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sábado, 31 de maio de 2014

GRACE KELLY


        Quando casou o com o príncipe Rainier do Mónaco, Grace Kelly parecia ter concluído um dos muitos contos de fadas do cinema. Ela que foi uma das maiores personificações da máquina de sonho de Hollywood.
         Entre as muitas rainhas coroadas de Hollywood, Grace foi a única princesa verdadeira. Sentou-se no trono do principado do Mónaco em 1956, depois de ter casado com o príncipe Rainier, que conhecera na Riviera, durante as filmagens de "Ladrão de Casaca" de Alfred Hitchcock, em que contracenava com Cary Grant.
      Nessa altura, Grace já tinha ganho um Óscar de melhor atriz, o único da sua carreira, pela interpretação no filme "Para Sempre" (The Country Girl, 1954), de George Seaton.
    Embora inesperada, a estatueta era a compensação por uma carreira curta mas fulgurante, iniciada havia catorze anos com um papel secundário em 14 Horas de Henry Hathaway.
      Grace foi a mulher maltratada por Cary Grant no memorável western “O comboio apitou três vezes” de Stanley Kramer. Foi também convidada por John Ford a viajar até África, onde assumiu o terceiro vértice dum triângulo amoroso completado por Ava Gardner e Clark Gable em "Mogambo" (1953).
      Mas foi com Hitchcock que a atriz mais se notabilizou. Ficou célebre a cena em que mata à tesourada o assassino profissional que o marido (Ray Milland) contratara para a liquidar, em "Chamada para a Morte" (1954).


             Ainda com o mestre do suspense, Grace Kelly entrou em "Janela Indiscreta" (1954), no papel de uma mulher tão bela como remota e enganadora.
               Nesta altura, Grace tinha atingido o ponto alto da sua carreira, que ela iniciara a conselho dum tio argumentista. Começou por fazer publicidade para televisão e depois foi modelo para pagar o curso de representação.
            Bing Crosby e Frank Sinatra contracenaram com a princesa em "Alta Sociedade" (1956), remake musical da famosa comédia de George Cukor, "Casamento Escandaloso" (1940).
            Grace Kelly terminou a carreira em 1956, no filme "O Cisne", para se dedicar exclusivamente ao príncipe Rainier, à família e ao principado.
 Morreu em 14 de setembro de 1982, na sequência de um desastre de automóvel. Tinha 53 anos.
 Há poucas semanas estreou no festival de Cannes, em França, o filme “Grace do Mónaco”, realizado por Olivier Dahan, com Nicole Kidman no papel de Grace Kelly. O filme esteve envolto em polémica, pois os filhos de Grace Kelly declararam que o filme não retrata com fidelidade a vida da mãe e pediram que o argumento fosse reescrito, mas tal não sucedeu, instalando-se um evidente mal-estar entre o principado do Mónaco e o realizador. Infelizmente, este filme não tem qualidade suficiente para fazer jus ao brilho com que Grace Kelly viveu.  
Gabriel Vilas Boas





sexta-feira, 30 de maio de 2014

A ARQUITETA ZAHA HADID


Esta semana irei falar sobre arquitectura no feminino. Não sei se já se deram conta, mas existem poucas ou quase nenhumas arquitectas famosas. Talvez a razão para este fenómeno, seja ainda o facto de, tradicionalmente, esta área ligada à construção ser de “cariz” masculino, apesar do número de arquitectos/as ter a mesma expressão. A contrariar esta evidência destaca-se Zaha Hadid com as suas obras espectaculares, onde consegue moldar as formas obtendo uma plasticidade e “moldabilidade” sem entrar em conflito com os materiais.

 Zaha Hadid nasceu no Iraque em 1950, formando-se em Matemáticas na Universidade Americana de Beirute, no Líbano, tendo-se formado posteriormente em arquitectura na Architectural Association, em Londres. Começou a sua carreira profissional nos princípios dos anos setenta, a trabalhar no gabinete de arquitectura Office Metropolitan Architecture (OMA), com os seus professores, Rem Koolhaas y Elia Zenghelis.
Em1979 inaugurou o seu próprio gabinete de arquitectura, onde começou a definir o seu estilo, com construções de volumes aguçados e arrojados, que giram à volta de eixos excêntricos mas formando conjuntos unificados.
Zaha Hadid é uma arquitecta controversa, cujos projectos parecem muitas vezes desafiar as leis terrestres, por serem tão audaciosos e radicais. Desenhou e projectou durante vários anos sem conseguir que fosse construído um único edifício. Só em 1992, conseguiu que fosse edificado o seu projecto do Vitra Fire Station,  Weilam Rhein, Alemanha (1993).





