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quarta-feira, 20 de setembro de 2017

O FIM DO IMPÉRIO MUGHAL


Há precisamente 160 anos, a 20 de Setembro de 1857, o xá Bahadur Shah Zafar (1775-1862) rendia-se às autoridades inglesas, na Índia, e punha assim fim ao Império Mughal. 

Durante esse ano de 1857 rebeldes indianos puseram em questão o poder inglês no território indiano e o rei de Deli tornara-se numa figura icónica para os rebeldes.
A sua rendição pôs termo à denominada Revolta Indiana e, mais do que isso, ao Império Mughal. O velho xá «reinava» sobre um pequeno território pobre e pequeno, constituído apenas pelo Forte Vermelho de Deli, mas era um homem muito respeitado e extramente culto. Poeta e calígrafo, o último rei da dinastia Mughal formou na corte um centro de saber e literatura urdu.

Infelizmente os acontecimentos políticos e a falta de grandeza e nobreza de quem representava o poder inglês na Índia não permitiram um fim digno ao rei de Deli. O capitão William Hodson tornou ignóbil o ato da rendição de Bahadur Shah Zafar, depois de anteriormente já ter mandado fuzilar os filhos do xá.
O último rei da dinastia Mughal foi julgado, condenado e exilado na Birmânia, acabando por morrer numa prisão de Rangum. No entanto, tornou-se numa fonte de inspiração para os futuros nacionalistas indianos que viam em Bahadur Shah ZZafar um exemplo da revolta pacífica e digna contra a arrogância e prepotência inglesa na Índia.
A postura do rei de Deli é um exemplo também para os líderes políticos atuais, que apenas conhecem o exemplo da ameaça, do exercício despudorado da força, da chantagem económica e militar como formas de se imporem. Nada mais errado.

GAVB

terça-feira, 19 de setembro de 2017

TODA A GENTE QUER RESIDIR EM PORTUGAL. POR QUE RAZÃO SERÁ?




Quatro mil pedidos de visto em apenas uma semana! Se não é recorde mundial, deve andar lá perto! Não é um fenómeno do Entroncamento, mas do Portugal que escancara as portas a quem quer residir no país, sem critério nem cuidado. Agora já nem é preciso pagar (vistos gold), nem ser um reformado rico e conhecido (ao estilo Madonna ou Cantona), porque o governo do Partido Socialista, em consonância com os partidos do arco da geringonça, aprovou uma lei em que exige ao estrangeiro, para a obtenção de visto de residência em Portugal, a barbaridade de uma “promessa de contrato de trabalho” e a inscrição na Segurança Social. Desde já declaro que estou disponível para prometer trabalho a quem quiser, desde que seja estrangeiro, e a preencher o boletim da segurança social a todo o ucraniano, russo, nepalês, birmanês, indiano, brasileiro, cabo-verdiano… que pretenda viver em Portugal. A comissão é barata!

A legislação que entrou em vigor, ao arrepio de mais elementar bom senso e da discordância dos SEF (Serviços de Estrangeiros e Fronteiras), é uma tremenda irresponsabilidade, especialmente numa altura em que a Europa regista a média de um atentado terrorista de 10 em 10 semanas.
Ainda hoje, uma amiga estrangeira manifestava-me a sua estranheza por este franquear de portas do governo português e brincava, dizendo que qualquer dia os marcianos também pediam visto de residência em Portugal.
Neste momento o que mais me preocupa é a segurança, mas isto trará também problemas sociais e económicos. São pessoas provenientes de culturas muito diversas que chegam, sem qualquer enquadramento e que só por muita sorte não arranjarão problemas. Por outro lado, o governo mantém a intenção de não cobrar IRS aos reformados estrangeiros, pensando que os investimentos que farão em Portugal acabarão por cobrir a arriscada aposta.
Dando de barato que o tiro não sairá pela culatra, subsiste a gritante questão de injustiça social e fiscal. Então um reformado português, com uma reforma de 4000 euros tem de deixar na fonte mais de mil euros e um reformado sueco pode não pagar nada?
O que convém as pensionistas portuguesas não é o aumento das reformas, mas apenas tornarem-se estrangeiros.

