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sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

EDUARDO SOUTO MOURA



 Eduardo Souto Moura nasceu no Porto há mais de 60 anos e nos últimos vinte ganhou uma notoriedade tal que hoje é justamente um dos maiores da arquitetura nacional.
Souto Moura começou por seguir o mestre da famosa Escola do Porto, Álvaro Siza, mas acabou por se afastar e seguir o seu próprio caminho.
 Este arquiteto portuense procura que a sua arquitetura vá além da nossa condição geográfica e cultural de país periférico. Muito influenciado pelas ideias arquitetónicas de Mies Van der Rohe e de Aldo Rossi, Souto Moura persegue uma arquitetura de planos, superfícies e linhas. A sua arquitetura advoga a prevalência da forma em detrimento da função. O arquiteto do estádio Axa, em Braga, gosta de manipular a realidade através da repetição, da colagem, da analogia.
                A criação deste estilo será testada em diversas obras privadas (casa da Quinta do Lago…), edifícios públicos (Casa das Artes, no Porto; Mercado de Braga) e depois em importantes intervenções no património (Convento de Santa Maria do Bouro, Alfândega do Porto, Cadeia da Relação do Porto).
                Outra linha fundamental em Souto Moura é o minimalismo. Ele detesta a desordem do mundo contemporâneo. Por isso, busca a paisagem exata, desnudada de artifícios espúrios, a clareza formal. Ora isto é muito estranho num país onde não existe cultura visual.
                Tendo procurado uma “linguagem de grau zero” para sistematizar a sua visão, Souto Moura refundou a arquitetura moderna em Portugal e agora está a reinventá-la.
                Observemos algumas das suas obras mais emblemáticas.
                CASA DAS ARTES, no Porto (1981-1991)


                Através desta obra, Souto Moura afirma-se no panorama da arquitetura nacional. É com ela que ganha o conceituado Prémio Secil de Arquitetura, em 1992.
                A Casa das Artes é proposta como um muro, que gera, no espaço que estabelece com o muro-limite do terreno, a oportunidade para o programa necessário.
                A Casa das Artes tem dois pisos e integra dois auditórios, situados nas extremidades do volume construído, espaços de exposição, consulta e serviços. O piso inferior é dissimulado no solo, o que permite tornar verosímil a ideia de edifício-muro. Os auditórios são espaços depurados com referência ao arquétipo do “anfiteatro”. A presença de tijolo artesanal nas paredes remete para uma certa intemporalidade tipológica.
                Na parte exterior, a presença de planos autonomizados e a utilização lúdica dos vidros denunciam um projeto de manipulação formal.
                A Casa das Artes é ainda hoje uma arquitetura arrojada.

                POUSADA CONVENTO DE SANTA MARIA DE BOURO (1989-1997)
                Este projeto foi o primeiro grande teste à linguagem e ao método de Souto Moura, pois tratava-se duma intervenção num edifício de alto valor patrimonial. Realizado em co-produção com Humberto Vieira, este projeto é a adaptação do edifício preexistente a uma pousada.
                Como referência cultural para a elaboração do projeto, Souto Moura escolheu o nosso tempo - o tempo da ruína. Ao não repor o telhado no edifício deixa claro que não está interessado em reencontrar ou reconstruir a História do Convento, mas antes em fixar o seu momento atual, no sentido de aprofundar a poética visual que observa. Chega a dizer: “era assim o edifício quando o vimos pela primeira vez.”
                Todas as opções do projeto são realizadas no sentido de acentuar a ruína, intercalando materiais que possibilitem a sua habitabilidade e funcionamento.
                O edifício é “objetualizado”, os seus elementos estruturais e ornamentais são manipuláveis, as paredes sugerem paramentos duma cenografia eterna. Todo o edifício é reapropriado para servir visualmente, como textura, como espaço de pedras iluminado pela suavidade da luz elétrica. A sua profundidade histórica é comprimida no plano horizontal do presente e o seu presente é a ruína tornada habitável. O desenho das caixilharias é realizado no sentido de manter a ilusão do vão sem vidro;
                As infra-estruturas são dissimuladas para que seja verosímil a instalação do conforto contemporâneo na ruína contemporânea do edifício.
                ESTÁDIO de BRAGA (2000-2003)



                O Estádio surge como uma operação paisagística no meio duma pedreira existente no Parque Desportivo de Dume, na encosta norte do Monte Castro. A sua singularidade resulta da articulação da grande dimensão que um estádio de futebol comporta com um controle formal assinalável.
                No estádio de Braga, os elementos mínimos (duas bancadas, a pala, a sala sob o campo) surgem numa escala muito ampliada.
                A ausência das habituais bancadas de topo permite a inserção natural do estádio na paisagem envolvente, tornando-o quase um prolongamento daquela. A presença manipulada da pedra no topo norte e nos interstícios da bancada poente é um motivo geológico natural em diálogo com a artificialidade dos elementos arquitetónicos puros.
                Remetendo para a intemporalidade do anfiteatro greco-romano, o estádio de Braga convoca-nos para a moderna engenharia onde dominam o betão e a iluminação elétrica.  
                Este estádio impõe-se como um edifício paisagem.
Gabriel Vilas Boas

