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quarta-feira, 23 de maio de 2018

MAIS DISCIPLINAS COM A MESMA CARGA HORÁRIA SEMANAL – A PROPOSTA DO MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO



Por enquanto é só uma proposta, mas o Ministério da Educação quer um modelo de currículo para o 2.º ciclo onde cabem catorze (!!!) disciplinas e outro para o 3.º ciclo onde existem quinze. 

É, de facto, um número exagerado de disciplinas, como muito bem nota o Conselho das Escolas, que desaprova o prévio desenho curricular do ME, para o novo ano letivo.
Imaginar uma criança de dez anos a conhecer 14 professores diferentes todas as semanas não me parece uma muito boa ideia. Se a isto acrescentarmos a adesão que muitas escolas farão à flexibilidade curricular, então é caso para temermos uma grande confusão, durante os primeiros meses do próximo ano letivo.

O Ministério da Educação refere que a carga horária semanal não pode aumentar, mas acrescenta mais três disciplinas, o que obrigará a reduzir os minutos de aula em diversas disciplinas, de maneira permanente, durante todo o 2.º e 3.º ciclos.

Cidadania e Desenvolvimento, TIC e Complemento à Educação Artística são as novas disciplinas. 
Acho o regresso de TIC fundamental, mas as outras duas podiam, efetivamente, como diz o Conselho de Escolas, ser cobertas pela Oferta de Escola ou pela Oferta Complementar.

São disciplinas a mais, que dispersarão ainda mais atenção dos alunos e obrigarão a uma ginástica enorme na elaboração de horários. E além disto cria problemas suplementares e desnecessários a quem entra na flexibilidade curricular, pois é preciso compatibilizar mais professores, num momento em que muitos ainda procuram assimilar as novas coordenadas curriculares e de gestão das suas aulas.
Na minha opinião seria melhor esperar que a flexibilidade curricular criasse raízes, entre professores e alunos, que algumas disciplinas se habituassem ao modelo semestral
(Geografia, História, TIC) e se incorporasse apenas uma nova disciplina – TIC.
GAVB

OS CUS DE JUDAS


O romance de António Lobo Antunes foca o tema da guerra colonial portuguesa e os traumas que ela deixou nos combatentes portugueses.
         Ao longo de todo o romance ressalta o sentimento de revolta perante uma guerra sem sentido, em defesa dum patriotismo balofo e dum regime que a maioria odiava de tão despótico que era.
         A voz do narrador é a voz do autor pois percebe-se que o protagonista é um soldado que foi mobilizado para Angola, exercendo também a função de médico, tal como o autor do romance.
         A narrativa demonstra também o absurdo da guerra colonial, pois percebe-se que os soldados não lutavam por uma causa, não entendiam porque estavam naquele fim do mundo (Os cus de Judas), não partilhavam a ideia de pátria serôdia do Dr. Salazar e seus apaniguados, não sentiam aquele território como seu, não sentiam nos africanos os seus inimigos … em suma, não percebiam por que tinham de matar e morrer por um ideal que não era o seu.
       
  Por outro lado, Os Cus de Judas retratam a dolorosa experiência da guerra colonial a partir da visão de um soldado português que alguns anos depois da guerra ter terminado, retoma as suas memórias sobre a guerra, relembrando factos, histórias, impressões, locais, pessoas e sobretudo sentimentos, aparentemente desconexos (como lhe vinham à memória). Essa recordação é notoriamente dolorosa e parece sempre tão real e tão próxima que ilustra de uma maneira fiel, os traumas que a guerra em África em cerca de um milhão de portugueses que combateram nas ex-colónias portuguesas.

O livro propõe uma reflexão sobre um tempo e uma guerra de guerrilha que marcou uma geração de portugueses, de uma forma indelével. E como o autor muito bem faz notar, a raiva que transparece no livro é também pelo não reconhecimento desses traumas por parte daquele Portugal que ficou a gozar a paz. António Lobo Antunes acentua muito essa ingratidão, esse olhar de lado, como se os combatentes em África fossem doentes mentais, a quem se tivesse de dar um desconto por algumas atitudes mais agressivas. 


