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segunda-feira, 31 de março de 2014

AO SOM DE... IGOR STRAVINSKY

Com a entrada da primavera na semana passada, no mesmo dia em que se celebrava a poesia e o dia da floresta, lembrei-me de ouvir e dar a ouvir A Sagração da Primavera, do compositor Stravinsky.
Igor Stravinsky nasceu na Rússia em 1882 e morreu nos Estados Unidos, em 1971. Começou os estudos de piano aos oito anos,foi aluno de Rimsky-Korsakov e tornou-se, para além de pianista, compositor e maestro.

Igor Stravinsky; retrato de Jacques EmileBlanche; óleo sobre tela; Musée d'Orsay; Paris
Dizem que há um “antes” e um “depois” de A Sagração, obra fundamental do sinfonismo do século XX, pois foi, sem dúvida, a música mais vanguardista do seu tempo. A estreia desta obra em 1913, em Paris, causou as reações mais variadas, mas para a maioria do público presente, tratava-se de um escândalo sem precedentes. Que música era aquela que não obedecia aos cânones da composição feita até então? Que absurdo tão grande, que ousadia apresentar aquela dissonância toda e uns ritmos tão agressivos. Houve assobios, pateadas e insultos. Este era o terceiro bailado que Stravinsky apresentava em Paris, depois do êxito do seu primeiro bailado O Pássaro de Fogo em 1910 e de Petruchka, em 1911, mas só este causou uma reação tão inaudita. Stravinsky estava simplesmente a inovar, usando novas técnicas compositivas, recorrendo a ritmos e harmonias pouco habituais para a época, mas que anos mais tarde viriam a ser novamente utilizadas por si e apreciadas pelos ouvintes.
Nesta altura, em Paris,estavam na moda os Ballets Russes do empresário russo Serguei Diaghilev,que contratava os melhores cenógrafos,coreógrafos e bailarinos para as suas apresentações. Foi Diaghilev que encomendou a  Stravinsky os três bailados que se apresentaram em Paris. O empresário russo rodeava-se dos melhores artistas em todas as áreas, chegou mesmo a contratar Pablo Picasso para a execução dos cenários e desenho dos trajes. O seu coreógrafo de eleição era Fokine e o seu bailarino preferido Nijinski, com quem manteve uma ligação amorosa. Curiosamente, Diaghilev quis que o coreógrafo de A Sagração da Primavera, fosse o bailarino Nijinski, que não estava preparado para tal e denotava uma total ausência de conhecimentos musicais o que nestes casos é importante. Esta situação alterou-se mais tarde com a escolha de outro coreógrafo mais experiente, Massine. No entanto, a primeira apresentação da peça, contou com uma orquestra excelente dirigida por um maestro com muita experiência, Monteux, o que dava todas as garantias em termos de execução musical.
A Sagração da Primavera idealizada por Stravinsky, ilustra um ritual pagão, primitivo, no qual uma jovem dança até à morte, pois foi a escolhida para o sacrifício que irá apaziguar o deus da primavera. A obra divide-se em duas partes; a primeira, A Adoração da Terra e a segunda O Sacrifício. A nova estética musical de Stravinsky contribuiu para criar no ouvinte um efeito surpreendente e inusitado, próprio do movimento modernista a que o músico aderiu.
Para audição, A Sagração da Primavera, de Igor Stravinsky.
Margarida Assis

domingo, 30 de março de 2014

VIAJAR É MUDAR A ROUPA DA ALMA

                De todos os projetos que a vida, atualmente, me apresenta aquele que mais me atrai é viajar.
Viajar com tempo e sem tempo. Viajar para conhecer pessoas, lugares e paisagens. Poder apreciá-las, entendê-las, aprender com elas. Poder apreciar uma paisagem não apenas com a máquina fotográfica; captar a magia dos locais, entender as suas gentes, a sua história e costumes. Sem a fome cega de querer absorver e conhecer tudo, mas, com a serenidade de quem quer apreciar os gestos, a singular maneira de viver dos outros.

Os livros, as fotografias, as televisões permitem ao nosso espírito maravilhosas digressões. No entanto, sinto que se trata dum prazer incompleto. Um homem precisa de viajar por sua conta, não por meio de histórias, livros ou imagens. Necessita de viajar com os pés e com os olhos, para entender por si, para entender o que é seu e também o que não é.
Um escritor sul-americano escreveu um dia que “Morre lentamente quem não viaja…”. Não podia estar mais de acordo. Viajar é a grande oportunidade que temos de derrotar a solidão. Na viagem, a alma muda de roupa e procura a felicidade.    
Contudo é preciso perceber que viajar é muito mais que calcorrear sítios, fazer check-in em aeroportos, colecionar carimbos no passaporte. É predispor o espírito e o corpo para aprender. Fazer concessões, não formular juízos nem impor a nossa visão do mundo e das coisas. Por vezes, é mesmo preciso despir a alma de preconceitos. Mas dificilmente não teremos retorno. Um imenso prazer de viver será apenas um dos prémios de quem viaja. Há ainda o encontro com a beleza, com o conhecimento e connosco. Talvez a mais rica de todas as recompensas, porque nos trará a felicidade.

                Viajar é um projeto que não acaba. Torna-nos senhores do Tempo, cidadãos de diferentes gerações e latitudes. Quando acharmos que nada mais temos a fazer na vida, quando pensarmos que os revezes da fortuna nos deixarão cruelmente despidos, Viajar é uma forma de recomeçar, de nos dar coerência. Podemos ir longe ou perto, até porque a bolsa não é igual para todos, mas temos de ir. Como diria o poeta, o importante é partir. Depois há um mundo por descobrir: as cidades cosmopolitas, as montanhas misteriosas, a solidão dos desertos, os mistérios de povos e culturas, o medo, a adrenalina, a descoberta. Por vezes, também a desilusão e o vazio.
Viajar é viver… lentamente… saborosamente.

Gabriel Vilas Boas

sábado, 29 de março de 2014

MOMENTOS DE GLÓRIA

Verdadeiramente memorável: a história colocada em filme, a realização, o desempenho dos atores.
Momentos de Glória relata a história de dois jovens: um protestante escocês, filho de missionários, e um judeu estudante em Cambridge. Ambos eram heróis do mais formal país do mundo nos Jogos Olímpicos de Paris, 1924 – a Inglaterra.
                Este extraordinário filme britânico, belíssimo na abordagem, parte duma história verídica e evoca os tempos em que os homens podiam pensar em ganhar, contando apenas com a sua enorme força de vontade.