DA ARTE, DA PINTURA, DO DESENHO


Victor Silva, Amarante, pastel seco


Amarante, com o seu rio maroto, com a sua Ponte, que lhe sussurra eternas juras de amor, com o seu Mosteiro granítico que se  impõe, sobranceiro, às gentes que passam, continua a ser, ainda hoje, para mim ,um mistério por decifrar…
Pascoaes disse dela um dia:
”…sem esta terra funda e fundo rio,
        Que ergue as asas e sobe, em claro voo;
     Sem estes ermos montes e arvoredos,
                                                                 Eu não era o que sou.”
 Amarante extasia e  inspira as suas gentes, e toca-as de tal forma que muitos,”…por obras valerosas, se vão da lei da morte libertando”. Não sei se é o Tâmega ondulante, que insiste em  beijar-nos diariamente, de mansinho ou  com laivos de mariola, consoante o ânimo com que acorda; não sei se é a névoa da manhã, por quem me apaixono todos os dias, quando desço o vale, a caminho do trabalho; não sei se é o verde tão característico desta cidade, que nos afaga no Verão ou ainda os castanhos outonais que me deliciam sempre que ,na estação adequada, me é dado observar o tapete quase nórdico que cobre as alamedas do nosso Parque Florestal, num festival de cor; não sei se é o Marão megalítico que nos mira e vigia sem tréguas…
 Mas o que é incontestável é que Amarante nos deu vários nomes ímpares da arte e da cultura nacionais, de que nos orgulhámos todos, embora permaneça nublada a explicação para tal fenómeno.

Hoje venho falar-vos de Victor Silva, também ele um amarantino tocado pela cidade menina, bafejado pela inspiração, pelo traço vivo e criador. Dele, conheço a simpatia com que sempre conversa comigo em reuniões informais onde lhe vou dando conta dos resultados da sua educanda, também ela uma artista nata. E foi assim que o Víctor, numa das reuniões já mencionadas, me lembrou que havia desenhado para mim um retrato a carvão, há muitos anos atrás; não que eu tivesse esquecido, seria quase impossível, dada a beleza do trabalho com que me presenteou. 
Retrato, pastel seco
                   
Retrato, carvão/papel



Mas, a partir daqui, o mote estava dado e de quando em vez, a minha aula de História da Cultura e das Artes era invadida pelos esboços e desenhos do Víctor , pela mão da sua filha que, ufana, me mostrava o portfolio do Senhor seu Pai, por alturas de um mergulho afincado no Românico ou apenas porque sim. E todos, alunos e professora, se rendiam.
Victor Silva, Igreja de Cedofeita, carvão s/papel

Ser dono de um traço assim fino e delicado exige talento, determinação apurada e dedicação. Dele, Adriano Santos, responsável pela Biblioteca- Museu Albano Sardoeira durante largos anos, em tempos que já lá vão ( e de quem guardo ternas recordações), escreveu o que passo a citar:
A Arte é um repositório de emoções, desejos e sonhos. É a intervenção crítica feita através do sentido mais sublime que é a visão. Víctor Silva, surrealista, compõe os seus trabalhos de uma forma despreocupada e sincera, baseado nestas três premissas.
A sua arte não se detem em formas fáceis ou em conhecimentos dúbios, o seu brilhantismo com os pincéis está desde já provado (…).Cada tela, cada quadro é uma doce loucura de estética, conseguida através de uma incessante procura de formas e ideias marginais…”
Victor Silva, óleo s/tela


                                                                      Victor Silva, carvão s/papel

Adriano Santos, como vimos, apelida-o de surrealista. Mas nós já constatamos a sua versatilidade, sendo que este tipo de arte que vivenciou é mais uma prova disso mesmo. O Surrealismo, que encontra eco no Cubismo e no Dadaísmo, no Abstracionismo de Kandinsky, pretende expor a verdade do sonho, do inconsciente, numa profunda libertação dos sentidos. Adriano Santos chamou a esta incursão de Vítor Silva pelo Surrealismo “uma doce loucura de estética, conseguida através de uma incessante procura de formas e ideias marginais.”.Eu não diria melhor, pelo que o meu apontamento de hoje fica por aqui. Deliciem-se com a imagem das obras que vos deixo hoje, gentilmente cedidas pelo seu autor. Gostaria que o meu texto estivesse à altura do seu traço elegante e fino, mas o adiantado da hora em que escrevo estas letras e o sono que teimosamente me rouba a clareza têm em mim um efeito contrário àquele em que os surrealistas dos  princípios do século XX acreditavam. Para eles, uma obra verdadeiramente surreal deveria ser executada sob o efeito avassalador do sono ou de qualquer outra privação, ou então sob uma adição qualquer, desde que suficientemente perigosa.
 Mas os Amarantinos como o Víctor, não precisam de nenhuma compulsão. Basta-lhes o Tâmega, a Senhora da Ponte e a névoa da manhã. É isto que os faz respirar. É isto que lhes corta a respiração. É isto que os inspira. (Estará explicado o fenómeno?)
Acham que convenci o Víctor a pensar numa nova Exposição? A pintura, tal como a escrita, carecem de privacidade, são um ato intimista que nem sempre apetece revelar. Mas fica o repto, Sr. Arquiteto.
Victor Silva, licenciado em Arquitetura pela Faculdade de Arquitetura da Universidade Técnica de Lisboa, em 1990, está representado em várias coleções particulares.
Exposições individuais e coletivas:
1979- Coletiva-Sala Teixeira de Pascoaes, Amarante
1980 –Individual –Galeria de O Primeiro de Janeiro, Porto
1981-Individual –Galeria Orpheu, Guimarães
1982 –Coletiva –Biblioteca-Museu Albano Sardoeira, Amarante
1983 –Coletiva –Vila Pouca de Aguiar
1984-Coletiva Biblioteca-Museu Albano Sardoeira, Amarante
1986-Participa na 3ª Mostra de Artes Plásticas “Lagos 86”
Victor Silva, Aguarela