GAVB

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

POR QUE NÃO SE FALA DA MUNICIPALIZAÇÃO DA EDUCAÇÃO NO DEBATE AUTÁRQUICO?



A Municipalização da Educação, em Portugal, está em marcha. Silenciosamente vai concretizar-se, em quase todas as vertentes, exceto na dos professores, até ver… Há projetos-piloto em curso, espalhado pelo país, e creio que a flexibilização curricular é também uma peça do puzzle.
Daqui a um ou dois anos, é possível que as autarquias assumam um papel importante nas escolas portuguesas, mas o tema da Educação está fora da agenda do debate político autárquico. Porquê? Porque queima e poucos se querem comprometer com aquilo que farão. Dir-me-ão que a tutela ainda não definiu os termos da passagem de testemunho, é verdade, mas é claro que a transferência para as autarquias da parte patrimonial, de conservação e dos auxiliares de ação educativa é uma ideia assumida (ainda que envergonhadamente) pelo Partido Socialista.

Nas últimas semanas, os candidatos às autarquias desdobram-se em ideias, projetos, promessas, mas ainda não vi ou ouvi nenhum explicar que projetos tem para as escolas degradas do seu concelho, como pretende fazer a gestão dos recursos humanos escolares. Os diretores escolares sempre se queixaram ao Ministério da Educação da falta de funcionários para as escolas e agora que eles estão prestes a passar para as Câmaras Municipais, ninguém pergunta aos candidatos o que farão no futuro? Aumentarão o número de auxiliares, como reclamam as escolas e as populações ou manterão tudo igual? Há Câmaras que se gabam (e com razão) dos vários projetos co-financiados pela União Europeia que conseguiram pôr em marcha, mas vejo poucos, de grande envergadura, sobre Educação. Bolsas de estudo, ATL´s gratuitos, salas de estudo são boas ideias, mas ações em pequena escala.
Nas próximas eleições autárquicas há muitos professores envolvidos e também por isso esperava que o tema da Educação estivesse muito mais no centro do debate, mas não está!

Em Portugal, gosta-se muito de dar o exemplo do estrangeiro… quando isso convém, por isso era bom atentar em alguns projetos de fôlego que diversas edilidades europeias promovem. 
Algumas sugestões: autarquias com forte envolvente florestal ou fluvial podiam patrocinar projetos de aproveitamento energético das florestas ou das águas; quem tem tradição histórica nas artes podia propor, nos Conselhos Gerais das Escolas, a criação de uma turma por ano, paga através da autarquia, dedicada à música ou à pintura ou ao teatro, sempre numa perspectiva de continuidade e de qualidade. O preço destas iniciativas é mais ou menos conhecido, é suportável e diria que não fica muito longe daquilo que se gasta em foguetório inútil ou propaganda eleitoral em outdoors.
GAVB 

domingo, 17 de setembro de 2017

OS TERRAMOTOS TAMBÉM SE APRENDEM

Há dez dias, o México voltou a ser sacudido por um sismo violentíssimo – 8,2 na escala de Richter. O normal seria estarmos ainda hoje a contabilizar as vítimas mortais, provavelmente na casa dos milhares ou dezenas de milhares, dada a densidade populacional do México e a violência do terramoto.
No entanto, as vítimas não chegaram à centena, ou seja, mil vezes menos do que aconteceu há três décadas (1985), quando um abalo semelhante provocou a morte de mais de cem mil pessoas.


Isto prova bem que os mexicanos aprenderam como agir em caso de terramoto. Normas de construção antissísmicas rígidas e cumpridas; uma população educada e instruída, que sabe o que fazer em caso de catástrofe e avisos sonoros eficazes, por parte das autoridades, alertando a população para a forte possibilidade de sismo, ditaram milhares de vidas salvas.
Quando todos fazem o seu papel, o azar tem menos hipóteses e nem é preciso ser japonês ou do norte da Europa, para saber como se faz. Os latinos também sabem ser assertivos!