           Momentos de Glória é também o elogio de jovens “párias” que se afirmam numa sociedade inglesa, dominada pelo cinzentismo elitista disfarçado de fleuma, enquanto ainda recuperava das feridas do Primeira Guerra Mundial.
Este é um filme que vale por tudo: pelo que é contado, pelo que é visto (notável realização de Hugh Hudson) e pelo que é ouvido (Vangelis criou uma das melhores bandas sonoras de sempre e que serve de fio condutor a todo o filme).
Mais do que uma história sobre desporto, este filme é uma excelente reflexão sobre a natureza humana. Nele podemos apreciar a magnífica interpretação de Ben Cross, no papel do judeu Harold Abrahams, e de Ian Charleson, interpretando o jovem que se recusa a correr ao domingo devido às suas convicções religiosas. Os dois atores conseguiram performances dignas de nota, juntando a irreverência e generosidade da juventude com a determinação e persistência de quem corre por ideais.  Já o ator Ian Holm, representando o treinador de Abrahams, enche o ecrã em cada vez que aparece. Pragmático e hilariante, mas profundamente humano.
As performances de John Gieldgud e Lindsay Anderson, enquanto professores de Cambridge, também não destoam do nível geral de excelência.
Além do Óscar de melhor filme, Momentos de Glória foi distinguido pela Academia de Hollywood no que toca à banda sonora, ao guarda-roupa e ao argumento original.
Para mim, Momentos de Glória será sempre um dos melhores filmes de sempre da história do cinema, porque mostra o que o desporto tem de melhor para oferecer: capacidade de superação, a luta por ideais, valores; porque define o que deve ser o ideal olímpico; porque tem uma banda sonora que embeleza extraordinariamente a grandiosidade do filme; porque valoriza a amizade; porque me inspira muitas vezes…
Gabriel Vilas Boas.

sexta-feira, 28 de março de 2014

A ÁGUA COMO ELEMENTO ARQUITETÓNICO

A água foi ao longo da história um factor impulsionador e condicionador da paisagem. O homem acrescentou à componente vital e utilitária da água, a simbólica, a religiosa e a estética.
Desde sempre os povos optaram por se fixar em locais próximos da água, preferencialmente água doce. Este elemento é essencial à permanência das sociedades, pois é ele também muitas vezes o motivo para o abandono dos territórios, veja-se o caso dos vales férteis do Nilo.
Já na antiga Babilonia a água era elemento fulcral, com os seus jardins suspensos e a sua complexa rede de canais. A relevância da água está também patente nas culturas como a romana e a árabe.

No processo de humanização da paisagem, revelaram-se importantes as qualidades estéticas, que um elemento como a água trouxe ao desenho paisagístico.

Num desenho urbanístico ou de um jardim, o elemento água pode ocasionar um ponto focal criando profundidade ao espaço ou servir como elemento central na sua composição. Devido às suas propriedades reflectoras, a água é utilizada por exemplo, para dar destaque a um edifício, a uma árvore em particular ou a um elemento escultórico através da sua reflexão num espelho de água.
Se pretendermos reforçar uma sensação de calma e tranquilidade num determinado espaço, podemos recorrer à serenidade da água; por outro lado, o movimento de um pequeno curso de água ou a energia causada pela profusão de água que cai numa cascata, trazem força e vigor à paisagem. No entanto esta profusão, se bem trabalhada, pode criar um som de acalmia.

A sua utilização serve tanto para ciar um ambiente refrescante e recreativo como pode servir de barreira sonora a um ruído desagradável.
Atualmente, o uso da água nos projetos vai muito para além do jardim e acentua-se à escala da paisagem. O paradigma é adequar e equilibrar a intervenção ao local, garantir a continuidade das estruturas ecológicas e culturais.
Os arquitetos também recorrem frequentemente a este elemento não só para climatização dos espaços, visto este ter a função de arrefecimento, mas também o usam para marcar, delimitar ou mesmo para evidenciar um ponto de interesse.

Exemplos:
Fonte – como elemento central na composição de um jardim, pátio ou praça.
Recriação de cascata – pode ser uma recriação da natureza ou então minimalista, com uma simples “lâmina” de água.

Espelho de água – elemento muitas vezes estrutural ou de enquadramento, reflete serenamente o ambiente que o rodeia e o céu.

Canal de água – elemento estrutural e integrador; estabelece a separação/união de áreas e gera percursos.

Lago – pode surgir como elemento principal da composição arquitetónica, ocasiona uma relação natural e ecológica, possibilita a preservação da flora e da fauna aquática.

Teresa  Beyer

quinta-feira, 27 de março de 2014

DIA MUNDIAL DO TEATRO

Hoje é o Dia Mundial do Teatro. De todas as artes é aquela que mais me encanta, qualquer que seja a vertente: escrever, representar, encenar, cenografar, assistir.
No entanto, há que dizer: REPRESENTAR é divino. É viver duas vezes em simultâneo. Através do teatro, o ator faz-nos viver sentimentos de alegria e tristeza, amor e ódio, satisfação e desânimo. E quando ele é bom, o espectador rapidamente esquece que a peça é uma representação e sonha de olhos abertos, ou seja, vive!
                Só por isto o teatro seria magia, mas ele é muito mais. Faz-te pensar/refletir sobre ti, sobre os outros e acerca das relações humanas. Instala-te a dúvida e a angústia até ao impossível, mas depois resgata-te numa tirada imprevista e única que faz gargalhar até doer os músculos e as lágrimas virarem doces.
É o teatro que te torna íntimo de ti e te faz acreditar que a vida é tão complicadamente bela. No palco ou na plateia, apaixonas-te pela vida ou pela parceira do lado que a peça tornou num ser alado e maravilhoso.
Quando representas, não é só o coração que cresce e a alma que engrandece. A tua dicção melhora, os teus gestos ganham generosidade, a tua expressão corporal é eloquente.
Tornas-te um ser social, capaz de atrair amigos e de os divertir, de os ensinar e de os enriquecer. Eles reparam como és feliz e querem ser um bocadinho como tu.
Vives várias vidas entrando no corpo doutras tantas personagens. És tu sendo eles e eles sendo tu. Ficas a conhecer os outros quando lhes dás vida no palco. Enquanto fazes isso, aprendes a amar a escrita, a deliciar-te com a música e a compreender o design.
Quando entras numa sala de teatro para ver o rosto do ator ou para fazer rir ou chorar quem está à tua frente, sabes que vais fazer e acontecer.
Nesse momento percebes a insignificância dos papelinhos que colecionas na carteira e és incapaz de discernir se é verdade ou mentira aquilo que vês ou representas.
Há tanta verdade e vida naquela mentira a que chamamos representação que um dia Charles Chaplin disse: “A vida é uma peça de teatro que não permite ensaios. Por isso cante, chore, dance e viva intensamente antes que a cortina feche e a peça termine sem aplausos.”
Não permitas que isso te aconteça! Vai ao teatro.
Por agora vejam um pequeno trecho duma das peças que mais gosto: O DOENTE IMAGINÁRIO, de Molière.