Rosa Maria Alves Fonseca
                            

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

RUA 31 DE JANEIRO

É a rua que do lado nascente da Ponte de S. Gonçalo (margem esquerda) conduz ao Largo Conselheiro António Cândido (vulgo Largo do Arquinho).
Primitivamente foi conhecida e tratada por Rua de Gouveia, por ser a mais importante artéria do extinto concelho medieval com o mesmo nome e que teve foral outorgado pelo rei D. Manuel I a 22 de Novembro de 1513, e cuja casa da Câmara se situava ao fundo da mesma rua, em local ainda hoje assinalado por uma placa granítica, integrada na fachada do edifício e a encimar a porta do Café Morgado!

E “reza” assim:
Documentos antigos atribuem àquela zona a denominação de Povoação de Cubello do Tâmega”, de onde virá àquela rua a designação que melhor a identifica, Rua do Covelo!
Contudo as vicissitudes da história do país tiveram sempre repercussões significativas na nossa terra e a mesma rua é “baptizada” durante a Monarquia Constitucional com o nome de Rua D Luis I em homenagem ao monarca que herdou a coroa de D. Pedro V, seu irmão, que faleceu sem descendência em Novembro de 1861.

Mas a República implantada a 5 de Outubro de 1910 depressa lhe trocou o nome, e ainda não acabado o mês de Outubro, a 29 de Outubro de 1910, já a mesma artéria se chamava Rua Machado dos Santos em homenagem ao ilustre republicano que após a morte inesperada do Dr. Miguel Bombarda a 3 de Outubro de 1910, deu início ao movimento revolucionário que iria implantar a República em Portugal, e no qual se distinguiu como verdadeiro herói na Rotunda da Avenida da Liberdade.
Mas foi sol de pouca dura!
A 4 de Março de 1911, a mesma Comissão Administrativa Republicana de Amarante, atribui à rua o nome de Rua 31 de Janeiro, para homenagear os que participaram no movimento revolucionário de 31 de Janeiro de 1891,a primeira grande tentativa republicana de derrube da monarquia e que nas palavras de João Chagas (n. Rio de Janeiro, 1 de Setembro de 1863- m. Cascais, Estoril, 28 de Maio de 1925) foi “ o mais luminoso e viril movimento de emancipação que ainda sacudiu Portugal no último século”, ignorando mesmo o nome de Machado dos Santos recentemente atribuído, a crer no texto justificativo da atribuição do novo nome:
“…tomando por base norma seguida pela Câmara do Porto e outras do país, resolveu esta Câmara, que não se dê às ruas da vila o nome de vivos e em harmonia com esta resolução resolveu que à Rua D. Luiz I, se dê o nome da Rua 31 de Janeiro.” ( Livro de Actas- 4, pag 9 de 4 de Março de 1911)
De todos estes nomes, aquele que reuniu o consenso popular, foi e continua a ser a designação de Rua do Covelo!

Esta rua é por demais conhecida de amarantinos e forasteiros, pelos inúmeros estabelecimentos comerciais, nomeadamente os de restauração (restaurantes e tasquinhas) que se orgulham de bem servir a excelente gastronomia local e das confeitarias, exímias na produção da tradicional doçaria conventual!
É uma das ruas que em tempos de cheias o Tâmega inunda, transfigurando-a em canal de uma qualquer Veneza do Douro Litoral!
Rua do Covelo - Cheias de 1962

A Rua ostenta orgulhosamente nas suas paredes os níveis das incursões do Tâmega, como se de feridas de guerra que a dignificam se tratasse, para espanto dos forasteiros que nos visitam!
Nesta rua nasceram dois prestigiados jornais locais, a Flôr do Tâmega e o Tribuna de Amarante, da iniciativa da família Carneiro!
Ali terá existido o hospital e albergaria medieval do Covelo, e um interessante fontanário, chamado de “fonte da Albergaria” que ainda conheci, mas que a voracidade do tempo e dos homens “extinguiu”. Neste hospital e albergaria se dava acolhimento a peregrinos doentes que a Amarante se deslocavam em romagem ao túmulo de S. Gonçalo.
A este hospital e albergaria se refere a Drª Maria José Queirós Lopes no seu trabalho de Mestrado em História Moderna, intitulado “ Misericórdia de Amarante: Contribuição para o seu estudo”, nos seguintes termos:

- “O hospital da albergaria tinha uma localização privilegiada junto da casa do foral do concelho de Gouveia. Dispunha de comunicação directa por escada com a rua do Covelo, a principal artéria da época. O edifício implantava-se num espaço murado que em volta dele enformava o pátio com escadas que desciam para um terreiro espaçoso (328m2), em proporção à dimensão do edifício cuja área seria na ordem de 13lm2. Era no terreiro que se situava a fonte da albergaria, da qual ainda há memória.

