Etiquetas

terça-feira, 23 de janeiro de 2018

AQUELES QUE NINGUÉM QUER



Apesar de haver muitos casais que querem adotar crianças, cerca de metade das elegíveis ficam por adotar. A verdade é que há uma imensa maioria de crianças institucionalizadas que ninguém quer. Na maioria dos casos, a razão não se diz mas pressente-se: não corresponde aos padrões idealizados pelas famílias que querem adotar.
A adoção é um processo de empatia mútuo que se constrói lentamente e não é possível constranger ninguém a aceitar quem não quer, portanto, o melhor é pensar noutro instituto (que não a adoção) para as crianças institucionalizadas.

As instituições de acolhimento fazem o melhor que podem, mas podem pouco e delas não podemos esperar o amor que uma família pode dar. É verdade que as instituições estão pejadas de crianças difíceis  e cheias de problemas, mas temos de ser mental e culturalmente abertos a outras realidades.


Não sendo possível cativar famílias para adotar crianças mais velhas, talvez seja possível encontrar famílias que ajudem numa integração parcial das crianças institucionalizadas, na sociedade, ou seja, que assumam um compromisso intermédio de inserção.
É óbvio que esse processo de aproximação a uma realidade familiar pode fracassar e tem alguns contras, mas também é verdade que pode permitir que milhares de crianças institucionalizadas crescem de maneira mais saudável e harmónica.

Estas famílias de acolhimento temporário podiam evoluir para famílias definitivas e adotantes, mas não teriam obrigação de o fazer.
Esperar que a instituição dê tudo aquilo que um adolescente/jovem precisa é utópico; achar que uma família de acolhimento temporário redunda quase sempre em maior perda emocional futura é um preconceito. Precisamos de tentar novas fórmulas, porque há muitas crianças que ninguém quer e a quem o Estado dá uma resposta… pequenina.

GAVB

segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

SOLDADOS ATÉ JÁ PAGAM PARA SAIR DO EXÉRCITO


Longe vão os tempos em que fazer parte do exército português era uma honra e havia que escolher entre os vários candidatos. Desde que, há mais de duas décadas o serviço militar deixou de ser obrigatório, o número do efetivo militar tem reduzido assustadoramente. Grande causa? O exército paga muito mal… aos soldados e aos cabos, o que não quer dizer que Portugal gaste pouco com os militares!

As missões militares de manutenção de paz, em vários do globo, onde havia conflitos declarados, ainda conseguiam atrair financeiramente muitos jovens para o exército, mas terminada essa «oferta», o exército português apenas consegue oferecer pouco mais do que o ordenado mínimo a quem ingressa na vida militar. Muito pouco para quem está deslocado, longe da família, e pretende iniciar um projeto de vida sustentado e com algumas ambições materiais.

De tal forma a carreira militar é pouco atrativa que cerca de 500 cabos e soldados, por ano, decidem por fim à aventura militar. Não falamos aqui dos pilotos que foram seduzidos pelas grandes companhias aéreas ou dos médicos com uma oferta de trabalho dum hospital privado, mas de simples soldados que acham mais rentável devolver ao Estado o magro investimento que este fez na sua formação para tentarem outra carreira, mais perto de casa e melhor remunerada.

Esta situação ilustra bem o desprestígio a que chegou a carreira militar. Culpar o poder político é o mais fácil, mas talvez não seja o mais correto. 
Quem manda no exército, na marinha ou na aviação sempre se preocupou muito pouco em diminuir algumas regalias no topo da carreira para fortalecer as bases. Por outro lado, em vez de tornarem a carreira atrativa para quem começava, alargando o leque de regalias e benefícios, as chefias pareciam sempre mais preocupadas em patrocinar esquemas duvidosos de compra de material militar, bens e serviços, além de dar o aval a compras faraónicas de equipamento militar obsoleto, desnecessário e com manutenção caríssima.
O resultado está à vista. A juventude portuguesa até já paga para se «pirar» da vida militar.

GAVB 

domingo, 21 de janeiro de 2018

RESIDÊNCIA ALTERNADA - A MELHOR SOLUÇÃO PARA OS FILHOS DE PAIS DIVORCIADOS?


Quando um casal, com filhos menores, decide divorciar-se, aquilo que mais angustia todos os elementos da família que se desfaz é a regulação das responsabilidades parentais. 

Ninguém fica inteiramente satisfeito e muitas vezes é a criança quem mais perde. 
Até há dez anos era prática comum no nosso país a mãe ficar com o(a) filho(a) e o pai ficar a pagar uma pensão de alimentos, o que nem sempre acontecia. Com o passar do tempo, o filho ia perdendo a ligação parental e a relação entre eles não tinha o desenvolvimento harmonioso desejado.

Em 2008, registou-se importantes alterações legislativas no Direito da Família, que tonaram mais igualitário o papel dos pais. A maior consequência foi a substituição, em muitos casos, da residência exclusiva na casa da mãe, pela residência alternada em casa do pai e da mãe.