 Gabriel Vilas Boas

quarta-feira, 26 de março de 2014

PONTE DE S. GONÇALO


…é uma artéria vital na ligação entre os núcleos populacionais de Amarante, nas duas margens do Rio Tâmega! Por isso não poderia deixar de a incluir neste trabalho sobre as ruas de Amarante!
A actual Ponte de S. Gonçalo, como é sabido foi um projecto do Arqº e Engº Carlos Amarante, a quem me referi no anterior post!
A iniciativa da sua construção deve-se ao Doutor Caetano José da Rocha e Melo, corregedor da Comarca de Penafiel, que em alguns documentos também aparece designado como Desembargador e até “Menystro” de D. Maria I.
As obras desta ponte iniciaram-se no ano de 1782, e as primeiras pedras foram assentes a 5 de Setembro desse ano!
A construção foi entregue a Francisco Tomás da Mota, da freguesia de Adaufe, termo da cidade e Braga, como aliás consta de uma inscrição gravada no parapeito da ponte, do lado direito de quem vem de S. Gonçalo.
Foi M.e arquitecto desta real obra Francisco Thomás da Motta da Fregª d’Adaufe trº de Cid.e de Braga, pela Rainha D. Maria 1790
Nesta obra trabalharam muitos artífices e mestres de pedreiro, e alguns são identificados na obra “Notícias de alguns artistas que trabalharam em Amarante” da autoria de Albano Sardoeira, nomeadamente o pedreiro Feliciano Costa e os mestres pedreiros Paulo Vidal e António José.
As obras prolongaram-se durante nove anos e a sua inauguração dá-se no ano de 1791!
Neste ano de 1791, a ponte foi completada com, “ …quatro bonitas e artísticas pirâmides e dois adornos em forma de urna eleitoral, em cada meia laranja, à entrada para elas. As meias laranjas ficaram também com um assento circular…”como refere o Dr. Luis Van Zeller Macedo in “ Pequena História de Amarante” -1989.
Diz o mesmo autor que “ Esta notável foi custeada com verbas dadas por todas as Câmaras dos Concelhos vizinhos, com a receita das barcas de passagem, durante os 27 anos em que não houve ponte e com multas aplicadas aos donos dos gados que invadiam os terrenos alheios…”
Esta ponte foi classificada como Monumento Nacional em 1910!

A Ponte Fortificada de Amarante
Ora, esta ponte do Sec.XVIII, vem substituir uma ponte anteriormente existente e que se havia desmoronado a 10 de Fevereiro de 1763. Essa ponte tinha servido Amarante e toda a região entre os séculos XIII e XVIII. Era a antiga ponte fortificada de Amarante, que dispunha de ameias, de uma torre de defesa e de um cruzeiro (Na Igreja de S. Gonçalo, existe um baixo relevo decorativo que a representa).
 Como em qualquer ponte medieval, nesta procedia-se à cobrança da portagem, a favor do donatário do Concelho de Gouveia, o Conde de Redondo. Em 1781 o 12º Conde de Redondo, D. Fernando de Sousa Coutinho levantou obstáculos à demolição da torre da ponte ruida o que atrasou o inicio das obras na ponte do Sec XVIII, possivelmente para salvaguardar o rendimento das portagens!
A referida torre, disporia de três portas de acesso à ponte, uma para quem efectuava pagamento de portagem, uma outra para os moradores de Amarante e moradores do Concelho de Gestaço, que estavam isentos do pagamento da portagem e uma terceira para uso dos donatários( Condes de Redondo) que defronte da ponte dispunham do seu Paço!
É tradição que S. Gonçalo projectou e dirigiu a construção desta ponte, com muitos sacrifícios e alguns milagres à mistura. Daí S. Gonçalo ser muitas vezes “contado pelos autores franceses e italianos entre os arquitectos do Sec.XIII”
Não se compreende que esta ponte, sendo construída por S. Gonçalo, disponha de ameias e de uma torre de defesa, o que nos leva a concluir que desde a sua construção, que deve ter ocorrido entre os anos de 1247 e 1252, a primitiva ponte terá sofrido obras de reconstrução em que lhe acrescentaram as ditas ameias e torre de defesa! O que não é de admirar dadas as largas centenas de anos em que serviu ao fim a que se destinava tendo ruido a 10 de Fevereiro de 1763.
Há autores que colocam a hipótese de esta ponte do Sec. XIII, ter sido uma reconstrução de uma ponte já existente anteriormente, o que não será verdade, a crer nas Inquirições feitas em Amarante em Novembro de 1343 (Reinado de D. Afonso IV) em que uma das testemunhas inquiridas, João Rodrigues afirma:
“…haviam dois casais no dito logo de Marante quando a ponte do dito logo começava de se fazer…”
Como disse atrás, esta ponte ruiu a 10 de Fevereiro de 1763, logo que lhe foi retirado o cruzeiro, ou Senhor da Boa Passagem, a que hoje damos o nome de Senhora da Ponte que ali continua vigilante à travessia do Tâmega! Esta imagem tem a particularidade de ter de um lado Cristo Cruxificado (Senhor da Boa Passagem) e do outro lado, nossa senhora com Cristo descido da Cruz, deitado no seu regaço (Senhora da Ponte)!
São bem conhecidos os sonetos do Abade de Jazente, Paulino Cabral alusivos à derrocada da ponte e ao episódio da retirada do cruzeiro e que transcrevo:
À Ponte de Amarante
“Enquanto sobre a ponte, oh Virgem pura,
A vossa imagem se adorou patente,
De si mesma parece, que pendente
Se sustinha a desfeita architectura.