Foi preciso esperar mais 10 anos para ver construído o seu projecto para a Terminal Hoenheim-Northe Estacionamento, Estrasburgo, França (2002), pelo qual recebeu o prémio de Arquitectura Contemporânea da União Europeia, Mies Van Der Rohe (2003)






 



Segundo Zaha Hadid, nada substitui o desenho, embora agora a concepção seja assistida por computador. Graças a ele consegue realizar verdadeiramente o que tinha imaginado ao desenhar sobre papel, porque não se trata do poder da mão, mas sim do das ideias.
Os edifícios de Zaha Hadid dão a impressão de aterrarem no solo, ao contrário dos clássicos que parecem erguer-se deste. Identifica-se com a corrente desconstrutivista da arquitectura, com uma obra que destaca o desenho não linear, a manipulação das superfícies e a distorção de elementos arquitectónicos.
A arquitecta Zaha Hadid foi a primeira mulher a receber o prémio Pritzker, o nobel da arquitetura, em 2004, e em 2005 foi nomeada membro honorário da Royal Academy of Arts de Londres.

Os seus projetos estão presentemente construídos em 44 países, tais como:

 Phaeno Centro de Ciências, em Wolfsburgo, Alemanha - o edifício surge na envolvente como um elemento de conexão entre as duas zonas da cidade, estabelecendo uma relação directa com a mesma e o movimento que a atravessa. 


 



 Centro Cultural Heydar Aliyevfue, em Baku, Azerbaijão - o centro cultural acolhe um centro de conferências, museu, salas de exposições e oficinas.

 


 Museu Riverside dos Transportes em Glasgow, Inglaterra -  a frente marítima simboliza a relação entre Glasgow e a construção naval. As suas fachadas de vidro transparente permitem que a luz ilumine o espaço principal da exposição.
 



 Pavilhão Ponte Expo'08 em Zaragoza, Espanha - é a entrada principal da Exposição internacional de Zaragoza, do verão de 2008, dedicada à água. Trata-se de um impressionante e inovador edifício horizontal, com 270 m de comprimento, cuja estrutura pretende imitar a forma de um gladíolo estendido sobre o rio Ebro.


 



Galaxy Sohoem Pequim, China - o projecto do centro comercial cobre uma superfície de mais de 330 mil metros quadrados, as formas curvas dos quatro volumes independentes, com uma altura máxima de 67 metros e unidos por passarelas, transmitem a ideia de movimento e fluidez. Inspirada na arquitectura tradicional da china, a distribuição do conjunto organiza-se em torno de grandes pátios interiores na procurada continuidade dos espaços abertos.





O Museu Nacional de Arte do Século XXI (MAXXI) em Roma, Itália - tem como conceito um “campus urbano”, é uma mistura do edifício tradicional e os espaços interiores que se ampliam para poder incluir a cidade inteira.















Teresa Beyer

quinta-feira, 29 de maio de 2014

DA ARTE, DA PINTURA, DE ACÁCIO LINO

Acácio Lino, 1878-1956

Ainda este ano, o meu amigo Manuel de Sousa, autor da página do Facebook Porto Desaparecido, que eu recomendo vivamente, organizou para os meus alunos um percurso pedestre pela cidade do Porto, Património Mundial da Humanidade. O dia estava belíssimo e o passeio, temperado pelas intervenções brilhantes do meu colega dos bancos da faculdade, agradou. A zona histórica da cidade é deslumbrante e recheada de segredos inesperados; foi assim que depois da visita à estação de S. Bento, rica pelos seus painéis de azulejo, entrámos na pastelaria Serrana. Esta visita não estava prevista no guião mas o Manuel de Sousa insistiu, dizendo que iríamos gostar, uma vez que o grande grupo era amarantino"tal como o autor da tela que decora este estabelecimento."- Disse.
 De facto, o belo espaço interior contrastava com a fachada do que parecia ser uma simples confeitaria da rua do Loureiro. E o seu teto absolutamente único destacava-se porque decorado por uma tela de Acácio Lino, encomendada em 1912 para a Ourivesaria Cunha, famosíssima nos inícios do séc. XX.

