em Portugal a uma questão económica. Não é! Basta lembrar que na década de oitenta, aproximámo-nos de 2,5 filhos por mulher e os portugueses tinham condições de vida bem inferiores às atuais.
                Ter filhos ou não tê-los é, antes de mais, uma decisão pessoal e afetiva. A decisão de ter dois ou mais filhos é que pode ser altamente condicionada pela organização social e económica do país em que vivemos.
                Devíamos perguntar-nos por que razão cerca um terço dos casais em Portugal não pensa ter filhos. E por que é que isso acontece sobretudo entre os grupos mais instruídos e ricos da população.
                Na minha opinião isso sucede porque mudou o paradigma das relações afetivas entre as pessoas. As relações têm uma duração e um grau de compromisso notoriamente inferior ao passado.
              A cultura do não compromisso ou do compromisso relativo desilude muitas mulheres, que recusam ter filhos para assumir, simultaneamente, o papel de mãe e pai.


                Grande número de mulheres já não tem como objetivo de vida “casar-se” nem se sente infeliz se não o chegar a fazer. Ser casada (o) é tão aceitável social e afetivamente como não o ser, estar junto com, estar só, “ir casando” ou ter vários relacionamentos ao longo da vida. Claro que isto se consegue melhor se não houver crianças pelo meio…
                Por muito que isto custe a algumas mentalidades, para muitas mulheres, casar (como ter filhos) é só uma parte da sua realização pessoal.  A carreira, viajar, aproveitar a vida, ou divertir-se sem grandes compromissos impedem-nas ter filhos até aos 30-35 anos, faz falhar algumas oportunidades e cria muitos medos.
                É óbvio que a maternidade é uma ideia ainda muito sedutora e poderosa, mas surge cada vez mais tarde. É muito comum vermos mulheres entre os 35-45 anos a serem mães pela primeira vez. Atingem a sua maturidade afetiva e também já "viveram o que tinham para viver”…
                Por outro lado, todas as mulheres sabem perfeitamente que ter filhos implica esforço, abdicação, “prisão”… e muitas recusam essa ideia. Grosso modo, elas sabem que os papéis de género continuam a ser a mesma desgraceira que sempre foram (pelo menos na perspetiva feminina, claro está…) e todas elas já sabem onde vai terminar o lindo conto de fadas de ter dois, três… filhos.


                Nesse sentido, percebe-se melhor a ideia de só ter um filho. Para realizar o desejo de ser mãe, um chega – pensam. Têm medo de não lhes proporcionar as melhores condições económicas, têm receio de deixarem de ser sedutoras para o exterior e para o marido (há sempre tanta solteira, divorciada…).
                Por outro lado, o mundo laboral “não está nem aí” para o desejo de maternidade das mulheres. O raciocínio é simples: se querem ter filhos é lá com elas, mas não venham reivindicar direitos, com pedidos de flexibilização de horários ou com faltas para consultas dos filhos, porque isso custa dinheiro. E nem é preciso o patrão franzir o olho para todos perceberem o que ele está a pensar.
                É por isso que, quando o governo acha que descobriu o fertilizante da natalidade em Portugal com umas quaisquer percentagens no futuro IRS dos pais, não posso deixar de sorrir ironicamente. Estaremos a falar do mesmo Governo que não pune grandes empresas que pressionam as mulheres a regressar ao trabalho um mês após o parto? Estamos a referirmo-nos ao mesmo Governo que não cobre com creches e infantários públicos todas as necessidades das famílias dos grandes aglomerados urbanos? Será o mesmo Governo que taxa produtos essenciais para uma criança 17% acima dos campos de golfe?
                Há 30/40 anos, quando todos éramos mais pobres e menos instruídos, um casal que não tivesse um filho era socialmente olhado com desconfiança ou pena. Hoje sucede o contrário.
Ter filhos é uma decisão pessoal, mas compete à sociedade assegurar efetivamente essa liberdade.
Gabriel Vilas Boas



sábado, 19 de julho de 2014

MERYL STREEP

“Nós somos as escolhas que fazemos”
                                       Meryl Streep