GAVB

sábado, 16 de setembro de 2017

O MINISTRO DA EDUCAÇÃO ESTÁ A PRECISAR DE UMA PERMUTA


Inábil, sonso, injusto… não sei que adjetivo escolher para caracterizar o Ministro da Educação. Nos últimos meses, só temos somado desilusões com as ações e as atitudes de Tiago Brandão Rodrigues. A maneira como geriu a colocação dos professores efetivos, em especial aqueles que tentaram, em vão, a mobilidade interna, revela bem quão impreparado é o jovem ministro de António Costa.

O ministro e o primeiro-ministro perceberam claramente que meteram o pé na poça na questão da colocação de professores do quadro de zona de pedagógica, ao não fazerem sair todos os horários a que estes professores podiam concorrer, ao mesmo tempo, criando gritantes injustiças entre professores. Tal como aconteceu na questão dos alunos que acederam ao exame de Português antes dos outros, o ministro não sabia o que fazer para sanar o erro e por isso achou que se deixasse passar o tempo o problema resolvia-se. E resolveu-se... com prejuízo para milhares de professores! Que terá prometido António Costa no fim-de semana passado aos professores em Matosinhos? Que ia dar uma palavrinha a Tiago Brandão Rodrigues? Ele obviamente não sabia descalçar a bota e saiu-se com duas tiradas absurdas e quase a raiaram o insulto. 

Sugerir aos professores, que se sentem injustiçados, que sempre podem fazer uma permuta é “gozar” com eles. Então os professores que ficaram longe vão pedir permuta aos colegas que ficaram com o seu lugar e agora estão satisfeitinhos da vida? Imagine Tiago Brandão Rodrigues que amanhã, por qualquer lapso informático ou decisão desvairada do primeiro-ministro, é colocado como diretor regional de educação em Beja. Como solução para recuperar o seu posto, o líder do governo dá-lhe como hipótese uma permuta com qualquer ministro, desde que este queira, ou então sempre pode esperar um ano e fazer novas provas para Secretário de Estado ou Ministro do Ambiente.
Tiago Brandão Rodrigues já deu provas suficientes que não tem qualidades suficientes para o cargo. E nem se pode queixar de má imprensa ou ataque cerrado dos partidos da oposição.

GAVB 

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

“EU CONSIGO LIDAR COM AS EMOÇÕES; O QUE EU NÃO AGUENTO SÃO OS FACTOS...”

                                                  
   João Tordo, O Deslumbre de Cecília Fluss

        

 Em O Deslumbre de Cecília Fluss assiste-se a um jogo pautado por vários níveis ainda que de forma muito subtil, com o leitor a ser, por sua vez, lembrado da sua condição, através de um narrador que também o interpela, que lhe lembra que é ele o destinatário de uma narrativa construída para o indagar acerca da mortalidade e da condição humana, conjugando-se para isso o racional e a fantasia, sem que a fronteira entre um e outra esteja latente. 
         Através das personagens do enredo explora-se a temática da solidão como ponto de chegada, a evolução e decadência da condição humana, o amor como ponte entre o prazer e a dor emocional. Assim, João Tordo pega na morte como catarse para regressar ao início, a Matias, um miúdo que é a transmutação dos narradores dos seus livros. Ele acaba por se tornar um homem, sempre muito ansioso e com vontade de paz, algo que não consegue alcançar, como quase toda a Humanidade aliás.
        