António Aires

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

ROUPA QUE FALA E, POR VEZES, DIZ MUITO

No teatro, como qualquer mulher sabe, o guarda-roupa assume um papel muito importante. Por vezes, adquire uma relevância superior à do ator. Nesses casos, a roupa “fala”, informa, interage com o espectador, ou não fosse o teatro um espetáculo e portanto algo que deve ser degustado com os olhos.
Entendamos por guarda-roupa tudo aquilo que o ator leva consigo: roupa, joias, calçado, chapéus, sombrinhas, luvas, lenços… O termo tanto serve para referir aquilo que o ator usa como o conjunto de vestuário duma época ou de um país usado em determinada peça de teatro durante a representação.  
Um olhar mais atento do espectador permite vislumbrar toda a magia que o figurino aporta a uma personagem ajudando o ator na sua representação. Cuningham chegou mesmo a referir que “a roupa do ator ajuda concentrar o poder da imaginação, expressão e emoção dentro da criação e projeção do carácter do espetáculo.”

A roupa e os acessórios com que ator sobe ao palco possuem um conjunto de mensagens visíveis e subliminares. Essas mensagens são muito importantes porque permitem que o espectador interprete corretamente a personagem que tem à sua frente assim como ajuda a criar a atmosfera da peça.
O guarda-roupa duma peça cria uma linguagem de formas, cores, texturas que revelam o estilo duma personagem ou enquadram a situação política e social da época a que se refere o texto do dramaturgo ou a estação do ano em que decorre a ação. O figurino duma personagem pode ser o único informador da sua origem geográfica. Quando vemos alguém vestido com um Kilt não precisamos doutro elemento para concluirmos que se trata dum escocês. O mesmo se passa com o cowboy ou com a gueixa.
A época é também determinada pelo guarda-roupa. Armaduras e espadas identificam a Idade Média, do mesmo modo que o ambiente burguês da segunda metade do século XIX, na peça, de Almeida Garrett, Falar Verdade a Mentir, é-nos dado pelo vestuário que as personagens usam.
São ainda as roupas a indicar a passagem do tempo pelas personagens. O ator trata do processo de envelhecimento da sua personagem recorrendo ao figurino e à maquilhagem. Quando temos necessidade de estabelecer a idade duma personagem, a roupa é um dos critérios que nos serve de bússola. O mesmo se passa na definição da hierarquia social. Os reis são ricos e poderosos porque usam joias, roupas vistosas e luxuosas. As diferentes categorias de povo diferenciam-se pela indumentária com que estão em cena.  
Se pensarmos em algumas personagens-tipo que o teatro consagrou (a mulher a dias, a mulher sedutora, o rebelde, o advogado, o tolo…) verificamos que é o vestuário que as define.

Como podemos concluir, o trabalho do figurinista é essencial dentro da representação teatral. No entanto, é preciso compreender que este trabalho só fica bem feito quando é realizado em articulação com a atividade do cenógrafo e do luminotécnico. Os jogos de luz e sombra são fundamentais para realçar ou ofuscar as peças e os tons do vestuário dos atores.
Por isso, o figurinista deve entender a peça, perceber o que o encenador quer dos atores, atuar em consonância com o cenógrafo e o técnico de luz e conhecer muito bem os atores que irão dar vida ao seu guarda-roupa.
O guarda-roupa de cada peça deve exibir uma beleza coerente porque só assim a peça encanta o espetador.
Afinal é o hábito que faz o monge. 

Gabriel Vilas Boas

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

AO SOM DE... ZECA AFONSO

No dia em que passam 27 anos da morte de Zeca Afonso, poder-se-á reflexionar sobre a importância da relação entre a palavra, a poesia e a música num determinado período histórico do nosso país. Quando nada era permitido e as vozes incómodas ao regime eram silenciadas pela censura, a música servia para fazer passar uma mensagem, um alerta, um sinal aos mais atentos durante o período do Estado Novo. Nem todos descodificavam as mensagens subentendidas nas letras de muitas canções porque a população era em grande parte analfabeta, inculta e estava muito pouco informada. Nessa época, as canções, com boas músicas e belíssimos poemas escritos por autores como Ary dos Santos, Manuel Alegre, Adriano Correia de Oliveira, Sérgio Godinho e José Afonso, entre outros, tinham uma força e um impacto muito grande numa faixa da sociedade mais instruída e descontente com o regime e por isso se considerava que a canção era uma arma.