O livro é a voz de muitos ex. combatentes que não entendem esse tratamento ingrato, de desprezo , por vezes humilhante a são votados pelos seus compatriotas quando estiveram a dar a vida por eles, numa guerra que nunca quiseram, e que os transtornou de modo irreversível.
         Por outro lado, o romance marca de forma categórica a revolta e muitas vezes o ódio do autor a Salazar e ao regime do Estado Novo, por lhes terem destruído muito mais que a juventude, a confiança de viver.
Gabriel Araújo

domingo, 20 de maio de 2018

OS PROFESSORES PERDERAM PESO POLÍTICO E IMPORTÂNCIA MEDIÁTICA





Alguns professores ficaram muito admirados pelo facto da comunicação social falada e escrita ter dado pouquíssima relevância à sua manifestação de protesto, de ontem, no centro de Lisboa. Foram cinquenta mil pessoas e ficaram reduzidos a dois minutos, no meio de um qualquer noticiário, como uma notícia banal entre a crise psiquiátrica do Sporting, o casamento de um príncipe inglês ou o rali de Portugal.

Há muitos que os professores tinham deixado de ser respeitados pelo poder político (ontem, só apareceu o comunista Jerónimo de Sousa, o que não deixa de ser elucidativo, e dos restantes partidos nem um referência) e agora são desprezado pelos media.
Percebo perfeitamente o desalento de quem fez uma viagem de 800 quilómetros e teve de gastar oito horas do seu fim-de-semana em viagens, para ouvir o discurso dos líderes sindicais, engrossar as fileiras dos manifestantes e perceber pouco depois o desprezo a que votam a sua luta, os seus direitos, as suas reivindicações.

Há uma clara sensação de impotência na luta dos professores (como de outras classes profissionais), porque as lógicas mediáticas destroem qualquer tentativa de pressão política. A comunicação social gosta de dizer que afronta o poder, que dá voz a quem não a tem, mas a verdade é que a maneira vampírica com que consome acontecimentos, lutas, denúncias acaba por fazer o jogo daqueles que acusa.
O mundo está em mudança. As velhas fórmulas de lutas sindicais, de pressão mediática ou de denúncia de crimes estão ultrapassadas, mas os problemas não.

         Os professores não devem desanimar, mas «apenas» reinventar outra forma de reivindicar, de fazer passar a mensagem, de conseguir os seus objetivos. Nos últimos tempos, vejo com agrado os professores a procurarem outras formas de luta. Foi assim a ILC (Iniciativa Legislativa de Cidadãos), com a luta dos professores contratados, com o concurso extraordinário de professores, já neste ano letivo. Procurando no sistema, maneiras de apanhar o rato na sua própria ratoeira.
       
  Provavelmente não teremos todo o sucesso pretendido, mas alguma coisa havemos de conseguir. O que precisamos é de não perder a coerência, nem a dignidade.
Nota: na manifestação de professores de ontem, vimos muita gente da velha guarda, de fora de Lisboa, a lutar pelos direitos de professores que parecem já ter desistido. É uma lição, mas impõe também uma reflexão. 
Trazer os professores mais novos para a luta não obrigará a uma mudança de modus operandi? Não estará na altura de renovar os quadros dirigentes dos sindicatos de professores, dando lugar aos mais novos? Fica mal acusar os políticos e fazer o mesmo.
GAVB

sexta-feira, 18 de maio de 2018

FOI CHATO, MAS O CRIME FAZ PARTE DO DIA-A-DIA



A frase é do inenarrável Bruno de Carvalho e só não sofreu a indignação geral, porque do ainda presidente do Sporting toda a indignidade e mediocridade é, infelizmente, expectável. No entanto, aquilo que Bruno de Carvalho teve a coragem de dizer foi aquilo que muitos tiveram a indecência, a canalhice de fazer, durante anos, ao povo português.
Vejamos então…


É «chato», é criminoso que os portugueses em geral, e os funcionários públicos em particular, tivessem de pagar com os seus salários, impostos e empregos a corrupção e os roubos nos BPN, BES, CGD, na EDP, na PT, mas o crime faz parte do dia-a-dia da política portuguesa, desde que vivemos em democracia.