 O verdadeiro suspense em O Deslumbre de Cecília Fluss não está na resolução de um enigma, mas no labirinto de emoções, crenças, sonhos e pesadelos de personagens bizarras que servem para discorrer sobre a morte, o medo, a doença, a angústia, a religião, a mitologia e o sofrimento enquanto potência de vida numa teia que obedece a um único princípio: seguir um homem — com letra minúscula ou maiúscula — em dor. 
         À medida que ia lendo O deslumbre de Cecilia Fluss, fiquei com a sensação que o autor podia continuar a escrever esta estória para sempre porque, na verdade, nada acaba. Ela, de facto, situa-se em lugar nenhum, mas em todos os sítios simultaneamente. A busca não tem fim e a luta, a vida, ou o que se assemelha a ela, continuam. Há lições importantes para todas as personagens, mas sobretudo para o leitor. De uma forma muito geral fala-se de adolescência, amizade, amor, perda, medo, solidão e demência. Mas isso são apenas os meios de transporte utilizados para falar da vida e da condição humana - de que é que somos feitos? O que é que nos magoa (e porquê)? O que é que procuramos? Esta obra é portanto um convite à auto-análise, à reflexão sobre o sentido das coisas e ao apaziguamento do sofrimento que nunca parece terminar. 
         Com este romance partilhei a dor e a tentativa de fuga da realidade com Matias, a solidão e o desapego com Elias, a insatisfação e a desilusão com a Cecília e um pouco de loucura com todos eles. 

Rafaela Leite

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

ENFERMEIROS: EMANCIPAÇÃO E REVOLTA


Nunca como esta semana Portugal assistiu a uma greve tão acirrada dos enfermeiros portugueses. Os enfermeiros sentem-se (e com razão) desconsiderados, injustiçados, por vezes humilhados, maltratados, muito mal pagos.

Os enfermeiros têm razão? Sim, em quase tudo o que reivindicam. Há anos que são enganados, com falinhas mansas, pelos sucessivos governos, que lhes prometem um estatuto e uma carreira remuneratória condizente com as suas qualificações académicas e profissionais e nunca cumpriram. Por isso, não os devemos chantagear com as operações que ficam por fazer ou atirar-lhes à cara o oportunismo político do momento da greve. 


Os políticos apenas entendem a linguagem eleitoral e por isso é justo que colham as tempestades que semearam; quanto aos médicos não têm moral para falar dos aborrecimentos causados aos doentes pela greve dos enfermeiros, quando eles já causaram tanto ou mais dano à saúde dos portugueses com as suas greves gerais e chantagens. Fica-lhes muito mal colocarem-se subtil e oportunisticamente ao lado da tutela nesta greve dos enfermeiros, ao lamentarem as operações que ficam por fazer, porque não atendem às justas razões dos colegas de trabalho e mostram o que verdadeiramente pensam do trabalho e importância dos enfermeiros. Abriram-se feridas desnecessárias e algumas vão demorar a cicatrizar.

O pior do ministro da saúde foi o modo deselegante como lidou com os enfermeiros. Podia dizer-lhes que não podia aumentá-los sem o visto do ministro das finanças, que não tinha dinheiro para tal, que só seriam aumentados quando a função pública o fosse na globalidade, mas preferiu humilhá-los, ao começar por não os receber e depois, quando a greve avançou e tomou as proporções que hoje se conhecem, ao considerar a greve ilegal, por não ter respeitado os prazos e as formalidades exigidas. Um ministro trata de política não de formalismo legais! O que queremos saber do ministro é como ele resolve o problema social e profissional dos enfermeiros. E nisso ele mostrou-se inábil, arrogante e desastrado.
A melhor resposta que o ministro e os médicos tiveram às suas atitudes perante esta greve dos enfermeiros foi o silêncio compreensivo da generalidade dos utentes do serviço nacional de saúde. Eles sabem melhor do que ninguém que os enfermeiros portugueses sempre deram o melhor de si ao país, que muitos tiveram de emigrar contra vontade, apesar de haver trabalho em Portugal, que  estes profissionais de saúde ganham mal para o trabalho realizado.
Agora que os enfermeiros se afirmaram e emanciparam, o passo seguinte é discutir a distribuição do dinheiro que o país aloca à saúde. Não se paga de mais aos médicos e de menos aos enfermeiros?

GAVB