Tela centenária de Acácio Lino, Pastelaria Serrana, Porto

Este nosso conterrâneo, formado na Escola de Belas–Artes do Porto, natural de Travanca, Amarante, onde nasceu em 1878,deixou a sua marca um pouco por todo o lado. Aluno de Marques de Oliveira e colega naquela escola de Aurélia de Sousa e de António Carneiro, terminou a sua formação com distinção. Viajou até Paris uma vez que havia ganho uma bolsa com a pintura “Camões junto ao túmulo de Natércia”.

Destacado naturalista mas também exímio na pintura histórica, podemos encontrar as suas telas no Museu Grão Vasco, no Museu Nacional Soares dos Reis ou no Museu José Malhoa. O Palácio de S. Bento abriga também a Sala Acácio Lino que serve de gabinete de trabalho a um dos grupos parlamentares que acede sempre de forma solícita a que os meus alunos a visitem, de cada vez que nos deslocamos a Lisboa.

Pintura mural, Batalha de S. Mamede, Sala Acácio Lino, Palácio de S. Bento


O Museu Amadeo de Souza-Cardoso dedica-lhe uma sala e a mais recente Casa Museu Acácio Lino, em Travanca, é também um espaço de excelência onde o nosso encontro com aquele artista pode ser bastante produtivo.
Dele aprecio sobretudo a sua faceta naturalista. Não vou hoje dissertar sobre esta corrente ou escola. Apetece-me apenas deixar-vos com algumas das obras deste amarantino e colori-las com alguma poesia. Não que elas tenham amarelecido com o tempo, num desmaio inoportuno. Apenas porque entendo que poesia combina com pintura. E porque, para mim, estes versos de Henrique Monteiro vem a calhar: coroam as paisagens sonhadas por Lino e transportadas em pinceladas seguras de mestre para telas inesquecíveis, que não devemos ignorar.

Acácio Lino, Paisagem com rio,1922,óleo s/tela


 1.

Que é
da ternura fluvial
do verão,
do entardecer das aves
de lume carregadas?

Que é
do silêncio verde
de teus olhos,
dos areais de esperança
a sul do esquecimento?

Que é
Do fulgor das naves?
Que é
do secreto vento?
Henrique Monteiro, Poemas do Rio Sem Viagem, in Cadernos do Tâmega



Acácio Lino, Entardecer, 1916, óleo sobre madeira


2.
Que é
desse vento,
amor,
de que falavas?

Em que
colina
acesa
em que
giesta
ardente
adormeceu?

Que é
desse vento,

amor?
Henrique Monteiro, Poemas do Rio Sem Viagem, in Cadernos do Tâmega
(continua)

Rosa Maria Alves da Fonseca




quarta-feira, 28 de maio de 2014

O ROMÂNICO EM AMARANTE (V)

(continuação)
Torres e Campanários
Construídas em granito aparelhado, as igrejas românicas apresentam um aspecto sólido, de quase fortaleza, aspecto ainda realçado pela espessura das paredes e pela ausência de grandes aberturas, que são substituídas por pequenas friestas, que nos castelos da época tomam o nome de seteiras!
Este aspecto também se justifica, com o facto de sua construção ser contemporânea da reconquista cristã e por vezes estas igrejas servirem à função de defesa das populações!
Esta função defensiva está patente na existência de algumas torres que, pelas suas características e dimensões, não são meros ornamentos, nem construções para albergar em exclusivo, os sinos! Na Idade Média a torre era entendida como símbolo de segurança e não existindo castelo, a Igreja era a melhor e mais resistente fortaleza!
Em Amarante são exemplo do que foi afirmado, as igrejas de, Freixo de Baixo, Travanca e Mancelos que integram torres que terão servido à eventual defesa das populações e propriedades dos mosteiros. As torres de Travanca e Mancelos apresentam mesmo merlões e ameias à maneira dos castelos medievais!
Torre e Igreja de Freixo de Baixo