Ao tempo, ao terramoto, à guerra dura,
Convosco resistiu, venceu valente:
Que a peanha da Mãe do Omnipotente
Não podia deixar de ser segura.

Mas, assim que outras aras vos destina
Dos homens a devota providência,
Geme saudosa, e os mármores inclina:

E vai gritando a rôta corpulência,
no estrondo rouco da total ruína,
que é destroço maior a vossa ausência.”

À ruína da ponte de Amarante
“ Essa que vês, amigo, parte em terra,
Parte no rio, e parte inda pendente,
Foi ponte, que cingiu larga corrente,
E agora nas areias se soterra.

Célebre foi, e qual robusta serra,
Na espádua dura suportou valente
A planta bruta, o tráfego da gente,
E o transito das machinas de guerra.

Na duração os séculos remotos
Venceu de mil enchentes o ameaço,
E susteve o furor dos terramotos

Mas hoje, para aviso, em mapa escasso,
Esses penedos te apresenta rotos.
Contempla um pouco, e volta atrás o passo.”

Nascimento: 1187 – Arriconha (Tagilde, Vizela, Portugal)
Morte: 10 de janeiro de 1259 ou 1262, Amarante, Portugal
Veneração: Igreja Católica
Beatificação: 16 de setembro de 1561
                       10 de julho de 1671 pelo Papa Júlio III.
                       O Papa Clemente X concedeu-lhe missa e ofícios próprios                        em Portugal e na Ordem dos Pregadores.
Atribuições: hábito de frade dominicano
Padroeiro: Amarante, Portugal; São Gonçalo do Amarante (Ceará) e São Gonçalo do Amarante (Rio Grande do Norte), no Brasil, Ibiturana
Polémicas: não foi canonizado, mas é venerado como tal.


No que toca a pontes, ainda não ficamos por aqui e é legítimo perguntar como se faria a travessia do Tâmega antes de 1250.
Há autores que falam da existência anterior de uma ponte romana, mandada construir pelo Imperador Trajano, por volta do ano de 106, e que integrava uma via romana que de Trás-os-Montes, ligaria a Guimarães e Braga.
Assentam a sua convicção num documento suevo, datado de 1 de Janeiro do ano de 572 (Sec. VI), que indica os limites da diocese de Braga e que reza assim, no que à nossa zona interessa:
-“…desde o Douro na foz do Corgo subiam o Monte do Marão até ao Castro que se chama de Vila-Chã e daqui à ponte do Tâmega e pela água deste até ao rio Odres.”
( Per illa aqua de Estola usque in Durio, usque in foze de Corrago et inde ad montem Maroni et inde ad Castro quod dicitur Villa Plana et inde ponte de Tamice et inde per illam aquam usque ad fluvio de Uteros
Este documento refere a existência de uma ponte em território de Amarante, muito anterior à ponte medieval de S. Gonçalo!
Contudo esta ponte romana já não existiria no Sec.XII dado que na Bula do Papa Pascoal II, do ano de 1114, ao descrever os limites da diocese do Porto, em face da diocese de Braga, já referem o lugar da “antiquam pontem de Tamice”, pelo que se poderá concluir que a ponte teria desaparecido e só restava o conhecimento do local da mesma!
Quanto à Nova Ponte, lá chegaremos!
António Aires

terça-feira, 25 de março de 2014

AO SOM DE... RICHARD STRAUSS

Ontem à tarde, a caminho da Biblioteca Municipal de Amarante ouvi, vinda do interior da Igreja de S. Gonçalo, a música de R. Strauss. Parei, debrucei-me no muro de granito que dá para a entrada principal do mosteiro e constatei que se tratava da música escolhida para a entrada de uma noiva, que caminhava lentamente, pelo braço do pai, suponho, até ao altar onde o noivo a esperava. Ouviam-se os timbales, os trompetes e toda a restante orquestra, na introdução do poema sinfónico Assim falava Zaratustra, que ficou célebre, ou melhor, que se popularizou, depois de ter sido escolhido por Stanley Kubrick para a banda sonora do filme 2001 Odisseia no Espaço.
De facto, Assim falava Zaratustra, o livro do filósofo alemão Friedrich Nietzsche escrito entre 1883 e 1885, viria a influenciar todo o mundo moderno de forma tão significativa que influenciou Richard Strauss a compor uma sinfonia com o mesmo nome, em 1896. Trata-se, na realidade de um poema sinfónico baseado no tratado filosófico de Nietzsche, escrito em forma de sinfonia, para ser interpretado por uma orquestra. Esta belíssima música, inspirou Kubrick no século XX, e pelo menos uma noiva no século XXI.
Tal como o Lied, aqui referido a semana passada, também o poema sinfónico teve origem na Alemanha, no século XIX, em pleno romantismo. Inicialmente foi bastante explorado por F. Liszt e mais tarde por R. Strauss. A sinfonia é normalmente escrita em quatro ou três andamentos, o que parece corresponder a esta peça, que apesar de estar dividida em nove secções, tantas quantos os capítulos do livro, só apresenta três pequenos intervalos.
Preâmbulo de Zaratustra
Aos trinta anos apartou-se Zaratustra da sua pátria e do lago da sua pátria, e foi-se até à montanha. Durante dez anos gozou por lá do seu espírito e da sua solidão sem se cansar. Variaram, porém, os seus sentimentos, e uma manhã, erguendo-se com a aurora, pôs-se em frente do sol e falou-lhe deste modo:
-“Grande astro! Que seria da tua felicidade se te faltassem aqueles a quem iluminas? Faz dez anos que te abeiras da minha caverna, e, sem mim, sem a minha águia e a minha serpente, haver-te-ias cansado da tua luz e deste caminho…