Zeca Afonso, músico, autor e poeta, foi um dos cantautores que mais marcaram a música de intervenção contra o regime, usando o seu timbre vocal único para interpretar poemas seus e de outros autores, de forma a que, usando termos metafóricos fosse capaz de iludir a censura. Conta-se, que em certos concertos, o refrão da música Natal dos Simples,  mais conhecida como Janeiras, era cantado como “vão parar à pide, vão parar à pide, vão vão vão vão” em vez da letra que todos conhecemos. Escrever um texto, seja prosa ou poesia, nunca é tarefa fácil, mas naquela época, se por um lado era difícil porque era preciso dizer de forma camuflada aquilo que não podia ser dito em alta voz, por outro, havia muitos motivos para escrever, e esse jogo de palavras com certeza ajudou a uma capacidade de escrita que permitiu uma grande  produção de textos e poemas, muitos deles depois cantados, sem que a censura tivesse percebido as mensagens implícitas.
Zeca Afonso teve a felicidade de assistir ao 25 de abril de 74, continuando a cantar até ser  vencido pela doença. Para recordar, e porque este ano se comemoram os 40 anos da revolução, aqui fica para audição, “Os Vampiros” sendo que vampiro era o termo com que se referiam à polícia.
Margarida Assis 

domingo, 23 de fevereiro de 2014

O FOGO GREGO

           Os gregos são um povo extraordinário.
Há mais de dois mil e quinhentos os deuses deixaram cair do Olimpo alguns pingos de genialidade que homens como Sócrates, Platão, Sófocles ou Péricles souberam transformar naquilo que hoje chamamos a génese da cultura ocidental.
Foi em Atenas que começou a democracia, a que hoje ainda aspiram povos tão importantes como russos, ucranianos, chineses ou continentes tão extensos como África.
Sairam da pena dos gregos os versos da Odisseia e da Ilíada, que milhões e milhões de ocidentais lêem e tornam a ler, saboreando cada verso, cada palavra, cada tema, com um prazer renovado. Alguns anos mais tarde, Dionísio incentivou Sófocles a escrever Rei Édipo, pedra angular da tragédia, onde Homem, deuses e destino se encontram representados.


Enquanto Péricles brilhava como estratega militar, Sócrates criava a filosofia que pôs o ser humano a refletir sobre si, o cosmos e a vida. Mais tarde, encontrou em Platão um discípulo de eleição.  
Os templos aos seus deuses descobriram excelentes arquitetos e maravilhosos escultores que fizeram da beleza um fim em si mesmo. Para os gregos até aquilo que era útil devia ser belo! E era.
Criaram a arte de falar em público, conceberam deuses e humanizaram-nos de maneira a poderem servir de modelo e justificação aos homens. Definiram valores coletivos e pessoais, licenciaram conceitos que ainda hoje são dogmas, inventaram os jogos olímpicos.
O alfabeto esquisito, que a muitos causa impressão, ainda hoje é utilizado por matemáticos, físicos e botânicos.
Nunca foram um povo guerreiro nem rico. Os gregos escolheram a cultura, a arte, o pensamento como código genético.


Venceram os troianos pela inteligência na guerra mais célebre que a humanidade conhece e obrigaram os romanos a incorporar a cultura grega no vasto império dos Césares, de tal forma que Virgílio chegou a exclamar que o grego, apesar de prisioneiro, soube capturar o seu carrasco pela cultura.
Os romanos perceberam o tesouro que tinham acabado de encontrar e tiveram a inteligência de não o adulterar nem destruir. Souberam valorizá-lo e entregá-lo mil anos depois aos renascentistas que no-lo deixaram como herança.
Hoje os gregos não têm mais Aquiles, Ulisses, Homero, Sófocles, Platão ou Sócrates para dar ao mundo e o mundo virou-lhes as costas, com uma ingratidão tão vil que deixou o Olimpo em lágrimas. Vilipendiados e humilhados, os gregos voltam a olhar o feiticeiro Mediterrâneo com a certeza de quem sabe que o espírito será sempre superior à matéria.

Gabriel Vilas Boas

sábado, 22 de fevereiro de 2014

A RAPARIGA QUE ROUBAVA LIVROS


Gostei muito do filme " A Rapariga Que Roubava Livros”.
Um filme em que a atriz Sophie Nélisse interpreta a personagem Liesel. Esta cria um novo sentido para a sua vida: roubar algo a que não consegue resistir - livros.


Liesel é uma rapariga adoptada, e aprende a ler já crescida, e que aquando dos bombardeamentos de Munique, no final da segunda guerra mundial, recita os livros para entreter os vizinhos e animar um Judeu que está escondido na sua cave e gravemente doente.
Os livros não são apenas algo que ama. Servem para estabelecer a ligação com o outro (vizinhos ou Judeu) e permite ao realizador mostrar que a humanidade triunfa sobre a animalidade da guerra.



Ao colocar o pai adotivo como o agente que incute em Liesel o vício de ler, o realizador (Brian Percival) quer mostrar que ensinar o prazer de ler é um ato de amor. Só um homem profundamente sensível pode esquecer as horríveis circunstâncias de guerra em que vive e centrar a sua atenção em algo tão delicado e profundo como o prazer de ler.

Noutra perspetiva podemos observar que afinal nem todos os vícios são maus!

Quando vemos este filme, não podemos deixar de notar e destacar a fantástica representação da actriz principal, Sophie Nélisse, que com 13 anos faz um excelente papel.

“A Rapariga que Roubava Livros” é um filme tocante que relata com mestria os tempos da Segunda Guerra Mundial e o que as pessoas sofreram com a morte ou a partida para outros locais dos seus entes queridos.


Este filme, para além de ter um fantástico enredo e contar com maravilhosos actores, tem também uma pequena particularidade: em vez de ser narrado por um narrador comum é narrado pela Morte que conta como encontrou as almas das personagens deste soberbo filme.