Torre da Igreja de Mancelos

Torre e Igreja de Travanca
Quando não servem à função de defesa, essas torres apresentam uma estrutura mais modesta e servem em exclusivo para a colocação dos sinos!
Os sinos revestiam-se de importância relevante para os mosteiros e para as populações locais, na medida em que a igreja católica define tradicionalmente as horas canónicas, com duração diferente da hora convencional, mudando conforme a estação e a região. Os sinos serviam de orientação na vida dos mosteiros e das populações cristãs medievais.
O dia canônico começa à zero hora (Matinas). Às 3h00, são as Laudes; às 6h00 as Primas (início das missas públicas); às 9h00, as Terças (oportunidade da missa solene); ao meio-dia, as Sextas, seguindo-se às 15h00 as Nonas, às 18h00 as Vésperas e às 21h00 as Completas”

Os sinos assinalam as horas das celebrações, das orações, momentos de dor e de alegria e as festas das comunidades.
Daí a relevância que assumiam as torres sineiras e campanários nas igrejas medievais desde as mais sumptuosas às mais modestas!
As modestas igrejas românicas do nosso concelho, todas têm uma torre sineira adossada ou separada do corpo da igreja e construídas segundo os padrões românicos, com dois arcos de volta perfeita que abrigam os sinos!
Lufrei- A empena da fachada principal é interrompida por dupla sineira, erguida ao modo românico

 Igreja de Real- torre sineira de claro sabor românico

 Igreja de Gondar - O campanário segue o modelo das sineiras românicas: Dois arcos de volta perfeita que abrigam os sinos.


Igreja de Jazente – Torre sineira de modelo românico, não adossada à igreja 

Torre sineira de Gatão- Dois arcos de volta perfeita e encimada por pináculos piramidais como a de Gondar.


(continua)

António Aires

terça-feira, 27 de maio de 2014

AUTO DA BARCA DO INFERNO



O Auto da Barca do Inferno de Gil Vicente é a peça de teatro mais conhecida, mais estudada e das mais importantes do teatro português.
Tal facto deve-se, em grande parte, a ser ensinada nas escolas portuguesas, de modo obrigatório, há muitos anos. No entanto, isso apenas serve para confirmar o seu grande valor cénico, literário, histórico e sociológico.
Na minha opinião, o Auto da Barca do Inferno, escrita em 1517 por Gil Vicente, triunfa, em grande medida, por acertar plenamente naquilo que deve ser a função do teatro: intervir socialmente e divertir o público. Quando essa combinação é feita na dose certa (como é o caso), temos um texto dramático que encanta gerações e gerações de pessoas ao longo dos séculos.



No Auto da Barca do Inferno, Gil Vicente crítica a sociedade portuguesa do século XVI através das célebres personagens-tipo, que representavam classes sociais e grupos profissionais. O Fidalgo surge como o representante da nobreza vaidosa, tirana e imoral que despreza os humildes; o Onzeneiro representa a burguesia materialista e gananciosa; o Frade aponta aos defeitos do clero medieval e renascentista: mundano, imoral e dedicado aos prazeres da vida; o Corregedor e o Procurador ilustram o aparelho judicial parcial, corrupto e subornável; a Alcoviteira simboliza a vida imoral, hipócrita e mentirosa que grassava em grande parte da população; o Sapateiro lembra todos aqueles que se assumiam como católicos mas que não praticavam a verdadeira religião.
Depois temos a personagem do Parvo que se encarrega de trazer a diversão à peça de mestre Gil. Grande parte do cómico de linguagem sai da sua boca.
Outro aspeto muito saliente nesta peça do tempo dos Descobrimentos é a maneira como se usa a ironia. Ela tanto serve para criticar com classe, como para fazer rir ou apenas sorrir.
Apesar da peça retratar com acutilância a sociedade portuguesa da primeira metade do século XVI, a sua temática tornou-se intemporal e universal, porque os defeitos daquelas personagens-tipo são mais do que pecados típicos de classes sociais ou grupos profissionais, são defeitos do ser humano. Por isso, hoje, podemos encontrar outros “tipos” a quem aquele fato serve na perfeição. O banqueiro, o político, a vedeta de televisão…