Esta é a proposta de audição desta semana. Assim falava Zaratustra, começa precisamente com o tema do amanhecer tirado do preâmbulo de Zaratustra, cujo texto acompanha a partitura.
Margarida Assis

segunda-feira, 24 de março de 2014

DA ARTE, DA PINTURA, DO PÓS-MODERNISMO EM LUÍSA MOTA

“O pós-modernismo é um movimento contemporâneo. É forte e está na moda. E, sobretudo, não é completamente claro o que ele é. Na verdade, a claridade não se encontra entre os seus principais atributos. Ele não apenas falha em praticar a claridade mas em certas ocasiões até a repudia abertamente…”
Ernest Gellner

Hoje quero falar-vos apenas de Arte. A Pintura, essa admirável manifestação artística superior, vai ficar por isso em suspenso, e não vamos acordar os grandes mestres de outros tempos e as suas pequenas manias, vícios e grandezas, as suas belas obras-primas, os seus mecenas, as suas musas inspiradoras, nem interferir na azáfama poética e visual das suas oficinas e ateliers...
É que o século XXI está aí, com a garra e a força de um qualquer outro século, empurrado pela energia aglutinadora das suas gentes inspiradas e criativas, pleno também de emoções que se transpõem de forma inovadora para novos e inesperados suportes trazidos por ventos bem providos de tecnologias plurais, virtuais, multidisciplinares.
Eric Hobsbawm, na sua obra A Era dos Extremos, sobre o séc. XX, publicada em 1994 ,e que muito aprecio, dá-nos conta numa linguagem simples mas assertiva, do desastre dos  imperialismos, dos estados comunistas ou capitalistas, da falência dos nacionalismos, da Grande Depressão e crises que a todos afetam, da crise da arte, num mundo cada vez mais globalizado. Termina o século XX, que se disse do Povo, e a insegurança e instabilidade permanecem, assim como os problemas, alguns já diagnosticados no século anterior: guerras civis, conflitos regionais, o aumento da população em países subdesenvolvidos, a poluição, o terrorismo internacional, o esgotamento dos recursos naturais. Estes problemas afligem-nos mais hoje, já que nos chegam através de meios de comunicação sofisticados, intensificando-se assim a massificação da cultura e da informação, bem formatada  a gosto e, às vezes, por encomenda.
E é aqui que entra também o computador e a Internet na Arte. Surgem hoje autênticos museus virtuais onde  a cada visita, somos invadidos por ideias novas, por artistas em rede e por uma Arte a que apelidamos de Pós-Moderna, entre outras. As exposições estão connosco, à distância de um clique, em permanente busca existencial que já se evidenciava timidamente com Marcel Duchamp. Arte ou anti - Arte? Qual o propósito atual da Arte? Apenas PROVOCAR? Qual o valor da Arte e dos seus objetos?
A segunda metade do séc. XX viu nascer a arte-acontecimento, segundo a ideia de que a arte não deve representar a vida, mas antes envolver-se nela, fazer parte dela. E assim, um pouco por toda a Europa e Estados Unidos da América explode o happening, a performance, a instalação. John Cage e Merce Cunningham criam uma arte que integra música, vídeo, fotografia, teatro, dança, abrindo portas de forma inusitada à experimentação, agora multidisciplinar. A estética do espetáculo, presente na performance, mas também no happening, a valorizar a ideia e a criação artística em detrimento do produto final, está viva e comunica com o público, de uma forma tão intensa que muitas vezes até estimula a sua participação. E é tão efémera, por vezes.
A Minimal Art, a Arte Conceptual, a Land Art e a Arte Cinética vinham também já exigindo a participação do espetador, sobretudo esta última e a Op Art, que convocavam o público a involuntariamente experimentarem a sua sensibilidade percetiva.
No entanto, o séc. XX, rico em crises variadas, também viveu a crise das suas mais importantes vanguardas. E hoje, o pós-modernismo absorve todas as influências e estilos marcantes do século anterior, onde os mais díspares artistas se inspiram para intervir na sociedade atual e para, de forma eclética e multifacetada, refletirem a sua época que um dia há - de ser estudada(e asseguro-vos que terá de ser tarefa de gigantes).Esta pós-modernidade existe apenas nas sociedades capitalistas pós-industriais e é, portanto, a sua vertente cultural. É uma arte superficial, que defende as narrativas de curta duração, o provisório, o temporário, sob o primado da tecnologia e que não se quer espartilhada por epítetos ou nomenclaturas.
E é aqui que entra um nome, já lançado e bem apreciado no mundo da Arte dos nossos dias, Luísa Mota. Nascida no Porto, em 1984, mas com ascendência em terras de Amarante, que também a molda e influencia, é um talento de rara inspiração e criatividade. Também ela, tal como Amadeo, uma workaholic sempre envolvida em novos projetos que a tomam de assalto. Também ela, como Amadeo vive a uma velocidade vertiginosa, a cada dia num fuso horário diferente, onde as diferentes experiências sensoriais que vive nos quatro cantos do planeta se derretem e misturam na sua obra criativa, dando-lhe laivos de modernidade. A sua casa do Porto, onde de quando em vez aterra, para um descanso num Olimpo carregado de afetos, outrora habitação da grande Aurélia de Sousa também a inspira, quem sabe a mando daquela artista do naturalismo, a denotar influências realistas ,impressionistas e até pós-impressionistas. Que feliz estará Aurélia com este elegante talento criador, como ela precursora de movimentos da inovação.
Seduziu com um portfolio extraordinário, revelador de um dom único para o desenho e a captura de instantes carregados de significação, quer na Wimbledon College of Art, quer na Goldsmiths University of London, onde estudou Artes Visuais e se preparou com afinco para a atividade artística que agora desenvolve e que se divide entre países como a Inglaterra, Portugal e Brasil.
Integrou diversos group shows em Londres e Alemanha e apresentou diversos trabalhos na Galeria Fernando Santos, Porto. Podemos encontrá-la igualmente na The Saatchi Gallery, em Londres, que apostou nesta artista, comprando-lhe obras.