Sofia Saraiva

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

PRAÇAS, A ALMA DAS CIDADES

 Praça é um sítio de Excelência dentro da cidade. É o espaço das pessoas. Lá se reúnem, lá se manifestam, comemoram, convivem. Centro cívico, social, cultural. Com frequência se torna num espaço económico  ou político.
            Eu gosto de as imaginar como um lugar icónico das sociedades de todos os tempos. A definição mais usual diz-me que são um espaço público destinado ao recreio, lazer e convívio das pessoas. Nelas não deve haver qualquer tipo de edificações.
           Na América do Sul, nomeadamente no Brasil, a praça tem no seu interior um jardim, enquanto na Europa predomina o conceito de praça seca, ou seja, a praça é um largo redondo, retangular ou quadro. São deste estilo as mais emblemáticas praças de Espanha, Itália ou Portugal.
              Historicamente, o conceito de praça remonta à Ágora grega. Ela era o espaço público de excelência dos gregos, pois lá se concentrava a vida social, cultural e política, já que em seu redor se dispunham os edifícios públicos e privados de referência na polis. É nela que o grego convive com o outro para comprar coisas nas feiras, onde ocorrem as discussões políticas e os tribunais populares. É portanto o espaço da cidadania. Por este motivo a Ágora era considerada o símbolo da democracia ateniense. À Ágora sucederia o Fórum romano. Praça rectangular era o centro da vida pública romana, lá se realizavam os discursos políticos, eleições, processo criminais, confrontos entre gladiadores, as principais trocas comerciais. Os romanos adotaram o modelo e a relevância social, política e cultural que os gregos tinham dado à sua Ágora.
                Com a chegada da Idade Média, as praças foram perdendo o seu estatuto de centro administrativo e político, sobressaindo como emblema arquitetónico duma cidade. Aconteceu assim com a famosa Piazza del Campo, em Siena, com o famoso Campanile (campanário) e onde se encontram os frescos de Simoni Martini e Ambrogio Lorenzetti, os relevos da Fuente Gaia de Jacopo della Quercia. Nesta praça também está a alta Torre del Mangia.
Piazza del campo, Siena.
Ainda em Itália, destacaria a Piazza Magiorre de Bolonha, que é muito ampla e bonita. Através dela podemos aceder ao maravilhoso mercado medieval, uma das principais atrações da cidade de Bolonha.
 O período barroco imporá a sempre majestosa Praça de S. Pedro, no Vaticano, onde o elemento religioso se impõe de maneira avassaladora.
             Em Espanha as praças afirmam-se pela sua grandiosidade e monumentalidade. Na capital destacam-se a Praça Cibeles e Plaza de Espanha e a Plaza Mayor. Esta é uma praça portificada, de planta retangular, completamente rodeada de edifícios. Existem nove entradas para a praça.
Plaza Mayor, Madrid
        Por toda a Espanha, a praça assume um papel primordial enquanto elemento urbanístico e arquitetónico das cidades. Quando visito uma cidade espanhola, as praças são locais que tento logo visitar. Por fim, Lisboa e a sua neoclássica Praça do Comércio. Talvez a mais emblemática e bonita das praças portuguesas. Virada para o rio, recebe a magnífica luz de Lisboa. Entrada nobre de Lisboa, tem em fundo o famoso Cais das Colunas, onde os cacilheiros deixam os passageiros depois de mais uma travessia do Tejo. Para desfrutar da sua beleza e imponência deve-se observá-la do rio, num final de tarde de primavera ou verão. É um espetáculo inolvidável.

Praça do Comércio, Lisboa
         
               Em suma, as praças são o coração das cidades. Por isso, elas devem ser locais com identidade e com alma, ondas as pessoas se apropriem do lugar, criando laços emocionais, sem esquecer que esta deverá ser para todos. Portanto é bom que elas também sejam espaços de inclusão.

Gabriel Vilas Boas

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

TOPONÍMIA AMARANTINA

Avenida Alexandre Herculano
Há uns anos atrás reli, no extinto Jornal Riba Tâmega do dia 20 de Janeiro de 1983, um trabalho que sob o título genérico de “Etnografia do Aro Amarantino” da autoria do Senhor Engenheiro Augusto de Pinho, abordava o tema da “…Toponímia da Urbe Amarantina”
Na sequência desta leitura e o facto de eu integrar, nessa altura, a Comissão Municipal de Toponímia, levou-me a iniciar uma recolha de informação e a registar uma série de elementos, que tenho vindo a “colecionar” desde então.
Como não existe nenhum roteiro toponímico da nossa cidade, pensei que, talvez estas anotações possam valer alguma coisa para o efeito!
Mas, da valia destas anotações, que não têm pretensões de investigação científica, nem de trabalho acabado sobre o assunto, poderão os leitores pronunciar-se a partir de hoje neste blogue, sendo que para mim são tão só o meu humilde contributo!
 Comecemos pelo GRANDE Alexandre Herculano
“Alexandre Herculano de Carvalho e Araújo é um dos vultos mais notáveis da literatura portuguesa”
Nasceu em Lisboa, a 28 de Março de 1810, fez os primeiros estudos nas Necessidades, sob a direcção dos Oratorianos de S. Filipe Néri. Prestes a entrar na Universidade, teve de interromper os estudos, pois a desgraça bateu à porta do seu pai que cegou e ficou em más condições financeiras. Não desistiu face à contrariedade e matriculou-se na Aula do Comércio, onde aprendeu línguas, falando correctamente francês, inglês, alemão, italiano e espanhol! Com 20 anos frequentava, na Torre do Tombo, a aula de diplomática ou paleografia!