Não é uma ousadia afirmar que através do Auto da Barca do Inferno vemos mais do que uma época histórica, observamos o ser humano perante as suas fraquezas típicas: o poder, o dinheiro, o prazer.
Percebemos ainda que há povos, como o judeu, que ainda hoje são aceites com alguma relutância e anotamos o decréscimo de importância da religião cristã na vida das pessoas.
Não podemos deixar de assinalar também a qualidade literária do texto, na profusão e variedade de recursos estilísticos, nos jogos de palavras, na riqueza e variedade dos registos de língua. Tudo isto construído com uma língua em mutação e com uma literatura ainda incipiente… há quase quinhentos anos.
Quanto à relevância cénica da peça é por demais evidente. Na época representou um grande avanço, sobretudo no tratamento das personagens. Hoje constitui uma referência para enquadrar os mais novos nas especificidades do texto dramático.
O Auto da Barca do Inferno é uma estrela brilhante no firmamento do teatro português que, com o passar dos anos, adquire um brilho cada vez mais intenso.

Gabriel Vilas Boas


  

segunda-feira, 26 de maio de 2014

AO SOM DE... FERNANDO LOPES-GRAÇA

Fernando Lopes-Graça nasceu em Tomar em 1906. Frequentou o Conservatório de Música de Coimbra e o de Lisboa, tendo sido aluno de Tomás Borba, Luís de Freitas Branco e José Vianna da Motta. Terminou com a nota máxima o Curso Superior de Composição.
O entusiasmo pela música começou na infância, quando o seu pai comprou um hotel onde havia um piano, que desde logo encantou Fernando Lopes-Graça. É nesse piano que o pequeno Fernando vai tocando e mostrando as suas habilidades, até que um hóspede se apercebe das qualidades da criança e propõe ao pai um professor de piano para o seu filho. O pai concordou com as aulas de piano e assim o futuro de Fernando Lopes-Graça se traçou para sempre, pois os dotes do jovem para a música eram por demais evidentes.
Por ser contra o regime político vigente, foi perseguido durante o Estado Novo, o que o obrigou a passar grandes dificuldades, pois não conseguia colocação como professor. As suas músicas foram proibidas e os direitos de autor não lhe eram reconhecidos. Foi preso pela PIDE várias vezes, passando pelas prisões do Aljube e de Caxias. Quando foi libertado, partiu para Paris onde se exilou e onde se dedicou aos estudos de composição. Ao regressar a Portugal, inscreveu-se no Partido Comunista Português e fundou o Coro da Academia dos Amadores de Música. Este coro interpretava as Canções Heróicas e as Canções Regionais Portuguesas de Lopes-Graça, mas mais uma vez por questões políticas, o coro ficou inativo durante alguns anos, pois o maestro foi impedido de o dirigir. No entanto, as canções continuaram a ser cantadas em encontros clandestinos e nos países onde se encontravam os portugueses.
Conheceu Michel Giacometti, o etnógrafo francês que fez uma recolha de música tradicional portuguesa de norte a sul do país. Os dois analisam e classificam todo o material recolhido. Algumas das músicas foram harmonizadas e interpretadas pelo coro dos Amadores de Música de Lisboa.
No dia 25 de maio de 1974, um mês após a revolução, Lopes-Graça e o seu coro sobem ao palco do Coliseu para uma noite memorável onde se encontram muitos daqueles que acabavam de regressar do exílio e da clandestinidade.
Morreu em Cascais, com 87 anos, depois de ter sido agraciado com a Ordem de Santiago da Espada e a Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique, pelo precioso contributo que deu à música nacional.
Jornada é, das músicas para coro, uma das mais conhecidas. Faz parte das Canções Heróicas e foi composta por volta de 1945. O poema é de José Gomes Ferreira. 
Margarida Assis

domingo, 25 de maio de 2014

A VIDA É BELA


No final do ano de 1997, o mundo do cinema era surpreendido pela comédia/drama tocante do italiano Roberto Benigni – LA VITA È BELLA. Quase duas décadas depois, o filme é citado por muitas pessoas como um dos filmes que mais as marcaram durante a vida.
Roberto Benigni realiza e protagoniza um filme comovente sobre a vida do judeu Guido e do seu filho Giosué, que durante a Segunda Guerra Mundial, em Itália, são levados para um campo de concentração nazi. Afastado da mulher, ele tem que usar a sua imaginação para fazer o menino acreditar que ambos estão a participar apenas numa grande brincadeira, com o intuito de protegê-lo do terror e da violência que os cercam.
Guido, que sonhava ter uma livraria, e o amigo e poeta Ferruccio mudam-se do campo para Arezzo, uma pequena cidade na Toscânia (Itália). Divertidos e inocentes, os dois procuram fortuna e romance, ignorando a onda de anti-semitismo que percorre a Europa. Guido apaixona-se por Dora (Nicoletta Braschi – esposa de Benigni) e, depois de uma série de equívocos bem-humorados, os dois acabam por casar. Anos mais tarde, Guido já tem a sua livraria e vive feliz ao lado da sua Dora e do seu filho Giosué. Exatamente no dia do aniversário do pequeno Giosué, a família é detida pelas tropas alemãs e enviada para um campo de concentração.