É «chato», criminoso até que o governo tenha congelado as progressões na função pública e além disso se recuse a recolocar os seus trabalhadores no escalão remuneratório devido, invocando a falta de recursos financeiros, quando todas as semanas descobrimos que esta gente nos desfalcou durante os últimos vinte anos em negócios ruinosos, corruptos, criminosos. É chato, mas temos de aceitar que a o crime faz parte do dia-a-dia.

É «chato», criminoso igualmente que tantos hooligans do desporto ou do comentário desportivo, político ou económico se passeiem impunemente pelas televisões, jornais e rádios, insultando a nossa inteligência e dignidade enquanto sociedade, mas temos de aceitar que o crime faz parte do dia-a-dia.

Temos de aceitar a impotência do governo perante os incêndios e os criminosos que os ateiam; temos de aceitar que Salgado continue em casa e um jornalista tenha de lhe fazer todas as vénias entes de lhe fazer uma pergunta pouco incómoda; temos de aceitar a boçalidade de muitos programas de televisão; temos de aceitar uma carga fiscal brutal apesar de já não termos troika nem austeridade; temos de aceitar que… e nós aceitamos.

Na verdade, Bruno de Carvalho é só uma caricatura rasca do que andamos a aceitar há muitos anos. Felizmente para todos os outros, houve um maluco que resolveu vestir a pele de bode expiatório.  Quando daqui a uns dias ele for demitido ou se demitir, haverá um suspiro entre os tontos da nação e um riso pérfido entre os nossos carcereiros. 

Nenhum de nós vai rescindir este contrato de servo de gleba; aliás, renovaremos esta aceitação do crime por mais dez anos, porque, embora, «chato», o crime faz parte do dia-a-dia.
GAVB

quarta-feira, 16 de maio de 2018

BRASILEIROS EM FUGA PARA PORTUGAL



«Eu não sei onde Portugal vai colocar tanto brasileiro, porque é impressionante. Todos querem vir para cá.» Ângelo Horta, conselheiro permanente das comunidades portuguesas.
Não se trata apenas de jovens à procura do eldorado europeu através da porta portuguesa, mas igualmente gente de quarenta e cinquenta anos, completamente desencantada com um país «sem futuro», onde todos os presidenciáveis têm problemas graves com a justiça e o sentimento de insegurança é tão latente que parece que se tornou numa segunda pele.
Querem Portugal, em primeiro lugar, por causa da língua, mas também porque pensam que a vida no nosso país será mais fácil que noutro qualquer país europeu.
Portugal tem ainda lugar para todos aqueles que o procuram, embora seja hoje um país um pouco diferente da ideia clássica que o brasileiro faz do velho colonizador.

É um país seguro e talvez seja este um dos seus maiores trunfos, mas é já um país caro (sobretudo Lisboa, Porto e Algarve) para grande parte da classe média brasileira. O turismo colocou Portugal na moda e hoje comprar ou arrendar casa em Lisboa, Porto, Coimbra ou Aveiro é algo que não está ao alcance da esmagadora maioria dos portugueses e até de muitos europeus.
É preciso que quem pretende viver em Portugal perceba que o seu leque de escolha diminuiu, no que diz respeito à habitação, e ainda não é muito vasto no que diz respeito ao mercado de emprego.