Durante muitos anos não concordei com esta solução, pois achava que isso transtornava em muito a vida da criança/adolescente, não o deixando criar rotinas, atrasando consolidação de amizades, fazendo-o sentir-se como um objeto indesejado, que ora o pai ora a mãe se “livram” à vez. 

No entanto, a observação de alguns casos concretos de sucesso desta fórmula de responsabilidade parental repartida modificou parcialmente a minha posição.
Em primeiro lugar, sempre defenderei que a responsabilidade parental deve ser repartida qualquer que seja a idade da criança/jovem. Se a criança tiver menos de 10 anos, acho que seria mais vantajoso para a criança ficar períodos mais longos com a mãe (se for esse o desejo real da criança… e só dela). No entanto, se esta já for adolescente, o regime da residência alternada pode ser o mais adequado.

O que mais custa a uma criança/adolescente é o conflito parental. Sofrem imenso com isso e detetam imediatamente quando estão a ser usadas como arma de arremesso. Não podendo refazer a família que perderam, mas poder viver harmoniosamente com os dois está entre as prioridade do adolescente, que assim mantém a comunicação aberta entre os pais e não tem de se decidir por nenhum deles.

Ao fixar residência definitiva num dos pais dá-se sempre a sensação de que houve um que ganhou e outro que perdeu. Uma criança/adolescente não quer isso!

Até 2005, esta solução nem admissível era face à Lei, mas na última década o número de casos em que os filhos de pais separados ficaram em residência alternada tem aumentado significativamente. Há três anos, uma investigadora do Instituto Superior de Ciências Socais da Universidade de Lisboa fez um estudo e concluiu que cerca de 50% dos inquiridos consideram a solução da residência alternada como a melhor, contra 22% que acha que a solução adequada é os filhos ficarem definitivamente com a mãe.
Como em todos os assuntos melindrosos e difíceis não há soluções milagrosas, mas a guarda partilhada é já uma realidade implementada com sucesso e a residência partilhada também o pode ser.
Muitas mães divorciadas sempre se queixaram do abandono, do esquecimento a que os filhos são votados pelos pais, após o divórcio. Em vez de acumular mágoas, talvez não fosse má ideia criar hábitos totais de responsabilidade parental partilhada. A residência partilhada é um desafio de crescimento para todos.

GAVB

sábado, 20 de janeiro de 2018

O DIA EM QUE A AMÉRICA SE ENCONTROU COM A HISTÓRIA E TEVE UM PRESIDENTE NEGRO


A História dos EUA está umbilicalmente ligada à luta dos negros pela igualdade de direitos face aos brancos. Essa luta, que também é a luta do ser humano contra um dos seus demónios mais persistentes, teve vários momentos importantes entre os quais está a eleição de Barack Obama em 2008.
A 20 de janeiro de 2009, Obama tornou-se oficialmente o primeiro negro a ocupar o cargo de Presidente dos EUA. A longa marcha dos negros americanos chegava ao fim, mas o desafio de Obama era outro: transformar em atos os bonitos discursos que marcaram a sua ascensão política. Ainda que não tenha desiludido, Obama não encantou, até porque o tempo era de lenta recuperação económica e a dura realidade dos números não permitia heroísmos de outros célebres presidentes.
Recupero hoje parte do seu discurso, porque a América que elegeu Trump precisa de o ouvir outra vez.

«Ao reafirmar a grandeza da nossa nação, compreendemos que sua grandeza nunca é um dado adquirido. Ela tem de ser conquistada. O nosso percurso nunca foi de atalhos nem de nos contentarmos com pouco. Não foi o percurso dos timoratos – dos que preferem o ócio ao trabalho ou procuram apenas os prazeres dos bens materiais e da fama. […]

Porque sabemos que o nosso legado heterogéneo é uma força, não uma fraqueza. Somos uma nação de cristãos e muçulmanos, judeus e hindus – e não de crentes. Fomos moldados por todas as línguas e culturas, trazidos de todos os cantos desta terra; …»

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

ANGOLA CONTINUA NO CAMINHO ERRADO – GASTA MAIS COM MILITARES DO QUE COM HOSPITAIS


Eis a minha primeira grande desilusão com o Presidente de Angola: a aprovação do Orçamento de Estado para 2018, feita sem votos contra (!!!!), onde se promete gastar com os salários dos militares 1330 milhões de euros enquanto todas a verbas referentes ao setor da saúde não chegarão aos 800 milhões de euros.
O Orçamento de Estado é a confissão pública das verdadeiras intenções de quem manda num país. Ao dizer onde e como vai gastar os recursos disponíveis, cada governo e/ou presidência de um país assume o que pretende para o seu país, independentemente do palavreado da propaganda.