A partir daí é a luta de Guido para ter forças para executar trabalhos forçados (se fosse considerado inútil, o mais certo era ser executado); encontrar formas de contactar com a mulher, detida noutra parte do campo; manter o filho vivo e, mais importante de tudo, convencê-lo que tudo aquilo que se estava a passar não era mais do que um elaborado concurso cujo primeiro prémio era... um tanque de guerra.

O desempenho de R. Benigni foi assombroso e valeu-lhe o óscar de melhor ator em 1999. Benigni é dotado dum sentido de humor inato que cativa crianças e adultos ao mesmo tempo. Explora o ridículo com ternura e torna mais leves questões tão duras como a estupidez da guerra ou os campos de concentração nazis.

O filme, que Benigni teimou manter em italiano (antes dele só um filme italiano tinha alcançado prémios internacionais), arrecadou vários prémios enquanto melhor filme estrangeiro: venceu o César em França, o Goya em Espanha e recebeu o Grande Prémio do Júri de Cannes. Foi merecido o louvor de diversas comunidades de críticos de cinema. No entanto, o maior reconhecimento veio da parte do público que encheu salas de cinema por toda a Europa para ver a comédia dramática deste italiano que filmou um hino à vida e ao amor incondicional.

           O título do filme, que Benigni foi buscar a uma citação de Trotsky quando aguardava a morte no exílio (“apesar de tudo, a vida é bela”), é uma lição de vida para todos nós que um dia descremos de viver. A vida é bela porque comporta esperança, alegria, amor. E, como Benigni demonstra ao longo da película, isso é possível até no meio das circunstâncias mais difíceis e mais cruéis, como foi o caso do holocausto e da Segunda Guerra Mundial.
O final de LA VITA È BELLA deixa-nos com as lágrimas nos olhos, pois o espectador é invadido simultaneamente por fortíssimos sentimentos de tristeza e felicidade que o emocionam com ternura.   
E quando revemos alguns anos depois este filme é impossível não ficar rendido à maravilhosa banda sonora, que Hollywood premiou, e pensar por que andamos constantemente ansiosos e preocupados, quando a VIDA É TÃO BELA e cada dia traz uma nova oportunidade?
Gabriel Vilas Boas

sábado, 24 de maio de 2014

CHAMPIONS LEAGUE IN LISBON



Dez anos depois a magia do melhor futebol europeu regressou a Lisboa. Há dez anos atrás foi o EURO 2004, com essa tragédia grega na final que Portugal devia ter ganho, depois daquele jogo memorável contra Inglaterra em que vencemos nos penaltis. Agora é a final da Champions League entre duas equipas espanholas: o Real Madrid e o Atlético de Madrid.
As duas equipas mais importantes de Madrid procuram a glória futebolística em… Lisboa. Os adeptos madrilenos trouxeram para a capital portuguesa a sua paixão pelos seus clubes e pelo futebol. Invadiram Lisboa com as suas cores, a sua alegria e a ilusão de viverem a festa da vitória.
          Durante dois dias os espanhóis encheram os restaurantes e os hotéis da capital portuguesa, pagando generosamente aquilo que a gula dos portugueses quis pedir. A quase tudo disseram que sim. Vieram mais de 100 mil para um recinto onde só cabem 65 mil. Infelizmente, a UEFA guarda cerca de 40% dos bilhetes para amigos e patrocinadores, ignorando os adeptos que tornam este jogo tão irracionalmente apaixonante.
             Os portugueses viveram este jogo de forma especial. Não apenas porque ele se disputava em Lisboa, mas porque no Real Madrid jogam os “nossos” Ronaldo, Fábio Coentrão e Pepe, enquanto do lado do Atleti atua Tiago. O Atlético procurava a sua primeira Champions League, já o Real Madrid tentava ganhar a mítica décima. Dez vitórias na prova mais importante da UEFA confirmavam o Real como o maior clube do mundo.