Estamos a sair de uma traumática crise financeira e a recuperação de postos de trabalho ainda não foi totalmente alcançada. Por outro lado, ainda somos um país que procura defender a todo o transe os direitos mais elementares dos trabalhadores e por isso não é muito bem vista uma empregabilidade sem direitos.
Apesar destes óbices, Portugal é uma ótima escolha para os brasileiros, porque é uma excelente montra para outros voos, no continente europeu, e oferece uma excelente base de apoio para uma adaptação a uma nova cultura e estilo de vida, além de ser sempre um prazer ter entre nós um povo tão alegre, amigável e simpático como é o povo brasileiro.
GAVB  

terça-feira, 15 de maio de 2018

MAIS FUNÇÃO PÚBLICA OU MELHOR FUNÇÃO PÚBLICA? QUE QUER ANTÓNIO COSTA?




         Tentando jogar por antecipação, António Costa desculpa-se com a contratação de novos funcionários públicos (não será antes incorporação dos precários de décadas?) para conseguir esquivar-se à justa atualização salarial dos funcionários públicos, que perdem poder de compra há mais de uma década.
         “Vamos contratar, por isso não podemos aumentar!” é um velho e estafado truque do empresário português da velha guarda que acha que a economia se constrói com baixos salários. 

Era agora que António Costa devia ir buscar o modelo económico francês, alemão, belga, holandês, finlandês, suíço ou até espanhol e explicar ao povo a sua teoria económica para o desenvolvimento da nação. Mas Costa é só um «Xico-esperto» da política caseira, sem uma ponta de rasgo ou sentido de justiça.
         A função pública vai aumentar «poucochinho», para estagnar muitíssimo. Contratará mais médicos e enfermeiros e alguns auxiliares na educação e saúde ou polícias, porque «tem mesmo que ser», mas falhará na justiça salarial aos restantes funcionários.

E depois quer trabalhadores motivados! Terá apenas uma administração desalentada, sem ambição, cumprindo o ponto, porque há décadas que lhes faltam ao prometido. Quando há crise são os primeiros a pagar pelas más opções políticas dos governos, pelo dinheiro esbanjado em PPP e bancos falidos; quando a economia cresce, têm de esperar… até à próxima crise.
A quem interessa uma administração desmotivada, a ganhar mal, onde só estarão aqueles que não querem ir além de um salário mediozinho? Interessa a quem governa para clientelas e não tem rasgo para pagar o que é justo para exigir o máximo.
GAVB

segunda-feira, 14 de maio de 2018

ISRAEL TRANSFORMOU UM DIA GLORIOSO NUM DIA VERGONHOSO



Trump não teve coragem de ir a Israel, para as comemorações dos setenta anos do Estado Israel, apesar de ter sido dele a prenda que os ortodoxos israelitas mais desejavam: a deslocação da embaixada americana de Tel Aviv para Jerusalém, dando deste modo um fortíssimo sinal do que a administração Trump pensa do problema israelo-palestiniano.
E Netanyahu recebeu a filha do presidente dos EUA com aquilo que sabe fazer melhor: a chacina de mais de meia centena de palestinianos na Faixa de Gaza. 
Para o primeiro-ministro israelita, umas pedras provocatórias do lado palestiniano devem ter como respostas uma saraivada de balas, disparadas pelos seus melhores snipers, revelando mais uma vez o que pensa dos acordos anteriormente assinados pelos seus antecessores bem como as suas intenções de paz.

As pedras dos palestinianos, justamente indignados com a concretização da decisão de Donald Trump, não eram ameaça nenhuma à integridade do estado de Israel como Netanyahu teve lata de justificar.  

Israel sempre teve um comportamento de elefante na diplomacia internacional, mas as suas últimas atitudes e em especial a de ontem, estão muito para além da típica inflexibilidade dos conservadores israelitas; elas roçam a falta de respeito pelos apoiantes de Israel, pelos milhares de judeus que construíram a história de um povo milenar e atenta contra o próprio sentido de humanidade que um Estado de direito deve/tem possuir.
Um Estado não pode matar pessoas que atacam polícias com umas pedras, não pode atirar conscientemente sobre civis como quem atira num alvo por pura diversão. 
E fazer isso no dia nacional do Estado de Israel foi sujar a alma do povo israelita, que deve refletir naquilo em que se está a tornar.
GAVB