Este OE de Angola é, pois, uma desilusão completa. João Lourenço pode dizer que afastou os filhos do ex-presidente da órbita do poder, mas não afastou o pior dos cancros do regime: a dependência dos militares.
Angola não precisa mais dos militares nem tem para com eles nenhuma dívida de gratidão, antes pelo contrário. O que Angola precisa é de hospitais, escolas, saneamento básico, professores, médicos, engenheiros… profissionais qualificados em todas as áreas, de maneira a reduzir drasticamente o preços dos bens e serviços prestados, pois só assim maior número de pessoas pode ter acesso a eles.


Atualmente, Angola estoura dinheiro com os militares e paga dívidas. O resto são migalhas e migalhas é tudo o que não interesse a um povo ávido de justiça, de paz e “pão”, que é como quem diz “um plano sustentado e realista de crescimento económico, onde todos possam participar e beneficiar”.
Mais do mesmo irá conduzir, inevitavelmente, a resultados semelhantes. E isso não interessa mesmo nada aos angolanos.

GAVB

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

TRABALHAMOS E PAGAMOS OS NOSSOS IMPOSTOS. NÃO MERECÍAMOS ISTO.


A frase é de um salvadorenho que sintetiza de uma maneira muito eficaz o sentimento de injustiça, desilusão, tristeza que invade os seus compatriotas a residir nos EUA, depois de ficarem a saber que terão de abandonar o território que lhes dá proteção especial há mais de vinte anos, em virtude de mais uma louca decisão de Donald Trump, ele sim, um presidente de m**da.
Os salvadorenhos são um povo desafortunado, por via dos terramotos e da guerra civil que atiraram para a América das oportunidades e da solidariedade milhares e milhares de homens e mulheres de El Salvador, nas últimas duas décadas. Trump não vê neles pessoas, apenas gente pobre que não renderá dinheiro à sua noção maquiavélica de “interesses da América”.

Ao refletir na frase do salvadorenho Bernardino Claros, não posso deixar de pensar que ela tem uma aplicação bem mais ampla que a situação concreta a que se refere. Em Portugal, como no Brasil,  em França ou na Argentina há milhões de pessoas que podiam ter este desabafo desencantado. Concentro-me no meu país, nos flagelos que o têm assolado nos últimos meses e na impreparação dos dirigentes para nos porem a salvo deles; relaciono esse infortúnio e incapacidade com os conhecidos casos de corrupção e má gestão da coisa pública e chego à mesma conclusão do salvadorenho: não merecíamos isto. 

Não apenas porque pagamos impostos e trabalhamos de uma maneira honesta e decente, mas também porque nunca tivemos o retorno do investimento que fizemos no nosso país. 
Muitos de nós deram ao seu país o melhor do seu esforço, do seu conhecimento, do seu trabalho, da sua luta e da sua ambição, com total lealdade e comprometimento, obtendo em troca uma mão cheia de nada e outra repleta de dívidas.
Não merecíamos isto, mas foi isto que tivemos, é isto que temos.

GAVB

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

NULIDADE DO CASAMENTO CATÓLICO É SÓ UM EUFEMISMO DO DIVÓRCIO


Parece que os cristãos estão a perder o medo de dizer, por atos, o que pensam do casamento, do divórcio e do modo como a Igreja deve encarar as relações entre as pessoas.

Desde que o Papa Francisco deu ordem para a flexibilização da nulidade dos casamentos católicos, o número tem aumentado de ano para ano, de forma consistente. E continuará a aumentar.
As condições para obter a nulidade são conhecidas da generalidade das pessoas (não consumação física do casamento, incapacidade psíquica para consentir, violência ou medo…), o que mudou foi o modo de fazer a prova. Agora também é admissível a prova testemunhal, o que facilita bastante a aprovação do pedido.

A Igreja pode invocar os argumentos que quiser, dizer que não há divórcio nem anulação do casamento, mas antes que «o casamento não foi válido», que o resultado será sempre o mesmo: duas pessoas que estavam casadas pela Igreja deixam de o estar e podem contrair novamente matrimónio católico.

Era bem melhor que a Igreja se deixasse de eufemismos e assumisse que o casamento católico pode acabar como o civil, quando ambas as pessoas deixam de se amar. Invocar impotência de uma das partes ou deficiência psíquica ou até coação psicológica de um dos cônjuges sobre o outro quando a relação durou anos é tentar desfazer uma mentira com outra mentira.
Então essa pessoa que não consumou um casamento durante anos, daqui a uns meses já está capaz de consumar novo casamento com outra(o) mulher ou homem? E, se houve coação ou ameaça, como pôde ela durar tantos anos? Como não pensar que ela pode suceder novamente?

Claro que o divórcio é a derrota do casamento, mas apenas para «aquele» casamento e não para a instituição do casamento. Os católicos continuam a acreditar no casamento e por isso sempre desejaram esta flexibilidade da Igreja, que agora chega, ainda que envergonhadamente, o que é pena.
Quando um cristão pede a anulação do seu casamento católico está antes de mais a dizer que não quer viver uma mentira. Quem dirige a Igreja deve perceber a mensagem que os fiéis transmitem em cada época, porque só assim a Igreja Católica pode ser uma Igreja viva e participada.

GAVB