            O jogo não foi um primor na arte de bem jogar futebol, mas teve tudo o que uma final deve ter: adeptos entusiasmados, equipas a dar o melhor de si, incerteza no resultado até ao fim, uma equipa quase a conseguir levar a taça (Atlético de Madrid), outra a lutar e a conseguir empatar o jogo e forçar assim o prolongamento (Real Madrid). Incerteza, nervos, um golo nos descontos e… mais trinta minutos de jogo. No prolongamento, a equipa de Ronaldo foi mais forte e marcou três golos, vencendo o jogo por 4-1. Ronaldo, mesmo não deslumbrando, como o fez Angel Di Maria, acabou por marcar o golo final.
            O estádio inteiro em delírio aplaudiu os vencedores e honrou os vencidos que lutaram até ao limite das suas forças.  

              A desejada décima vai morar em Madrid. O Clube de Di Stefano, Gento, Puskas, Butragueño, Hugo Sanches, Raul Gonzalez e… Cristiano Ronaldo, o português que os madrilenos veneram, atingia a glória em Lisboa. E não foi porque nos conquistaram. Eles apenas conquistaram a Champions League. Assim podemos beber um copo com eles e alguns até dirão Hala Madri!

Gabriel Vilas Boas  

sexta-feira, 23 de maio de 2014

A SAGRADA FAMÍLIA DE GAUDÍ


O MAIS IMPRESSIONANTE MONUMENTO DA FÉ
A Sagrada Família, templo católico de Barcelona, é um grandioso monumento aos símbolos.
O seu arquiteto, Antoni Gaudí i Cornet (1852-1926), foi um dos máximos representantes da Art Nouveau e do Modernismo. A construção da igreja da Sagrada Família ocupou-lhe os últimos 43 anos de vida, mas morreu sem ver o seu sonho terminado.
A ideia de fazer o monumento partiu de José Maria Bocadella Y Verdaguer, que iniciou o projeto com o arquiteto da diocese, Francisco del Villar, em 1882.
A Sagrada Família começou por ser uma construção neogótica, desenhada segundo as formas mais convencionais. Mas os dois homens não se entenderam e, em 1883, Bocadella lembrou-se de convidar Juan Martorell que, por sua vez, indicou o seu jovem assistente de 31 anos, Gaudí.
O jovem arquiteto entregou-se por completo ao projeto e só fez uma exigência: completa independência artística.


Aos poucos, a Igreja da Sagrada Família mudou de face. Gaudí deu-lhe cor, concebeu as torres circulares, preocupou-se com as entradas da luz e com o isolamento do ruído. Depois decorou-a com cenas da vida de Cristo e com símbolos dos portais, que representam a fé, o amor e a esperança.
Quando o arquiteto catalão morreu (num hospital de pobres, depois de ter sido atropelado), a obra ficou incompleta. Ainda não está terminada. Atualmente, estão terminados os portais da Natividade e da Paixão e foi iniciado o portal da Glória, estando em construção as abóbodas interiores.
Segundo a vontade de Gaudí, o interior da Sagrada Família devia ser iluminado à noite como uma manifestação da vontade de Cristo: Eu sou a luz do mundo.
A obra realizada por Gaudí – a fachada da Natividade e a Cripta – foi considerada pela UNESCO, em 2005, Património da Humanidade.