Em 1831, comprometido na Revolta de Infantaria 4, contra D. Miguel, que fracassou, acabou por fugir para o estrangeiro (Inglaterra e depois França) e em 1832 na companhia de Almeida Garrett segue para os Açores onde se alista no Regimento dos Voluntários da Rainha (liberais). Em Julho de 1832, é um dos bravos que desembarcam no Mindelo e vai portar-se com a maior valentia durante o cerco do Porto.
Foi ajudante de bibliotecário do Paço Episcopal do Porto, foi director da Biblioteca da Ajuda e ingressa depois na Academia Real das Ciências onde inicia a publicação da Portugaliae Monumenta Historica, que dá pela primeira vez à estampa, os mais valiosos manuscritos e velhas crónicas da nossa história.
Na ânsia de reunir, estudar e até salvar muitos documentos que corriam o risco de se perder, percorreu o país para visitar os seus arquivos e bibliotecas. Nesta tarefa titânica enfrentou as incómodas viagens pelas estradas que eram poucas e más e até a incompreensão e hostilidade dos homens e corporações que se opunham àquilo que consideravam a devassa dos seus arquivos! Nessas andanças recolheu 120.000 documentos que deram entrada na Torre do Tombo!
Nestas andanças também passou por Amarante, numa saída iniciada em Lisboa a 21 de Junho de 1854.
Cansado das incompreensões e mesquinhez do Portugal pequenino, fugiu como bem disse Oliveira Martins “corrido de vergonha e de tédio” perante a corrupção geral e foi “exilar-se” na sua propriedade de Vale-de-lobos!
Morreu a 13 de Setembro de 1877 e foi sepultado no cemitério de Azóia sendo trasladado para o Panteão Nacional (Mosteiro dos Jerónimos) a 28 de Junho de 1888!
Dele disse Eduardo Noronha: “a morte restitui as proporções aos colossos, que a vida, ensombrada pelos medíocres, se esforça por amesquinhar”
Em 1910 celebrou-se em todo o país, o centenário do nascimento de Alexandre Herculano.
A nossa Avenida Alexandre Herculano nasce nesta época de homenagem!
Em sessão da Comissão Administrativa Municipal Republicana de Amarante,realizada a 30 de Abril de 1910 “prestando assim o devido preito e homenagem ao grande historiador que acaba de ter uma merecida apoteose em todo o país”
Tal decisão derivou do solicitado pela Comissão Organizadora do Centenário de Alexandre Herculano, de Coimbra que pediu à Câmara de Amarante “…que dê a uma das ruas o nome do glorioso historiador…”, pedido este recebido a 21 de Março de 1910.
Mas já anteriormente, um ilustre tribuno amarantino (conselheiro António Cândido) apresentara, em 1881, na Câmara dos Senhores Deputados um pedido de autorização para o governo gastar até à quantia de 10 contos de Reis com o monumento a Alexandre Herculano! E fê-lo no seu mais elegante e convincente estilo:
«-O glorioso historiador, o primoroso literato, o trabalhador infatigável, que consumiu na meditação e no estudo – no mais útil estudo e na mais fecunda meditação - os melhores anos da sua vida; o heróico batalhador, que levou de vencida os erros e preconceitos do seu tempo, e só se sentiu desalentado, e sucumbiu, quando viu diante de si, não grandes e fortes convicções a combater, mas pequeninas intrigas, injúrias, calúnias, umas cousas miseráveis que ele devia ter esmagado com o seu desprezo, e nunca distinguido com a sua atenção, Alexandre Herculano tem pleníssimo direito ao culto em que se transforma sempre o reconhecimento dos povos pelos grandes homens que os servem com o seu talento e com o seu trabalho…»
A nossa Avenida Alexandre Herculano é a parte da Estrada da Feitoria compreendida dentro dos limites da cidade, que se inicia no Largo do Arquinho e se estende até ao cruzamento da Costa Grande (Madalena) e que se enquadrava na desclassificada Estrada Nacional 312 (Livração-Ribeira de Pena, passando por Fridão).

António Aires

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

DA ARTE, DA PINTURA, DA LITERATURA

“O meu amigo Jacinto nasceu num palácio, com cento e nove contos de renda em terras de semeadura, de vinhedo, de cortiça e de olival. No Alentejo, pela Estremadura, através das duas Beiras, densas sebes ondulando por colina e vale, muros altos de pedra, ribeiras, estradas, delimitavam os campos desta velha família agrícola que já entulhava grão e plantava cepa em tempos de el-rei D. Dinis. A sua quinta e casa senhorial de Tormes, no Baixo Douro, cobriam uma serra(…).Mas o palácio onde Jacinto nascera, e onde sempre habitara, era em Paris, nos Campos Elísios, nº 202.”
Eça de Queirós, A Cidade e as Serras, 1901

Maria Rosas, Jacinto, Aguarela s/ papel

Cap. 3 «JACINTO»
«No 202, todos os dias às nove horas, depois do meu chocolate e ainda em chinelos, penetrava no quarto de Jacinto. Encontrava o meu amigo banhado, barbeado, friccionado, envolto num roupão de pelo de cabra do Tibete, diante da sua mesa de toillete, toda de cristal (por causa dos micróbios) e atulhada com utensílios de tartaruga, marfim, prata, aço e madrepérola que o homem do século XIX necessita para não desfear o conjunto sumptuário da civilização e manter nela o seu Tipo.»