Luísa Mota, 'Poster dos Homens Invisíveis, 238 x 400 cm, impressão digital sobre papel, 2012,The Saatchi Gallery, Londres

A sua obra caracteriza-se por uma linguagem essencialmente performativa e narrativa, onde explora situações reais e do quotidiano, quer na fotografia, onde é exímia, quer no vídeo ou na instalação. A realidade é portanto o seu suporte conceptual. Explora o improviso, em performances que idealiza num misto de cenografias bailadas, muitas vezes em espaços urbanos abandonados e esquecidos, onde emerge a Vida no seu fulgor de que deixo aqui um pequeno registo fotográfico, da Possibilities of Surrender, que teve lugar na Galeria Fernando Santos, em 2007,na inauguração da Miguel Bombarda e a que tive o privilégio de assistir.
 

Possibilities of Surrender (01),Luisa Mota
woodcarving, oil stick on plywood, 170 x 125 x 2 cm, 2007
(detail),Galeria Fernando Santos, Porto

Sobre o projeto Hold Your Horses, também apresentado na galeria Fernando Santos, Luísa Mota escreveu:
“Quatro mulheres. Três variações da mesma e uma enfermeira. Um espelho, um lago. Uma mulher no lago. Cordas que atravessam e marcam o espaço. Luz que nasce, pára e liga todos estes elementos num meio círculo, e que se espera que este se conclua noutro espaço paralelo. Um jogo de associação que aceita e ao mesmo tempo distorce convicções. “
Hold Your Horses é uma instalação circunscrita a um espaço que sugere uma narrativa onde o tempo está em suspensão.”O suspense de uma ação suspensa”, com mulheres no centro da ação.
Visitei quase todas as suas exposições, que apreciei e interpretei a meu modo, guiada pelo pouco que sei da arte do meu tempo, tão enigmática quanto convidativa . De todas, a instalação Hold Your Horses foi uma das que mais apreciei. Para mim, retrata a vida em suspenso de tantas mulheres…os seus múltiplos papéis, exigidos por uma sociedade pouco igualitária e as suas opções que por vezes podem até passar pelo precipício. O compasso de espera, fatídico…Para refletir.
Espero não ter defraudado os nossos leitores, por trazer a pós- modernidade da obra da minha Luísa e a sua sensibilidade exposta nos vídeos e instalações que realizou. Espero também que o Gabriel não me leve a mal por ter fugido hoje ao tema que me foi proposto. E espero também que a Luísa aprecie o texto que para ela escreveu a tiinha de Amarante ,mesmo em vésperas do seu aniversário. Sim, a Luísa também nasceu em março, tal como o Botticelli do texto anterior e, coincidência das coincidências, tal como eu. Claro que só podemos todos ser boas pessoas. Imparável, terminou no Verão passado o Mestrado no Royal College of Arts, em Londresonde apresentou na exposição de final de curso a performance “My jewellery shines but you can't see my eyes”. Por agora, a Luísa Mota está pelo Brasil, a trabalhar para a próxima exposição a ter lugar na Baía. Boa sorte, querida Luisinha.



                                                 “My jewellery shines but you can't see my eyes”

E é tudo por hoje…deixo - vos com o link dum vídeo que mostra a performance “My jewellery shines but you can’t see my eyes”, de 2013, onde uma “Goddess Woman silk piece” é personagem principal, manuseada por três performers.

https://vimeo.com/74035297
Exposições Individuais
2014 Temporada de Projetos 2014, Paço das Artes, São Paulo
2013 I believe in good things coming, The Mews, Londres
2012 Déjà vu/me somewhwer now,V22,Londres
2010 Going Deeper (curadoria de Miguel Amado), fundação PLMJ, Lisboa
2010 Hold Your Horses,Galeria Fernando Santos, Porto

2008 Julie Series, Galeria Fernando Santos, Lisboa 
Exposições coletivas
2014 3ª Bienal da Bahia, Salvador
2014 Contentores, Museu da Eletricidade, Lisboa
2013 I Believe in Good Things Coming, Verbo, Galeria Vermelho, S.Paulo
2013 21st Century Art and Design-RCA 2013 (curadoria de Ute Meta Bauer)
2013  Christie’s, Londres,MA Degree Show, Royal College of Art, Londres
2011 Videoholica, Varna, Bulgaria
2011 Athens Video Art Festival, Atenas
2010 A-L-L-O-T-M-E-N-T-S, Schwartz Gallery, Londres
2008 On Indefiniteness, Halle 14,Spinerei, Leipzig
2007 BA Degree Show, Goldsmiths College, Londres
2007 Projektor,Café Gallery Projects,Londres
2006 Open Exhibition, Café Gallery Projects, Londres 

Rosa Maria Alves da Fonseca
                

domingo, 23 de março de 2014

CORRUPÇÃO, UM PECADO SEM PERDÃO

Se a cultura, os sítios, os costumes e os valores são o lado luminoso dum povo, a corrupção é a sombra que me entristece.
Não que sejamos grandes corruptos ou que façamos dela um modo de vida, mas porque a corrupção é o pequeno ponto negro que nunca nos saiu da cara.
Notámo-lo na adolescência e achámo-lo feio mas nunca nos demos ao trabalho de ir ao esteticista tirá-lo. Adiámos a intervenção cirúrgica quando chegámos à fase adulta. Dissemos que não tínhamos dinheiro para ir ao médico quanto mais a um esteticista.
                Entretanto o ponto negro transformou-se em sinal e alguém disse que podia ser cancerígeno, mas em vez de transformarmos o medo em resolução, adotámos a inação.  Até porque, agora, o problema só se resolvia com anestesia geral. “Demasiado caro! Demasiado doloroso!” – Decretámos.
                Abandonar essa corrupçãozinha, que nos acompanha como um estigma que não mata mas mói e nos torna infelizes, subdesenvolvidos e pequenos, parece tarefa enorme. Para disfarçar, ainda declaramos que o ponto negro, entretanto transformado em verruga, é tolerável e até nos dá um certo charme. Mas nem nós acreditamos nisso…

                Olhamos novamente o espelho. O rosto envelheceu significativamente. O ponto negro ainda cá está. Bem definido. Ele é a única marca que o tempo não transformou, porque ficara decidido que esse trabalho devia ser nosso.
                Como é triste a alma que olha um rosto que não admira!
             Agora achamos difícil mudar. Afirmamos que já não vale a pena, que estamos velhos. Acrescentamos baixinho: “Não consigo!”. Tudo desculpas baratas. Não gosto da conversa do "ontem era cedo, hoje já é tarde!"
                Abandonar esta mentalidade preguiçosa e derrotista é o desafio que o português do século XXI tem de enfrentar. Não importa nada se é difícil ou fácil. É um desafio, para com o qual só devemos ter uma atitude e uma determinação: vencer.
                Hoje, ao ler o jornal, reparei num trabalho jornalístico sobre a corrupção em Portugal. Tinha por base uma sondagem sobre o que pensavam os portugueses acerca da corrupção no setor público. E pensam o pior.
                Três em cada quatro portugueses acham os seus políticos corruptos. Não me surpreende. Mas por que votamos há quarenta anos nos mesmos?