Gabriel Vilas Boas

quinta-feira, 22 de maio de 2014

DA ARTE, DA PINTURA, DE PIET MONDRIAN

Piet Mondrian, Auto-Retrato,1918
Óleo s/tela,88x71cm
Haia, Haags Gemeentemuseum

Nem sempre é fácil escolher um tema para conversar convosco neste encontro semanal. O mote desta vez foi dado por umas das minhas alunas, a Raquel. Interessada e atenta, fã de Pollock, de Mondrian e da arte em geral, dotada de um espírito crítico que não dá tréguas, numa das últimas aulas, trouxe-me para que eu visse, um livro sobre Mondrian que havia comprado e que recomendava.
Satisfeita porque me agrada sempre ver o interesse que os meus alunos devotam à disciplina, folheei-o com prazer. Os livros de Arte são únicos: é o toque do papel sedoso, as palavras que desvendam segredos, o cheiro, o encanto da cor. Neste que pude apreciar sem pressas, admirei as flores de Mondrian, as suas paisagens coloridas, a temática recorrente dos moinhos, as impressões noturnas em cromatismos expressivos que me surpreenderam e também deliciaram a todos. Afinal, numa viagem pelo tempo em que a autora Susanne Deicher nos transportou, observei diante de mim dois Mondrian: um, apenas holandês, guardião fiel de memórias e das cores de Rembrandt e de tantos outros, em busca constante da perfeição pictórica; o outro, envergando vestes parisienses, inovadoras, numa construção muito pessoal e peculiar, admirador de Picasso e de Braque, de quem busca o traço e a paleta quase monocromática.
Mondrian, nascido em 1872, em Amersfoort, uma cidade holandesa como tantas outras, encantada ainda com o esplendor do seu século de ouro, o séc. XVII, afirmava categoricamente querer tornar clássica a pintura moderna, para ele só comparável “à arquitetura dos gregos antigos”. Desejava combinar a tradição com o novo, fazendo da arte abstrata uma continuação da grande pintura dos séculos passados.
Interessou-se pelo tema da paisagem, na senda da tradição holandesa. As suas flores deliciavam protestantes que desejavam e pagavam por uma arte naturalista. Vincent Van Gogh serviu-lhe igualmente de inspiração, experimentando impressões noturnas, criando nas suas telas mundos novos, artificiais, distantes já da realidade envolvente.
Mas a sua partida para Paris transfigura-o. O Mondrian expressionista, simbolista e fauve, dá lentamente lugar a um dos mais radicais abstracionistas do séc. XX.
É assim que Mondrian se liberta da realidade e da figuração e conduz o cubismo até aos caminhos da abstração pura. Para trás ficam as flores de Mondrian, as paisagens, as vistas noturnas. Sobretudo, as flores, de que tanto gosto e que não resisto, aqui, a partilhar. Mas até elas sofrem contornos de modernidade à medida que Mondrian apura o seu estilo e caminha por veredas que o transportam para as desejadas vanguardas.


Piet Mondrian, Crisântemo, Aguarela sobre papel,
Nova Iorque, Coleção Sidney Janis
Piet Mondrian
Rosa num Copo, Aguarela sobre papel
Haia, Haags Gemeentemuseum

Profundo admirador de Picasso, cujas obras viu expostas em Amesterdão em 1911,e sob o impacto do Cubismo Analítico, Mondrian elabora nos tempos que se seguem um estilo a que vai chamar Neoplasticismo. Este movimento artístico holandês não se resumia à pintura. Englobava também a arquitetura, o design e a literatura, pelas mãos da revista De Stijl (O Estilo),onde Mondrian e Theo van Doesburg publicaram os seus pensamentos acerca do movimento e da Arte. Pioneiro da abstração geométrica, submete-se rapidamente à disciplina rigorosa da linguagem cubista. O Neoplasticismo, também conhecido pelo nome “De Stijl”,é abstração completa, limitação à linha e ao ângulo reto; limitação às três cores primárias -azul, amarelo e vermelho -em conjugação com as três não -cores- o branco, o cinza e o preto.


Piet Mondrian, Auto-Retrato,1918
Óleo s/tela,88x71cm
Haia, Haags Gemeentemuseum


A fase final da sua obra teve por cenário Nova Iorque, cidade que o tocou profundamente pela modernidade evidente da sua arquitetura e do seu traçado retilíneo e ortogonal. Deixo-vos com as telas desta fase final: Nova Iorque, Brodway Boogie-Woogie e Vitory Boogie-Woogie. Aqui, o domínio do homem sobre a Natureza é perseguido e talvez conseguido.

New York City, 1942
Óleo s/tela
Centro Georges Pompidou


Piet Mondrian, Broadway Boogie-Woogie, 1942
Oleo sobre tela, MoMA, Nova Iorque, EUA
Victory Boogie-Woogie, 1944, óleo s/tela
Coleção particular

















 Espero que gostem. Eu, devo confessar, tive de aprender a gostar. Com a idade, o gosto também se apura.
E agora, para animar um pouco a vossa leitura e trazer musicalidade à vossa fruição, fiquem com um “Boogie-Woogie”.

Rosa Maria Alves da Fonseca