Exposição “A Cidade e as Serras”
Maria Rosas
“A Cidade e as Serras” é, de longe, o meu livro preferido, que li e reli vezes sem conta ao longo da minha vida. Tenho um hábito estranho de revisitar aquilo de que gosto muito, como um bom livro, uma música, um filme, que olho e sinto sempre de maneira diferente, em busca de algo novo. Até os meus alunos ( quando os conteúdos assim mo lembram) provam um pouco do 202,com o seu Fonógrafo, o Telégrafo ou o Conferençofone, maravilhas do imparável progresso técnico oitocentista, num tumulto de Civilização.
Assim, no momento em que a Maria João me convidou para a sua vernissage que teve lugar numa das Galerias da famosa Miguel Bombarda, no Porto, exultei. Em primeiro lugar, porque gosto muito da Maria João, desde as tardes de gargalhadas claras que partilhámos nos tempos da faculdade; depois, porque a Exposição recebeu o nome do meu livro de eleição, que se espraia pelo cenário da cidade de Paris, no célebre 202 dos Campos Elísios e por Tormes, a serra alegre de todas as cores, numa viagem de encontro à Natureza e à Felicidade.
Nesta exposição individual, a Maria João ofereceu para nossa fruição dezasseis aguarelas sobre papel que ilustram de modo muito pessoal, cada um dos capítulos do livro. Entrou na personalidade de Jacinto, percorreu Paris e o 202,viajou até Tormes e mergulhou nas serranias únicas de um Portugal vetusto e singular, em cores únicas.
Das suas telas, emergiam aromas, ambientes, cores e sensações indescritíveis, pela mão de Eça que dava o mote para cada uma delas. A sua pintura, alegre, feminina, jovial, transportou-nos para um outro espaço e um outro mundo que ainda vamos a tempo de recuperar, mergulhando nas nossas raízes, na terra, seja ela do Douro, do Tâmega ou do Mondego.

Maria Rosas, A árvore, aguarela s/ papel.
Cap.9
«- É curioso… Nunca plantei uma árvore!
-Pois é um dos três grandes atos sem os quais, segundo diz não sei que filósofo, nunca se foi um verdadeiro homem… Fazer um filho, plantar uma árvore, escrever um livro. Tens de te apressar, para ser um homem.»


Não sendo completamente figurativa, a sua obra permite ao público uma viagem incrível pela cor e pela forma, num traço suave de grafismo quase a roçar um não sei quê de pontilhismo que dança connosco e se mistura na retina do observador. Não é possível ficar indiferente ao vendaval de sensações festivas que nos proporciona o olhar, tal como quando viajamos para o Douro. Também aqui, se me perguntam onde me apetece ir em passeio, claro que a resposta se adivinha:-Ao Douro, claro. Não me canso de revisitar aquilo de que gosto muito. Por isso, a aguarela “A caminho da serra”, me seduz e ensina o caminho das mil cores do meu Douro prazenteiro, onde, quem me dera, tal como Jacinto,”…uma terrina a fumegar…o caldo…de galinha que rescendia (...)e o seu perfume enternecia…”.E o arroz de favas, acompanhado de “um vinho fresco, esperto, seivoso, e tendo mais alma, entrando mais na alma, que muito poema ou livro santo.”

Maria Rosas, A caminho da serra, aguarela s/ papel

Cap. 8 «A caminho da serra»
«- Bem! Alea jacta est! Partamos pois para as serras!... E agora nem reflexão, nem descanso!...à obra! E a caminho!... no corredor gritou pelo Grilo, com uma larga e açodada voz que nunca lhe conhecera, e me lembrou a de um chefe ordenando, na alvorada, que se levante o acampamento…»

Aqui ficou um apontamento sobre a minha Maria João. Eu, tal como o Zé Fernandes, adoro as minhas amigas ,sobretudo porque sei que tenho poucas. E porque sei que elas são de qualidade superior. Para que conste, a Maria João nasceu no Porto e licenciou-se em Ciências Históricas pela UPT, em 1987.Frequentou o curso de Desenho e Pintura da Cooperativa Árvore, por Aníbal Remo e Mário Bismark, bem como o curso de História da Arte Contemporânea, por Fátima Lambert. Frequentou vários workshops, entre os quais um de ilustração, ministrado por Rui Sousa. Participou em várias exposições coletivas na Cooperativa Árvore, Faculdade de Arquitetura do Porto, Museu do Carro Elétrico e em muitas outras.
Algumas das exposições individuais:
Origami, Olga Santos Galeria, Porto, 2009
Lenços de Namorados, Da Vinci, Espaço Arte, 2011
A Cidade e as Serras, Da Vinci, Espaço Arte, 2012
Está igualmente representada em várias coleções particulares em França, Bélgica, Polónia, Espanha, Brasil e EUA.
Se a quiserem ver, estará numa coletiva, a partir de 8 de março, na Da Vinci, Espaço de Arte, coincidindo com as inaugurações de Miguel Bombarda. Eu não vou faltar.


Rosa Maria Alves da Fonseca