E Meryl Streep escolheu ser atriz. Só que não quis ser uma atriz qualquer. Ao talento juntou a determinação e o trabalho, naquilo que uma vez Cher definiu como “uma máquina de representar, do mesmo modo que um tubarão é uma máquina de matar.”
                A frase de Cher indicia a grande ousadia que Streep põe em tudo o que faz. Foi assim que no início da década de oitenta conseguiu à socapa o guião do filme “A Escolha de Sofia” e se apresentou perante Alan Pakula implorando-lhe o papel principal que tinha sido pensado para Ursula Andress.
             Em boa hora o fez porque é com “A escolha de Sofia” (1982) que Meryl Streep se afirma como verdadeira estrela cinematográfica - atuação soberba, protagonizando o papel duma polaca sobrevivente ao Holocausto. A sua representação neste filme valeu-lhe o Óscar de Melhor Atriz e o Globo de Ouro. O seu sotaque de polaca, a densidade dramática e afetiva que imprimiu à sua personagem receberam rasgados elogios e foram a sua primeira montanha de glória da sua carreira.
                Poucos anos antes (1979) tinha estacionado no planalto da fama quando encontrou Dustin Hoffman em “Kramer contra Kramer” e arrebatou o seu primeiro Óscar, o de Melhor Atriz Secundária, revelando uma versatilidade que Hollywood não podia ignorar.

                A rapariga que nasceu a 22 de junho de 1949, em Nova Jérsey, quis ser atriz. Graduou-se em Arte Dramática na Universidade de Yale e foi aí que pisou os palcos pela primeira vez. Durante três anos representou mais de 40 peças. Chegou à Broadway onde se notabilizou na representação de peças de grandes autores como Tennessee Williams.


                Aos 28 anos estava pronta para a sétima arte. Estreia-se com o filme “Júlia” ao lado de Jane Fonda e no ano seguinte já figurava entre as nomeadas para Óscar por causa da sua performance em “O Caçador”. A Associação Americana de Críticos de Cinema prognosticou-lhe o primeiro Óscar (1979 – Kramer contra Kramer) ao elegê-la como atriz do ano, em 1978.
                Na década de oitenta, afirmou-se como uma das habitués das nomeações dos Óscares, embora só tenha ganho uma vez. Atualmente detém o fabuloso recorde de 18 nomeações.  
                Além de conquistar o mundo do cinema, Streep fez questão de triunfar também na televisão e na música. Na televisão obteve o reconhecimento através da minissérie "Holocausto” (1978), premiada com o seu primeiro Emmy Awards e vinte seis anos depois, com “Angels in America”, conquistaria o segundo.
                A década de 90 não traz prémios mas ninguém esquece filmes como “A Casa dos Espíritos” (1993) ou “Rio Selvagem” (1994).
                Provando toda a sua versatilidade, Meryl Streep regressa em força depois de fazer cinquenta anos e em várias frentes.
                A sua atuação em “The Hours” (2003) arrecada o galardão de melhor atriz em Berlim, no mesmo ano em que lhe é atribuído o Globo de Ouro de melhor atriz em filme dramático pela sua performance em “Adaptação”. Do drama para a comédia, mas sempre com a mesma superior qualidade, conquista novo Globo de Ouro em 2007 com “O Diabo veste Prada”.


                Aos sessenta anos, Meryl Streep estava melhor do que nunca. Não precisava de mendigar papéis nem de perdê-los para Madonna como aconteceu com o filme “Evita”. A meca do cinema curvava-se novamente perante a senhora Streep e atribuía-lhe novo Óscar pela asua atuação em “A Dama de Ferro”, onde encarnou a ex-primeira-ministra britânica Margaret Thatcher.
                Quem a vê na tela em “A Dama de Ferro” tem dificuldade em perceber que se trata da mesma atriz que quatro anos antes cantava, dançava e faturava milhões de dólares no mega sucesso “Mama Mia”.
                Apesar de toda a fama e riqueza, Meryl Streep mantém alguns traços humildes e enternecedores. É ela que faz as compras no supermercado, que cozinha e atende os telefonemas. Na sua vida, a família teve sempre um papel decisivo: aceitou e rejeitou papéis em função da proximidade dos filhos e marido. Teve quatro filhos enquanto filmou mais de cinquenta filmes e amou os dois homens da sua vida duma forma bela e quase poética. Suplantou a morte (por doença) do primeiro e encontrou Don, com quem está atualmente casada e cuja importância não deixou de vincar há pouco tempo atrás, na noite em que recebeu o seu terceiro Óscar: “Primeiro eu gostaria de agradecer ao Don, porque quando se agradece ao marido no final do discurso, eles aumentam o volume da música e eu faço questão que ela saiba que tudo o que eu valorizo na vida foi ele que me deu.”.
Gabriel Vilas Boas