                Mais surpreendido fiquei ao verificar que 66% dos inquiridos acha que temos legisladores, juízes e militares corruptos. Não acha que temos fazedores de leis e julgadores ineficazes ou medrosos, acha que eles são corruptos. Uma desgraça ética tremenda. Menos perplexo fiquei ao verificar que quatro em cinco inquiridos  acham que a corrupção aumentou nos últimos dois anos e que cerca de 90% pensa que se trata dum problema sério/muito sério da nossa administração.
Não discuto, aqui, a fundamentação desta opinião, mas anoto como ela está arreigada no subconsciente coletivo.
           E o que faz essa consciência coletiva? Anota, acusa… e passa à frente. Se é assim no dia-a-dia porque há de ser diferente com quem nos governa? Como diria Ricardo Araújo Pereira: há corrupção? Há. E o que é que acontece? Nada!
        Talvez porque 15% da população ache que os cidadãos não podem fazer a diferença no combate à corrupção. Como é possível alguém pensar assim? As regras são importantes e funcionam como dissuasor, mas cabe a cada um rejeitar este modus operandi social. Não é um problema dos outros, é nosso!
                Quando me pergunto por que somos um país pobre, pouco desenvolvido e culturalmente atávico, lembro-me sempre deste ponto negro que trazemos no rosto. Chama-se corrupção e não deveria rimar com a nossa nação.

Gabriel Vilas Boas

            

sábado, 22 de março de 2014

JACK NICHOLSON, melhor é quase impossível

Jack Nicholson é um ator fabuloso.
Não apenas por ser o mais galardoado homem de Hollywood ou ter já uma dúzia de nomeações para os óscares ou ser um dos únicos atores que, durante cinco décadas, conseguiu obter uma nomeação para óscar em todas elas, mas, sobretudo por assinar uma carreira artística produtiva, versátil e extraordinária. Os prémios apenas lhe fazem justiça.
Nicholson nunca foi um sex-symbol do cinema; os heróis da história costumavam ser os outros e não se pode dizer que desde miúdo se percebia que estávamos perante um predestinado da representação. Mesmo assim, ele chega ao século XXI e é uma lenda da sétima arte.
                A sua ligação ao cinema começou pela base, pois o seu primeiro emprego foi o de paquete nos estúdios da MGM. As aulas de arte dramática e os conhecimentos que foi travando abriram-lhe a possibilidade de se estrear como ator em 1958, no filme The Cry Baby Killer. Uma década mais tarde tem a sua grande oportunidade em Easy Rider. Aproveitou-a na plenitude, sendo nomeado para óscar, na categoria de ator secundário.
Jack tornava-se uma estrela em ascensão e haveria de ser um habituée das galas de Hollywood. Já nomeado para a categoria de melhor ator, o seu nome foi pronunciado sucessivamente em 1970 (“Destinos Opostos”), 1973 (“O Último Dever”) e 1974 (“Chinatown”). Nicholson não deixa dúvidas a ninguém: era um ator de mão cheia e os seus méritos dramáticos não ofereciam dúvidas a ninguém. Em 1974, o festival de Cannes premiou-o na categoria de melhor ator pelo seu desempenho em “O Último Dever”, o que antecipou a consagração em 1975, quando ganhou o óscar de melhor ator com o filme “Voando sobre um ninho de Cucos”, onde teve uma atuação surpreendente e ímpar, superando as melhores expectativas.
                Se antes deste filme (e também depois), Jack era apontado como um dotado para encarnar a figura do vilão, o papel de McMurphy parece ter vindo a calhar. Ainda hoje é difícil imaginar outro ator que não Jack Nicholson para vestir a pele daquele rebelde, meio louco, que instala a revolta no interior duma instituição psiquiátrica para onde foi remetido quando se fez passar por doente mental para escapar da prisão.
                A década de 80 trará novas nomeações: Reds, Laços de Ternura, A Honra dos Padrinhos, Estranhos na Mesma Cidade. No entanto, só subiu ao palco uma vez para receber o óscar de melhor ator secundário em “Laços de Ternura” (1983).
                A nomeação para a mesma categoria pelo seu papel em “Uma Questão de Honra”, 1996, também não lhe trouxe novo óscar, mas isso em nada abalou o prestígio de Nicholson, como não lhe estragaram o currículo as participações em películas como Batman (1989), na qual esteve excelente na pele de Joker.
                Não obstante, Jack Nicholson haveria de voltar à ribalta pouco tempo depois, quando arrecada o seu terceiro óscar pela sua superlativa interpretação em "As good as it gets" – “Melhor é impossível”, onde surge sublime no papel de um escritor de romances de sucesso, racista, homofóbico, misantropo e antissemita. Nesse filme, Nicholson contracena com Helen Hunt que vence na categoria de melhor atriz. Curiosamente o mesmo fenómeno já tinha acontecido em 1975, quando Jack Nicholson brilhou e fez brilhar Louise Fletcher em “Voando Sobre um Ninho de Cucos”.
                A primeira década deste século não trouxe mais nenhum óscar, mas as nomeações não deixaram de existir: About Schmidt (2002) e The Departed (2006) mostram que o monstro ainda está vivo, apesar de faltar um mês para completar 77 anos.
Quando olhamos para a sua carreira, quase que apetece citar o título do seu último grande triunfo: “Melhor é Impossível”.
Gabriel Vilas Boas

sexta-feira, 21 de março de 2014

ÁLVARO SIZA VIEIRA



Qualquer obra de Siza Vieira é um objeto luminoso que foi reinventado pelo arquiteto, ou seja, pacientemente construído.
         Nas suas obras, percebemos claramente quem são os seus clientes, a geografia dos diferentes lugares onde projeta, o tempo que passou nas cidades onde constrói.
É verdade que Álvaro Siza é também as escadas que estreitam, os ângulos agudos que parecem ameaçar, a janela-porta, a curvatura no teto. Mas isso são “acidentes” numa arquitetura cuidadosamente construída.
                Há quem diga, com propriedade, que a sua arquitetura é regra e acontecimento, ou seja, por um lado é modulação, estrutura e padrão e, por outro lado, episódio, usurpação e fuga. Eu não poderia estar mais de acordo.
               
                 Nos seus edifícios somos envolvidos por espaços que sugerem “movimento”, que é sugerido através de ideias de rutura, rotação ou passagem, o que permite vislumbrar a modernidade da sua arquitetura.
              Álvaro Siza Vieira pertence à chamada Escola do Porto de Arquitetura que nos anos 60 e 70 do século XX partilhou uma mesma sensibilidade arquitetónica. A sua fidelidade à Escola do Porto e à arquitetura moderna vê-se nas várias configurações geográficas e temporais que as suas obras apresentam.
                O que causou espanto, a nível europeu, foi a reinvenção inconformista que o arquiteto nascido em Matosinhos fez dessa matriz moderna. Siza não se deixou impressionar com as propostas pós-modernas e utópicas dos seus colegas mais novos. Ele afirmou o seu realismo arquitetónico e isso veio a granjear-lhe admiração e clientes por essa Europa fora.
                As habitações sociais que projetou nos anos setenta do século XX trouxeram-lhe convites para projetos em Berlim e Haia.
                E o que tinham esses bairros sociais de tão extraordinário?
              Siza recriou a habitação social, construindo-a em diálogo arquitetónico com os seus utentes e por isso construiu tipologias inovadoras como recomendavam os grandes sábios da arquitetura moderna, Gropius e Le Corbusier. Tal como o Le Corbusier do anos vinte, Álvaro Siza sempre gostou de planos cegos e do reboco pintado a branco. E isso vê-se nas suas propostas de bairros sociais na altura em que a revolução dos cravos triunfava em Portugal.
            Outro aspeto peculiar da obra deste grande arquiteto português é o desenho do mobiliário e acessórios, à boa modernista. Siza Vieira acha que deve ter o controle geral do “ambiente”. Por isso começou por desenhar esse mobiliário e acessórios, até porque não existia no mercado quem o fizesse segundo o paradigma modernista. Depois a necessidade tornou-se na exigência pessoal a que se impôs.  Para Siza Vieira, o arquiteto deve ser o responsável principal pelos vários níveis de qualidade duma obra, incluindo os objetos de uso diário.
         Outro aspeto que singulariza Álvaro Siza Vieira é o uso do esquisso como processo pessoal, síntese e inventariação. O esquisso permite captar as diversas faces daquilo que o edifício quer ser ou há de ser nas suas diversas etapas. No sentido inverso, podemos concluir que os seus edifícios são o resultado da controlada volatilidade desses bosquejos. O dedo do mestre está na passagem dos esboços para o “desenho rigoroso”. O equilíbrio dinâmico dos edifícios decorre dos esquissos, por referência à arte moderna (assimetria, dissonância, plasticidade). Siza consegue, depois, passar essas qualidades para a construção através dum controle geométrico.
          Siza usa dum modo muito pessoal um sistema de “traços reguladores” que permite impor regras às livres composições modernistas. Ele usa esse traçado regulador como pretexto para a construção de pequenos sinais (linhas de teto, de luz, de pavimento, de muretes – que encarnam a natureza orgânica dos esquissos e são arquitetura). É por coisas como estas que os seus edifícios têm clareza formal. Ele sabe organizar o espaço.
          As obras deste arquiteto são também, muitas vezes, uma experimentação construtiva, pois Álvaro Siza criou a sua própria linguagem construtiva, solidificada nas várias experiências que fez em cada projeto. As últimas grandes obras confirmam temas e processos que lhe são muito caros. Quando é desafiado por um qualquer problema, é dentro do seu próprio universo construtivo que ele vai buscar a solução.
           Talvez, por isso tudo, possamos falar dum a obra grandiosa, moderna, inovadora e, sobretudo, coerente.

"Carteira Profissional": Álvaro Joaquim Melo Siza Vieira nasceu em Matosinhos, em 1933. É o mais famoso, importante e galardoado arquiteto português. Ensinou na Escola Superior de Arquitetura do Porto, mas também em Lausanne (Suíça), Bogotá (Colômbia), Harvard (E.U.A.). Em 1992, o conjunto da sua obra é internacionalmente reconhecido ao ganhar o famosíssimo Prémio Pritzker, atribuído pela fundação Hyatt de Chicago e considerado o maior galardão no mundo da arquitetura. Antes já tinha ganho a medalha de ouro do Collegio de Architectos de Espanha (1988), o prémio Arnald W. Brunner Memorial (Academia Americana de Artes e Letras – Nova Iorque), o Praemium Imperiale da Associação Japonesa de Artes, em Tóquio, entre dezenas de distinções internacionais. Em Portugal também foi amplamente premiado. Destaco as duas vezes em que foi distinguido com o prémio Secil de Arquitetura: em 1996, pelo Edifício Castro e Mello, no Chiado, e em 2000, com a Faculdade de Ciências e Informação de Santiago de Compostela.
           Siza Vieira é um manual de obras de referência. Destaco apenas dez para não ser exaustivo: Casa do Chá Restaurante da Boa Nova, em Leça da Palmeira; Biblioteca da Universidade de Aveiro, Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto; Centro Galego de Arte Contemporânea (Santiago de Compostela), Faculdade de Ciências e Informação de Santiago de Compostela; Museu de Arte Contemporânea – Fundação de Serralves (Porto); Pavilhão de Portugal na Expo 98; Igreja de Santa Maria e Centro Paroquial em Marco de Canaveses; Centro Cultural e Auditório Fundação Iberé Camargo, em Porto Alegre, Brasil; renovação da Avenida dos Aliados (em parceria com outros arquitetos).


Gabriel Vilas Boas.